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Engodos sobre o Celibato Clerical




Alexandre Martins, cm.


É frequente, infelizmente, os “estudos sérios de História” (sic) que são postados em páginas na Rede. Muitos pseudo-historiadores e mesmo historiadores – de boa ou má fé – publicam um sem-número de “pesquisas” sobre assuntos variados e, pior, são lidos por estudantes ou curiosos que não verificam o embasamento daquilo que é escrito pois acreditam naquilo o que “disse o professor”. E há ainda o caso de que alguns acreditam mais porque dão apoio a seu pensamento pessoal do que ser verdade. Outros são historiadores que incorrem no que se chama "revisionismo histórico".

Cumpre uma leitura correta do chamado “fato histórico”, incluindo sua mentalidade de época, situação, enredo, etc. Se bem que a classificação de algo como Fato Histórico se deve a ver naquele acontecimento algo que explica o Mundo em questão. Mas analisar um fato de época com o pensamento contemporâneo é o mesmo que julgar a Expansão Marítma européia do século XV pela ótica do Greenpeace. Por exemplo, os que elogiaram a tomada do poder pelos militares brasileiros na década de 1960 são os mesmos que agora discursam contra a sua Ditadura a uma platéia que nem havia nascido e vivido a época. Os ouvintes atuais não conseguem entender que talvez, à época. poderia ser a única atitude a ser tomada contra um Estado fraco perante uma Sociedade conturbada. É nisto que reside o estudo histórico adequado: em avaliar o momento e não deixar se influenciar pelo pensamento e necessidades atuais.

A Igreja não avalia o momento pelo momento, mas dá resposta para ele de acordo com o Evangelho e a Tradição dos Apóstolos e seus sucessores. A História dos Concílios da Igreja é um bom exemplo de como através dos séculos, sociedades e pensamentos mutáveis e mundanos o Cristianismo soube manter firme a mensagem do Salvador para as gerações de homens de milênios depois.

Li uma postagem que serviu para uma rápida digressão e correção sobre o assunto Celibato num sítio que é justamente “Saiba História”. Segue o texto original:



Nesses tempos em que muito se discute o celibato entre os padres. Leiam alguns trechos do artigo do escritor Tomás Eloy Martinez, publicado no jornal La Nacion de 09/05/2009 e deixem aqui os seus comentários.
    1. A maioria dos católicos ignora que aos sacerdotes e bispos não era proibido o matrimônio durante os primeiros dez séculos da vida cristã. Além de São Pedro, outros seis papas viveram em matrimônio. Até o Concilio de Elvira, que o proibiu no ano 306, um sacerdote podia inclusive dormir com sua esposa na noite anterior a celebrar a missa. Isso começou a mudar dezenove anos mais tarde, quando o Concilio de Nicea estabeleceu que, uma vez ordenados, os sacerdotes não podiam mais casar-se.
    2. Em 1073, Gregorio VII impôs o celibato. Definiu-se que o matrimônio dos sacerdotes era herético, porque os distraía do serviço ao Senhor e contrariava o exemplo de Cristo. Dezenas de historiadores supõem que a decisão de impor o celibato foi também um meio para evitar que os bens dos bispos e sacerdotes casados fossem herdados por seus filhos e viúvas em vez de beneficiar à Igreja. Em 1123 o Concilio de Letrán decretou a invalidade do matrimônio dos clérigos e, dezesseis anos mais tarde, o segundo Concilio de Letrán confirmou.
    3. Quando o Concilio de Trento fixou a excelência do celibato sobre o matrimônio, fez doutrina das palavras com que São Gregorio Magno havia condenado o desejo sexual durante seu papado, no século VI. Só a Igreja Oriental adjunta a Roma, admite sacerdotes casados, mas deve haver contraído matrimônio antes da ordenação e nunca chegarão a bispos.

postado por Prof. Adinalzir às 21h03min de 16/05/2009 em http://saibahistoria.blogspot.com/2009/05/o-celibato-na-igreja-catolica-comecou.html. Acesso em 9/7/2011

Adinalzir Pereira Lamego é professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, desde 1994, com licenciatura em História pela FEUC e pós-graduação em História do Brasil pela Universidade Federal Fluminense, sócio e pesquisador do NOPH - Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz, com alguns artigos publicados em revistas e jornais especializados.


Conforme pedido pelo próprio professor, postei meu comentário, que é o que segue:


Caro Professor, infelizmente só li seu artigo tempos depois e é necessária alguma correção:

* - Tomás Eloy Martinez* era um escritor de ficção. Ele não era historiador, mas jornalista.

1 - O Concílio de Elvira, Espanha, foi uma reunião de Bispos locais e não tinha caráter mundial. No seu Cãnon 33 instava que os Bispos deveriam ser continentes (abstinentes sexuais) com suas esposas e não celibatários, como se poderia apreender do texto. No Concílio da África em 390 também se afirmava que “a castidade dos sacerdotes e levitas deve ser protegida”. As leis de Nicéia (atual Turquia) foram para minimizar o contato com as práticas pagãs e preservar a ortodoxia do Evangelho e não uma “castração de seres humanos” o que, num dos cânones, o primeiro, diz “Cânon I - Eunucos podem ser recebidos entre os clérigos, mas não serão aceitos aqueles que se castram.”. Lembremos que os Concílios são reuniões de clérigos de várias partes do Mundo e que os assuntos são debatidos democraticamente, com argumentos e contra-argumentos para chegar a um consenso da maioria. O que o Papa faz é somente assinar embaixo;

2 – como se viu acima, não foi Gregório VII (1073-1085) quem impôs o celibato, como se fosse um agente nazista, mas apenas lutou por ele. Gregório (Hildebrando) VII não era sacerdote, mas monge beneditino. Foi eleito Papa pelo Povo e não pelos Cardeais. Foi no o Concílio de Calcedónia (451) que se proibiu o casamento de monges e virgens consagradas (XVI cânon), impondo por isso o celibato ao Clero regular. No Brasil não se pronuncia “Letrán” mas “Latrão”. É o nome do Palácio de Latrão, construído por Marco Aurélio em 161. Os objetivos do concílio eram diversos, mas principalmente acabar com a prática de conferir benefícios para pessoas leigas, eliminar a influência secular nas eleições de bispos e abades, separar claramente os assuntos espirituais dos temporais, restabelecer o princípio de que a autoridade sobre os assuntos espirituais reside unicamente na Igreja e, finalmente, abolir completamente a influência dos imperadores nas eleições papais. No 2º de Latrão (Cânones 6, 7 e 11) repetiram a condenação do 1º de Latrão sobre o casamento e o concubinato entre padres, diáconos, subdiáconos, monges e freiras. Ou seja, deram moralidade ao Clero.

3 – Não se conhece nenhum escrito de s. Gregório Magno condenando o desejo sexual. Talvez o jornalista se refira que foi ele quem relacionou os Pecados Capitais como lemos hoje. Mas o “pecar contra a Castidade” (a Luxúria) não provém dele, mas dos Mandamentos da Lei de Deus. A citada “Igreja Oriental” é a mesma que se autodenomina “Ortodoxa”? Se for, não é “adjunta” a Roma, pois não aceita o Papado. O Concílio de Trulano (692) definiu as regras que até hoje a governam neste assunto, mas foram retirados do citado Concílio da África, de 419.

"As palavras concernentes ao celibato por amor do Reino dos Céus estão relacionadas com a explicação que Cristo deu aos Apóstolos: 'Nem todos entendem esta linguagem, mas, sim, aqueles a quem isto foi concedido' (Mt 19, 12). Neste contexto do Evangelho o celibato é dom para a pessoa e nesta, e graças a esta, é dom para a Igreja.” - João Paulo II

um abraço.

Alexandre Martins.
em 9/7/2011




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* - Tomás Eloy Martínez (1934 - 2010)  foi um jornalista e escritor argentino. Formou-se em literatura espanhola e latino-americana na Universidad Nacional de Tucumán.

Posturas no século XXI



Alexandre Martins, cm.



Vemos em fotos antigas a postura de congregados marianos de paletó e gravata, trajando suas fitas e com postura adequada, até galante, erguendo as bandeiras das CCMM.

Muitos podem achar que é apenas uma compostura dos chamados “anos dourados” e que nada teria a ver com a denominada “juventude descolada” dos tempos atuais. Hoje, diriam eles, os jovens são bem sem-cerimônia.

Ocorre que estamos há mais de 40 anos da Revolução da Contracultura ocorrida em 1968. Na época, jovens da Universidade de Sorbonne, na França, fizeram manifestações para reivindicar a contestação de uma Sociedade e de um sistema social que achavam injusto com os menos favorecidos. Era contestar aquilo que estava “imóvel” por décadas e mesmo séculos. Os “símbolos do conservadorismo” começaram a sumir, como a gravata nos homens e o sutiã nas mulheres. Os cabelos, antes bem penteados e com fixador, foram deixados crescer até o meio das costas e as barbas sem penteio. As festas jovens eram regadas a muita bebida e confusão, sendo usadas drogas das mais variadas, sob o pretexto de “abrir os horizontes da mente”. Era moda que em uma bolsa feminina existisse um tablete de contraceptivos (mesmo que não fosse ser usado).

Mas o lema “é proibido proibir”, usado em profusão desde aquela época, está sendo colocado em cheque mesmo por jovens contemporâneos. São filhos e até netos daqueles jovens de cabelo liso e calça de veludo cotelê, de vestidos de tergal e sapatinhos de lacinho... Um mundo que não existe mais há décadas.

Publicações especializadas vem frequentemente com manchetes e artigos dizendo que os jovens estão governando os pais ou aqueles a quem deveriam obedecer ou se espelhar. Uma falácia que não corresponde a uma realidade a não ser aquela realidade formada pela cabeça e visão de publicitários em escritórios de ar-condicionado gelado, tomando café de sachê e vendo o mundo pela tela de seus tablets e ou pelos programas da televisão por assinatura.

Mas como isso pode afetar as Congregações Marianas brasileiras? Por exemplo, de uma forma bem peculiar: estamos tratando os jovens do início do século XXI como os pais ou mesmo os avós deles! 

Os jovens do ano 2000 são mais cibernéticos do que os do passado. Os que tem seus quinze, vinte anos nos anos 2010 nasceram na década de 1990 e tiveram sua juventude nos anos 2000. Internet, celulares e inflação baixa são característicos. Muitos não sabem nem o que é uma ditadura. Missa ? Só se for com violão e guitarra. Roupas? Muito jeans e camiseta de algodão com cores fortes. Nenhum deles jamais viu uma missa em latim ou canto polifônico. Daí o interesse que muitos jovens tem em coisas “novas”, ou melhor, em coisas “que lhes parecem novas”. 

Atualmente há muitas jovens de 17 anos que vão à missa de véu. Criou-se até um pequeno movimento na internet sobre o assunto, dando as provas reais da confirmação bíblica do uso do acessório e de uma adaptação ao meio atual. Há rapazes que querem pertencer a grupos que usem paletó e gravata “ao menos de vez em quando”. E sem falar de dois casos característicos - e brasileiros - que são a Toca de Assis e os Arautos do Evangelho. 

O primeiro, “ousa” vestir seus membros com roupas parecidas com aquelas que a tradição popular diz que Francisco trajava. E estes “audaciosos” usam dela frequentemente, em uma época onde os religiosos ainda estão influenciados por uma doutrina pós-conciliar - que esta fora de moda - como o uso de roupa secular ao invés do habito. Os membros dos Arautos são mais audaciosos: vestem-se como soldados medievais. E o que mais espanta a um observador descuidado é justamente que são duas organizações com o maior numero de jovens! 

Será que o jovem do seculo XXI esta sendo reacionário e querendo voltar para a idade media? Primeiro, é necessário entender o que é “novo”, “antigo”, “tradicional” e “antiquado”. 

Por “novo”, como a própria palavra afirma, é algo “inédito”. Se lermos a Sagrada Escritura veremos que “nada há de novo embaixo do Sol” (Ecl 1,9). Então, nada que possa o Homem fazer, necessitar ou desenvolver em sua vida pessoal será inédito. Sempre haverá usura, paixões, violência, enganos, traições e também amor correspondido, seguimentos cegos, aspirações sublimes.. Se há “novos movimentos” mesmo em famílias como os Franciscanos (o caso da Toca de Assis) é porque no passado houveram renovações para retornar ao espírito original do Poverello, como os Capuchinhos e outros. Tudo se repete.

Antigo” é algo que “é tão bom que pode se manter enquanto outros acabaram”. Diz um provérbio popular que “só o que é bom permanece para ser chamado de antigo”. Então, os prédios que foram feitos com cuidado e técnica adequada são os que resistiram à ação do tempo e são vistos até hoje, como as basílicas de Roma.

Tradicional” é algo que permanece por épocas subsistindo a modas e modismos. Em geral é algo bom em essência, que permanece numa tradição benéfica. Como a aliança de casamento, usada há séculos e de tão bom significado que a Igreja a adotou como parte da cerimônia de casamento.

Antiquado” é o que um dia foi bom mas em outra época pode não servir ou ser mesmo mau. Como os suspensórios para manter as calças masculinas em certa postura. Com o desenvolvimento dos cintos, alguns até elásticos, os suspensórios caíram de uso.

Por incrível que possa parecer, quando alguma jovem deseja o véu ou um rapaz quer usar um paletó, os primeiros opositores não são os outros jovens mas os adultos – sim, aqueles jovens dos anos 1970 – que criticam dizendo que “não são roupas de jovem” ou “parecem velhos”. O jovem não é educado a procurar o melhor, mesmo que esse “melhor” seja uma releitura visando a busca dos valores clássicos. 

O que podemos entender é que não devemos tratar os jovens de hoje com atitudes antigas. É e sempre será um desafio a suplantar: tratar as novas gerações com a necessidade que eles tem de serem os futuros adultos. Os jovens de hoje serão os que manterão o mundo de amanhã. E este amanhã pode não ser tao longinguo assim. 

Se entendermos que os jovens de hoje estão sendo tratados com a mesmo preconceito do passado, então é um inicio para uma mudança de atitude. No passado queriam que os jovens usassem terno numa época de jeans. Hoje, querem que sejam crianças quando eles querem amadurecer mais rápido. Como resolver isso? 

Cabe a cada um de nos, dirigentes ou instrutores de Congregações Marianas que avaliemos com a devida caridade e clareza a cada jovem que esta a nosso lado. Tratá-lo com a individualidade que merece e precisa. Nossas jovens querem usar véu nas Missas? Permitam e incentivem. Querem ir nas missas festivas da CM de paleto? Digam qual o melhor modelo. Não serão menos jovens do que aqueles que retomam os bailes de debutantes dos anos 1950 ou daqueles que usam os trajes orientais de uma arte marcial. Não pensemos que os jovens do celular com foto e SMS são os mesmos daquela canção da “calça jeans velha e desbotada”.

Os jovens de hoje, como os de sempre, procuram um local firme e com posições firmes. As Congregações Marianas sempre foram esses locais. Quando elas deixaram sua firmeza para “adaptar-se aos tempos” amargaram desistências e fechamentos. “Adaptar-se” nunca quis dizer “rever conceitos”, mas “ser flexível”. Os jovens do século XXI querem uma associação que seja genuína, que não se deixe influenciar pelos ditames da moda. Uma moda que se torna cada vez mais escandalosa. Tão escandalosa que fere os olhos até de quem que nunca viu coisa melhor.


A Assistência do Diretor


Alexandre Martins, cm.


Sempre foi tradicional nas Congregações Marianas a presença ostensiva de um sacerdote.

Desde a fundação da primeira Congregação Mariana, a presença de um sacerdote foi algo característico destas associações. A própria fundação, embora fosse um desejo piedoso dos jovens estudantes do antigo Colégio Romano, também era um sonho do padre Leunis.



Desde o princípio

Na Sociedade da época, ainda espantada com as mudanças do Concílio de Trento, via também uma novidade igualmente incrível: o Sacerdote era dedicado à associação. Havia até mesmo visitas do padre às casas dos Congregados para um auxílio espiritual mais pessoal.

A presença do sacerdote nas reuniões era mais do que nas Santas Missas das Comunhões Gerais. Após as celebrações, haviam palestras especiais para os Congregados em algum local do templo, de uma forma que não era o estilo dos sermões habituais, mas de um modo intimista e dedicado. Verdadeiras meditações inacianas.

Os Congregados marianos se agrupavam em torno da figura do Sacerdote, chamado de “Diretor da Congregação”. Mesmo com a partilha das responsabilidades entre todos os Congregados, constituindo sua Diretoria composta por leigos – outro avanço moderno feito pelas Congregações Marianas na Igreja – a figura do Diretor sempre foi intocada e característica.

Essa característica era tão marcante e definia a forma de uma Congregação Mariana que algumas tinham até um certa “classificação” pelo nome do seu Diretor. Como as chamadas “Congregações do Padre Coster”. O jesuíta Francis Coster* foi um dos superiores da Companhia de Jesus que deu determinadas formas às Congregações Marianas de sua época, alguma em uso até os dias de hoje.

Até mesmo no século XX há o exemplo da Congregação Mariana de Munique (Alemanha) sob a Direção Espiritual do bem-aventurado Rupert Mayer** cuja história pode ser dividida como “antes do padre Meyer” e em “depois do padre Meyer”.

Uma Característica das Congregações

As Congregações Marianas foram criadas como um grupo ao redor de um padre. Era costume pastoral dos jesuítas agruparem em torno de si pessoas às quais pudessem proporcionar uma orientação espiritual mais profunda. Desde os primeiros companheiros de s. Inácio de Loyola, como Pedro Fabro, todos possuíam um pequeno grupo de devotos1 que os seguiam fielmente e praticavam com dedicação suas orientações.

Nosso fundador, o pe. Jean Leunis, aprendeu essa prática desde cedo e foi natural que a colocasse em prática na escola onde lecionava. Assim surgiu a primeira Congregação Mariana: um grupo de devotos ao redor de um piedoso sacerdote.

Essa fórmula simples e eficaz permaneceu por muitos séculos e seu abandono foi o princípio do fim de muitas Congregações Marianas.

Não se concebe uma Congregação Mariana sem a presença constante e dedicada de um sacerdote.

Os tempos do Concílio

Essa presença dos sacerdotes nas Congregações Marianas persistiu até após o Concílio Vaticano II, mais especificamente até a mudança das Regras Comuns de 1910 - feitas pelo então superior geral da Companhia de Jesus, Francisco Xavier Wernz – pelos Princípios Gerais, compostas por leigos e por jesuítas.

A partir da promulgação dos Princípios Gerais em 1967, a presença do Diretor da Congregação foi quase anulada, sendo as novas associações dirigidas e orientadas quase exclusivamente por leigos. Era um momento singular, onde as preocupações sociais estavam na moda e acreditava-se que, se “apenas uma pessoa poderia mudar o mundo”, então um grupo poderia muito mais. E essa pessoa não poderia ser um sacerdote, no pensamento da época.

O abandono dos sacerdotes

O resultado prático foi que os sacerdotes ou deixaram as Congregações Marianas nas mãos dos leigos ou os Congregados deixaram de pedir seu auxílio. Com o passar do tempo, a presença dos sacerdote ficou restrita às cerimônias de admissão.

No Brasil, acostumado a uma presença quase totalitária do sacerdote, ficou sem assistência espiritual de uma hora para outra. Os párocos deixaram as Congregações Marianas nas mãos dos então bem preparados Congregados que, contudo, não conseguiram formar seus sucessores adequadamente justamente por falta do Padre Diretor em seu auxílio. OS bispos seguiram o mesmo que os párocos e, com as mudanças no Episcopado e o distanciamento das Congregações Marianas, foram pouco a pouco esquecendo delas até a chegar a um quase total desconhecimento.

Uma nova esperança

Esse cenário foi piorando a partir dos anos 1970 até os anos 1990, por ocasião da Regra de Vida brasileira. De repente, um bispo jesuíta, D. José Carlos de Lima Vaz, toma para si a tarefa de atualizar as Congregações Marianas do Brasil e é seguido por Congregados marianos idosos que acreditavam que os bons tempos retornavam. Foram também acompanhados de Congregados que não sabiam o que estava realmente acontecendo, pois nunca tinham visto um Bispo tão perto das Congregações Marianas.

A resposta foi muito boa para a época: novas Congregações Marianas foram fundadas, algumas antigas reabertas, novos padres sendo presenteados com a fita azul, etc.

Mas o problema crucial não foi solucionado: as Congregações Marianas não tiveram o retorno do sacerdote à cadeira do Diretor Espiritual.

A Regra de Vida e as confusões

A Regra de Vida de 1994 só fez solidificar a distância do sacerdote em relação à Congregação Mariana. Para piorar as coisas, quase ninguém entendeu o termo “Congregado emérito”.2 O que foi pensado por D. Vaz como uma forma de acomodar os sacerdotes que não tinham tempo para frequentar as Congregações Marianas, tronou-se algo do tipo “prêmio” dado a qualquer sacerdote ou bispo que fosse “amigo dos Congregados”.

O resultado final foi mais do mesmo: os sacerdotes continuaram afastados da direção espiritual das Congregações Marianas, agora com a justificativa de serem “eméritos”.

Com a proliferação de atividades paroquiais, o pároco tende a ser exigido por todos e em demasia. Cabe a ele compreender que uma Congregação Mariana exige bastante de um sacerdote, não por outro motivo senão por ser característica da atividade da associação. Poucas associações católicas levam tão a sério a vida espiritual a ponto da presença do sacerdote ser tão necessária. Se um pároco não pode proporcionar a uma Congregação Mariana a atenção que ela precisa ter, então é melhor que nem a tenha em sua paróquia. Ou então que a deixe sob a tutela de outro sacerdote.

Razões humanas podem fazer com que um padre relute em permitir a outro sacerdote a direção espiritual da Congregação Mariana de sua Paróquia. Ma a Regra de Vida prevê que a assistência espiritual de uma Congregação Mariana pode ser entregue até mesmo a religiosos ou diáconos. Pensando bem, uma paróquia extensa que possua várias capelas em seu território com uma Congregação Mariana em cada uma é humanamente impossível ao pároco acompanhá-las como deve ser. É iniciativa do pároco deixar que alguém possa fazer o trabalho do Diretor Espiritual mesmo que subordinado a ele próprio.

Leigo como Diretor Espiritual?

A Regra de Vida sugere que até mesmo um leigo3 bem preparado possa ocupar a cadeira do Diretor Espiritual ou mesmo ser seu substituto. A experiência nos mostra que isso não dá certo, além de ser completamente desastroso.

O múnus sacerdotal inclui o ensino da Verdade4 e o laicato não possui essa bênção. Basta aos leigos o cargo de Instrutor da Congregação, o que não é pouca coisa. A Direção Espiritual de uma Congregação Mariana deve obrigatoriamente5 ser entregue a um sacerdote. Isso faz parte de nossa tradição.

É uma das três condições básicas6 para a fundação de uma Congregação Mariana – a saber, 1)número de pessoas; 2)capacidade do ambiente; 3)sacerdote responsável. A falta de apenas uma dessas condições não permite a existência de uma Congregação Mariana.

Como deve o sacerdote agir?

A forma da assistência espiritual dada pelo sacerdote à sua Congregação Mariana não possui regra definida. O princípio é o da amorosa paternidade espiritual.

Cada sacerdote sabe de suas dificuldades de tempo para atender aos seus fiéis, mas se ele tiver a consciência de sua importância vital para a vida interior dos Congregados conseguira tempo extra que sera multiplicado na atuação eficaz dos apóstolos leigos que formara a partir da Congregação Mariana.

Os antigos Manuais de Congregado7 citavam uma atividade mensal chamada “Consulta”, Tratava-se de uma reunião, em geral da Diretoria com o padre, onde este dirigia todo o andamento da Congregação Mariana e ao qual eram dirigidas perguntas para a melhoria da associação e também sobre a vida espiritual dos Congregados. Daí nomear-se essas reuniões especiais de “Consultas ao Padre Diretor”.

Há sacerdotes que preferem participar por alguns minutos da Reunião Geral dos Congregados, ouvindo os problemas das Congregação Mariana e apresentando soluções. Como foi citado acima, não há forma definida para a assistência do padre.

O Instrutor, subordinado ao Assistente

O cargo de Instrutor, seja qual for a intensidade da assistência do sacerdote, é um cargo8 imediatamente subordinado a ele. Tudo o que o Instrutor (e seus auxiliares) fizerem deve estar avaliado pelo sacerdote. Não há nenhum Programa de Instrução que seja composto pelos Congregados sem ser avaliado cuidadosamente e aprovado pelo sacerdote.

Uma Direção Espiritual comunitária

Um fato de que pouquíssimos pessoas atentam é que os problemas de uma Congregação Mariana surgem quando da ausência do sacerdote. É justamente a partir da falta da presença orientadora do padre que todos os problemas espirituais aparecem e tomam um tamanho que culminará com o fim da Congregação Mariana e, pior, com a perca da Fé de alguns Congregados.

Não é exagero afirmar que o Consagrado a Maria, e mesmo aquele que esta em preparação pra tal, é tentado pelos inimigos9 de nossa alma. O apoio de um Diretor Espiritual, a docilidade a suas orientações, e a recepção oportuna dos Sacramentos que somente ele pode nos ministrar é assunto indiscutível na vida espiritual de um cristão.

Ora, se a direção espiritual é absolutamente necessária para o progresso na Fé, e se uma Congregação Mariana é formada por pessoas que são Consagrados a Maria e que, pelo mesmo fato, querem progredir na mesma Fé, então se torna absolutamente necessária a presença de um Diretor Espiritual.

Não se compreende a exigência da Direção Espiritual particular e não a Direção Espiritual comunitária em uma Congregação Mariana.

Seria cansativo enumerar todos ou a maioria dos problemas que uma Congregação Mariana e até mesmo cada um dos seus Congregados sofreria sem a presença assídua de um Diretor espiritual. Basta dizermos isto: é o principio do fim.

Nomenclatura

Há os que debatem sobre o nome da dado à função do sacerdote na Congregação Mariana., Uns querem o proposto desde a criação dos Princípios Gerais - “Assistente Eclesiástico” - e outros não querem a abrir mão do tradicional nome “Diretor Espiritual”.

A nosso ver, cada nomenclatura tem uma intenção por detrás. O Assistente provem da época conciliar, aonde se desejava deixar o leigo agir por conta própria, dado a boa formação da maioria e o desenvolvimento do apostolado dos leigos, O sacerdote seria apenas um “orientador”, um “apoiador” de boas ideias.

A urgência de sacerdotes diretores

A intenção do Diretor Espiritual, característico desde a primeira Congregação Mariana, é a de um controle maior por parte do sacerdote. Ele age como um real diretor espiritual, como se agisse num confessionário, guiando almas, ou num ambão proclamando a Palavra de Deus. Sua atuação é mais direta e os leigos o procuram como filhos espirituais e como sábio conselheiro. Não se trata de submissão , mas de docilidade aos seus conselhos.

A função do sacerdote em uma Congregação Mariana é primordial, característica e insubstituível. Não pode existir uma Congregação Mariana sem a presença pastoral de um sacerdote. Aos padres deve mover a consciência de sua grande responsabilidade na formação espiritual desse exercito de guerreiros da Fé.


Que a Virgem Maria, Rainha dos Sacerdotes, nos ampare, aos leigos e aos sacerdotes.



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(*) -  Francis Coster (ou Frans de Costere, latim: Franciscus Costerus), 16/6/1532 – 16/12/1619, jesuíta, teólogo e autor. Frans de Costere foi recebido na Companhia de Jesus por Santo Inácio em 7 de Novembro 1552. Enquanto ainda era jovem, ele foi enviado para a Colônia (oeste da Alemanha) para uma palestra sobre a Sagrada Escritura e astronomia. Sua reputação como professor foi criada dentro de um curto espaço de tempo, e em 10 de dezembro de 1564, a Universidade de Colônia conferiu-lhe o grau de Doutor em Filosofia e Teologia. Ele estava sempre pronto para defender o ensino da a Igreja Católica, que neste período estava envolvido na luta com protestantes, e pela palavra e por escrito, ele trouxe as pessoas de volta ao catolicismo. Foi por dois mandatos Provincial da província jesuíta da Bélgica, Provincial no Reno, e assistiu a três Congregações Geral da Ordem. 
(**) - Rupert Mayer (23/1/1876 – 1/11/1945) alemão, padre jesuíta e um dos líderes da resistência católica ao nazismo em Munique. Rupert terminou o ensino médio em 1894 e estudou filosofia e teologia em Friburgo, na Suíça; Munique e Tübingen. Em 1899, foi ordenado e ingressou na Companhia de Jesus Áustria (então Áustria-Hungria) em 1900. Desde 1914, o P. Mayer foi capelão voluntários no Primeira Guerra Mundial. Em 1915 o P. Mayer foi o primeiro capelão para ganhar a Cruz de Ferro por bravura em reconhecimento do seu trabalho com os soldados na frente. A partir de 1921 líder da Congregação Mariana, em Munique. Rupert Mayer morreu de um acidente vascular cerebral, enquanto ele estava celebrando a Missa da festa de Dia de Todos os Santos. “O Senhor, o Senhor, o Senhor.”, foram suas últimas palavras.Em 1956, o Papa Pio XII, que havia conhecido pessoalmente o Pe Rupert Mayer durante seu tempo como núncio em Munique, concedeu-lhe o título de Serva de Deus. De acordo com o Papa João XXIII, o processo de beatificação foi iniciado, cujos resultados foram formalmente aceite pelo Papa Paulo VI em 1971. De acordo com o Papa João Paulo II, o decreto de "virtudes heróicas" foi emitido em 1983. Pe Rupert Mayer foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 03 de maio de 1987, em Munique.

1- LEITE, Pe. Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. 10 vols.: Lisboa/Rio de Janeiro, Livraria Portugália/Civilização Brasileira, 1938-1950.

2- Regra 52: São considerados eméritos os Congregados Marianos que, pela idade, condições de saúde ou outro motivo relevante, ou porque emitiram a Profissão Religiosa, já não podem mais participar das atividades normais da vida da Congregação Mariana. São também Eméritos os Congregados Marianos que deixam o estado laical ao receberem as Ordens Sacras.

3- ...excepcionalmente de um diácono, religioso ou religiosa, e mesmo de um leigo que conheça bem a vida e a espiritualidade da Congregação Mariana. (Regra 41) Ele não terá o título de Assistente Eclesiástico, embora atenda, no todo ou em parte, às funções deste. (Regra 65)

4- o munus docendi, ou seja, aquele de ensinar (conf. Catequese do Papa sobre ministério sacerdotal , 14/4/2010)

5- O Assistente Eclesiástico, de livre designação do Bispo Diocesano ou seu delegado, deve ser um Sacerdote (CDC, cânon 564) que acompanhará a vida da Congregação Mariana. (Regra 65)

6- Manual Devocionário do Congregado Mariano, edição oficial da CNCMB, pág. 82, Edições Loyola, SP, 1981

7- Manual dos Congregados, pág. 35, edição oficial da CNCMB, 1947.

8- O Instrutor deve ser escolhido entre os Congregados com capacidade para orientar e acompanhar os Aspirantes e Candidatos, em íntima união com o Assistente Eclesiástico. (Regra 63)
9- O Mundo, O Demônio e a Carne. “A Igreja Militante é a Sociedade de todos os fiéis que ainda vivem na terra. Chama-se militante porque está obrigada a manter uma guerra incessante contra os mais cruéis inimigos: o mundo, a carne e o Diabo” - Catecismo do Concílio de Trento

Congregados de Fita nº1 – os sacerdotes e religiosos




Alexandre Martins, cm.

Na Congregação Mariana aonde proferi minha Consagração Perpétua, eram comuns certos “ditos” ou “chavões” de uso comum entre os Congregados. Eram “frases de efeito” que faziam chamar a atenção de todos para algo importante.
Um desse “chavões” era: “devemos de ser Congregados de fato e não Congregados de fita”.
Isso queria lembrar a todos que não bastava ter uma medalha numa fita pendurada no pescoço, mas deveríamos ser de fato o que a fita significava. Deveríamos agir e pensar como Congregados em todos os momentos de nossa vida, em nosso dia a dia, em nosso ambiente familiar, em nossa escola, em nosso trabalho, perante nossos amigos... Não bastava ostentar a fita azul nas Missas de Domingo, dizer um “Salve, Maria” no pátio da igreja, se não agíssemos como “cristãos de sinal mais” em nossos ambientes pessoais.
“Congregado de fita” ficou, então, um termo pejorativo. Refere-se àquele que não age como um Congregado, embora tenha ingressado em uma Congregação Mariana. Os motivos são vários para essa atitude, mas são muito pouco aceitáveis.
A partir da década de 1990, os sacerdotes que estavam à frente das paróquias não eram aqueles que haviam estado de paletó e gravata nas reuniões das Congregações Marianas e se confessavam com o Padre Diretor. Na época, os padres que eram párocos tinham participado de grupos de jovens cheios de Teologia da Libertação e somente no Seminário tinham uma vida sacramental mais adequada. Ninguém conhecia as Congregações Marianas a não ser os que o pai ou um tio foram vistos usando uma fita azul.
Pois bem, eram justamente esses “padres da Pastoral da Juventude” que eram agora os Párocos a quem os Congregados deveriam se reportar e seguir “como cadáver”.1 Então, em muitos dirigentes da Congregações e mesmo de Federações, surgiu a ideia de “presentear a fita” para o padre local.
Ora, sabemos que o Diretor Espiritual de uma Congregação Mariana paroquial é o próprio Pároco. Antigamente os sacerdotes eram em sua maioria Congregados que descobriram sua vocação sacerdotal e deixaram suas Congregações para ingressarem no Seminário, seja diocesano u religioso. Colocar uma fita azul nos ombros de homens assim era apenas relembrar aquilo que já foram e eles tinham pleno entendimento de sua atuação na Congregação a partir de agora: bastava que lembrassem o que seus diretores antigos realizavam em suas antigas Congregações.
Mas e no caso do sacerdote “pejoteiro”? - apelido dos participantes das Pastorais da Juventude, as PJ - Ele nada sabia daqueles homens (e agora também mulheres) que usavam uma fita bonita e diferente no pescoço. Como agir? “O Congregado recita o Rosário” - então façamos como os Grupos do Terço e deixemos eles rezar seu terço em paz. “O Congregado é cristão com sinal mais” Opa! Isso é “triunfalismo” e o triunfalismo está fora de moda. Afinal, na Pastoral da Juventude há democracia e ninguém é mais do que ninguém. Então a Congregação não pode ter nenhum privilégio e deve ser tratada como qualquer grupo da Paróquia. “A Congregação é o exército de Maria” - mas a Legião de Maria também atua como um exército. Se tenho uma Legião de Maria em minha Paróquia, para quê mais outro exército?
Pensamentos assim e atitudes tais eram comuns em todas as Paróquias desde os anos 1980.
Pois foi a partir do pontificado de João Paulo II que os Congregados marianos resolveram agir, cansados de uma perplexidade que acometeu toda a Igreja nos anos após o Vaticano II.
Foi a partir de 1990 que algumas Congregações começaram a perceber que os elogios e apoio que recebiam dos sacerdotes e bispos não iriam mais acontecer e que novos leigos convertidos estavam tomando de assalto Coordenações e Conselhos paroquiais. Não haveria nenhum espaço para as Congregações Marianas a partir daí se algo não fosse feito.
Com a criação da Regra de Vida em 1994, houve um certo choque: as Congregações que tinham lutado por décadas para não sucumbir e fechar tiveram de se adaptar às novas regras que eram seguidas como novidade por Congregações recém-fundadas. A euforia era grande, ainda mais que tínhamos um jesuíta à frente das Congregações do Brasil em melhor, um Bispo: D. José Carlos de Lima Vaz, SJ, então bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O número de Congregados começava a aumentar, Congregações eram reabertas, outras até eram fundadas e os jovens – pasmem! - queriam pendurar uma fita no pescoço pois achavam diferente, um certo ar “vintage”...
Tudo muito bom, mas e os padres? Aonde estavam os famosos “diretores de Congregação” de quem tanto se falava? Aonde estariam um Cardeal Leme, um padre Leme Lopes? Eles não estavam mais por aqui. Então, tratou-se de “criar novos diretores”, ou seja, qualquer padre era chamado para a Congregação Mariana – querendo ou não. Evidentemente, nenhum sacerdote - seja ele uma pessoas dedicada ou não - deixaria de amar a Virgem Maria e ficar feliz de ostentar uma fita azul de Nossa Senhora. Ao mesmo tempo, um pároco deve ser agradável aos fiéis de sua paróquia e procura estar em todas as atividades que nela acontecem.
Daí que todos os padres que permitiram que os leigos fundassem ou reabrissem Congregações em suas igrejas não se oporam a serem convocados para serem Diretores (Assistentes Eclesiásticos) das mesmas. Mas eram o que se diz: Congregados de fita, isto é, não pensam como um um Congregado mariano.
E isso importa? Claro que sim, se quisermos uma real Congregação Mariana e não apenas um grupo de devotos. Os desejos de santidade, a fome de apostolado a hierarquia amorosa, só são entendidos por aqueles que foram formados em uma Congregação Mariana ou se aproximaram dela posteriormente com humildade e se cativaram por elas.
Não se trata de preguiça, dolo ou mesmo malícia, mas apenas um não-conhecimento. Daí em algum momento de um trabalho pastoral na Paróquia alguns Congregados, desejosos de “homenagear” o sacerdote, “presentearam” o padre com a fita azul. A tão propagada Consagração Perpétua à Virgem Maria, recomendada com entusiasmo pro tantos Papas, transforma-se então em um simples “presente”, como um relógio que é dado ao padre no Natal.
Aonde isso acontece vemos o quão pouco significa uma Consagração mariana naquela comunidade. Não que a depreciem ou desrespeitem, mas não tem a associação aquela magistral importância que tantos santos ensinaram e recomendaram. É um dos motivos de serem as Congregações Marianas tão pouco respeitadas e consideradas em alguns lugares. Nesses locais, a diferença de um jovem Congregado mariano de qualquer outro é que o primeiro usa uma fita pendurada no pescoço...
Cardeais da Igreja pediram no passados para serem admitidos na Congregação Mariana, Bispos ingressaram nelas em solenidades em suas Catedrais acompanhados de vários de seus sacerdotes. Príncipes assinaram seus nomes de próprio punho nos livros das Congregações Marianas. Sabendo desse passado glorioso, como podemos “presentear” um sacerdote com a fita azul?
Pensemos na tradição das Congregações Marianas e lembremos dos sacerdotes e bispos que honraram a Virgem Maria em seus ingressos na associação. Que seja para qualquer um, até ao sacerdote, algo muito importante, que seja marcante em sua vida. Isso converte, isso mantem no Caminho, isso acalenta nos momentos difíceis da vida.
Santa Maria, Rainha dos sacerdotes, rogai por nós!



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1- Lema da Companhia de Jesus referente à obediência sem questionamento que deveria o Jesuíta exercer perante seus superiores. Deveria ser como o cadáver, que é trocado de lugar sem ter reação.

A Igreja dos Leigos Pecadores


Alexandre Martins, cm.



“A Igreja é santa e pecadora”. Lemos, ouvimos e pronunciamos essa frase várias vezes nos últimos tempos mas nem sempre compreendemos todo o seu significado. Talvez a falta de uma completa compreensão se deva ao fato de que não é somente um significado mas vários significados. E um deles é o relacionamento humano na esfera eclesial.
Alguns teólogos dão o nome de “invidia clericalis” (inveja clerical) ao ato de sentirmo-nos incomodados com o sucesso do outro no campo do apostolado.
Se nos acusamos no exame de consciência ou na Confissão de nos sentir tristes ou magoados quando alguém tem algum sucesso na vida pessoal - como uma promoção no trabalho ou o casamento com o galã da turma - por outro lado não nos acusamos da mesma forma sobre o incômodo que nos traz aquele retiro no qual foram muitos jovens e não fomos nós que o promovemos...
Esse é um dos significados da “Igreja pecadora”: temos tristeza pelo bem feito por outro.
Quantos homens não deixaram de escutar a Verdade por alguém achar que “aquele tal” não merecia que lhe fosse anunciada? Conhecemos pessoas que tem um grande conhecimeno da Doutrina Cristã, são ativos no apostolado leigo, mas não falam de Deus para seu colega de trabalho. Julga-se que aquele indivíduo “não merece” uma conversa espiritual por tal ou tal motivo. Se são questionados do por quê não o fazem respondem com a frase bíblica “não dar pérolas aos porcos” (Mt 7,6). Mas para estes “egoístas da Verdade” possa ser mais indicada a frase “Não julguem apenas pela aparência” (Jo 7 ,24)
Vemos que há grandes iniciativas de apostolado leigo como o Rosário em residencias, visitas porta a porta, shows nas praças, etc. Mas ao mesmo tempo não se fala de Deus ao colega da escola, ao funcionário da faculdade, ao garoto que entrega o almoço no escritório... A experiência nos mostra que a maioria dos que são ativos “de fim de semana” nas paróquias são diferentes “durante a semana”.
Eis a Igreja Pecadora: escolhemos quem queremos que seja salvo!
Triste isso, não? E pior ainda: é contra o mandato do Mestre: “ide por todo o Mundo” (Mc 16,15)
Jesus não nos disse algo como “anunciai aos escolhidos” mas “a todos”. Podemos entender como “a todos que passarem em meu caminho, em minha vida”. E quantos passaram por nós e não nos preocupamos em falar de Deus para eles? Não se trata de fanatismo, como algumas seitas que somente fazem apostolado para aumentar seu número de membros. Sua preocupação com a saúde espiritual do outro é mecânica como um médico de Hospital estatal, apenas receitando um remédio, sem preocupação real.
Se entendermos o apostolado como caridade com a alma do outro, veremos o seu real significado: levar as pessoas à felicidade do encontro com Deus.
Nada de ideias como “aumentar nosso grupo”, de “colocarmos mais gente na Capela”, de fazer “o time de católicos da Firma”. O que devemos desejar é que nosso próximo seja feliz, pois entendemos que a verdadeira felicidade é estar em comunhão com Deus na Sua Igreja.
Devemos refletir em nossos momentos de meditação olhando para o Santíssimo Sacramento do altar: agimos como o publicano ou como o fariseu? Agimos como o filho que criticou o pai por sua atitude com o filho que “gastou seu dinheiro com prostitutas”? (Lc 15,30) Agimos como o Levita que passou ao largo do homem assaltado e ferido na estrada? (Lc 10,32) Não repetimos esses tristes e condenáveis gestos quando não agimos com mansidão com as faltas do próximo, quando condenamos antes de corrigir, quando agimos com ar de superioridade na Liturgia?
Os exemplos são vários e poderíamos citá-los à exaustão. Veja em sua própria vida os exemplos vividos e vivenciados. Mas o que realmente interessa é o quanto de amor damos ou subtraímos de nossa rela~]ao como o nosso irmão, um filho de Deus como nós.
Se está certo o ditado chinês “se quiser conhecer o espírito de certa pessoa, mande-o governar”, então vemos que certas pessoas não deveriam ter certos ofícios, em especial o de leigos na Liturgia. Mas somos cristãos e as falhas daquele irmãos que está no comando de alguma associação servirá para nos mostrar nossa falta de atitude e desenvolver em nós a paciência com os erros dos demais e também servirá para ue ele possa se converter. O que não devemos permitir é que ele promova o que a Escritura chama de “escândalo”, pois o mal produzido será maior do que o bem conseguido.
Que possamos no Ato Penitencial, ao batermos em nosso peito, lembrarmos que a Igreja Pecadora também somos nós quando não nos preocuparmos com aqueles a quem Deus colocou em nosso caminho.
Que a Virgem Maria nos seja exemplo de solicitude como agiu nas Bodas de Caná. Que Ela peça em nosso favor junto a Deus, dizendo “Senhor, eles não tem o vinho da união e do amor”.