Nossa Senhora de Guadalupe: modelo de evangelização


Alexandre Martins, cm
sobre Excertos do texto de Mons. Guerrero1



O Nican Mopohua - crônica das aparições da Virgem de Guadalupe - é narrado no idioma dos índios do México e, segundo seu conceito religioso e cultural, indica, em seu início, a época e o contexto dos fatos:
"... Dez anos após a conquista da cidade do México, no momento em que, finalmente, as flechas e os escudos foram depostos e que a paz passou a reinar em toda parte, entre os povos, surgiu a fé e o reconhecimento d`Aquele por meio de quem tudo vive: O Verdadeiro Deus, havia surgido, brotado, e, verdejante, abria a sua corola..."
A paz, para um índio do México daquela época, não representava regozijo algum. A civilização asteca havia nascido das "flechas e dos escudos" da guerra. Esta era a sua razão de ser. Para aqueles índios, extremamente religiosos, era por meio da guerra e do sacrifício humano que o universo se mantinha preservado.
Após o sacrifício dos deuses, dando vida ao universo, tornou-se dever dos homens e, mais particularmente, dever do povo do sol, colaborar com o sacrifício dos deuses, preservando o universo com a oferta do sangue. Cada ser humano foi chamado ao sacrifício e à doação do sangue. Porém, o sangue é ofertado no momento dos sacrifícios humanos e, as guerras contínuas, têm a função de alimentar, por meio das vítimas, esses sacrifícios sangrentos. Quando os sacrifícios humanos e as guerras que os alimentam cessam, é a civilização asteca que deixa de existir, pois já não é mais necessária ao sustento do universo.
É sobre esses escombros da antiga ordem do mundo que o Nican Mopohua indica o florescimento de uma nova fé e de um novo conhecimento do Verdadeiro Deus.

"...Juan Diego, o menor dos meus filhinhos, acolhe o que te digo como verdade; fica sabendo que eu sou a perfeita, a sempre virgem, Santa Maria, mãe do Deus verdadeiro, por quem tudo vive, sou mãe do Criador das pessoas, mãe d´Aquele que é proprietário de tudo o que está próximo e de tudo o que está longe; Ele é o Senhor do Céu e da Terra..."
Tanto para Juan Diego como para os índios do México, não se tratava de uma descoberta, a existência de um Deus único, criador de todas as coisas. Além da abundante quantidade de deuses, no mais alto céu, aquele que é o mais inaccessível permanece; Ometeotl, o deus da dualidade, sendo por si só, princípio masculino e feminino, o pai e a mãe de todos os deuses e de qualquer outra coisa. É exatamente no céu de Ometeotl que se encontram a paz, a harmonia e a estabilidade. Logo abaixo, nos níveis dos deuses e dos homens, se encontram as alterações, a instabilidade, o conflito e a guerra.
A boa nova, a novidade inesperada e extraordinária é que Ometeotl tenha uma genitora e que esta genitora seja humana. Ometeotl é mãe e pai dos outros deuses, mas ele mesmo não possui nem pai, nem mãe. Antes, em sua categoria, os homens só tinham conhecimento de suas manifestações parciais e conflituosas: a grande quantidade de deuses. A partir de então, o próprio Inacessível desce até seus filhos, os homens: e foi este prodígio que Maria Santíssima, a Virgem e Mãe, veio anunciar Ao mundo.

"...Eu quero, eu desejo, realmente, que aqui seja erguida minha pequena casa sagrada; nela eu O mostrarei, e O exaltarei revelando-O a vós..."
A santíssima Virgem Maria pede que se erga um templo no local onde ela aparece, no alto da colina de Tepeyac, antigo centro de culto dedicado a uma deusa mãe. Porém, este templo será consagrado a um novo culto: a exaltação e a revelação do Deus único, Ometeotl.
Este pedido foi dirigido ao bispo local através do vidente Juan Diego Cuauhtlatoatzin (1474-1548). Apesar de ser muito pobre e, doravante, um católico convicto, Juan Diego era príncipe e sacerdote pagão. Então, como legítimo representante político e religioso dos índios, solicitou ao representante do novo deus, trazido pelos espanhóis, autorização para erigir um templo dedicado à exaltação e à revelação do Deus único, Ometeotl.
Além disso, Juan Diego não chega de mãos vazias. Ele oferece um sinal ao bispo, representante legítimo da religião católica dos espanhóis; as magníficas rosas surgidas em pleno inverno no solo árido da colina de Tepeyac: eram flores do paraíso, do céu, da religião dos astecas. Um tal dom impressionou o prelado.
Em seguida, na presença do prelado, Maria Santíssima deixou sua imagem impressa na tilma2 de Juan Diego. A imagem é a presença verdadeira daquele ou daquela que nela está representada. A tilma, é o símbolo da pessoa que a veste. Na presença e sob a autoridade do bispo católico, Maria Santíssima virgem, levando ao seio o Deus único, Ometeotl, imprime sua imagem no manto daquele humilde homem que representava, então, os índios do México. É a Encarnação que se estende.

"...porque, na verdade, eu sou vossa mãe compassiva, tua mãe e mãe de todos os homens que, nesta terra, são um só; e sou mãe de todas as diversas raças de homens..."
Maria Santíssima anunciou a boa nova da presença do Deus único Ometeotl entre os homens. Ela enuncia, a seguir, as conseqüências (a conseqüência): a unidade. Não existe mais a guerra como razão do existir, visto que Aquele que é harmonia e paz desceu, enfim, no meio dos homens.
Maria manifesta, além disso, esta unidade na representação de sua pessoa, ao longo das aparições e sobre a imagem que nos deixou. Ela se apresenta com o nome de Santa Maria tal como os espanhóis a chamam, e se submete, em seus pedidos, ao acordo do prelado espanhol, mas jamais pronuncia o nome de Jesus Cristo, ao falar do Deus único e de sua encarnação, segundo os conceitos da cultura e da religião indígena. Sobre a tilma de Juan Diego, ela se deixa representar num estilo pictórico espanhol, porém o código de leitura da imagem pertence completamente à cultura dos indígenas.
Além disso, seu rosto não é representado nem como o de uma mulher espanhola nem como o de uma mulher índia, mas como o de uma senhora mestiça, união das duas raças.
Assim nasceria um povo novo, os mexicanos: povo profundamente mariano e católico.


* * *


1- GUERRERO, Monsenhor José Luis G. (Vice-postulador da Causa da canonização de Juan Diego Cuahtlatoatzin): EL NICAN MOPOHUA, Um intento de exegese; Flor e canto do nascimento do México; os dois mundos de um índio santo. 
Disponível em http://www.virgendeguadalupe.org.mx/bibliografia.htmAcesso em 13/12/2009.
2- uma espécie de capa inteiriça colocada sobre os ombros que ia até a cintura e feita de palha de coco.

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