Águas de Maria

 
 
A água do Sacramento é visível.
A água do Espírito, invisível.
Aquela lava o corpo e significa o efeito que produz na alma:
é por esse Espírito que a alma é purificada e alimentada.
S. Agostinho de Hipona 1


A Comemoração do Batismo do Senhor nos renova a lembrança de algo arraigado na cultura popular brasileira e difundido por várias seitas e religiões: a Iniciação na Fé ou na Igreja por meio de um ritual simbólico-espiritual.
Com efeito, a primeira coisa que é feita pelos pais de uma criança após seu nascimento é a preparação do seu Batismo na Igreja Católica. Quer sejam “praticantes” ou “de estatística”. Os motivos são vários: preservar dos maus-olhares, proteger contra o Demônio, fazer com que fique mais bonita, atender ao pedido da tia ou avó, etc...
Poucos entendem o significado real e místico do rito. Daí tantas preocupações dos párocos com a recusa dos pais e padrinhos de participarem dos cursos de padrinhos, de aceitarem minúcias do Ritual, etc...
Evidentemente, a solução global para tantos problemas está em educar a comunidade. E isto só é plenamente conseguido nos que participam ativamente da vida da Igreja, como os Congregados marianos. Inclusive faz parte do programa de instrução para aspirantes em muitas Congregações o estudo pormenorizado dos Sacramentos que compõem o Rito de Iniciação Cristã: Batismo, Eucaristia e Crisma. Estes bem educados farão em si e nos demais um bom fruto.
Uma das características da Consagração à Virgem nas Congregações Marianas é a vivência da vocação cristã proveniente do Batismo. A Consagração a Nossa Senhora é uma expressão mais radical da Consagração Batismal do Congregado Mariano2. Daí tão importante para os Congregados a meditação deste Sacramento.

Vivenciar o Batismo. Um degrau de ascese cristã. Somos chamados (vocação = chamado) por Deus a sermos santos. Hæc est Voluntas Dei, sanctificatio vestra. (Esta é a Vontade de Deus: a vossa santificação) 3. Temos vocação à santidade. O Cristo nos chama a evangelizar (evangelho = boa-nova)4. Temos vocação a levar a Boa-Nova da Salvação para todos os Homens. O Batismo nos dá esta dimensão missionária: evangelizar.

Nas cerimônias do Tríduo Pascal, há a ocasião em que o Círio Pascal é aceso, simbolizando a Ressurreição do Messias. No seu fogo puro, os acólitos acendem suas velas e passam para a assembléia que acendem uma a uma também as suas. O fogo passa de vela para vela. Ninguém acende sozinho, mas recebe de outro.

O simbolismo é belo: a Fé (o fogo) passa como Virtude Teologal da sua fonte, Cristo (o Círio), para a Igreja (os acólitos) e esta a leva para o Mundo (a Assembléia). Ninguém deve acender sua vela, a não ser por outra, pelo mesmo motivo que ninguém possui a Fé se Deus não no-la der e ensinada por outra pessoa que já a tenha. Lembremos que portamos uma vela acesa no Rito do Batismo. Esta vela acesa no mesmo Círio Pascal é acesa somente nesta ocasião fora do Tempo da Páscoa. Se não somos nós, por sermos crianças, alguém como nosso padrinho a sustém. Este mesmo padrinho que irá suster e fazer desenvolver nossa Fé até a idade madura. (O mandato missionário está então plenamente exemplificado).

E qual a relação entre a Consagração dos Congregados marianos e o Batismo?

Na Consagração prometemos fazer conhecer a Virgem e que todos a amem mais5. Acreditamos que a devoção à Virgem é um espetacular meio de chegar mais plenamente ao Cristo, o Caminho por excelência6. Então, praticando e fazendo com que outros pratiquem a devoção marial, estamos em última análise fazendo que sejam mais cristãos, estamos levando o Evangelho. Estamos vivendo o chamado missionário do Batismo. A verdadeira devoção à Maria, um suposto mariocentrismo, leva necessariamente a um cristocentrismo7.

Na Consagração, prometemos a santidade própria e dos demais8. Estamos obedecendo àquilo que prometemos ou prometeram por nós na Pia Batismal. Estamos vivendo a vocação à santidade que provém do Batismo.

Para exemplificar mais esta estreita relação entre Batismo e Consagração marial, as Congregações criaram alguns simbolismos. Nos antigos Ritos de Consagração dos Congregados Marianos, o candidato proferia sua Consagração à Virgem, segurando uma vela acesa do mesmo modo que no Batismo9. O simbolismo é claro: estava ratificando a promessa feita no Sacramento, através de uma devoção que lhe ajudaria a progredir na virtude.

Portanto, a vivência da Consagração à Virgem Maria nas Congregações Marianas é a vivência do próprio Batismo pelo cristão comum. É de acesso livre a todos que se sentirem chamados a este estilo. Daí tantos sacerdotes, bispos, cardeais e até pontífices terem tantas vezes tecido louros à Consagração na Congregação Mariana: “Conhecemos bem as Congregações Marianas: por experiência própria e com êxito feliz temos podido admirá-las de perto e apreciar de quanta utilidade são para os indivíduos, para as famílias e também para as nações donde florecem10”.

Sabiam que deviam o fato de estar onde estavam à vivência do chamado à santidade e evangelização proferido no Batismo e desenvolvido na Congregação Mariana. Eram humildes em acreditarem que tudo o que tinham, provinha das bondosas mãos daquela Senhora que sempre é nossa Intercessora perante a Trindade Beatífica que, como diz a secular oração, “nunca desampara a quem dela recorre” 11. Sabiam, outrossim, que apesar de receberem as Sagradas Ordens eram simples discípulos do Mestre a quem o Apóstolo dos Gentios avisava “quem está de pé cuidado para não cair12”. Cuidavam de não caírem, segurando nas puras mãos da Mãe, como as crianças fazem.

Peçamos à boa Senhora, “Cidade de Refúgio”, que nos refugie em seus braços, sobre seu manto real, das insídias do Mundo. Peçamos que nos guie, “Estrela do Mar”, para o porto de Cristo. Peçamos que a “Senhora das Candeias” nos ajude a manter acesa a chama da nossa Fé como as virgens prudentes13 nesta noite de nossa vida até a chegada do Divino Noivo de nossa alma.


Alexandre Martins, cm.
in "Palavra do Assistente", 2006,
págs.27-30




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1 - “Confissões”, ed. Quadrante, S.Paulo, 1995, pág. 137 -
2
- Regra de Vida nº 6b. -
3 - 1Tes 4,3. -
4
- Mt 28, 19 -
5
- antiga fórmula de Consagração, atribuída a s. Francisco de Sales. -
6 - Regra de Vida nº 11a -
7
- “Les Congrégations Mariales”, pe. Émile Villaret, SJ., Paris, 1957, pág. 57 -
8 - Regra de Vida nº 11b -
9 - “Manual dos Congregados de Nsª. Srª - Congregações Marianas”, 3ª edição oficial, 1935, pág. 88. -
10
- papa Pio XI (1922-1939) - A Diretores de Congregações Marianas - 27 de maio de 1922 -
11
- Oração atribuída a s. Bernardo de Claraval († 1157). -
12 - 1Cor 10, 12 -
13 - Mt 25, 1-12.

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