A garrafa no altar

Alexandre Martins, cm.


Deus não quer outra coisa de uma alma
que está resolvida a amá-Lo senão que obedeça.
s. Teresa d’Avila1




Há pessoas que, desejosas de possuir um pouco de água benta, não querendo importunar o padre para pedir sua benção, fazem um ritual próprio: deixam uma garrafa de água junto ao Sacrário acreditando que assim irão ter a água benta que precisam. Evidentemente não a terão, por motivos claros - somente a imposição das mãos de um sacerdote legitimo é que pode conferir benção para alguma coisa ou a alguém - mas vão para suas casas com a “certeza” na mente. Digo na mente e não no coração porque sabem no fundo dele que algo está errado, mas a sua vergonha, orgulho ou sabe-se-la-o-que impedem que elas pensem de outra forma.
Quantas vezes não nos deparamos com pessoas assim em nossas vidas? Vemos várias atitudes como estas. E há alguns tipos característicos.
Há os ritualistas. São pessoas que não entendem muito de Liturgia, mas fazem um não sei quantos salamaleques nas Missas, achando que estão louvando melhor a Deus que os demais. Alguns o fazem por ignorância, outros por vaidade. Dai vemos inclinações de corpo a qualquer hora, braços levantados com terços dependurados, etc.
Há os burocráticos. Pessoas que insistem que aquele jovem precisa de tantos meses mais tantos retiros para que possa estar na Crisma. Não entendem que o adolescente de 14 anos que já tem um filho precisa estar no meio de uma pastoral familiar e não no grupo de jovens; mas como é burocrático, apenas vê a idade e não o problema.
Afirma o Papa Pio XII no ano de 1947, em sua encíclica Mediator Dei sobre a Liturgia:
"Estão(...)muito longe da verdadeira e autêntica noção da sagrada Liturgia aqueles que a julgam como sendo apenas a parte externa e sensível do culto divino, fazendo-a consistir no aparato decorativo das cerimônias; e não erram menos os que a têm como simples conjunto de leis e regras com que a hierarquia eclesiástica manda ordenar a execução dos ritos sagrados".1

Há os carolas. Os que são devotos de tantos santos e praticam tantas piedades que nem sabem bem o que estão fazendo. Afastam os demais da devoção aquele santo por tanto que enfeitam com suas devoções apenas exteriores. Não divulgam as virtudes do bem-aventurado, mas apenas o que ele dá de material - “são Longuinho precisa de três pulinhos para achar minha carteira...”


Infelizmente, há entre os mais "entendidos" pessoas que são criadoras de uma igreja própria. É um problema grave, pois afasta os demais e não atrai os outros para o Evangelho de Cristo. Pouco interessa para pessoas assim a Liturgia e seu significado. Interessa o que eles próprios acreditam e o que eles mesmo devem de fazer para que a Igreja fique mais cheia. Sim, cheia - quantidade - e não santa – valor. Há um sem-número de enfeites de escolinha primária nas igrejas, músicas profanas da festa passada que são cantadas nas Missas de jovens, feitas por pessoas que tem seu gosto próprio e acham que o que é bom para elas sera obrigatoriamente ótimo para todos.
A Liturgia é global, universal, é dirigida para todas as culturas, todos os gostos, todos os tipos e classes de pessoas. Não temos o direito de mudar uma vírgula porque apenas achamos no nosso pensamento particular e limitado que aquilo não nos agrada. Devemos, por força de uma fé sólida desenvolvida numa obediência firme, acatar o que a Santa Igreja orienta sobre a forma correta de louvarmos a Deus.
O Evangelho nos dá o “como seguir a Cristo” e não somente nos diz para segui-Lo. Em várias passagens, como sermos como crianças, tirarmos a trave do olho, etc, o Salvador nos dá a forma de segui-Lo. A Liturgia nos é dada desde o tempo dos apóstolos, quando da instituição dos diáconos.
Tertuliano nos pergunta:
Qual terá sido a pregação dos apóstolos? Que revelação lhes terá feito Cristo? Diria que só devemos procurar sabê-lo por meio das igrejas que os próprios apóstolos fundaram pessoal mente através da pregação, tanto de viva voz, como pelos seus escritos. Se isto é verdade, é incontestável que toda a doutrina que se atribui a estas igrejas apostólicas, mães e fontes da fé, deve ser considerada como verdadeira porque contém o que estas igrejas receberam dos apóstolos, os apóstolos de Cristo e Cristo de Deus.”1

A Liturgia é adaptada pelo Magistério aos tempos e aos homens de cada tempo e não pelos homens de cada tempo.
Sigamos a Santa Madre Igreja e tenhamos a fé firme calcada na rocha que será desenvolvida numa obediência ao Magistério instituído por Nosso Senhor.
A obediência a Deus ou ao Evangelho é de boa cepa e é fruto do Espírito se traz consigo o desejo de também obedecer aos representantes de Deus: á autoridade, à regra, aos superiores; caso contrário, é suspeita.2
Santa Maria, Virgem Obediente, rogai por nós.



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1- “Das Fundações”, 24, Obras IV.
2- Documentos Pontifícios nº 23, Editora Vozes, São Paulo, SP. 1963.
3- Tertuliano, “de Praescriptione”, CCL, I, 201-203
4- Cantalamessa, pe. Raniero, “A Obediência”, pág 51.

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