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O Manual na Mão



Alexandre Martins, cm.


O Manual do Congregado é uma ferramenta muito útil para a devoção particular dos membros das Congregações Marianas e para o início da compreensão das características de um verdadeiro Congregado Mariano.
O primeiro Manual para uso dos Congregados foi feito na cidade de Colônia, Alemanha, no século XVII em uma Congregação Mariana de Sacerdotes. No Brasil, houveram várias versões a partir do século XX, mas cada Congregação Mariana tinha uma publicação particular. Com a publicação do Manual dos Congregados pela Federação de São Paulo, não tardou que a Confederação Nacional publicasse a versão oficial padronizada para todo o país:
O Congresso confere à CNCMB* o direito reservado da publicação do Manual oficial. Só a Federação de São Paulo, por ser muito numerosa e possuir há muito seu Manual, fica isenta desta disposição, com a obrigação de não a vender fora do estado.” - 1º Congresso Nacional de Diretores.1

Desde as primeiras versões brasileiras, o Manual dos Congregados consta de basicamente três partes: A Regra de Vida, o Modo de agir do Congregado e o Devocionário.

A Regra de Vida

“As Regras passavam da Capela para as casas, pois estabeleciam que nos aposentos dos Congregados deveria sempre haver água-benta ou alguma imagem piedosa, com a finalidade de 'refrescar a memória”. 2
Os primeiros manuais continham a Regra inteira, incluindo as citações das publicações dos decretos eclesiásticos que as legitimavam. No Manual de 1997 consta apenas um resumo da Regra de Vida, com suas partes principais. Seu estudo é útil para a compreensão do básico das Regras, sendo de grande valia para os Aspirantes a Congregado.

O Dia a dia do Congregado

“As Congregações Marianas existem para ensinar como harmonizar Fé e Virtudes Cristãs com as ocupações cotidianas.”3
Embora existissem edições do Manual do Congregado que davam detalhes do modo de vida de um autêntico Congregado, o que todas as publicações tem em comum é mostrar o que difere um membro das Congregações Marianas de outras associações de fiéis católicos. O que é mostrado serve desde já para orientar o “modus vivendi” de um devoto que deseja se consagrar à Virgem Maria nas suas Congregações.

O Devocionário

“De fato, não é singular irmos aprender nos livros o que devemos dizer a Deus? Se não for posível proceder de outro modo empreguemos este meio; antes nos servirmos de um livro, que orar mal ou deixar de fazê-lo.” diz o pe. Meschler, SJ4
A edição de 1981 do Manual tinha o título “Manual-Devocionário do Congregado Mariano”. E era isso mesmo: metade da edição era somente de orações e práticas de piedade.
O Devocionário é uma parte do Manual que contém várias orações que são úteis para o Congregado mariano em sua vida de piedade pessoal e também orações que são para uso coletivo, como a Hora Santa. Não se trata de orações especiais de uso privativo dos Congregados marianos, mas são orações que são especialmente úteis para eles. Neste devocionário, os Aspirantes e Candidatos podem entender como a oração é usada e apreciada nas Congregações Marianas e como isso o educa na Fé Católica.

Seu uso constante

O uso do Manual é necessário para o Congregado diariamente. Em especial para os que estão começando nas Congregações Marianas, como os Aspirantes e os Candidatos, que devem tê-lo sempre “à mão”, como significa a palavra “manual”, isto é, algo “sempre ao alcance das mãos”.
As Orações da Manhã, das Refeições, o Rosário diário, o Ofício da Imaculada, as Visitas ao Santíssimo Sacramento, as Orações da Noite e o Exame de Consciência: todos são bem aproveitados se feitos com a ajuda do Manual do Congregado.

Um engano comum

Há Congregações Marianas que somente permitem o uso do Manual do Congregado após a Consagração Perpétua. A justificativa é da parte do Rito de Admissão5 em que o Assistente dá o livro ao novo Congregado dizendo a admoestação. Mas nada há na Tradição ou nas Regras que indique ser o Manual apenas de uso dos Congregados e não dos demais membros da Congregação Mariana. Devemos entender essa parte do Rito como um simbolismo de atenção às Regras. No texto do Rito vemos a ressalva - “entregando, onde for costume” - indicando que nem sempre o Manual é entregue ao membro da associação quando somente ele se consagra.
Em nossa experiência, o uso do Manual desde o início da frequência à Congregação Mariana dá frutos bons e favorece o fervor e o entusiasmo pela associação.

Conclusão

Use, abuse, leia, marque, risque seu Manual de Congregado. Faça dele uma autêntica ferramenta pessoal de busca da santidade. Que este livrinho tenha a marca dos dedos de seu dono, que tenha os riscos de uso constante, mostrando que é muito usado e que, no fim, suas letras estejam gravadas na mente e no coração do Congregado que o possui.
Que a Virgem, que lia seu livro no momento da Anunciação, nos ajude a ter nosso Manual em nosso coração!


* * *






*- Confederação Nacional das Congregações Marianas do Brasil.
1- resolução do 1º Congresso Nacional de Diretores das Federações das Congregações Marianas do Brasil, realizado de 20 de janeiro a 1 de fevereiro de 1941 no Rio de Janeiro, RJ,. (artigo 10º, § 2º)
2- F.M. Barriguete, in “Os Jesuítas e o Culto Mariano”
3- O'Neil & Dominguez, SJ, in “Dicionário Histórico da Cia. De Jesus”, Madri, 2001, pág 914.
4- “A Vida Espiritual reduzida a três Princípios”, pág. 46
5- “Celebrante (entregando, onde for costume, o Manual das CCMM ao Neo-Congregado): Recebe este Manual que contém a Regra de Vida das Congregações Marianas do Brasil. Conserva-o cuidadosamente e consulta-o frequentemente, seguindo com fidelidade o caminho que escolheste para tua vida cristã e mariana” - in “As Congregações Marianas no Brasil”, CNCMB, Ed. Loyola, SP,SP, 1994, 4ª edição, pág. 95.

Muitos e Poucos


Alexandre Martins, cm.

É comum se referir à Congregação Mariana como um pequeno grupo, alegando que mais do que a quantidade, importa a qualidade. Mas, no caso específico delas, a quantidade ajuda na qualidade.
Desde a primeira Congregação Mariana, a quantidade era uma constante: a primeira teve 70 jovens1 no primeiro ano de existência. As primeiras Congregações Marianas possuíam diretorias com cerca de doze diretores2 que cuidavam de todo o funcionamento da associação e também dos Congregados. As clássicas Congregações Marianas tinham número bem grande: a Congregação de Munique (Alemanha) possuía mais de três mil Congregados em 1773.
Porque pequeno grupo
À partir da segunda metade do século XX no Brasil se foi criando uma mentalidade do “grupo pequeno”. As justificativas foram várias, inclusive a passagem bíblica do “muitos são chamados e poucos os escolhidos” (Mt 22,14). As Congregações Marianas foram diminuindo de quantidade de membros até possuir cerca de uma dúzia ou menos de Congregados. Mas os reais motivos dessa mentalidade do “menos é mais” surgiu com a mudança das Regras das Congregações Marianas na década de 1960, fruto de uma turbulência3 na Companhia de Jesus.
Com a criação das Comunidades de Vida Cristã, incentivadas pelos jesuítas como forma de se adaptarem à atualização pastoral proposta pelo Sagrado Concílio, as Congregações Marianas se sentiram de certa forma fora de contexto por serem associações com um grande número de membros. Os anos tumultuados após o Vaticano II foram de abandono das associações de leigos tradicionais para migração a novos grupos que, naturalmente por serem iniciantes, tinham poucos membros. As Congregações Marianas que ficaram ainda abertas tiveram o seu número de membros radicalmente diminuído. Algumas foram reduzidas a apenas quatro Congregados! A redução do número de Congregados criou a ilusão de que este era um sinal dos novos tempos, de que as Congregações Marianas estavam atualizadas e que finalmente tinham acolhido o apelo4 do papa Pio XII quando clamava “seleção, seleção, seleção”... Mal sabiam que a redução do número de membros era o sinal do início do fim de sua associação, como a queda de folhas de um arbusto significa a doença crescendo na planta até que a mate por completo.
A quantidade ajuda
Mas a quantidade influencia no funcionamento e desenvolvimento de uma Congregação Mariana? Sim, e muito.
Congregação Mariana com um bom número de membros – algo acima de vinte pessoas – possui uma atividade bem diferente das Congregações Marianas pequenas, com menos de dez pessoas. Nas maiores se pode dar ofícios a um maior número de Congregados e fazer com que a associação trabalhe como um todo e não se sobrecarregue apenas alguns membros. Com um bom número de membros não haverá falta de presença em nenhum ato que exija alguma presença da Congregação Mariana, por exemplo. Além do que, há pessoas que são naturalmente motivadas ao ver um grande número de participantes em um evento e um número grande de Congregados faz que esse tipo de pessoas se interesse em participar da Congregação Mariana. Isso tudo sem contar que é psicologicamente benéfico para cada um dos Congregados ver a sua própria Congregação Mariana se desenvolvendo e crescendo.
Elasticidade e adaptação
Mas, e nos locais aonde uma Congregação Mariana não poderá ter muitos membros facilmente, como por exemplo empresas, capelas distantes, etc? Isso significa que a Congregação Mariana estará fadada a ser grande para para ter sucesso? A resposta é não. A Congregação Mariana se adapta a qualquer lugar que tenha as três condições básicas. E uma delas supões as pessoas. Em nossa experiencia, o número de quatro é a quantidade inicial. Importa saber até quantos membros uma Congregação Mariana poderá alcançar naquele local. E deve almejar conseguir essa meta, não ficando reduzida a apenas um grupo de amigos.
Embora se afirme comumente o contrário, a quantidade é de grande importância. É pela quantidade de membros que pode se medida a força que os Congregados despendem em fazer apostolado. Atualmente, em praticamente nenhuma paróquia justifica-se um pequeno número de Congregados caso lá exista uma Congregação Mariana. O papa Pio XII já nos orientava5 para a necessidade de promovermos mais Congregados: “muitas vezes falanges de congregados que, ou no estado eclesiástico ou no religioso, aspiram à perfeição cristã para si e para a comunicar aos outros.” E complementa S. Afonso de Ligório: “Quando um leigo me pergunta como santificar-se no meio do mundo, lhe respondo: faz-te Congregado e seja fiel à Congregação Mariana”.
O tempo dirá
Em conclusão devemos entender que a busca de mais Congregados para o aumento da Congregação Mariana com a adição de pessoas sinceras e piedosas faz parte do apostolado do bom Congregado. Procurar com todas as forças que nossa Congregação Mariana cresça em número faz com que deixemos de lado a maléfica tentação de fazer um pequeno grupo de “escolhidos” no qual nossa vaidade cresça a ponto de nos acharmos parte de um “clube de seletos” aonde só os melhores estão e não qualquer um. Esta é a diabólica deturpação do caráter seletivo da Congregação Mariana. Essa forma de pensar é perversão e não mérito.
Convoquemos mais e mais pessoas piedosas para ingressar na Congregação Mariana e deixemos o tempo fazer a seleção. Só os realmente vocacionados e identificados com o ideal da Consagração à Virgem Maria irão continuar e permanecer. E não serão poucos, com certeza.
Estrela da Evangelização, ajude-nos a aumentar o reino de Cristo na Terra!




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1- pe. Emile Vilaret, “Les Congrégations Mariales”, Roma, 1954.
2- Antonio Martinez: Areneros 1940-1960. La educación espiritual en un Colegio de Jesuitas, Ediciones ICAI, Madrid, 1983.
3- “Depois do Vaticano II, ocorreu uma verdadeira hemorragia na Ordem. Em pouco tempo, ela perde cerca de dez mil membros. Deixam a Ordem os que se acham desiludidos com o Concílio por ter dito pouco demais, e também saem aqueles segundo os quais o Concílio havia dito coisa demais e teria iniciado caminho para um modelo de Igreja no qual já não mais se reconheciam. Alguém fala de um novo início, que se agregará ao conceito de refundação. Os anos 1960 foram muito diferentes daqueles em que a nascia a Companhia” - Felice Scalia in “A Companhia de Jesus e o Vaticano II”
4- Discurso no Aniversário da CM “da Scalleta”, 1949.
5- in “Bis Saecularii ("Duas vezes secular")- Constituição Apostólica. do Papa Pio XII sobre as Congregações Marianas, em 27 de setembro de 1948, comemorando o 200° aniversário da Bula "Gloriosae Dominae" ("Da gloriosa Senhora"), do Papa Bento XIV (Texto de "Documentos Pontifícios", Ed. Vozes, 1955).

A Ação do Sacerdote


Alexandre Martins, cm.

A ação do Assistente Eclesiástico na Congregação Mariana é alvo de dúvidas e discussões desde a mudança das Regras em 1967. alguns desejam sua postura tradicional de “diretor da Congregação”, outros se contentam com a postura de simples “assistente”.
As clássicas Congregações Marianas criadas pelo pe. Leunis eram o desdobramento do seu próprio cuidado e zelo pastoral. Eram como que uma “versão espiritual” de sua classe de alunos: se cotidianamente seus alunos aprendiam gramática, o grupo de seletos eram aprendizes das virtudes de Maria.

O padre Coster

Isso continuou até o surgimento das Congregações Marianas dirigidas pelo pe. Francis Coster. O jesuíta deu um novo modo de ser às Congregações Marianas que havia fundado, uma forma tão característica que os historiadores as chamam de “as Congregações do Padre Coster”.
Em suas Congregações, a atitude do sacerdote era mais do que a de um professor, mas a postura de um verdadeiro diretor de almas. O jesuíta toma a Congregação Mariana como uma obra própria, pessoal, usando dela para o progresso espiritual e humano de seus Congregados. Eram como “laboratórios” para a formação do “homo catolicus” - o homem fiel à Igreja que iria transformar a Sociedade à luz do Evangelho.
Os demais jesuítas, mais por admiração e reconhecimento do que por força de regras ou obediência, tomaram o modo do pe. Coster como exemplo e suas Congregações Marianas como modelo a ser seguido. Os séculos seguintes foram de grande ação das Congregações Marianas jesuítas até a Supressão da Companhia de Jesus no século XVIII.

Durante a Supressão

Neste hiato de quase um século em que os jesuítas deixaram de administrar as Congregações Marianas, as associações que continuaram abertas foram amparadas por sacerdotes ou bispos piedosos e conscientes de sua utilidade pra os cristãos e para a Igreja.
É neste momento que a característica de direção criada pelos jesuítas praticamente deixa de existir.
Os padre e bispos administravam as Congregações Marianas como as confrarias e irmandades que existiam na época: algo distante, entregue a um grupo de leigos dirigentes de boa fé. Mas sem a presença próxima e atenciosa do diretor espiritual. Praticamente como eram as irmandades nas igrejas de Minas Gerais. Assim as Congregações Marianas – e inclusive a Prima Primária – passaram décadas.

A postura sacerdotal ditada pelo pe. Wernz

Não se sabe porquê, quando da publicação das novas Regras em 1910 – as famosas “Regras Comuns” do pe. Wernz1 – a postura exigida do sacerdote era de total controle sobre a Congregação Mariana. Era algo novo na história, e surpreendentemente oriunda dos próprios fundadores das Congregações Marianas: os jesuítas. Talvez para retomarem ao controle absoluto sobre todas as Congregações Marianas como era antes da Supressão, talvez parte de um plano maior na Igreja e na Sociedade, mas não se sabe ao certo.
O que se viu foi o sacerdote ser, na Congregação Mariana, um completo dominador de toda a associação, alguém que ditava normas sobre os menores aspectos da vida de cada Congregado. Seu título demonstra claramente sua atuação: era o “Diretor da Congregação Mariana”.
Se o pe. Coster tinha sua fama por haver influenciado saudavelmente as Congregações Marianas dos quais era responsável, por sua vez o sacerdote do século XX após as Regas Comuns era literalmente o “dono da Congregação”:
Segundo a Constituição de Bento XIV, Laudabile Romanorum Pontificum, os Diretores particulares, nomeados pelo Prepósito Geral nas Casas e Igrejas da Companhia de Jesus tem plena autoridade em todas as coisas que pertencem ao regime, governo e administração espiritual e temporal das suas Congregações, de modo que podem – contanto que não toquem nas presentes Regas comuns – estabelecer as regras, estatutos e decretos particulares que prudentemente julgarem oportunos, assim como também modificá-los e mudá-los por completo, sem que seja necessário em caso algum obter ou pedir o parecer ou consentimento dos membros da Congregação.” - Regra Comum nº 16.

Mas, se isso era via de regra no Brasil, nem todos os locais acontecia o mesmo. A Congregação Mariana de Munique, nos anos 1940, era orientada pelo pe. Rupert Mayer. Este santo2 sacerdote dirigiu a Congregação Mariana com sabedoria e piedade, proporcionando aos Congregados aquilo que o jesuíta Villaret indicava3 como a verdadeira atuação do sacerdote: “estar na Congregação Mariana como a alma está no corpo”, isto é, invisível como a alma humana, mas dando vitalidade que se percebe num corpo vivo.

A Onda Azul brasileira

Com a atitude do Clero do Rio Grande do Sul4 em usar as Congregações Marianas como parte de seu trabalho pastoral, todas as paroquias da região tinham sua Congregação Mariana para jovens ou adultos homens. Isso motivou a outras dioceses em agir de forma semelhante e inicia-se a chamada “Onda Azul” no Brasil.
Durante a Onda Azul5 do marianismo, centenas de Congregações Marianas foram fundadas e “ser um Congregado mariano” se tornou sinônimo de “católico autêntico”.
Isso influenciou não só toda a Igreja como até mesmo a Sociedade brasileira.
Embora o período da Onda Azul tenha sido de curta duração, serviu para solidificar a característica brasileira de ser o sacerdote o “dono da Congregação”.
Se o título possa parecer um tanto forte demais para o leitor dos dias atuais, podemos explicar como era a sua atuação na Congregação Mariana da primeira metade do século XX.
O sacerdote era o Diretor da Congregação. Segundo as Regras de 1910, seus poderes eram totais e soberanos. Era o sacerdote que escolhia os diretores da Congregação Mariana e, mesmo assim, a ação destes era sempre de acordo com o pensamento do sacerdote que podia ate mesmo revogar os seus atos. Os novos Congregados eram aceitos ou recusados pelo sacerdote. As reuniões eram dirigidas pelo sacerdote e muito raramente era permitida sua reunião sem a sua presença. Todos os documentos da Congregação Mariana deveria ter a assinatura do sacerdote pra serem validos.
Em suma, se alguns sacerdotes dicavam os Congregados com mais atitudes próprias, a norma geral era de o sacerdote guiar pessoalmente a “sua” Congregação.

Novos tempos, atitudes antigas

Mas os tempos começaram a mudar a pós a 2ª Guerra e o próprio Papa pio XII viu essas mudanças e incentivou um papel mais atuante dos leigos na Sociedade e na Igreja. Em 1951, no primeiro Congresso Mundial do Apostolado Leigo, em Roma, o próprio Santo Padre, ele mesmo um Congregado mariano, incentivou a criação de uma Federação Mundial de Congregações Marianas. Era uma forma de desenvolver uma maior participação dos leigos na vida das Congregações Marianas, não deixando tudo nas mãos dos sacerdotes.
Isso já vinha sendo desenvolvido há anos em todo o Mundo e, embora parecesse à primeira vista como uma atitude monárquica do papa, era apenas a retificação de algo desejado por muitos. Afinal, com a proliferação de Congregações Marianas pelo Mundo, muitos jesuítas começaram a estudar os antigos Anais da Companhia e saber como funcionavam as antigas Congregações e descobriram que o pe. Leunis, o pe. Coster e muitos outros eram pioneiros em delegar e incentivar a direção das associações pelos Congregados. Isso séculos antes do Concílio Vaticano II.

O mal vem de onde menos se espera

As coisas correram bem até a 36ª Congregação Geral da Companhia de Jesus.
Muitos alegam que foi o Sagrado Concílio Vaticano II o causador de tantos males na Igreja, com por exemplo a queda vertiginosa do número e qualidade das Congregações Marianas. Isso não é verdade, nem um pouco.
O real motivo da perda de identidade das Congregações Marianas foi a mudança das Regras, que sim, foram um desdobramento da 36ª Congregação jesuíta, desejosa de “voltar às raízes” da Companhia. Essas novas Regra tiveram o nome de Princípios Gerais, e o sacerdote teve o título de “Assistente Eclesiástico”. Não mais um “diretor dos espíritos” dos Congregados mas um simples “observador da Igreja”.

O tempo dos Princípios

A função do sacerdote nos Princípios Gerais de 1967 era de apenas acompanhar a ação dos Congregados, sem influir decisivamente na vida da Congregação Mariana, a não ser para salvaguardar a Doutrina Católica e a união coma Hierarquia.
No Brasil esse novo modo de pensar teve um impacto fulminante. Centenas de Congregações Marianas fecharam suas portas e milhares de Congregados as abandonaram para migrar para os novos movimentos que surgiram na Igreja do Brasil. Os sacerdotes eram orientados por seus bispos a deixarem o trabalho pastoral na mão dos leigos e as associações de fiéis administradas totalmente por estes. Os bispos começaram a ter uma postura mais distante dos leigos preocupando-se mais com o momento social da época da Ditadura Militar brasileira. As Congregações Marianas do Brasil ficaram à própria sorte, isto é, à sorte de terem ou não leigos competentes e piedosos em suas diretorias. As Congregações que possuíam leigos assim continuaram, mas a s que dependiam exclusivamente dos sacerdotes fecharam. Devido a esses e a outros motivos, surgiu o triste costume de não haver presença de sacerdotes nas reuniões das Congregações Marianas.
Se por um lado foi benéfico, libertando as Congregações Marianas da obrigatoriedade de serem todas as suas reuniões com a presença do sacerdote para serem válidas, por outro lado as reuniões de Diretoria das Congregações Marianas das Federações e até das Confederação Nacional (CNCMB) ficaram sem a necessária presença eclesiástica para guiar os Congregados nesses anos confusos do apostolado leigo brasileiro.

Dom Vaz, SJ.

No inicio da década de 1990, um jesuíta repentinamente se interessa em trabalhar com as Congregações Marianas a partir da CNCMB, que essa época tinha ainda sua sede na capital fluminense. Como representante do Assistente Eclesiástico nacional, à época D. Eugênio Sales6 seu então bispo auxiliar assumia voluntariamente o cargo de Vice Assistente nacional das Congregações Marianas do Brasil: d. José Carlos de Lima Vaz.
O alvoroço que se espalhou por todo o Brasil com a presença de um eclesiástico atuante na vida das Congregações Marianas foi multiplicado por ser um bispo e, pasmem, um jesuíta! No pensamento romântico de muitos Congregados, todos os problemas das Congregações Marianas seriam resolvidos. A atuação de D. Vaz foi alvo de admiração por parte dos leigos e de perplexidade pelos sacerdotes. Com a criação da nova Regra redigida totalmente pelo jesuíta, a questão da ação do sacerdote ficou num meio-termo entre o poder total atribuído pelas Regras de 1910 e o distanciamento modernista dos Princípios de 1967. Faltou apenas educar os sacerdotes da época a agirem eficazmente nas Congregações Marianas. Ação que desconheciam por completo, pois os padres não eram mais aqueles que vieram das Congregações Marianas ou que ao menos haviam visto uma autentica Congregação Mariana.

O assistente “Leigo”

As Regras de 1994 criaram um novo personagem que poderia auxiliar o sacerdote em seu trabalho de assistência às Congregações Marianas. Por influencia do que foi apenas sugerido nos Princípios de 1967, surgiu a figura do chamado “Assistente leigo”.
Um diácono, um religioso ou até mesmo um Congregado mariano como leigo poderia ocupar essa função seguindo a Regra de Vida. Entretanto, não se tem noticia de nenhuma Congregação Mariana que tenha tido sucesso com essa atitude. O máximo que algumas conseguiram foi possuir uma especie de “instrutor com plenos poderes” e não um Assistente propriamente dito.
Os motivos para total fracasso são vários: desde a falta de uma correta compreensão da ação de uma Assistente na Congregação Mariana ate mesmo à falta de capacidade de gestão pastoral dos leigos. E, em nossa experiencia, um forte motivo para o insucesso do Assistente leigo é o fato de que os leigos sejam um pastor, um sacerdote. Não se contentam com um leigo travestido de pastor, mas querem um sacerdote real. É a este clérigo que aceitamos deixar que oriente nossas vidas.
Não precisaria o sacerdote deixar a assistência de sua Congregação Mariana nas mãos de um leigo, por mais bem preparado e piedoso que seja, por motivos de falta de tempo ou outros de ordem pastora. O trabalho dos diretores da Congregação Mariana e também dos Congregado mais antigos e experientes supera esse carência de amparo de cada membro da Congregação Mariana. Um bom Instrutor tem mais utilidade do que um “assistente leigo”.

A atitude do Sacerdote

O melhor termos para explicar a atuação e presença do sacerdote na Congregação Mariana já foi citado acima, dado pelo pe. Villaret: “como a alma no corpo”. A atitude que o sacerdote, ainda que com o nome moderno de Assistente Eclesiástico, deve ter, segundo a Regra de Vida, é uma mescla entre uma direção e um apoio.
Nem as Regras Comuns e nem os Princípios Gerais puderam prever o que s. João Paulo II escreveu sobre os fieis leigos7 em seu documento. Nele, o papa explicitou a atitude de todos os leigos tanto nas obras de caridade e apostolado quanto na responsabilidade dos sacerdotes para com eles, explicando e normatizando a ação dos agrupamentos de fieis. A Regra de 1994 cita o documento de João Paulo II em vários artigos e tem sua contribuição atual. Segundo as Regras do século XX e não esquecendo a tradição quadrissecular das Congregações Marianas, podemos demonstrar a atitude adequada do sacerdote nas Congregações.
O Assistente-Eclesiástico embora com esse titulo sugira um “expectador” é, de acordo com o proposto pelos jesuítas, um “orientador”, um “mestre”, e não apenas um auxiliar. Não é um “diretor” no sentido de possuir plenos poderes, como um príncipe em seu território ou um ditador que rege de acordo com seu próprio pensamento. Essa atitude, conforme explicamos acima, foi uma deturpação do ideal inicial das Congregações Marianas e, infelizmente, uma característica brasileira.
Isso pressupõe a existência de um sentimento de amor especial às Congregações Marianas na alma do sacerdote, um amor que, se não pelo fato de haver sido membro de alguma, será por ver nessa tradicional associação da Igreja o canal de graças e bençãos com que a Virgem Maria cumula a toda a Igreja de Cristo. “Conhecemos bem as Congregações Marianas: por experiência própria e com êxito feliz temos podido admira-las de perto e apreciar de quanta utilidade para os indivíduos, para as famílias e também para as nações donde florescem.” dizia o papa Pio XI8. Apenas este amor especial pelas Congregações Marianas fará um bom Assistente de Congregação Mariana.
Por mais que as instruções pastorais de muitos lugares ensinem ao pároco tratar todas as associações, grupos e movimentos com igual valor para não suscitar ciúmes, invejas ou outros problemas, a assistência de uma Congregação Mariana deve ser entregue a um sacerdote que compreenda a singularidade doas Congregações na História da Igreja. Em tempos aonde a profusão de carismas tem se difundidos cada vez mais, torna-se quase uma redução acreditar que uma associação possa ter tamanha importância acima das demais. Mas não somos nós que afirmamos tal grandeza mas grande número de documentos da Igreja louvando, elogiando, incentivando e recomendando as Congregações Marianas nesses quatro séculos. Caso surjam incompreensões da parte de fieis participantes de outras associações ou movimentos, deve saber que muitos grupos da Igreja foram criados, inspirados e ou auxiliados perlas Congregações Marianas. Torna-se então o trabalho com os Congregados como uma alavanca que levará a todos, direta ou indiretamente, a um nível desejado de comunhão eclesial e atitude apostólica.
A admoestações e pensamento pastoral do sacerdote quando sentado em seu lugar de Assistente-Eclesiástico na reunião da Congregação Mariana não se assemelha a estar no altar proferindo conselhos genéricos a todo o tipo de fiéis. Ele está perante uma elite católica, um grupo escolhido, perante pessoas que querem ser diferentes dos demais. É nesse momento que sua ação se dirige a um ideal maior: a transformação da Sociedade humana à Luz do Evangelho. Lembra-nos o pe. César Dainese, SJ:
A Congregação é a elite: são os servos de Maria que esse apresentam a levar todos a Jesus. A Congregação é a elite dos que se arrojam, os condutores, os que querem fazer mais, os que não põem limites à sua ação.(...) A Congregação Mariana é associação da nata, em que o elemento preponderante é a qualidade porque só assim pode realizar seus ideais e alçar seus fins, que são a santificação de seus membros por meio da intensidade da vida cristã”.9

Não basta ao Assistente preparar uma bonita palestra e estar solenemente presente em determinadas reuniões e Missas da Congregação Mariana. Sua presença, repetimos, deve estar inserida no acompanhamento espiritual de cada Congregado, por vezes, ele próprio será o diretor espiritual ou o confessor de quase todos os membros da Congregação Mariana. E é por esse caminho sagrado que irá guiar as almas dos Consagrados à Virgem Maria. Se há uma atitude particular - como que “ombro a ombro” - do Assistente com cada um dos Congregados, há também a necessidade de um pensamento coletivo, como um agrupamento: a orientação da Congregação Mariana como verdadeira associação de fiéis. Quando o pe. Villaret ensina10 que o sacerdote é na Congregação Mariana o “capitão de um navio”, quer indicar que é o guia de uma equipe que tem um ideal e uma meta, um lugar para onde se dirige. Não há Congregação Mariana que simplesmente “exista” sem um propósito de ação, seja ele local ou regional, seja para o desenvolvimento espiritual e humano de seus Congregados formando católicos convictos, seja agindo na Sociedade ou na Igreja aprimorando as boas atitudes existentes ou criando novas.
Deve o sacerdote lembrar – caso surja a tentação de se achar o “chefe da Congregação” – que sua postura é de não aparecer pessoalmente, mas sim fazer que a Congregação aconteça por meio dos Congregados devidamente orientados e estimulados por ele. O exemplo de vários outros sacerdotes deve estar em sua lembrança, como s. Afonso de Ligório, s. Luiz Grignion de Montfort, o bem-aventurado Rupert Mayer, citado acima, e tantos outros que usaram das Congregações Marianas para as suas atividades pastorais e de evangelização. Deve também o sacerdote lembrar dos conselho e indicações dos Santos Papas que indicaram as Congregações Marianas para toda a Igreja, como Pio XII, Bento XIV, Pio IX, etc.

Conclusão: deve-se amar a Congregação

Devido a esses fatos históricos a às provas tangíveis de sua importância para o bem das almas, o sacerdote deve ter a plena consciência de que sua assistência a uma Congregação Mariana é algo totalmente diferente dos demais grupos. Tende-se a ver o trabalho pastoral com as Congregações Marianas como uma amorosa vocação. Nem todos os sacerdotes são chamados a esse importante trabalho. Por mais que a Graça de Estado que acompanha o múnus sacerdotal capacite o sacerdote a ser o guia espiritual de tantos grupos eclesiais e de tantos carismas diferentes, a História nos mostra que a assistência a uma Congregação Mariana é algo especial, como que de uma classe de importância superior à varias outras. E por isso nem todos são chamados a esse trabalho, não por demérito pessoal, mas por não conseguirem alcançar o diâmetro da ação.
Em conclusão, a ação do sacerdote é algo fundamental para o sucesso da Congregação Mariana e é uma função de um sacerdote amoroso e piedoso.
Que a Virgem Maria, Rainha dos Sacerdotes, auxilie a todos os padres que a Ela suplicam no meio de seu santo ofício de auxiliarem a vida das Congregações Marianas!





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1- Franz Xavier Wernz – Francisco Xavier Wernz (4/12/1842 – 19/8/1914) foi o 27º Geral da Companhia de Jesus.
2- o bem-aventurado Rupert Mayer (1876-1945) foi Diretor da Congregação de Munique de
3- in “Le Directeur”, 1954.
4- Carta Pastoral coletiva dos Bispos da Província do Sul, 1907.
5- o período é discutido, mas é algo entre 1928 a 1938, durante o qual 848 Congregações foram fundadas.
6- por força de um decreto antigo, o prelado elevado a Cardeal-Arcebispo da Sé do Rio de Janeiro era assumia automaticamente o cargo de Assistente Eclesiástico Nacional das Congregações Marianas do Brasil.
7- Christifideles Laici ("Os fiéis leigos") - Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa João Paulo II sobre vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, de 30 de dezembro de 1988.
8- carta “A Diretores de Congregações Marianas” - 27/5/1922.
9- revista “Estrela do Mar”, novembro de 1936, págs. 282-285

10- op.cit.

A Fita na Gaveta



Alexandre Martins, cm.


No Brasil, o uso de uma fita azul é característico dos Congregados marianos desde os tempos do Império. É nossa melhor propaganda e não devemos deixá-la na gaveta como apenas uma lembrança.

História

Não se tem precisão desde quando uma Congregação Mariana iniciou o uso de fitas azuis como suporte para a medalha que simboliza a Consagração Perpétua à Virgem Maria. A medalha é citada desde o século XVI, mas não o objeto que a sustenta.
O que se sabe é que o impacto que o uso desta insígnia teve na Cristandade foi tanto que influenciou a muitas outras associações. O Apostolado da Oração, por exemplo, começou a usar fitas vermelhas por influência do uso de fitas azuis pelos Congregados, ao invés de somente o “detente”, que ficou estampado1 na fita dos Zeladores. Outros países usaram, e ainda usam, cordões para suportas as medalhas, e outros lugares, como no Brasil, são fitas azuis. Mas somente no Brasil há o costume de larguras diferentes. De aspirante até Congregado as larguras aumentam simbolizando, dentre outras coisas, o crescimento no amor à Virgem Maria.

Influência positiva

Mas, desde o momento que alguém coloca a sua primeira fita no pescoço, percebe que sua presença começa a afetar outros à sua volta.
A presença de uma insígnia religiosa em um ambiente religioso provoca certa comoção nos presentes. Estes percebem que aquele não é alguém comum, mas, pelo contrario, uma pessoa especial. É alguém que fez uma opção mais radical de vida de santidade, e mais ainda, não tem vergonha de demonstrar isso.
As pessoas percebem suas atitudes, modos, e veem que poderão ser esses os corretos. Em decorrência, começam a imitá-lo. É uma saudável imitação de atitudes. O Congregado torna-se, assim, um exemplo positivo para os demais. É um grande apostolado que a fita azul nos faz fazer sem sentirmos.
Há vários exemplos na História das Congregações:
Ao lhes impor a medalha num dia tão frequentado ajuda também muitíssimo que percebam que são Congregados e assim humildemente vivendo forçam a seus familiares a cumprir os mandamentos e a frequentar a Comunhão”.2

Um fato bem comentado é do então Presidente Getúlio Vargas, quando de uma concentração de congregados no Rio de Janeiro, em 1934, admirou-se tanto com o número de homens de terno branco e tas azuis que exclamou:“Parecem um exército ! Que será de nós se eles vierem a se rebelar !” Ao que prontamente um prelado ao seu lado replicou:“São o exército branco da paz de Nossa Senhora, sr. Presidente. Não precisamos temer e, sim, confiar. Eles estão sempre dispostos a ajudar nossa nação !” 3
Manuel Lubambo (...)Mariano cheio de amor à Rainha Aparecida do Brasil, via na sua fita azul uma insígnia de chefe, tinha no seu terço a força para as lutas, buscava nas suas regras as diretrizes de sua vida. Essas lutas eram reais e sua vida era intensa. Era Congregado escritor e orador, combatente, chefe dos movimentos contra a Maçonaria, o Comunismo, a falta de patriotismo cristão.4

As sandálias do anti-triunfalismo

Houve, na historia recente da Igreja na América Latina, uma atitude de despojamento material como se o uso do belo e das honrarias fosse algo que afrontasse a figura de um Cristo pobre e desprezado que seria, segundo os adeptos dessa tendência, o Cristo “real” e não o Jesus Cristo Rei do Universo.
Com esta mentalidade – nada oficial na Igreja mas fruto de pensamento pessoal de alguns padres e bispos – o termo “anti-triunfalismo” foi disseminado e sutilmente colocado nas mentes dos leigos. O resultado prático desse pensamento, dentre outros resultados maléficos, foi que as pessoas começaram a frequentar as igrejas com roupas desleixadas e até com roupas velhas e chinelos. Foi uma forma de serem mais “pobres” e assim participar de uma Igreja “preferencial pelos pobres”. Foi daí que surgiu o uso de camisetas, calças jeans desbotadas e chinelos no Espaço sagrado.
Num ambiente tão desleixado assim, o uso das insígnias religiosas como a fita azul foi perdendo o seu espaço e, com isso, a perda da melhor propaganda visual das Congregações Marianas. Não é de se espantar que fossemos desconhecidos pela maioria dos religiosos nos anos 1990.

A fita, o decoro e a Liturgia

Então o uso da fita azul promove também o decoro nas vestes na igreja? Sim, pois certas combinações não caem bem com o uso da fita azul. Não se trata de gosto pessoal mas de bom senso. Isso é visto nas moças que optam pelo véu nas Missas: abandonam as calças jeans e usam saias.
Da mesma forma a fita azul dá ares de dignidade à pessoa que a usa. E realmente um Congregado mariano é uma pessoa digna, pela opção de doação que fez.
Diz o Catecismo Mariano:“O Congregado deve ver a medalha da Congregação como uma comenda, uma distinção de honra dada por uma rainha a seu combatente”.5

E seu uso com as vestes litúrgicas? Nada há na Liturgia que o desaprove. Muito pelo contrário, há bispos e padres que usam a fita azul sobre os paramentos. D. Raimundo Damasceno a usa sobre o pálio episcopal quando das Missas com os Congregados. Sabendo do significado do pálio, a atitude não é pouca coisa.

Conclusão

O Congregado mariano possui um apostolado simples e eficaz: o uso da fita azul. É um apostolado que pode ser feito por qualquer um, a todo o momento, sem precisar de mais nada. Teólogos e homens simples, moças e empresários, jovens e idosos, todos podem fazer este apostolado. As Congregações Marianas seriam mais conhecidas com esse gesto e, em decorrência, mais cristãos poderiam conhecer o caminho de santidade da Consagração à Virgem Maria nas suas Congregações.Não deixemos a nossa fita azul na gaveta.




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1- o "Detente!",um recorte de pano onde se pinta ou borda a figura do Coração divino emoldurado pela frase: "Detém-te! O Coração de Jesus está comigo!" Santa Margarida Maria Alacoque (Congregada mariana francesa) transcreve um desejo que lhe fora revelado por Nosso Senhor: “Ele deseja que a Senhora mande fazer uns escudos com a imagem de seu Sagrado Coração, a fim de que todos aqueles que queiram oferecer-Lhe uma homenagem, os coloquem em suas casas; e uns menores, para as pessoas levarem consigo”. Nascia, assim, o costume de portar esses pequenos Escudos. Ela confeccionou muitas dessas imagens e dizia que seu uso era muito agradável ao Sagrado Coração.
2- in “Carta del Pe Jaime Valles ao Pe. Provincial” - Butúan, Espanha - 9/12/1913.
3- D. José Gonçalves da Costa, CSSR, Arcebispo de Niterói (RJ), Homilia no Dia Nacional do Congregado Mariano, Basília de Nossa Senhora Auxiliadora, Niterói, RJ,1989. Citado no livro “Perguntas a um Congregado”, deste autor.
4- pe. Pedro Américo Maia, SJ, in “História das congregações Marianas no Brasil”, Edições Loyola, São Paulo , SP, 1992, pág.145
5- “Union” - boletim do Colégio Nsa. Sra. De Lourdes, Valladolid, Espanha, 1/12/1953

Os Atos Oficiais de uma Congregação Mariana – I

 

atividades para cada um



Alexandre Martins, cm.

É comum, infelizmente, que alguns que participam das Congregações Marianas em sua juventude acabem por deixar de frequentá-las quando ingressam numa faculdade ou mesmo quando contraem matrimonio. Uma das razões para isso - se não a razão principal - é que a programação de atividades de uma Congregação Mariana seja dirigida a um tipo específico de pessoas.
Se entendermos que uma Congregação Mariana tem por característica justamente direcionar-se para uma classe de pessoas, como jovens, estudantes, etc, isso não seria um problema.
Entretanto, após o Sagrado Concílio Vaticano II, a quase totalidade das Congregações Marianas tornou-se paroquial, mista e sua característica própria a não ser aceitar qualquer tipo de fieis católicos. Com isso, não é estranho vermos em uma mesma reunião de Congregação Mariana participantes que são jovens, ou casados, ou solteiros, ou adultos, ou idosos e ate mesmo crianças. Se isso é contrário à tradição das Congregações Marianas, pior ainda é o problema que causa essa realidade: um formação rasa e generalista.
Se em uma Congregação Mariana paroquial possa ser impossível a separação por idade, instrução ou estado civil, uma alternativa sera fomentar atividades que sirvam a essas classes de pessoas,conforme a índole secular própria de sua condição de fiel leigo, inserido nas realidades temporais e participando como cristão das atividades inerentes a seu estado de vida e trabalho social.”1
Tomemos como exemplo jovens que contraem matrimonio e são ativos na Congregação Mariana. Por força de mudança de estado de vida, e, inclusive, serem chamados a dar bom testemunho na vida matrimonial como bons Congregados, esses jovens não terão o tempo e a mentalidade necessárias para continuar com essas atividades que faziam anteriormente. Cumpre, então à Diretoria da Congregação Mariana proporcionar a eles novas atividades ou mesmo a participação nas que a já existam, como as que sejam de acordo com seu estado matrimonial,com atividades internas e trabalhos apostólicos próprios, com uma coordenação especial.”2
Reuniões especiais, tardes de formação temática e um sem numero de atividades podem ser criadas ou ampliadas pela Congregação Mariana para esse e outros casos. É igualmente, importante o conhecimento e a prática dos métodos de trabalho pastoral que o capacitem para desempenhar eficazmente sua missão apostólica e a atividade evangelizadora na comunidade em que atua e no meio familiar e social.3
Diz S. João Paulo II:
A vocação dos fiéis leigos à santidade comporta que a vida segundo o Espírito se exprima de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais e na sua participação nas atividades terrenas. (…) o Concílio afirma categoricamente: ‘Nem os cuidados familiares nem outras ocupações profanas devem ser alheias à vida espiritual’. A vocação à santidade deverá ser compreendida e vivida pelos fiéis leigos, antes de mais, como sendo uma obrigação exigente a que não se pode renunciar(...) a vocação à santidade anda intimamente ligada à missão e à responsabilidade confiadas aos fiéis leigos na Igreja e no mundo. (...) inúmeros fiéis leigos, homens e mulheres, que, precisamente na vida e nas ocupações do dia a dia, muitas vezes inobservados ou até incompreendidos e ignorados pelos grandes da terra, mas vistos com amor pelo Pai, são obreiros incansáveis que trabalham na vinha do Senhor, artífices humildes e grandes — certamente pelo poder da graça de Deus — do crescimento do Reino de Deus na história.”4

A norma para tudo isso pode ser resumida nesta frase “os Congregados não podem participar de todas as atividades da Congregação Mariana, mas a Congregação Mariana deve ter atividades para todos os Congregados”.
Uma Congregação Mariana ativa e responsável tem um calendário de atividades bem diverso e rico. Reuniões de formação, reuniões de diretoria, horas santas, apostolados e outros nem sempre podem ser comparecidas por todos os Congregados, mas a Congregação Mariana deve promover atividades para todos.
O principio motor é a preocupação com a piedade do Congregado. A partir desse principio, a Graça de Deus fara suscitar em nossas mentes a criatividade em desenvolver novas atitudes de apostolado e ascese.
Que a Virgem nos ilumine!

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1- Regra de Vida 13
2- Regra de Vida 44
3- Regra de Vida 31
4- in “Exortação Apostólica Pós-sinodal Christifideles Laici – sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no Mundo”, 30/12/1988

A Formação da Ação



Alexandre Martins, cm

As Congregações Marianas são tradicionais no apostolado e essa ação fomenta a formação que se propõem a dar a seus membros. É uma atitude retroalimentada: a ação urge da formação enquanto a própria formação impele à ação.

Mais que uma escola, um exército

Um equivoco bem comum, infelizmente, é ver uma Congregação Mariana como somente uma escola - um local aonde apenas se obtêm formação espiritual - e que a ação, o apostolado ou a caridade sejam atitudes que são relegadas a outras associações ou pastorais, ou mesmo somente ao foro pessoal de cada Congregado. Diz o papa Bento XV: “não basta haver dado o nome a uma Congregação, posto sobre os auspícios da Virgem, para merecer o qualificação de “verdadeiros congregados marianos”.1
Embora possa acontecer isso, sem muito prejuízo para a Congregação Mariana como um todo, a forma clássica das Congregações Marianas é que as obras apostólicas – e mesmo as sociais e caritativas - sejam fomentadas ou “capitaneadas” pelos Congregados nos locais aonde estejam. “Quem dá o nome às Congregações Marianas, não somente professa tender a um crescimento individual na virtude, senão também querer ocupar-se no bem do próximo; e assim o avanço espiritual como o zelo pelo bem dos outros ponha-os sobre o maternal patrocínio da Santíssima Virgem.”2
Essa atitude de primazia nunca deve ser entendida como alguma manifestação de vaidade ou orgulho, mas como uma forma clássica da formação pessoal apostólica e humana do Congregado. É um “estilo de ser”. Somos uma elite e, como os antigos reis que saíam à frente de seus exércitos, temos a atitude primeira. Lembra-nos o papa Pio XI: “quando, unidos a vós e a vosso clero, trabalham em público e particularmente para que Jesus Cristo seja conhecido e amado, é quando sobretudo merecem ser chamados linhagem escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo resgatado.”3

A formação fomenta a ação

Somente uma reunião ordinária da Congregação Mariana não proporciona ao Congregado aquela formação que se preconiza a um “católico com sinal mais”. Isso é comprovado. Por melhor e mais bem preparada que seja a palestra e também as meditações, a formação só se completará a contento quando for experimentada na prática. Por exemplo, não basta uma palestra sobre caridade se a associação não fomenta uma distribuição de brinquedos às crianças pobres no Natal. “As Congregações Marianas (devem) claramente promover nos fiéis a maior perfeição espiritual e também mais eficaz espírito de zelo para o bem do próximo.”4
Em alguns grupos católicos dá-se a essa ação o nome de “gesto concreto”. Embora com outros nomes essa atitude é uma herança das Congregações Marianas, uma contribuição sua à Igreja, sendo usada por varias pastorais, mesmo que estas não saibam dar o devido crédito.

Os benefícios para toda a vida

Como exemplo de que forma o apostolado e as atividades praticadas na Congregação Mariana podem ajudar na formação do Congregado, podemos listar:
  • O espírito de união – todas as atividades das Congregação Mariana pressupõem um grupo de Congregados mesmo sendo um grupo grande ou pequeno. Isso fomenta o espirito de colaboração entre pessoas e, mais ainda, pessoas cristãs. “Lhes desejamos recomendada com muito encarecimento a fraterna caridade, para que a guardem e exercitem continuamente, não somente com os demais congregados, senão também com todos os fiéis cristãos e, praticando assim sem cessar obras de piedade e misericórdia”.5
  • O modo de obedecer – não se trata apenas de “ser obediente”, mas sim de “como exercitar essa obediência”. Não obedecer como um escravo ou um empregado assalariado, mas obedecer como um vassalo livre e fiel a seu rei, como uma filha que ama a seu pai.uma total submissão e obediência, aquela tão recomendada, e para seu bem espiritual”6
  • O sentido de disciplina – saber obedecer a alguém também é obedecer aos que foram colocados por essa pessoa a nos orientar. Um grupo tem um líder, que foi nomeado por alguém acima dele. A disciplina nos ensina que cada pessoa tem uma função e que cada um deve exercê-la corretamente para o bem de todos. “Não recusem obedecer com pronta e animada vontade aos mandamentos e conselhos dos particulares diretores designados em todas as coisas que pertencem ao estado e governo das mesmas Congregações.7
  • O sentido de ordem – as Congregações Marianas costumam agir com organização quase militar. É tradicional nelas e também seu carisma. Uma herança jesuíta. A ordenação é querida pelo próprio Deus e é um complemento da disciplina. Somos um “esquadrão em ordem de batalha sob a autoridade e obediência dos pastores da Igreja, não só em virtude da fervorosa e incondicional sujeição a Sé Apostólica, mas também pela humilde e dócil submissão às ordens e conselhos dos Ordinários.” 8
  • O “sentir-se Igreja” - no apostolado o Congregado se sente com um “embaixador” da Igreja em certos ambientes e isso o ensina como agir com responsabilidade cristã também em outros momentos da sua vida. “Levem uma vida digna de seu nome de cristãos e própria de um congregado que se tem consagrado à Virgem.” 9

Ajuda no “discernimento dos espíritos”

São vários os ensinamentos práticos que a ação apostólica ou social das Congregações Marianas pode proporcionar aos Congregados. A Lista é maior. “Que congregado poderia dizer-se que mostra o suficiente zelo pelo bem do próximo, se não concorre, como poderia, ao ensinamento do Catecismo na paróquia, se não visita aos enfermos ou presos, se não favorece do modo que possa, as obras de caridade sugeridas pela diferentes circunstâncias dos tempos e do lugares?”10
Para os Diretores, é também um campo de prova para os candidatos à Consagração. É no seu desempenho nestas obras externas que se pode medir o desprendimento, doação de sim mesmo e as retas intenções dos aspirantes e candidatos. Numa palavra, se o espirito da pessoa será o indicado para a Congregação, se é realmente o seu caminho.
Que possamos entender corretamente a dupla missão das Congregações Marianas na busca da santidade de seus membros transformação do Mundo à Luz do Evangelho usando das obras de ação.
Admoesta o papa Bento XV, mais um dos papas Congregados marianos:
Que proveito tão grande reportara para a família cristã, se os membros dela atendessem, como devem os congregados, à própria santificação e ao bem do próximo ! Não há quem não veja quanto se facilitaria a finalidade da sociedade, tanto religiosa como civil.”11

Santa Maria, Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!


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1 - papa Bento XV - Discurso no 40º Aniversário de seu Ingresso na Congregação Mariana - 9 de dezembro de 1915
2- ibid nota 1
3- papa Pio XI - Encíclica “Ubi Arcano” - 23 de dezembro de 1922
4- ibid Nota 1
5- papa Bento XIV - Bula Áurea “Gloriosae Dominae” - 27 de setembro de 1748
6- ibid Nota 5
7- ibid Nota 5
8- papa Pio XII – Constituição Apostólica “Bis Saecularii” sobre as Congregações Marianas - 27 de setembro de 1948
9- ibid Nota 5
10- ibid Nota 1
11- ibid Nota 1

A Tentação do Estudo


Alexandre Martins, cm.


É infelizmente bem comum hoje em dia que um jovem deixe a reunião da Congregação Mariana por estar se preparando para uma prova ou seleção muito importante. O que poderia parecer algo sem muita importância é, na realidade, uma maligna tentação para os jovens Congregados.

O Programa de Vida de um Congregado

Muitos sentem um tipo de orgulho em preterir a Congregação Mariana e até mesmo os deveres religiosos – mesmo a Santa Missa – por estarem se preparando para as provas, sejam para a faculdade, concurso ou mesmo o ensino médio. Esse orgulho - leia-se “vaidade” - em não se considerarem no mesmo lado daqueles que deixam de estudar em casa por estarem envolvidos em atividades pastorais. Mas ambos estão errados. Falaremos aqui dos que se dedicam exageradamente aos estudos e deixaremos os relapsos carolas para falar em outra ocasião.
As Congregações Marianas sempre foram famosas por agruparem jovens estudiosos e responsáveis. Os melhores alunos das escolas eram os membros das Congregações Marianas e não os piores alunos. Por isso há tantos Congregados marianos famosos, cientistas, estadistas e etc.
Então, como os jovens que são estudantes dedicados deixaram de participar das Congregações Marianas?
Há vários motivos, e um deles é uma má compreensão da organização do dia do jovem Congregado, o que se chama “Programa de Vida”.
Organizar o dia, medir as horas, aproveitar o tempo: é o segredo do sucesso de todo o profissional. As Congregações Marianas colegiais sempre insistiram na necessidade do jovem Congregado possuir uma disciplina em seu tempo. Mas essa disciplina não era somente para o horário de estudo, senão para todas as atividades do seu dia. Era como uma “dieta” que deveria ser seguida. As orações diárias, as devoções e atos de piedade, as ações de caridade e ,claro, os estudos, eram fielmente colocadas em um horário e seguidas com dedicação. Essa disciplina de herança jesuíta sempre teve sucesso. Eis o Programa de Vida do Congregado mariano.

Os 5 pontos da Tentação

Em meados do seculo XX cresceu na Sociedade um relaxamento em todas as práticas diárias. A Escola, por influencia de pensadores como Foucault e Paulo Freire, se tornou muito lasciva e as antigas práticas rígidas ficaram restritas às escolas militares. Esse relaxamento da sociedade atingiu a Igreja através dos leigos. As devoções populares, antes tão fervorosas, foram aos poucos esmorecendo e se transformando apenas em manifestações culturais.
Nas associações de leigos a mudança foi drástica: as reuniões tornaram-se bem descompromissadas e assemelhadas a um bate papo entre amigos num bar. E esse é um dos motivos que o jovem deixa os compromissos com a a associação pra ficar em casa estudando...
Há pontos que devemos avaliar nessa preferencia pelos estudos e que constituem propriamente a “tentação”:
1 – A indisciplina anterior pessoal que culminou na urgência em estudar mais nas vésperas dos exames.
2 – Acreditar que o excesso de horas de estudo ira mudar o resultado final.
3 – Desprezar ou não entender a forma de avaliação de muitas provas.
4 – Deseprezar os deveres religiosos em nome de uma suposta “responsabilidade” humana.
5 – A confiança apenas no próprio esforço e não tanto no auxilio de Deus.

O primeiro ponto indica que o estudante deixou tudo para a ultima hora. É o famoso caso dos que creditam seu sucesso a trabalhar sob pressão. Mas se o profissional de sucesso é aquele que sabe trabalhar sob pressão, ao mesmo tempo é aquele que não precisa de pressão para fazer um bom trabalho.
É o costume diário que fará a nossa mente ir compreendendo toda a ciência e não fórmulas milagrosas que nos fará ler – e aprender – um livro de 500 paginas em 30 minutos. Sabe-se que grandes descobertas astronômicas foram conseguidas após incontáveis horas ao telescópio, dia após dia. Todos os professores são unanimes em afirmar que o sucesso nos estudos provem de horas diárias de leitura e exercícios. Para isso, devemos voltar ao Programa de vida dos Congregados, com sua hora para tudo, tanto estudos quanto piedade.

O segundo ponto é a perversão do primeiro. Não há método de leitura dinâmica que supere a leitura periódica e constante da bibliografia. Do mesmo modo que, na futura vida profissional, não serão as noites sem dormir que farão o trabalho ter sucesso e dar lucro.

O terceiro ponto é um problema que acomete muitas instituições. Há o que popularmente se chamam “panelas”, ou seja, grupos fechados de pessoas com interesses comuns que monopolizam locais de trabalho. Se alguém estranho ao círculo de amizades dessas pessoas deseja ocupar algum cargo ou vaga ocupados por eles sofrerá algum tipo de dificuldade ou impedimento. Por isso alguns jovens tem fácil acesso a cursos de mestrado ou doutorado e outros, por vezes mais capazes, tem reprovação. Isso é tão comum em algumas áreas que jovens advogados procuram entrar em grupos como a Maçonaria imaginando que terão mais facilidade em admissão a cargos. Pode causar um certo pessimismo ou desânimo para alguns, mas o certo é que as avaliações de muitos lugares não veem mérito ou brilhantismo mas somente “apadrinhamento”. Quanto a essa distorção de valores nada a se fazer senão desprezar esses exames e focar em outros mais legítimos. Por mais que Congregados marianos se auxiliem mutuamente não há nada de ilegítimo ou favoritismo nisso. Então, não é porque seu avaliador é Congregado como você que irá ser injusto com outros e lhe dar a preferência.

No quarto ponto talvez encontremos a real tentação que o jovem católico tenha enquanto procura o sucesso futuro de sua vida. Por uma má compreensão do ditado popular - “primeiro a obrigação, depois a devoção” - ele entende que as devoções religiosas vêm em segundo lugar na vida, e as obrigações do estudo ou trabalho em primeiro lugar.
Isso é contra o que as Congregações Marianas sempre ensinaram aos seus congregados, pois uma imensa lista de intelectuais e cientistas dá testemunho que os deveres religiosos sempre caminharam lado a lado com os compromissos profissionais. Seria como uma corrente de elos coloridos: sem um deles, não há força. As Academias1 foram criadas pelas Congregações Marianas para nelas fomentar e explicar essa junção “fé e vida” aos Congregados. Nunca antes na história da Igreja uma associação de fiéis teve esse tipo de preocupação. Se hoje temos Congregados marianos que não professam esse ordenamento de vida talvez seja por não existirem mais Academias ou seções semelhantes dentro das Congregações Marianas.

O quinto e último ponto pode parecer um tipo de loucura ou manifestação de alguma beatice. Entretanto é a a ação concreta do que nos ensina2 s. Inácio de Loyola: “fazer, como se tudo dependesse de nós mesmos; esperar, como se tudo dependesse de Deus”.
Essa máxima nos dá a solução para alguns problemas.
Devemos fazer, arquitetar, planejar, executar, com todo o afinco que possamos. Devemos usar de todos os meios lícitos para alcançarmos nosso objetivo profissional. Devemos usar dos momentos dedicados ao trabalho para que os minutos tenham seus frutos.
Mas não devemos esquecer da máxima3 que “o homem põe e Deus dispõe”. Não adianta o trabalho sem a ajuda de Deus. Mas não fazer uma barganha do tipo “toma lá, dá cá”, na qual a quantidade de orações será revertida em dinheiro e prestigio. Devemos por justiça nos colocar nas mãos de Deus e ter a plena consciência de que nossas vida e tudo o que nela está é dirigida por Deus.

Corolário de exemplos

Exemplos não faltam, mesmo nas Congregações Marianas. O empresário Otávio Piva de Albuquerque, grande comerciante de vinhos no Brasil, trabalhou duro para que chegasse ao patamar de sucesso, distribuindo grande e famosas marcas de vinho no Brasil, praticamente criando um mercado consumidor inexistente por aqui. Em seu testemunho4 de sucesso afirma sua dedicação à oração e à Missa diária, com um bom Congregado mariano que é. “Católico fervorosíssimo, devoto de Nossa Senhora, Piva integra a Coordenação das CCMM de São Paulo, faz retiro, reza diariamente, vai com a família à missa aos domingos e todo sábado visita necessitados. A religião afeta inclusive os negócios. Por causa do nome e da imagem no rótulo, Piva recusa-se a importar o vinho Casillero del Diablo, um dos únicos da Concha y Toro que não representa.”
A leitura das biografias de grandes cientistas nos mostraram que muitos tiveram seus sucesso sem descurar de seus deveres religiosos.
Como diz Mário5 Saturno: “Grandes nomes foram formados nas fileiras das Congregações Marianas, como o arqueólogo Joest Léps (1547), o cientista e matemático francês René Descartes (1596), o pioneiro cirurgião francês José Cláudio Antelmo Récamier (1774), o britânico inventor do estetoscópio Renato Teófilo Jacinto Laennec (1781), o matemático francês Barão de Cauchy (1789), o cientista italiano Alexandre Volta (1745) homenageado na unidade de medida de tensão elétrica "volt", o astrônomo alemão Eduardo Heis (1806) e muitos outros.”

Professores universitários como Tolkien6 iam à Missa diariamente e ainda tinham tempo para serem grandes escritores: “...tendo influenciado C.S. Lewis a deixar o ateísmo e se converter ao cristianismo (…) Tolkien frequentava sempre a missa e após a comunhão rigorosamente se confessava com o padre da paróquia.”7

Uma sinistra pedagogia

Com todos esses dados já citados, por que ainda se insiste que o jovem católico está correto em abandonar tudo pelo estudo? A resposta é terrível: por que é o início de seu afastamento das coisas de Deus.
É o início de uma sutil e constante mudança de paradigma; e nessa nova mentalidade se imagina que o sucesso profissional provém do esforço pessoal e que Deus nada tem a ver com isso, ou pior, até pode atrapalhar! Os jovens católicos são aos poucos afastados do ambiente religioso para ficar à mercê dos ambientes mundanos do trabalho ou dos ambientes ideológicos das universidades. É como deixar o ambiente de nossa família para somente conviver com as pessoas de má índole. Isso não é a forma de agir do verdadeiro jovem Congregado mariano. “Quem ama o perigo nele perecerá.” (Eclo 3, 27).
Se temos uma família piedosa, amorosa e unida, que nos dá a orientação, o ânimo e o suporte necessário, e por mais que andemos em ambientes ruins, as chances de nos afetarem negativamente são muito poucas. Assim é quando o jovem Congregado está frequente em sua Congregação mariana. 

Conclusão

O mundo do seculo XXI nos questiona em todos os aspectos de nossa vida. Não para nos arguir, mas para nos fazer cair. É um mundo tecnicista, hedonista, consumista e ideologizado. Se não tivermos a salutar orientação de Igreja por meio da Congregação Mariana facilmente iremos nos perder.
Diz8 o Santo Padre Francisco: “a cultura do nosso tempo tem fome do anúncio do Evangelho, precisa de ser reanimada por testemunhos fortes e firmes. Face aos riscos da superficialidade, da pressa, do relativismo, podemos esquecer-nos do compromisso de pensamento e de formação, de espírito crítico e de presença que foi confiado ao homem, só ao homem, e que está inscrito na sua dignidade de pessoa. Recordai-vos das palavras de Montini: ‘É a ideia que guia o homem, que gera a força do homem. Um homem sem ideias é um homem sem personalidade’. Sabei conciliar a primazia da realidade com a força das ideias que tiverdes pesquisado.”

Roguemos à Virgem, Sede da Sabedoria, que nos oriente a fazer nossos estudos e trabalhos para maior glória de Deus.



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1- “círculos de estudo que os ajudem a crescer no campo doutrinário, cultural e profissional, os levem à discussão de temas religiosos, científicos e literários, artísticos, políticos e econômicos, dentro de uma visão cesta da pessoa humana e do mundo da cultura” - Regra de Vida 32
2- cf. Petrus de Ribadeneyra, Tractatus de modo gubernandi sancti Ignatii, c. 6, 14: MHSI 85, 631.
3- a frase original é : “O homem propõe, Deus dispõe.” - Tomás de Kempis, in “Imitação de Cristo”, 1.19.9
4- disponível em http://chefadilsonsoares.blogspot.com.br/2013/08/otavio-viu-o-vinho-como-o-maior.html
5- astrônomo, Tecnologista Sênior no INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
6- John Ronald Reuel Tolkien, conhecido internacionalmente por J. R. R. Tolkien ( África do Sul, 3/1/1892 — Inglaterra, 2/9/1973), foi um premiado escritor, professor universitário e filólogo britânico, que recebeu o título de doutor em Letras e Filologia pela Universidade de Liège e Dublin (1954) e autor das obras como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion. Em 28/3/1972 Tolkien foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II.
7- disponível em http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/grupo-catolicos-quer-tornar-j-r-r-tolkien-santo-igreja/

8- Mensagem à FUCI, Federação Universitária Católica Italiana, no congresso extraordinário organizado em Arezzo em 16 de Outubro de 2014.