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O Angu Azedo



Alexandre Martins, cm.

Se em alguns lugares as Congregações Marianas não florescem ou mesmo fecham as suas portas, podemos comparar a ocasião a um angu1 que azeda e não se pode consumir.
O angu, um típico prato brasileiro, é de confecção bem simples: pó, água e tempero. Existe uma receita bem simples que qualquer pessoa, mesmo sem dotes culinários pode fazer. Mas, e se salgarmos demais?
Um angu muito salgado fica “incomível” (sic) e nem aquele que o fez consegue comê-lo. Ou então, quem o fez se agrada do saber salgado mas não consegue com que outros comam. O angu então é deixado de lado, azeda e é jogado no lixo.

 

A receita da Congregação

De modo análogo, uma Congregação Mariana é de uma “receita” bem simples: oração, meditação e apostolado. Diz2 o Papa Pio XII: “Mas - e é o principal, - muito mais que o número de membros se hão de ter em conta as regras e leis pelas quais os congregados são como que levados pela mão àquela excelência de vida espiritual que os torna capazes de subir aos cumes da santidades principalmente com o auxílio daqueles meios com os quais é utilíssimo que estejam apetrechados os perfeitos e íntegros seguidores de Cristo.”
A oração se refere aos momentos de oração3 em conjunto feita nas reuniões ou promovida pela Congregação Mariana, somente para os Congregados, em conjunto com outras pessoas, ou em colaboração com outros grupos. Isto faz com que seja desperto no coração dos Congregados o costume, a forma correta e a compreensão da necessidade da oração.
A meditação se refere às palestras, às leituras em conjunto, às formações, por cursos internos ou externos promovidos4 pela Congregação Mariana. São os momentos que os Congregados aproveitam para seu crescimento interior. São as ocasiões que a interioridade do saber espiritual pode ser sentido no coração e futuramente aproveitado, se segue aqui o indicado5 por s. Inácio de Loyola; “não é o muito saber que sacia a alma, mas sim o saborear intimamente”.
Por apostolado6 se indica tanto o individual quanto o apostolado em grupo. O congregado mariano é uma pessoa eminentemente apostólica. Não proselitista como muitos protestantes, mas com um sincero e puro sentimento de salvação das almas. O Congregado mariano é aquele que sempre procura o verdadeiro bem do seu próximo, que é colocá-lo em contato com Deus. As formas com que irá proporcionar às pessoas esse contato serão diversas e serão de acordo com cada caso. Para isso se segue a máxima7 da “criatividade do amor”. O apostolado em grupo, promovido e organizado pelos Congregados, serve para compreender o sentido de Igreja, de coletividade, de união para a instauração do Reino de Cristo sobre a Terra. Serve também para educar os novos no apostolado, indicando e educando-os sobre como e com qual espírito de amor que se promove o Reino. Há apostolados que são mais eficazes se feitos em conjunto.

 

Azedando

A receita simples das Congregações Marianas pode ser “azedada” se alguém muda os ingrediente ou altera a quantidade de cada um. Torna-se então uma receita a gosto de quem a faz e não para ser consumida por todos.
Esse é o fim de muitas Congregações Marianas: são formas cradas por alguém e que são rejeitadas pelos demais. O resultado é o desanimo e a dispersão.
Vemos Congregações Marianas outrora com muitos membros e grande atividade. De uma hora para outra, os membros foram esmorecendo e se dispersando. Se percebe que a “receita azedou”.

 

Como não azedar

A precaução para que isto não aconteça é o seguimento amoroso às Regras e à Tradição das Congregações Marianas. Seguindo o proposto nas Regras e aprendendo com os casos de sucesso relatados na História das Congregações Marianas teremos como evitar novas ideias que podem ser maléficas para a associação. Não se trata, como à primeira vista podemos pensar, de “engessar” a Congregação Mariana, não a aprimorando às mudanças do tempo, mas é apenas a consciência de que a Igreja trabalha com a causa e não com o efeito dos problemas humanos. Como disse8 o Santo Padre, “entre as formas de pobreza presentes no mundo, a miséria mais perigosa é o distanciamento de Deus”. A causa dos problemas e situações que aparecem como novos é apenas o distanciamento de Deus. “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol - nihil novi sub sole.” (Ecl 1,9). E, para isso, as Congregações Marianas já resolveram esses problemas de vários modos e formas ao longo dos seus 450 anos. Basta apenas copiar e repetir as ideias já consagradas.
A solução para a correção de alguma Congregação Mariana que tenha “azedado” também é a mesma: a obediência às Regras e à Tradição. Diz9 o Papa Pio XII: “As regras comuns - cuja observância, ao menos no essencial, é requerida para impetrar a agregação são calorosamente recomendadas a todas as Congregações, como sumário e documento da disciplina observada pelos antigos congregados e consagrada pelo uso constante.”
Retornar ao caminho que foi abandonado por algum motivo, mesmo com boas intenções, não é covardia ou demérito mas sim humildade e coração reto. “As Congregações Marianas, que plenamente correspondem às atuais necessidades da Igreja, devem, por vontade dos sumos pontífices, conservar intactas as suas regras, métodos, índole própria.”10
Que nossas visões e intenções particulares sejam guiados pelo bem comum e que sejam colaborações sincera para a Congregação Mariana.
A Congregação é mariana, ou seja, de propriedade da Virgem Maria.11
Que a Virgem, Estrela do Mar, nos guie.

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1- Angu é um prato típico da culinária brasileira preparado geralmente com fubá (farinha de milho), pouca água e sal escaldados.
2- Constituição Apostólica “Bis Saecularii Die”, sobre as Congregações Marianas, parágrado 4.
3- Regra de Vida, artigo 29
4- Regra de Vida, artigo 23
5- "Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma (a pessoa), mas o sentir e saborear intimamente todas as coisas ”. (EE 2).
6- Regra de Vida, artigos 33 a 35
7- “o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor. Fazem falta certamente a tenacidade, a fadiga, o trabalho, o planejamento, a organização, mas, antes de tudo, você deve saber que a força da Igreja não reside nela própria, mas se esconde nas águas profundas de Deus” - papa Francisco, discurso no Encontro com o Episcopado Brasileiro na Visita Apostólica por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, 27/7/2013
8- Papa Francisco ao receber em audiência (20/5/13) cerca de 7.500 pessoas da Associação “Comunidade Papa João XXIII”.
9- ibid Nota 2, parágrafo 20.
10- ibid. Nota 2, parágrafo 19
11- É Mariana, porque seus membros a ela se vinculam por um compromisso público: a Consagração a
Nossa Senhora.” - Regra de Vida, artigo 5, letra B.

O Tripé das Reuniões



Alexandre Martins, cm.

Uma Congregação Mariana tem características próprias. E são parte de sua tradição secular, como as reuniões ordinárias, ou seja, as reuniões comuns e frequentes.
Uma reunião comum de Congregação Mariana, erroneamente chamada há alguns anos de “reunião de formação” tem três pilares básicos e absolutamente necessários: oração, meditação e ação (ou apostolado). A Regra de 19941 apenas sugere, sem obrigação, esses pilares. Mas, a nosso ver, são os pilares que são essenciais para dar forma a uma reunião autêntica de Congregação Mariana.
O método das Congregações Marianas é diferente das demais associações
O método Ver-Julgar-Agir2 não se aplica a uma reunião de Congregação Mariana pois a raiz delas está na espiritualidade de S. Inácio de Loyola. Além disso, “são três os objetivos principais da Congregação Mariana: apostolado, vida interior e o culto à Virgem Maria.”3
Para s. Inácio, a oração é a base da ação. E a oração necessita da meditação para que possa ser sentida no interno do coração. A partir dessa meditação pessoal4 se poderá fazer a ação pretendida ou necessária.
Os três pilares
O “tripé” das reuniões das Congregações Marianas é seguido da mesma forma desde a primeira, a Congregação da Anunciação, de 1563. Poucas modificações foram feitas, mas sempre os pilares foram mantidos. O descaso desta forma tradicional ocasionou a ruína de muitas Congregações, resultando em seu fechamento.
A “oração” da reunião compreende as orações tradicionais5 ou até outras que o Tempo Litúrgico ou a piedade dos Congregados suscitar. As orações tradicionais a uma reunião são: a invocação do Espírito Santo (recitada ou cantada), o Pequeno Ofício da Imaculada Conceição (rezado, ou melhor, semitonado segundo o Manual dos Congregados) as orações pelas intenções dos presentes e pelas do Santo Padre. O período de tempo que todas essas orações devem durar é de 20 minutos.
Por “meditação” entende-se o período de tempo dado à palestra ou à leitura de algum texto piedoso. Também faz parte desse período os debates ou perguntas sobre ele, feitas pelos Congregados ao palestrante ou mesmo entre si. O tempo é de 30 minutos aproximadamente.
Por “ação” ou apostolado, entende-se as atividades6 a serem propostas pela diretoria a todos ou as sugestões espontâneas surgidas na ocasião. Cumpre-se a leitura da ata para que as propostas já discutidas não sejam novamente faladas e que os atos propostos sejam cobrados e avaliados. O tempo dedicado a isso é de 15 minutos aproximados.
As Indulgências
Uma reunião de associação religiosa possui suas indulgências especiais. É por isso tão útil para o bom católico participar de reuniões assim. As Congregações Marianas possuem suas próprias Indulgências7 e das quais os Congregados participam mesmo apenas nas reuniões:
  • Pela presença à Reunião semanal, ganhando-se a Indulgência Plenária8 durante a semana em dia à escolha.
  • Pela presença à Reunião semanal, ganhando-se a Indulgência Parcial no dia, no ato.
  • Os candidatos participam de todas as Indulgências.
  • As orações semanais que se rezam durante as reuniões, oferecidas pelas intenções do Sumo Pontífice, bastam para lucrar as Indulgências das reuniões.
  • Estas Indulgências podem ser lucradas com reuniões quinzenais.
O Testemunho dos Santos
Os santos foram testemunhas oculares do bem que as reuniões das Congregações Marianas produziam nos fiéis. Muitos sentiram isso em suas próprias vidas, como Congregados marianos. O exemplos são muitíssimos, mas, para não nos alongarmos, fiquemos apenas com o que nos indica Santo Afonso9 de Ligório: “Lembra-te das últimas coisas e não pecarás jamais” (Eclo 7,40). Se tantos pecadores se perdem é porque não as meditam. “Tem sido desolada inteiramente toda a Terra, porque não há nenhum que considere no seu coração” (Jr 2,ll). Ora, os associados das Congregações são levados a pensar nelas, por tantas meditações, leituras e sermões que aí se fazem. “Minhas ovelhas ouvem a minha voz” (Jo 10,27). Em segundo lugar, para salvar-se é necessário encomendar-se a Deus. Fazem-no os membros das Congregações continuamente, e Deus os atende com mais facilidade, porquanto Ele mesmo declarou que de boa vontade concede suas graças às preces feitas em comum. “Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a Terra, qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida, por meu Pai que está nos céus” (Mt 18,19). Aqui observa Ambrosiasta: “Muitos fracos tornam-se fortes quando se mantém unidos, e a oração de muitos não pode ficar desatendida”.10
Um dinamismo secular que não se restringe a apenas um tipo
Uma reunião de Congregação Mariana, como se pode perceber, é dinâmica e prática. O tempo de duração total é aproximadamente de uma hora, mas pode ser um pouco aumentado vez ou outra de acordo com a necessidade. Reuniões muito extensas não são o comum nas Congregações.
Essa é uma reunião típica de uma genuína Congregação Mariana e se as circunstancias pedirem, outras reuniões, de outros tipos, poderão ser criadas e oferecidas aos Congregados, mas sem substituir essas Reuniões Ordinárias.
As Reuniões Ordinárias são a base da vida de toda a Congregação Mariana e são o alimento espiritual e moral para todos os Congregados marianos. O principio do fim de uma Congregação é quando essas reuniões são desprezadas ou feitas sem cuidado.
Uma boa Congregação Mariana tem essas reuniões todas as semanas.
Não significa que a vida de uma Congregação se reduza a somente a essas reuniões, pois, como foi já indicado, outras atividades – reuniões de estudo do catecismo, horas santas, etc – fazem parte da programação da Congregação, mas que dizer que elas são o minimo que uma associação necessita ter para ser chamada de Congregação Mariana.
As reuniões ordinárias são o modo tradicional e comprovadamente eficaz de formação da personalidade do verdadeiro Congregado. “Seja fiel em comparecer às reuniões marcadas, que não se devem perder para atender aos negócios do Mundo. Pois na Congregação se trata do mais importante de todos os negócios: a Salvação Eterna.” - S. Afonso Maria de Ligório.


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1- “as reuniões ordinárias, nas quais deveria haver sempre uma parte destinada à formação, ao lado das orações e dos assuntos próprios da pauta da reunião” (Regra 29)
2- O método da Ação Católica de origem belgo-francesa compreendia três momentos: ver a realidade sócio-econômica-política-cultural, julgar a mesma realidade a partir da Palavra de Deus e da Igreja e agir de acordo com a ação de Deus para transformar a história. Seu idealizador foi o Cardeal belga Josef-Léon Cardijn. As raízes desta abordagem se fundamentam na crítica moderna e no uso de uma visão moderna antropocêntrica e no valor das realidades terrestres (C. Perani, La revisione di vita. Strumento di evangelizzazione alla luce del Vaticano II, Torino 1968; A. Brighenti,, «Raíces de la epistemología y del método de la teología latinoamericana», Medellín 20 (1994) 207-254).
3- Servo de Deus Franciszek (Francisco) Blachnicki, in “palestra na Congregação Mariana de Alunos do Seminário (Czestochowa, Polônia, 29 de julho a 2 de agosto de 1948)
4- " Chamo consolação, quando na alma se produz alguma moção interior, com a qual vem a alma a inflamar-se no amor de seu Criador e Senhor; e quando, conseqüentemente, nenhuma coisa criada sobre a face da terra pode amar em si mesma, a não ser no Criador de todas elas. E também, quando derrama lágrimas que a movem ao amor do seu Senhor, quer seja pela dor se seus pecados ou da Paixão de Cristo nosso Senhor, quer por outras coisas diretamente ordenadas a seu serviço e louvor. Finalmente, chamo consolação todo o aumento de esperança, fé e caridade e toda a alegria interior que chama e atrai às coisas celestiais e à salvação de sua própria alma, aquietando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor". (s. Inácio de Loyola, livro dos Exercícios, artigo 316)
5- Regras Comuns
6- “...as Congregações Marianas, como as suas regras aprovadas pela Igreja altamente proclamam, são associações imbuídas de espírito apostólico, que, ao incitar os seus membros, por vezes arrebatados até aos cumes da santidade, a procurar também a perfeição da vida cristã e a salvação eterna dos outros, sob a direção dos pastores sagrados, e a defender os direitos da Igreja, conseguem também preparar incansáveis arautos da Virgem Mãe de Deus e adestradíssimos propagadores do reino de Cristo. ” Papa Pio XII, Const. Apost. Bis Saecularii, § 13.
7- Observação: Embora a Lista da Sagrada Penitenciária Apostólica esteja datada de antes do Manual das Indulgências – o qual reformou a aplicação das mesmas a toda a Igreja – algumas delas são de uso universal.
Estas fazem parte do Resumo da Lista de Indulgências e Privilégios aprovados pelo Papa Pio XII anexa à Constituição Apostólica “Bis Saecularii Die”, de 27/IX/1948, incluindo as relações das reformas feitas pela Constitução Apostólica “Indulgentiarum Doctrina”, do Papa Paulo VI, de 01/01/1969, revista à luz do “Enchiridion Indulgentiarum”: Manual de Indulgências da Penitenciária Apostólica, em sua 3ª edição de 18/05/1986. “Perguntas a um Congregado”, do mesmo autor, São Gonçalo, 2005, pág. 70.
8- só uma vez cada dia, exceto “in articulo mortis” - E.I., norma 21, § 1° e 2°
9- Bispo e Doutor da Igreja, fundador dos Redentoristas, congregado mariano na Congregação Mariana de Nápoles (Itália)
10- “Perguntas a um Congregado”, do mesmo autor, São Gonçalo, 2005, página 93