Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Pesquisar este blog

Samambaias

Alexandre Martins, cm.



Todos os homens devem trabalhar em prol da salvação dos outros no próprio estado de vida, por obediência ao princípio do amor santo.1



Uma samambaia é uma planta curiosa: não tem aroma como a arruda e a hortelã, não tem flores como o jasmim ou a flor-de-maio, não dá frutos como a pimenteira. É simplesmente uma planta. Está ali, verde, viva, crescendo, trocando de folhas e morrendo.
Há pessoas que são como a samambaia: apenas vivem. Estão em movimento, trabalham, estudam e apenas isso. Sem ideais, sem mudanças significativas, sem nada. Apenas vivem. Pessoas que ocupam espaço no ônibus, numa fila, numa multidão.
Há plantas que apenas sua presença faz uma grande diferença. A arruda com seu cheiro acre é percebida mesmo se estiver cortada em molhos. O crisântemo não tem aroma para os humanos, mas seu cheiro espanta todo o tipo de inseto: basta plantá-lo num jardim e não há mais nenhum problema com moscas e pragas.
Há pessoas, que simplesmente com sua presença, fazem uma grande diferença. Nem precisam estar em passeatas ou falar alto. Basta sua presença e o ambiente se torna diferente. Sabem sorrir, conversar, agir de um modo agradável. É gostoso o ambiente onde estas pessoas estão. A alma é uma árvore nascida para o amor; sem ele não vive. Privada do amor divino da caridade, não produz frutos de vida, mas de morte.2
Em contrapartida outras pessoas, como as samambaias, apenas estão. Simplesmente estão. É por isso que se colocam samambaias em escritório, em especial, os escritórios refrigerados: elas não sofrem com a falta de sol, nem com a mudança de temperatura. Basta um pouco d'água e estão lá, verdes. Nem tem cheiro para que possam incomodar os que são alérgicos. Há pessoas que apenas estão. Não agem. São uma plateia silenciosa. Apenas estão lá. Não riem, não choram, nem tossem. Apenas sabemos que estão lá porque as olhamos e estão vivas nos olhando. A Fraqueza da Fé de muitos nasce de seus maus costumes.3
Nas Congregações Marianas se confundem samambaias com hortelãs.
Há diretores que, por medo de estar a Congregação com poucos membros, por ambição ou mesmo por uma certa compaixão de alguma pessoa, admitem aos quadros de congregados literalmente qualquer tipo de “verde”, ou seja, qualquer pessoa que esteja participando da Santa Missa é chamado para ser congregado, para ingressar numa Congregação. Mas esses apenas “estão”. Não fazem nada, não propõem nada, não progridem em nada. Como samambaias, existem. Quem não Me ama, também não ama os homens. Por isso não os socorre.4
Mas não deve ser assim. O congregado deve ser aquele que dá diferença. Alguém que com sua presença irradie uma presença benfazeja no ambiente e em todos os que o rodeiam. Assim como o alecrim. Assim como as rosas. [você deve] Não contentar-se apenas com o próprio progresso espiritual mas tornar-se para os outros amparo, fonte e centro da vida espiritual.5
Só com esta influência benéfica é que podemos alargar as fronteiras do Reino de Cristo na Terra. Só assim poderemos levar a bem-aventurança às criaturas. Deus quer salvar uns por meio dos outros.6
Uma das consequências de desenvolver uma espiritualidade positiva é querer compartilhá-la com outros, levar uma mensagem de esperança, uma vida nova e novas possibilidades aos outros.7
Há sempre boas pessoas de ambos os lados, mas para um congregado ser realmente digno deste nome deve ser uma hortelã... ou uma pimenteira... mas nunca uma samambaia.



_________________________________________
1- s. Catarina de Sena, in “O Diálogo”, ed. Paulinas, pág. 144
2- ibid. pág. 44
3- s. Afonso de Ligório, in “Prática do Amor a Jesus Cristo”, ed. Santuário, pág. 128
4- s. Catarina de Sena, in “O Diálogo”, ed. Paulinas, pág. 36
5- b-av. Jorge Matulaitis, in “Diário Espiritual”, Ed. dos Padres Marianos, pág. 56
6- d. Estêvão Bettencourt, OSB, homilia em 7 de maio de 2000 na Abadia NsªSrª de Montserrate, Rio de Janeiro, RJ.
7- pe. Gérard H. Chylk, CSSR, in “12 passos para aprofundar a sua Fé”, ed. Santuário, pág. 23

Nossa Senhora de Guadalupe: modelo de evangelização


Alexandre Martins, cm
sobre Excertos do texto de Mons. Guerrero1



O Nican Mopohua - crônica das aparições da Virgem de Guadalupe - é narrado no idioma dos índios do México e, segundo seu conceito religioso e cultural, indica, em seu início, a época e o contexto dos fatos:
"... Dez anos após a conquista da cidade do México, no momento em que, finalmente, as flechas e os escudos foram depostos e que a paz passou a reinar em toda parte, entre os povos, surgiu a fé e o reconhecimento d`Aquele por meio de quem tudo vive: O Verdadeiro Deus, havia surgido, brotado, e, verdejante, abria a sua corola..."
A paz, para um índio do México daquela época, não representava regozijo algum. A civilização asteca havia nascido das "flechas e dos escudos" da guerra. Esta era a sua razão de ser. Para aqueles índios, extremamente religiosos, era por meio da guerra e do sacrifício humano que o universo se mantinha preservado.
Após o sacrifício dos deuses, dando vida ao universo, tornou-se dever dos homens e, mais particularmente, dever do povo do sol, colaborar com o sacrifício dos deuses, preservando o universo com a oferta do sangue. Cada ser humano foi chamado ao sacrifício e à doação do sangue. Porém, o sangue é ofertado no momento dos sacrifícios humanos e, as guerras contínuas, têm a função de alimentar, por meio das vítimas, esses sacrifícios sangrentos. Quando os sacrifícios humanos e as guerras que os alimentam cessam, é a civilização asteca que deixa de existir, pois já não é mais necessária ao sustento do universo.
É sobre esses escombros da antiga ordem do mundo que o Nican Mopohua indica o florescimento de uma nova fé e de um novo conhecimento do Verdadeiro Deus.

"...Juan Diego, o menor dos meus filhinhos, acolhe o que te digo como verdade; fica sabendo que eu sou a perfeita, a sempre virgem, Santa Maria, mãe do Deus verdadeiro, por quem tudo vive, sou mãe do Criador das pessoas, mãe d´Aquele que é proprietário de tudo o que está próximo e de tudo o que está longe; Ele é o Senhor do Céu e da Terra..."
Tanto para Juan Diego como para os índios do México, não se tratava de uma descoberta, a existência de um Deus único, criador de todas as coisas. Além da abundante quantidade de deuses, no mais alto céu, aquele que é o mais inaccessível permanece; Ometeotl, o deus da dualidade, sendo por si só, princípio masculino e feminino, o pai e a mãe de todos os deuses e de qualquer outra coisa. É exatamente no céu de Ometeotl que se encontram a paz, a harmonia e a estabilidade. Logo abaixo, nos níveis dos deuses e dos homens, se encontram as alterações, a instabilidade, o conflito e a guerra.
A boa nova, a novidade inesperada e extraordinária é que Ometeotl tenha uma genitora e que esta genitora seja humana. Ometeotl é mãe e pai dos outros deuses, mas ele mesmo não possui nem pai, nem mãe. Antes, em sua categoria, os homens só tinham conhecimento de suas manifestações parciais e conflituosas: a grande quantidade de deuses. A partir de então, o próprio Inacessível desce até seus filhos, os homens: e foi este prodígio que Maria Santíssima, a Virgem e Mãe, veio anunciar Ao mundo.

"...Eu quero, eu desejo, realmente, que aqui seja erguida minha pequena casa sagrada; nela eu O mostrarei, e O exaltarei revelando-O a vós..."
A santíssima Virgem Maria pede que se erga um templo no local onde ela aparece, no alto da colina de Tepeyac, antigo centro de culto dedicado a uma deusa mãe. Porém, este templo será consagrado a um novo culto: a exaltação e a revelação do Deus único, Ometeotl.
Este pedido foi dirigido ao bispo local através do vidente Juan Diego Cuauhtlatoatzin (1474-1548). Apesar de ser muito pobre e, doravante, um católico convicto, Juan Diego era príncipe e sacerdote pagão. Então, como legítimo representante político e religioso dos índios, solicitou ao representante do novo deus, trazido pelos espanhóis, autorização para erigir um templo dedicado à exaltação e à revelação do Deus único, Ometeotl.
Além disso, Juan Diego não chega de mãos vazias. Ele oferece um sinal ao bispo, representante legítimo da religião católica dos espanhóis; as magníficas rosas surgidas em pleno inverno no solo árido da colina de Tepeyac: eram flores do paraíso, do céu, da religião dos astecas. Um tal dom impressionou o prelado.
Em seguida, na presença do prelado, Maria Santíssima deixou sua imagem impressa na tilma2 de Juan Diego. A imagem é a presença verdadeira daquele ou daquela que nela está representada. A tilma, é o símbolo da pessoa que a veste. Na presença e sob a autoridade do bispo católico, Maria Santíssima virgem, levando ao seio o Deus único, Ometeotl, imprime sua imagem no manto daquele humilde homem que representava, então, os índios do México. É a Encarnação que se estende.

"...porque, na verdade, eu sou vossa mãe compassiva, tua mãe e mãe de todos os homens que, nesta terra, são um só; e sou mãe de todas as diversas raças de homens..."
Maria Santíssima anunciou a boa nova da presença do Deus único Ometeotl entre os homens. Ela enuncia, a seguir, as conseqüências (a conseqüência): a unidade. Não existe mais a guerra como razão do existir, visto que Aquele que é harmonia e paz desceu, enfim, no meio dos homens.
Maria manifesta, além disso, esta unidade na representação de sua pessoa, ao longo das aparições e sobre a imagem que nos deixou. Ela se apresenta com o nome de Santa Maria tal como os espanhóis a chamam, e se submete, em seus pedidos, ao acordo do prelado espanhol, mas jamais pronuncia o nome de Jesus Cristo, ao falar do Deus único e de sua encarnação, segundo os conceitos da cultura e da religião indígena. Sobre a tilma de Juan Diego, ela se deixa representar num estilo pictórico espanhol, porém o código de leitura da imagem pertence completamente à cultura dos indígenas.
Além disso, seu rosto não é representado nem como o de uma mulher espanhola nem como o de uma mulher índia, mas como o de uma senhora mestiça, união das duas raças.
Assim nasceria um povo novo, os mexicanos: povo profundamente mariano e católico.


* * *


1- GUERRERO, Monsenhor José Luis G. (Vice-postulador da Causa da canonização de Juan Diego Cuahtlatoatzin): EL NICAN MOPOHUA, Um intento de exegese; Flor e canto do nascimento do México; os dois mundos de um índio santo. 
Disponível em http://www.virgendeguadalupe.org.mx/bibliografia.htmAcesso em 13/12/2009.
2- uma espécie de capa inteiriça colocada sobre os ombros que ia até a cintura e feita de palha de coco.