O ícone de Lydda

Alexandre Martins, cm.


          A Sé Titular da Palestina Prima no Patriarcado de Jerusalém, Lydda é chamada atualmente de Lod. Lod (em grego Lydda) é uma cidade da Palestina, na Planície de Sharon, a sudoeste de Jafa. Dista cerca de 20 quilômetros de Jopa, na estrada para o porto de Jerusalém. Seu padroeiro é São Jorge, pois acredita-se que o santo tenha nascido lá.
          Foi fundada por Samad, da tribo de Benjamim, conforme relatam as Sagradas Escrituras (1Cr 8,12). Tempos depois, alguns de seus habitantes foram capturados e levados a Babilônia, depois retornando os sobreviventes (Esd 2,33; Ne 7,37; 11,34). Em meados do século II a.C a cidade foi dada pelos reis da Síria aos Macabeus (1Mac 11,34.57). O imperador Júlio César deu Lod aos judeus em 48 a.C. A cidade teve guerras civis durante a revolta dos judeus contra Roma no primeiro século da Era Cristã.
         Os primeiros cristãos da cidade foram visitados pelo próprio Pedro, cura o paralítico Enéias, segundo o Novo Testamento (At 9,32,35,38).
         Seu primeiro Bispo foi Aécio, amigo de Ário, este heresiarca do Arianismo. O título episcopal de Lydda ainda existe no Patriarcado Grego de Jerusalém.
         O peregrino Teodósio fez a primeira menção da tumba de São Jorge em Lod no ano de 530, o que a tornou tão famosa que a cidade teve o nome de Georgiopolis (do grego “Cidade de Jorge”). Foi erguida uma magnífica igreja sobre o túmulo do mártir, sendo reconstruída pelos Cruzados. Ainda se mantém até hoje pela Igreja Grega. Com a chegada dos Cruzados em 1099, Lod se tornou uma Sé católica. O papa Bento XVI visitou o local, onde celebrou a Liturgia com os Padres Orientais.

             Existe uma tradição que remonta ao tempo da heresia Iconoclasta1 e que narra a história do Ìcone de Lydda, uma história impregnada de deslumbramento.
            Quando Pedro e João converteram numerosas pessoas, em Lydda, lá erigiram uma igreja, consagrada à Mãe de Deus, e pediram à Virgem Maria que a visitasse, abençoando-a com a sua presença. Mas a Mãe de Deus lhes respondeu: “Ide com alegria, eu estarei convosco!”
             Quando os apóstolos chegaram à Igreja de Lydda, encontraram sobre uma das colunas a imagem da Mãe de Deus, feita milagrosamente, sem a ação de “mãos humanas”. Mais tarde, a Virgem Maria, em pessoa, visitou a Igreja, abençoou a imagem e conferiu-lhe a graça de realizar milagres.
             No século IV, a imagem foi ameaçada pelo Imperador Juliano, “o Apóstata”, que enviou pedreiros com a ordem de destrui-la. Porém, esta resistiu aos golpes dos cinzéis. O fato milagroso deu origem à grande afluência de peregrinos vindos de todo o Oriente.
              Nas vésperas da Revolta Iconoclasta, São Germano de Constantinopla, ainda monge da Palestina, desejava muito ver o ícone de Lydda antes de partir para Constantinopla, onde ele seria eleito o famoso patriarca. Para ter a Virgem de Lydda sempre perto de si, São Germano pediu a um artista que fizesse uma cópia da imagem, e levou-a. Em 725, o imperador Leão III2, desencadeou a destruição dos ícones. O patriarca São Germano foi expulso da Sede Episcopal e viu-se obrigado a deixar a capital.
             Antes de seu embarque escreveu uma carta ao Papa São Gregório Magno, fixando a missiva sobre o ícone que confiou às ondas do mar. O ícone navegou, ereto, até Roma, aonde chegou em apenas um dia.
             Como o Patriarca São José, sendo avisado em sonho, o Pontífice acompanhado pelo Clero romano, acolheu a imagem flutuante às margens do rio Tibre. Quando o Papa terminou sua oração, o ícone se ergueu sozinho, colocando-se entre as suas mãos. Levado em procissão até a Basílica de São Pedro foi exposto à veneração dos fiéis.
            Quando São Germano compreendeu que a perseguição duraria muito tempo, ainda, enviou outro ícone da Mãe de Deus, da mesma forma, através das águas do mar. E o segundo ícone foi, igualmente, recebido pelo Santo Padre em Roma. Os dois ícones permaneceram na Cidade Eterna por mais de um século.
           Durante Ofício celebrado pelo Papa Sérgio II (844-847), o ícone começou a se mover. O povo, assustado com o fenômeno, cantou: “Kyrie Eleison”3 e o ícone se imobilizou. Em seguida, levantou-se e, deixando a Igreja, dirigiu-se até o rio Tibre, sendo seguido pelo Santo Padre e pelo povo.
           Da mesma forma que chegara, no século precedente, a imagem da Virgem Mãe afastou-se, mar afora, chegando a Constantinopla, onde foi recebida pelo Patriarca Metódio, o Confessor. Quando chegou a carta expedida por Roma que explicava o fato, notou-se, com grande surpresa, que o ícone havia efetuado o trajeto em um único dia.4
            A imagem foi transferida solenemente para a Igreja de Chalkopratia, onde passou a ser venerada com o título de “A Romana”.


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1- Iconoclastia (do grego εικών, transl. eikon, "ícone", imagem, e κλαστειν, transl. klastein, "quebrar"= "quebrador de imagem") era um movimento político-religioso contra a veneração de ícones e imagens religiosas no Império Bizantino no início século VIII e perdurou até o século IX. Os iconoclastas acreditavam que as imagens sacras seriam ídolos, e a veneração e o culto de ícones por conseqüência, idolatria.
2- Leão, o Isáurico (717-741), militar enérgico, imperador bizantino; nasceu em Síria Comagena; derrubou o último monarca da dinastia Heracliana e tomou o poder. Intolerante religioso, Leão III combateu o culto às imagens (movimento iconoclasta), procurando enfraquecer o poder dos mosteiros. Leão e seu filho Constantino V fecharam conventos, confiscaram bens do clero, realizaram desfiles ridículos de monges no hipódromo.
3- Kyrie eleison (em grego: Κύριε ελέησον, transl. Kýrie eléison, "Senhor, tende piedade") é uma oração liturgica. O testemunho mais antigo de seu uso litúrgico remonta ao século IV, na igreja de Jerusalém, e, no século V. Kyrie é o vocativo da palavra grega κύριος (transl. kyrios, "Senhor"), traduzido livremente como "ó, Senhor", enquanto eleison (ελεησον) é o imperativo aoristo do verbo eleéo (ελεεω; "ter piedade", "compadecer-se"). É originário do salmo penitencial 51 (50 na versão LXX). No Rito Romano na Forma Extraordinária o Kyrie é recitado depois do ato penitencial; no Rito Ambrosiano é recitado durante o ato penitencial, e repetido três vezes ao fim da Missa, antes da bênção final. O Kyrie, por ser geralmente abreviado, faz parte também da missa cantada, formando a parte que se segue ao intróito. O Kyrie foi substituído, no Rito Romano Ordinário, pela invocação "Senhor, tende piedade."
4- CORBON, Jean, in “L'inculturation de la foi chrétienne au moyen-orient” (A incultura da fé cristã em todo o Oriente Médio), Proche orient chrétien (Oriente Médio cristão) ─ Volume 28, Fasc. 3-4. 1988.


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