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Jorge da Capadócia




Alexandre Martins, cm.
na memória de S. Jorge, Mártir, 23/4/2012


A primeira vez que soube que são Jorge era da Capadócia – e também soube que algum dia existiu um lugar com esse nome – foi em um livro de Monteiro Lobato quando era criança. O escritor kardecista narrava em sua obra do Sítio do Picapau Amarelo1 uma conversa entre Pedrinho e o Santo Guerreiro no qual este informava sobre sua vida.

São Jorge (275 - 23 de abril de 303) foi, de acordo com a tradição, um soldado romano no exército do imperador Diocleciano, venerado como mártir cristão.
São Jorge é um dos mais venerados tanto na Igreja Católica Romana e na Igreja Ortodoxa como também na Comunhão Anglicana. Considerado como um dos mais proeminentes “santos militares”, sua memória é celebrada dia 23 de abril como também em 3 de novembro, quando, por toda parte, se comemora a reconstrução da igreja dedicada a ele em Lida (Israel), onde se encontram suas relíquias, erguida por Constantino I.



História

De acordo com uma lenda, Jorge nasceu na Capadócia, região central da Anatólia, atualmente parte da República da Turquia.
Ainda criança mudou-se para a Palestina com sua mãe após seu pai morrer em batalha. Sua mãe, ela própria originária da Palestina, em Lida, possuía muitos bens e o educou com esmero. Ao atingir a adolescência, Jorge entrou para o exército romano por ser a que mais satisfazia à sua natural índole combativa. Logo foi promovido a capitão do Exército Romano devido a sua dedicação e habilidade — qualidades que levaram o imperador a lhe conferir o título de Conde da Capadócia. Aos 23 anos passou a residir na corte imperial em Nicomédia, exercendo a função de Tribuno Militar.
Nesse tempo sua mãe faleceu e ele, tomando grande parte nas riquezas que lhe ficaram, foi-se para a Roma. Jorge, ao ver que urdia tanta crueldade contra os cristãos, parecendo-lhe ser aquele tempo conveniente para alcançar a verdadeira salvação, distribuiu com diligência toda a riqueza que tinha aos pobres.
O imperador Diocleciano tinha planos de matar cristãos e no dia marcado para o senado confirmar o decreto imperial, Jorge levantou-se no meio da reunião declarando-se espantado com aquela decisão, e afirmou que os romanos deviam se converter ao cristianismo. Todos ficaram atônitos ao ouvirem estas palavras de um membro da Suprema Corte romana, defendendo com grande ousadia a fé em Jesus Cristo. Indagado por um cônsul sobre a origem dessa ousadia, Jorge prontamente respondeu-lhe que era por causa da Verdade. O tal cônsul, não satisfeito, quis saber:
               - "O que é a Verdade?".
Jorge respondeu-lhe:
                - "A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo, e Nele confiando me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade."

Como Jorge mantinha-se fiel ao cristianismo, o imperador tentou fazê-lo desistir da fé torturando-o de vários modos. Após cada tortura, era levado ao imperador, que lhe perguntava se renegaria a Jesus para adorar os deuses pagãos. Jorge reafirmava sua fé, tendo seu martírio aos poucos ganhado notoriedade e muitos romanos tomado as dores daquele jovem soldado, inclusive a mulher do imperador, que se converteu ao cristianismo. Finalmente, Diocleciano, não tendo êxito, mandou degolá-lo no dia 23 de abril de 303, em Nicomédia (Ásia Menor).
Seus restos mortais foram transportados para Lida (Antiga Dióspolis), cidade de em que crescera com sua mãe. Lá foi sepultado e mais tarde o imperador cristão Constantino mandou erguer suntuoso oratório aberto aos fiéis, para que a devoção ao santo fosse espalhada por todo o Oriente.
Pelo século V, já havia cinco igrejas em Constantinopla dedicadas a São Jorge. No Egito, nos primeiros séculos após sua morte, construíram-se quatro igrejas e quarenta conventos dedicados ao mártir. Na Armênia, Bizâncio, no Estreito de Bósforo, na Grécia, São Jorge era inscrito entre os maiores santos da Igreja Católica.

Disseminação da devoção

Na Itália, era padroeiro da cidade de Gênova. Frederico III da Alemanha lhe dedicou uma Ordem Militar. Desde Dom Nuno Álvares Pereira, o santo é reconhecido como padroeiro de Portugal e do Exército. Na França, Gregório de Tours era conhecido por sua devoção ao santo cavaleiro; o Rei Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e sua esposa, Santa Clotilde, mandou erguer várias igrejas e conventos em sua honra.
As artes, também, divulgaram amplamente a imagem do santo.
Em Paris, no Museu do Louvre, há um quadro famoso de Rafael Sanzio, intitulado “São Jorge vencedor do Dragão”. Na Itália, existem diversos quadros célebres, como um de autoria de Donatello.

Padroeiro da Inglaterra

A Inglaterra foi o país ocidental onde a devoção ao santo teve papel mais relevante.
Não há consenso, porém, a respeito da maneira como teria se tornado padroeiro da Inglaterra. No século XIII, a Inglaterra já celebrava o dia dedicado ao santo. Por considerá-lo o protótipo dos cavaleiros medievais, o rei inglês Ricardo I, comandante de uma das primeiras Cruzadas, constituiu São Jorge padroeiro daquelas expedições que tentavam reconquistar a Terra Santa dos muçulmanos. Seu nome era conhecido por ingleses e irlandeses muito antes da conquista normanda, o que supõe que soldados que retornavam das cruzadas influíram na sua popularidade. Acredita-se que o santo tenha sido escolhido o padroeiro do reino quando o rei Eduardo III fundou a Ordem da Jarreteira, também conhecida como Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, em 1348. De acordo com a história da Ordem da Jarreteira, Rei Artur, no século VI,colocou a imagem de São Jorge em suas bandeiras.2 imitando os gregos, que também trazem a cruz de São Jorge na sua bandeira, o “Big Jack” que é a união das cruzes de São Jorge e Santo André Apóstolo. Em 1415, a data de sua comemoração tornou-se um dos feriados mais importantes do país.
Durante a Grande Guerra, muitas medalhas de São Jorge foram cunhadas e oferecidas aos enfermeiros militares e às irmãs de caridade que se sacrificaram ao tomar conta dos feridos de guerra.

Declínio e soerguimento da devoção

Hoje em dia na Inglaterra, todavia, a festa de São Jorge comemorada todo dia 23 de abril tem tido menos popularidade ao longo das últimas décadas. Algumas rádios locais, como a BBC já chegaram a promover enquetes perguntando qual seria, de acordo com a opinião pública, o orago dos ingleses, e eis que o eleito foi Santo Alba. Muitos fatores contribuíram a isso. Primeiramente por ter sido substituído, segundo bula do Papa Leão XIII de 2 de junho de 1893, por São Pedro como padroeiro da Inglaterra — recomendação que perdura até hoje.
Pelas reformas do Papa Paulo VI, São Jorge foi rebaixado a santo menor de terceira categoria, cujo culto seria opcional nos calendários locais e não mais em caráter universal. No entanto, a reabilitação do santo como figura de primeira instância pelo Papa João Paulo II em 2000, conferiu nova relevância a São Jorge.
Atualmente, haja vista a grande popularidade e apelo turístico de festas como a escocesa St. Andrew's Day, a irlandesa St. Patrick's Day e mesmo a galesa St. Dave's Day, têm-se formado grande iniciativa de setores nacionalistas para que o St. George's Day volte a gozar da mesma popularidade entre os ingleses como antigamente.

Padroeiro de Portugal

Pensa-se que os Cruzados ingleses que ajudaram o Rei Dom Afonso Henriques a conquistar Lisboa, em 1147, terão sido os primeiros a trazer a devoção a São Jorge para Portugal. No entanto, só no reinado de Dom Afonso IV de Portugal que o uso de "São Jorge!" como grito de batalha se tornou regra, substituindo o anterior "Sant'Iago!".
Nuno Álvares Pereira3 o Condestável do Reino, considerava São Jorge o responsável pela vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota, construindo-se aí uma capela, a ele dedicada. Nessa altura o seu rei Dom João I de Portugal substituiu Santiago como padroeiro de Portugal. Ordenou que a sua imagem a cavalo fosse transportada na procissão do Corpus Christi. Assim, séculos mais tarde, a devoção chegaria ao Brasil. O estandarte que elegeu como insígnia pessoal trazia as imagens do Crucificado, de Maria e dos cavaleiros S. Tiago e S. Jorge.

Padroeiro da Catalunha

A presença documental da devoção a São Jorge em terras catalãs remonta ao século VIII: documentos da época falam de um sacerdote de Tarragona chamado Jorge que fugiu para a Itália. Já no século X, um bispo de Vic tinha o nome de Jorge, e no século XI o abade Oliba consagrou um altar dedicado ao santo no mosteiro de Ripoll. Encontram-se exemplos do culto a São Jorge dessa época, na consagração de capelas, altares e igrejas em diversos pontos da Catalunha. Os reis catalães mostraram a sua devoção a São Jorge: Tiago I de Catalunha explica em suas crônica que foi visto o santo ajudando os catalães na conquista da cidade de Malorca; Pedro o Cerimonioso fundou uma ordem de cavalaria sob a sua proteção; Afonso, o Magnânimo dedicou-lhe capelas nos reinos da Sardenha e Nápoles.
Os reis e a Generalidade da Catalunha impulsionaram a celebração da festa de São Jorge por todas as regiões catalãs. Em Valência, em 1343, já era uma festa popular; em 1407, Mallorca celebrava-a publicamente. Em 1436, a Generalidade da Catalunha propôs, nas côrtes reunidas em Montsó, a celebração oficial e obrigatória de São Jorge; em 1456, as côrtes reunidas na Catedral de Barcelona ditaram uma constituição que ordenava a festa, inclusa no código das Constituições da Catalunha. As remodelações do Palácio da Generalidade (sede do governo catalão) feitas durante o século XV são a prova mais clara da devoção impulsionada por esse órgão público, ao colocar um medalhão do santo na fachada gótica e ao construir no interior a capela de São Jorge.

Lenda do dragão e da princesa

Baladas medievais contam4 que Jorge era filho de Lorde Albert de Coventry. Sua mãe morreu ao dá-lo à luz e o recém nascido Jorge foi roubado pela Dama do Bosque para que pudesse, mais tarde, fazer proezas com suas armas. O corpo de Jorge possuia três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço. Ao crescer e adquirir a idade adulta, ele primeiro lutou contra os sarracenos e, depois de viajar durante muitos meses por terra e mar, foi para Sylén, uma cidade da Líbia.
Nesta cidade, Jorge encontrou um pobre eremita que lhe disse que toda a cidade estava em sofrimento, pois lá existia um enorme dragão cujo hálito venenoso podia matar toda uma cidade, e cuja pele não poderia ser perfurada nem por lança e nem por espada. O eremita lhe disse que todos os dias o dragão exigia o sacrifício de uma bela donzela e que todas as meninas da cidade haviam sido mortas, só restando a filha do rei, Sabra, que seria sacrificada no dia seguinte ou dada em casamento ao campeão que matasse o dragão.
Ao ouvir a história, Jorge ficou determinado em salvar a princesa. Ele passou a noite na cabana do eremita e quando amanheceu partiu para o vale onde o dragão morava. Ao chegar lá, viu um pequeno cortejo de mulheres lideradas por uma bela moça vestindo trajes de pura seda árabe. Era a princesa, que estava sendo conduzida pelas mulheres para o local do sacrifício. São Jorge se colocou na frente das mulheres com seu cavalo e, com bravas palavras, convenceu a princesa a voltar para casa.
O dragão, ao ver Jorge, sai de sua caverna, rosnando tão alto quanto o som de trovões. Mas Jorge não sente medo e enterra sua lança na garganta do monstro, matando-o. Como o rei do Marrocos e do Egito não queria ver sua filha casada com um cristão, envia São Jorge para a Pérsia e ordena que seus homens o matem. Jorge se livra do perigo e leva Sabra para a Inglaterra, onde se casa e vive feliz com ela até o dia de sua morte, na cidade de Coventry.
De acordo com a outra versão5 Jorge acampou com sua armada romana próximo a Salone, na Líbia. Lá existia um gigantesco crocodilo alado que estava devorando os habitantes da cidade, que buscaram refúgio nas muralhas desta. Ninguém podia entrar ou sair da cidade, pois o enorme crocodilo alado se posicionava em frente a estas. O hálito da criatura era tão venenoso que pessoas próximas podiam morrer envenenadas. Com o intuito de manter a besta longe da cidade, a cada dia ovelhas eram oferecidas à fera até estas terminarem e logo crianças passaram a ser sacrificadas.
O sacrifício caiu então sobre a filha do rei, Sabra, uma menina de quatorze anos. Vestida como se fosse para o seu próprio casamento, a menina deixou a muralha da cidade e ficou à espera da criatura. Jorge, o tribuno, ao ficar sabendo da história, decidiu pôr fim ao episódio, montou em seu cavalo branco e foi até o reino resgatá-la. Jorge foi até o reino resgatá-la, mas antes fez o rei jurar que se a trouxesse de volta, ele e todos os seus súditos se converteriam ao cristianismo. Após tal juramento, Jorge partiu atrás da princesa e do "dragão". Ao encontrar a fera, Jorge a atinge com sua lança, mas esta se despedaça ao ir de encontro à pele do monstro e, com o impacto, São Jorge cai de seu cavalo. Ao cair, ele rola o seu corpo, até uma árvore de laranjeira, onde fica protegido por ela do veneno do dragão até recuperar suas forças.
Ao ficar pronto para lutar novamente, Jorge acerta a cabeça do dragão com sua poderosa espada Ascalon. O dragão derrama então o veneno sobre ele, dividindo sua armadura em dois. Uma vez mais, Jorge busca a proteção da laranjeira e em seguida, crava sua espada sob a asa do dragão, onde não havia escamas, de modo que a besta cai muito ferida aos seus pés. Jorge amarra uma corda no pescoço da fera e a arrasta para a cidade, trazendo a princesa consigo. A princesa, conduzindo o dragão como um cordeiro, volta para a segurança das muralhas da cidade. Lá, Jorge corta a cabeça da fera na frente de todos e as pessoas de toda cidade se tornam cristãs.
O dragão simbolizaria o Demônio, a idolatria e o Mal destruídos com as armas da Fé. Já a donzela que o santo defendeu representaria a província da qual ele extirpou as heresias.
Curiosamente, no Oriente o dragão está muito mais ligado a água do que ao fogo. É o símbolo máximo do Poder na China, tanto que apenas o Imperador podia usá-lo em suas roupas, pois o dragão tinha livre acesso aos deuses. Diferente das suas manifestações ocidentais, não é uma besta que solta fogo pelas ventas: é do bem, sábio e da sua boca sai água. E em um país com apenas 11% de sua área cultivável e uma população imensa, água é importante pois significa colheita. Daí as formas ondulantes do dragão serem vistas em nuvens e rios.

São Jorge, a Lua e os Orixás

A ligação de São Jorge com a lua é algo puramente brasileiro, com forte influência da cultura africana. A tradição diz que as manchas apresentadas pela lua representam o milagroso santo, seu cavalo e sua espada pronto para defender aqueles que buscam sua ajuda.6
Na Umbanda, o santo é associado a Ogum. Ogum (em yoruba: Ògún) é, na mitologia yoruba, o orixá ferreiro,[1] senhor dos metais. O próprio Ogum forjava suas ferramentas, tanto para a caça, como para a agricultura, e para a guerra. Na África seu culto é restrito aos homens, e existiam templos em Ondo, Ekiti e Oyo. Era o filho mais velho de Oduduwa, o fundador de Ifé, identificado no jogo do merindilogun pelos odu etaogunda, odi e obeogunda,
É representado, no Brasil, como São Jorge; como tal, é poderoso e triunfal, mas também exibe a raiva e destrutividade do guerreiro cuja força e violência pode virar contra a comunidade que ele serve. Ogum também é representado por Santo Antonio, como frequentemente é feito na região nordeste do Brasil.
Ogum é o primeiro dos orixás a descer do Orun (o céu), para o Aiye (a Terra), após a criação, um dos semideuses visando uma futura vida humana. Em comemoração a tal acontecimento, um de seus vários nomes é Oriki ou Osin Imole, que significa o "primeiro orixá a vir para a Terra".
Ogum foi provavelmente a primeira divindade cultuada pelos povos yorubá da África Ocidental. Acredita-se que ele tenha wo ile sun, que significa "afundar na terra e não morrer", em um lugar chamado 'Ire-Ekiti'.
É também chamado por Ògún, Ogoun, Gu, Ogou, Ogun e Oggún. Sua primeira aparição na mitologia foi como um caçador chamado Tobe Ode.
É filho de Oduduwa e Yembo, irmão de Xangô, Oxossi, Oxun e Eleggua. Ogum é o filho mais velho de Odudua, o herói civilizador que fundou a cidade de Ifé. Quando Odudua esteve temporariamente cego, Ogum tornou-se seu regente em Ifé.
Ogum é um orixá importantíssimo na África e no Brasil. Sua origem, de acordo com a história, data de eras remotas. Ogum é o último imolé. Os Igba Imolé eram os duzentos orixás da direita que foram destruídos por Olodumaré após terem agido mal. A Ogum, o único Igba Imolé que restou, coube conduzir os Irun Imole, os outros quatrocentos orixás da esquerda.
Foi Ogum quem ensinou aos homens como forjar o ferro e o aço. Ele tem um molho de sete instrumentos de ferro: alavanca, machado, pá, enxada, picareta, espada e faca, com as quais ajuda o homem a vencer a natureza.
Era um guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos. Dessas expedições, ele trazia sempre um rico espólio e numerosos escravos. Guerreou contra a cidade de Ará e a destruiu. Saqueou e devastou muitos outros estados e apossou-se da cidade de Irê, matou o rei, aí instalou seu próprio filho no trono e regressou glorioso, usando ele mesmo o título de Oníìré, "Rei de Irê". Tem semelhança com o vodum Gu.
Na Santeria7 Ogum é dono dos montes junto com Oshosi e dos caminhos junto com Eleggua. Representa o solitário hostil que vaga pelos caminhos. É um dos quatro Orixás guerreiros. Suas cores são o azul e branco ou branco e vermelho. Em Cuba, na santeria e na Palo Mayombe, ele é chamado de São Pedro, São Paulo, São João Batista, São Miguel Arcanjo e São Rafael Arcanjo.
No Candomblé, Ogum é o Orixá ferreiro dono de todos os caminhos e encruzilhadas junto com seu irmão Exu, também é tido como irmão de Oxossi e uma ligação muito forte com Oxaguian de quem é inseparável, aparece como o Senhor das guerras e demandas, suas cores são Azul cobalto e o verde e na Umbanda sua cor é o vermelho. Sacrificam-se bodes, galos, galinhas-de-angola (macho), pombos, e patos. Todos os orixás masculinos (agboros) recebem sacrifícios de animais machos.No culto dos orixás, ele aparece com outras identidades, tais como Ogum Akirum, Ogum Alagbede, Ogum Alara, Ogum Elemona, Ogum Ikole, Ogun Meji, Ogum Oloola, Ogum Onigbajamo, Ogum Onire, Ogun-un e Onile, sendo este último uma encarnação feminina. É representado imaterial e materialmente através do assentamento sagrado denominado igba ogun.
Ogum no Haiti é um vodun haitiano, um loa8 do fogo, do ferro, da caça, da política e da guerra. É o patrono dos guerreiros, e normalmente é mostrado com seus artefatos: facão e espada, rum e tabaco. Ogum é um dos maridos de Erzulie e foi marido de Oyá e Oxum na mitologia yorubá. Tradicionalmente um guerreiro, Ogum é visto como uma poderosa divindade dos trabalhos em metal, semelhante à Ares e Hefesto na mitologia grega e Visvakarma na mitologia hindu. A maioria dos africanos que foram levados como escravos para o Haiti eram da Costa da Guiné da África ocidental, e seus descendentes são os primeiros praticantes de vodou (aqueles africanos trazidos ao sul dos Estados Unidos, eram primeiramente do reino de Congo). A sobrevivência do sistema da crenças no novo mundo é notável, embora as tradições mudem com o tempo. Uma das maiores diferenças, entretanto, entre o vodun africano e o Haitiano é que os africanos transplantados do Haiti foram obrigados a disfarçar o seu lwa, ou espíritos, como santos católicos romanos, neste país, com Santiago el Mayor, num processo chamado sincretismo.
Dentro dessas crenças, Ogum é dono dos montes junto com Oshosi e dos caminhos junto com Eleggua. Representa o solitário hostil que vaga pelos caminhos. É um dos quatro orixás guerreiros. Suas cores são o verde e o preto. Ogum é considerado o Orisha dos ferreiros, das guerras, da tecnologia.
Na mitologia Fon, Gu é o deus da guerra e patrono da deidade dos ferreiros e dos artesãos. Ele foi enviado à Terra para torná-la um local agradável para as pessoas viverem, e ele ainda não terminou sua tarefa.

São Jorge na cultura popular

“Jorge de Capadócia” é uma música de Jorge Ben, interpretada também por Caetano Veloso, Fernanda Abreu, Moacyr Luz e Aldir Blanc, e pelos Racionais MC's. A banda inglesa Iron Maiden fala de São Jorge na música "Flash of the Blade", no álbum Powerslave. A banda brasileira Angra utilizou a imagem do santo na capa do álbum Temple of Shadows.
São Jorge é o padroeiro do Clube Corinthians. Acredita-se que sua história de devoção e fidelidade à Verdade cristã até o fim de seu martírio seja a origem do termo "Fiel", popular entre os torcedores e presente em várias agremiações corintianas.
Existe um romance sobre São Jorge criado pelo escritor italiano Tito Casini chamado “Perseguidores e Mártires” (Edições Paulinas, 1960). Nele, São Jorge é retratado como o verdadeiro paladino da Capadócia que, apesar de ser perseguido pelo tirano imperador Diocleciano, manteve-se fiel ao Império Romano, mas também a Cristo e se recusou a contrair alianças com o genro do imperador, Galério, que pretendia ter o apoio do conde da Capadócia para deliberar um golpe contra Diocleciano, o que terminantemente, o santo militar recusou.
São Jorge é o Santo Padroeiro da Cavalaria do Exército Brasileiro.

O papa Bento XVI e São Jorge

No dia 28 de novembro de 2006 o Papa Bento XVI chegou ao Aeroporto Internacional de Esenboga (Ankara) às 13 horas, horário local, para uma visita oficial à Turquia, atendendo convite do Patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I e do Presidente da Turquia Ahmet Necdet Sezer. Assim que os carros oficiais chegaram próximos à Catedral de São Jorge, os sinos soaram festivos dando boas vindas à comitiva e ao Bispo de Roma. Às portas da Catedral, foram oferecidas flores ao Papa antes do fraternal cumprimento e da solene entrada de Bento XVI e Bartolomeu I. Ladeados por dois diáconos que incensavam o Patriarca e o Papa, ambos acenderam suas velas diante dos ícones de Santo André e do Padroeiro da Catedral, São Jorge. O coro entoava as antífonas próprias do Oficio Litúrgico de Vésperas da Solene Festa de Santo André que foi iniciado pelo Patriarca Ecumênico rezando: «Bendito seja nosso Deus a todo momento, agora e sempre, pelos séculos dos séculos».

Orações a São Jorge

I
Ó Deus onipotente, que nos protegeis pelos méritos e as bênçãos de São Jorge, fazei que este grande mártir, com sua couraça, sua espada, e seu escudo; que representam a fé, a esperança, e a caridade; ilumine os nossos caminhos e fortaleça o nosso ânimo nas lutas da vida. Dê firmeza à nossa vontade contra as tramas do maligno, para que, vencendo na terra, como São Jorge venceu, possamos triunfar no céu convosco, e participar das eternas alegrias.
Amém!

II
São Jorge, também invocado como padroeiro dos escoteiros e de tantas nações, não nos importamos se muitos dizem-no ser uma lenda, por derrotares um dragão. Não importa que este dragão seja real, mas o que derrotastes é o que precisamos todos derrotar: o Inimigo que nos cerva para impedir as graças que Deus nos deseja tanto dar e arrastar-nos com ele aos abismos. Glorioso são Jorge, jovem são Jorge, não foi por pouco que fostes declarastes santo e padroeiro de tantas cidades que vos prestam veneração. Peço-vos que intercedais por mim para que alcance de Deus a mesma convicta fé, principalmente nos momentos mais difíceis que devo passar. Que nada me amedronte. Sede meu intercessor e que vossa espada esmagai a satanás e seus sequazes que nos impede de sermos mais felizes e entusiasmados. Amo-vos e creio em Vossa santidade e vos peço perdão por todos aqueles que vos resumiram em lendas para destruírem vossa santa imagem. Por Cristo Nosso Senhor, tomai conta de mim e de minha amada família.
Amém.

III
Ó glorioso São Jorge! Tribuno militar e cavaleiro romano, vós tínheis pela frente brilhante carreira; mas a fé vos disse que devíeis lutar por Cristo, e vós protestando contra o edito de perseguição do imperador Diocleciano, trocastes a espada de soldado pela espada da cruz, e declarastes guerra ao paganismo. Tombastes mártir de Cristo, mas vosso martírio foi golpe que transpassou as fauces do dragão. Glorioso São Jorge! O dragão que vós pisastes tenta reerguer-se. O dragão do paganismo moderno arremete com furor contra a humanidade. Imploramos vossa defesa e proteção! Conservai nossa fé. Corrigi aqueles que usam o vosso nome para enganar seu próximo com práticas supersticiosas e contrárias à fé que vós defendestes.

IV
São Jorge, queremos recordar-te como recordamos a antiga tradição. Tu abandonaste os êxitos militares e distribuíste teus bens entre os pobres. Tu abandonaste os deuses poderosos do Império Romano para seguir o Messias crucificado. Tu abandonaste a segurança de tua linhagem para unir a comunidade dos cristãos. Tu destes a vida pelo amor a Jesus e ao Evangelho . São Jorge, mártir e companheiro fiel de Jesus. Gostamos de recordar de ti a luz da primavera e da Páscoa; gostamos de recordar o seu poder no combate contra a dor e a escravidão. São Jorge, ajuda aos enamorados do Evangelho e ajuda-nos a viver essa fé que tu tão intensamente viveste e sentiste e nos ajude a fazer o possível para que todo o mundo possa sentir a felicidade da primavera.


Conclusão

Num mundo em que existem tantos “dragões” a atacar nossa Fé e nossos valores, aprendemos com Jorge da Capadócia sermos firmes em nossas ações em busca da Verdade e na defesa da Virtude. Com o mártir romano aprendemos que vale mais Deus e a Santa Doutrina do que as glórias vãs do Mundo.
A força de sua ação, perdida nas brumas da História, é mantida pelo relato de tantos homens de valor que ergueram monumentos e construções à sua homenagem. São esses monumentos e os relatos que nos apresentam o túmulo do “guerreiro lendário”, mostrando que o valor de um homem não está no que possui mas no testemunho da Verdade.
Que São Jorge da Capadócia nos mostre a maturidade cristã que tanta falta faz no meio dos dragões contemporâneos. 




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1- “Viagem ao céu e O Saci”, ed. Brasiliense, 1954
2- Ashmole, Elias, The History of the most Noble Order of the Garter: And the several Orders of Knighthood extant in Europe. A Bell; E.Curll; J.Pemberton; A Collins; W.Taylor; J.Baker, London 1715
3- foi canonizado em 26 de abril de 2009, pelo papa Bento XVI
4- Bishop Percy's folio manuscript: loose and humorous songs ed. Frederick J. Furnivall. London, 1868
5- The Golden Legend or Lives of the Saints. Compiled by Jacobus de Voragine, Archbishop of Genoa, 1275. First Edition Published 1470. Englished by William Caxton, First Edition 1483, Edited by F.S. Ellis, Temple Classics, 1900 (Reprinted 1922, 1931)
6- Santos, Georgina Silva dos.Ofício e sangue: a Irmandade de São Jorge e a Inquisição na Lisboa moderna.Lisboa: Colibri; Portimão: Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, 2005
7- Santeria (literalmente, “caminho dos santos”) é um conjunto de sistemas religiosos relacionados que funde crenças católicas com a religião tradicional iorubá, praticada por escravos e seus descendentes em Cuba, no Brasil (o Candomblé apresenta semelhanças com a Santeria), em Porto Rico, na República Dominicana, no Panamá e nos Estados Unidos (Flórida, Nova York e Califórnia). Originalmente um termo pejorativo aplicado pelos espanhóis à devoção excessiva aos santos. Os proprietários cristãos dos escravos não permitiram que praticassem suas várias religiões animistas da África Ocidental, o que fez com que os escravos contornassem essa proibição adorando seus deuses africanos sob a forma exterior dos santos católicos. O ritual da santeria é altamente secreto e transmitido principalmente por via oral. As práticas conhecidas incluem sacrifício animal, dança extática e invocações cantadas aos espíritos. As galinhas são a forma mais popular de sacrifício; seu sangue é oferecido aos orixás. A música do tambor, atabaque e dança são usadas para produzir um estado do transe nos participantes, que podem incorporar um orixá. Os antepassados são tidos em alta estima na Santeria.
8- No vodu haitiano acredita-se que há um deus que é o criador de tudo, chamado de "Bondje" (do francês "bon Dieu" ou "bom deus", distinguido do Deus dos brancos mas é considerado frequentemente o mesmo Deus da Igreja Católica de maneira informal. Bondje é distante de sua criação e assim é que são os espíritos ou os "mistérios", "santos" ou "anjos" que o voduísta invoca para a ajudá-lo, assim como os antepassados. O voduísta adora o deus e serve aos espíritos, que são tratados com honra e respeito como se fossem membros mais velhos de uma casa. Diz-se que são vinte e uma nações ou "nanchons" dos espíritos, também chamadas às vezes "lwa-yo".

Gostando do próximo


A virtude, como aptidão moral 
é algo que faculta ao Homem 
tornar-se bom como Homem.
S. Tomás de Aquino 1


A Congregação não é feita para todos, mas somente para aqueles que realmente querem e também possuem capacidade de receber a formação que exigem estes graus de tão profundo espiritualidade. Não basta a boa vontade; se requerem indispensavelmente, ao menos em princípio, certas disposições. Um candidato deve ter aspirações que vão mais além de "salvar a sua alma", é necessário um desejo interno de fazer algo "mais" por Cristo. Este é o problema da seleção, que na técnica congregacional é uma necessidade absoluta. Aqui se encontra desgraçadamente a explicação de tantas Congregações-de-nome : admitem a quase todos que são "bons".2
Uma idéia muito em voga de vez em quando pelos círculos católicos é a de que temos de “amar” nossos irmãos e aceitar tudo que vêm deles sob a pecha de sermos um tanto “intolerantes” ou até mesmo estarmos revivendo a Inquisição.
Nas Congregações Marianas isto nos vêm sob a forma de “abrandar” os níveis de exigência nos estágios preparatórios à Consagração. Os exemplos são vários: como o aspirante que por ser ministro da Eucaristia é “promovido” a Congregado mariano; como o coordenador de Encontros de Casais que é admitido à Consagração por estar encabeçando um bom trabalho junto às crianças carentes; como o congregado que não é chamado à atenção por estar andando com más companhias; etc.
Freqüentemente confundimos “compreender” com “aceitar”. 



Compreendemos a atitude do chefe de família que, desesperado por estar desempregado, decide assaltar alguém para alimentar os filhos. Compreendemos a atitude, mas não podemos aceitá-la.
Contudo, devemos aceitar as limitações daquele jovem tímido que não conseguirá atender ao seu pároco para coordenar um grupo de jovens. Não é covardia do rapaz, mas simplesmente não-capacidade para a função...
O que se vê é o inverso: aceita-se o desempregado-assaltante e marginaliza-se o tímido que “não está na onda”.
Amemos o pecador, não o pecado. É uma sentença antiga de s. Tomás de Aquino.
Na Congregação Mariana, como em centenárias associações da Igreja, procura-se formar a pessoa. Contudo, a formação procurada é a integral: mente, corpo e espírito. Os congregados que iniciam na Congregação como “marianinhos”, isto é, abaixo de 15 anos de idade, têm muito mais chances de compor sua personalidade do que outros que começam mais velhos. A pessoa é formada sob diversas formas e em diversas ocasiões.
A Congregação tem por base a formação de personalidades largamente católicas,3
Os bons Instrutores procuram no dia-a-dia as oportunidades para ajudar ao aspirante a se formar. Diz-se “formar-se” porque a formação do congregado é algo que vêm de seu interior com o auxílio externo e não vice-versa. Não é o Instrutor ou mesmo a Congregação que o forma, mas ele próprio, quando decide ajustar a sua vida e construí-la com o que aprende e vive na Congregação. 
A Congregação é responsável pela formação, particularmente pela formação da consciência e o congregado é plenamente responsável por sua aplicação concreta.4 
 Os bons Instrutores são aqueles que sabem como agir com os novos aspirantes, pois não os tratam como recrutas do Exército, nem como índios a serem alfabetizados. A postura mais indicada na maioria dos casos é a de um professor de artes-marciais: ele respeita o que o aprendiz já sabe e procura mostrar-lhe as posturas e alternativas para um desenvolvimento maduro de sua atividade. Usa o condicionamento para tirar aqueles vícios que só prejudicarão o aluno no futuro. 
Quantas coisas pressupõe a reta formação de um congregado, já que as Congregações Marianas tem claramente promover nos fiéis a maior perfeição espiritual e também mais eficaz espírito de zêlo para o bem do próximo.5


Alexandre Martins, cm.

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1 - "Suma Teológica", I-II, q. 40, a1, cIII, q.34, a.2, ad.1 -citado por SS.Jão Paulo II, pág. 34
2 - revista "Acies Ordinata", n° 02 a 05, de 1960, Secretariado Mundial das CC.MM. , Roma.
3 - ibid.
4 - ibid.
5 - Bento XV ( 1914-1922 )Discurso no 40° Aniversário de seu Ingresso na Congregação Mariana - 9 de dexembro de 1915


A Ladainha de Loreto


Alexandre Martins, cm.


Muitos católicos costumam rezar, após o Rosário, a Ladainha de Nossa Senhora, mas poucos conhecem bem o grande valor teológico e simbólico de suas invocações.
Sábado à tarde, entrei numa igreja de uma pequena cidade do interior. Na penumbra, algumas pessoas que haviam terminado de rezar o Rosário começaram a recitar diversas invocações em honra de Nossa Senhora, seguidas todas elas do pedido "rogai por nós".
Várias das invocações são óbvias, nem precisariam de explicações. Por exemplo: "Santa Mãe de Deus, rogai por nós" ou "Mãe do Criador, rogai por nós". Se Nossa Senhora é Mãe de Jesus Cristo, e Ele é nosso Deus e Criador, é normal invocá-La desse modo.
Mas, confesso, eu passaria por um aperto se me perguntassem: por que Nossa Senhora é invocada como Torre de Davi ou Espelho de Justiça? Por que Torre de Davi e não Torre de Abraão ou de Moisés? Qual a origem dessas invocações? Não seria espiritualmente mais proveitoso repetir uma invocação sabendo seu significado?
Se amanhã, numa reunião com algum alto dignitário, eu tivesse que dizer algo, preparar-me-ia para não repetir mecanicamente coisas ouvidas sem conhecer bem seu sentido. Quando rezamos, em última análise dirigimo-nos a Deus, superior a qualquer dignitário deste mundo; portanto, devemos procurar entender razoavelmente o sentido das preces que fazemos.
É claro que Deus é misericordioso e aceita benignamente as orações feitas com devoção e desejo de agradá-Lo, mesmo se não compreendemos inteiramente o significado delas. Estamos certos de que, se a Santa Igreja colocou em nossos lábios pecadores aquelas orações, é porque elas são agradáveis a Deus.
Mas o próprio desejo de agradar a Deus deve levar-nos a procurar entender com profundidade o significado daquilo que Lhe dizemos, e com isso, também tornar mais eficaz o pedido que fazemos.
Assim sendo, vejamos a procedência de algumas invocações da Ladainha Lauretana, o que certamente resultará em aperfeiçoarmos nossa vida espiritual. Para isso ajudou-me muito o livro Na escola de Maria, de autoria de André Damino1.

Origem das ladainhas


A palavra “ladainha” vem do grego e significa “súplica”. Mas desde o início da Igreja ela foi utilizada para indicar não quaisquer súplicas, mas as que eram rezadas em conjunto pelos fiéis que iam em procissão às diversas igrejas. Há, naturalmente, numerosas ladainhas, dependendo do que é pedido nas diversas procissões.
Quando a casa na qual morou Nossa Senhora na Palestina foi transportada milagrosamente para a cidade de Loreto (Itália), em 1291, a feliz novidade espalhou-se rapidamente, dando início a numerosas peregrinações. Com o correr do tempo, uma série de súplicas a Nossa Senhora foi sendo composta pelos peregrinos que ali iam, os quais A invocavam por seus principais títulos de glória. Posteriormente essa ladainha era cantada diariamente no Santuário, e os peregrinos que de lá voltavam a popularizaram em todo o orbe católico. Chama-se “lauretana” por ter sua origem em Loreto.
Algumas invocações têm sido acrescentadas pelos Papas ao longo dos tempos, outras são agregadas para honrar a proteção de Nossa Senhora a alguma Ordem religiosa, como fazem os carmelitas, os quais rezam a ladainha “lauretana-carmelitana”, com quatro invocações a mais. Mas o corpo central das ladainhas permanece o mesmo.
A Ladainha Lauretana ou Ladainha da Santíssima Virgem foi composta quando há pouco se encerrava a Idade Média. Guarda esse nome devido à aprovação do Papa Sixto V, no ano de 1587, dada à ladainha habitualmente utilizada pelos fiéis que frequentavam a Santa Casa de Loreto. Com essa aprovação, as demais ladainhas acabaram por ser suprimidas. Alguns dos títulos que constam atualmente foram acrescentados solenemente à ladainha original por uma série de Papas ao longo da história.
A Ladainha da Santíssima Virgem segue a seguinte estrutura:
      1. Maria, a santa: Primeira parte é composta por três avocações* que destacam: a santidade de Maria como pessoa, seu papel como Mãe (genitora) de Jesus Cristo e sua vocação como virgem.
      2. Maria, a mãe: Segunda parte composta por doze avocações referentes à maternidade de Maria.
      3. Maria, a virgem: Terceira parte formada por seis títulos honra Maria como virgem, tratando não só de seus méritos como tal, mas também da eficácia de sua virgindade.
      4. Símbolos de Maria: Depois se seguem treze avocações simbólicas, em sua maioria retirados do Antigo Testamento e referentes a Nossa Senhora, evidenciando suas virtudes e seu papel como corredentora da humanidade.
      5. Maria, a Intercessora: Os quatros títulos seguintes exaltam o papel de Maria como intercessora nas obras de misericórdia espirituais e corporais.
      6. Maria, a Rainha: E no último trecho da ladainha exaltamos por meio de treze títulos Maria como Rainha.


Composição da Ladainha


No início da Ladainha Lauretana, as invocações não se dirigem a Nossa Senhora, mas a Nosso Senhor e à Santíssima Trindade, pois dizemos Senhor, tende piedade de nós, Jesus Cristo, ouvi-nos, etc. Depois invocamos o Padre Eterno, o Filho e o Espírito Santo.
Por quê?
Tudo em Nossa Senhora nos conduz a seu divino Filho, e por meio d'Ele à Santíssima Trindade, que é nosso fim último. Isto é algo que os protestantes não entendem ou não querem entender: Maria Santíssima é o melhor caminho para se chegar a Deus.
Após essa introdução da ladainha, seguem-se três invocações, nas quais pronunciamos o nome da Virgem (Santa Maria) e lembramos dois de seus principais privilégios: o ser Mãe de Deus e Virgem das virgens. A seguir, há um grupo de 13 invocações para honrarmos a Maternidade de Nossa Senhora, e outras seis para honrar sua Virgindade. Em seguida, 13 figuras simbólicas; quatro invocações de sua misericórdia e, finalmente, 12 invocações d'Ela enquanto Rainha gloriosa e poderosa.
Em geral, é no grupo das 13 invocações com figuras simbólicas que surgem as maiores dificuldades de compreensão. Nossa civilização fechou-se para o simbolismo, e aquilo que poderia ser até evidente em outras épocas, hoje ficou obscurecido pelo exclusivismo concedido ao espírito prático. A própria vida contemporânea contribui para isto. Assim, por exemplo, como explicar ou ressaltar, a pessoas que ficam fechadas em cidades feias e perigosas, a beleza de uma estrela? Igualmente, o ritmo de vida corrida e excitante de hoje não favorece a meditação ou a contemplação das maravilhas da criação.


Alguns significados


Vejamos então o significado destas 13 invocações simbólicas.

Espelho de Justiça — Justiça, aqui, entende-se em seu sentido mais amplo de santidade. Nossa Senhora é chamada assim, porque Ela é um espelho da perfeição cristã. Toda perfeição pode ser admirada nEla, do mesmo modo como podemos admirar uma luz refletida na água.
Sede da Sabedoria — Nosso Senhor Jesus Cristo é a Sabedoria, pois, enquanto Deus, tudo sabe e tudo conhece. Ora, Nossa Senhora durante nove meses encerrou dentro de si seu divino Filho; Ela foi, portanto, a sede da Sabedoria. E continua a sê-lo, pois é nEla que encontramos infalivelmente a Nosso Senhor.
Causa de Nossa Alegria — a verdadeira alegria não é o riso. Rir muito nem sempre significa felicidade. É muito mais feliz a mãe carregando amorosamente seu filho do que um papalvo que ri à-toa. E a maior alegria que um homem pode ter é a de salvar-se e estar com Deus por toda a eternidade. Ora, antes da vinda de Nosso Senhor, o Céu estava fechado para nós. Foi o sacrifício do Calvário que nos reconciliou com o Criador e nos proporcionou a verdadeira e eterna felicidade. Como foi por meio de Nossa Senhora que o Redentor da humanidade veio à Terra, Maria Santíssima é, pois, a causa de nossa maior alegria.
Vaso Espiritual — Nada tem mais valor do que a verdadeira Fé. Na Paixão e Morte de Nosso Senhor, quando até os Apóstolos duvidaram e fugiram, foi Nossa Senhora quem recolheu e guardou, como num vaso sagrado, o tesouro da Fé inabalável.
Vaso Honorífico — Em nossa época, a honra quase não é considerada. Pelo contrário, muitas vezes a falta de caráter e a sem-vergonhice são louvadas. Mas a honra e a glória, na realidade, valem muito. E Nossa Senhora guardou cuidadosamente em sua alma todas a graças recebidas, e manteve a honra do gênero humano decaído. Se não tivesse existido Nossa Senhora, ficaria faltando na criação quem representasse a perfeição da criatura, fiel até o extremo heroísmo.
Vaso Insigne de Devoção — Devoto quer dizer dedicado a Deus. A criatura que mais se dedicou e viveu em função de Deus foi Nossa Senhora, tendo-o realizado de forma tal, que melhor é impossível.
Rosa Mística — A rosa é a rainha das flores. É aquela que possui de forma mais definida e esplêndida tudo quanto carateriza uma flor. Igualmente Nossa Senhora, no campo da vida espiritual ou mística, possui de forma mais primorosa tudo aquilo que representa a perfeição.
Torre de Davi — Lemos na Sagrada Escritura que o rei Davi tomou a fortaleza de Jerusalém dos jebuseus e edificou a cidade em torno dela. "E Davi habitou a fortaleza, e por isso se chamou cidade de Davi" (Paralipômenos, 11-7). Naturalmente, o rei Davi fortificou a cidade, para torná-la inexpugnável, e a dotou de forte guarnição. A Igreja Católica é a nova Jerusalém, e nela temos uma torre ou fortaleza que nenhum inimigo pode invadir ou destruir, que é Nossa Senhora. Ela constitui o ponto de maior resistência e melhor defesa. Por isso, nesta invocação honramos a Nossa Senhora reconhecendo que nunca houve, nem haverá, quem melhor proteja os fiéis e defenda a honra de Deus do que Ela.
Torre de Marfim — O marfim é um material que tem caraterísticas raras na natureza. Ele é ao mesmo tempo muito forte e muito claro. Igualmente Nossa Senhora é muito forte espiritualmente, a maior inimiga dos inimigos de Deus, e de uma pureza alvíssima. Assim Ela contraria a idéia falsa de que as coisas de Deus devam ser sempre muito doces, suaves e fracas, ou que a verdadeira força têm-na os impuros.
Casa de Ouro — O ouro é o mais nobre dos metais. Por isso, sempre que desejamos dar alguma coisa que seja insuperável, a oferecemos em ouro — uma medalha de ouro numa competição, por exemplo. Se tivéssemos que receber o próprio Deus, procuraríamos fazê-lo numa casa que não fosse superável, neste sentido uma casa de ouro. E a Virgem Santíssima é a casa de ouro que acolheu Nosso Senhor quando veio ao mundo.
Arca da Aliança — No Antigo Testamento, na Arca da Aliança ficavam guardadas as tábuas da lei dadas por Deus a Moisés e um punhado do maná recebido milagrosamente no deserto. Por isso ela lembrava as promessas e a proteção de Deus. Nossa Senhora é, no Novo Testamento, a Arca da Aliança que protege o povo eleito da Igreja Católica e lembra as infinitas misericórdias de Deus.
Porta do Céu — Nossa Senhora é invocada desse modo, pois foi por meio dEla que Jesus Cristo veio à Terra, e é por Ela que nos vêm todas as graças, as quais têm como finalidade nos levar ao Céu, nossa morada eterna. Assim, Ela favorece nossa entrada no Céu, como a porta favorece a entrada num local.
Estrela da Manhã — Pouco antes de nascer o sol, quando a escuridão é maior e vai começar a clarear, aparece no horizonte uma estrela de maior luminosidade. Depois, quando as outras estrelas desaparecem na claridade nascente, ela ainda permanece. Assim foi Nossa Senhora, pois seu nascimento significava que logo nasceria o Sol de Justiça, Nosso Senhor Jesus Cristo. E quando a Fé se perdia até entre o povo eleito, Ela continuava a acreditar e esperar. Ela é o modelo da perseverança na provação e o anúncio da Luz que virá.

Temos assim, resumidamente, algumas explicações das invocações da Ladainha Lauretana. Esperemos que a compreensão delas nos ajude a rezar com maior fervor tão meritória oração.



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1- Damino, André, in “Na escola de Maria”, Ed. Paulinas, 4ª edição, São Paulo, 1962.
*- s.f. Ação ou efeito de avocar. Chamamento da causa a outro juízo.

A Roda do Moinho



[diz o Senhor]
O afeto do coração deve estar em Mim,
não nas coisas externas;
elas não pertencem aos homens,
são dadas em empréstimo.”
s. Catarina de Sena1




Na peregrinação em 2010 ao Santuário mariano de Fátima, Portugal, d. Peter, Cardeal Turkson, alertou que preocupações podem afetar a Fé. Afirmou algo talvez óbvio, mas com certeza preocupante.
O então presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz advertiu quanto ao perigo das preocupações cotidianas tornarem-se obstáculos à fé. Ele pediu que as decisões humanas, especialmente dos católicos, levem sempre em conta Deus. Mas será que todos são assim?
Robert Schuman2, homem de notável fé e variadas preocupações, nunca começava nada, seja uma palestra, trabalho ou mesmo o seu dia, sem que contasse algumas Ave-Marias nas contas de seu rosário3. É um exemplo de como se coloca a Deus em primeiro plano.
Gabriel Garcia Moreno, congregado mariano, presidente do Equador, pôde ser um político verdadeiramente católico porque era um homem católico em verdade4. Trabalhava muitas horas cada dia, sujeitando sempre seu horário a uma distribuição muito estrita, que incluía levantar-se às cinco horas da manhã, ter Missa, meditação e exame de consciência entre as seis e as sete.
Em uma das páginas da “Imitação de Cristo”, Gabriel Garcia anotou, por ocasião dos seus Exercícios Espirituais: “Oração a cada manhã, e pedir particularmente a humildade. Nas dúvidas e tentações, pensar como pensarei na hora da morte. Que pensarei sobre isto em minha agonia? Fazer atos de humildade, como beijar o solo em segredo. Não falar de mim. Alegrar-me de quem censurem meus atos e minha pessoa. Conter-me vendo a Deus e a Virgem, e fazer o contrário do que me incline. Todas as manhãs, escrever o que devo fazer antes de ocupar-me. Trabalho útil e perseverante, e distribuir o tempo. Observar escrupulosamente as leis. Tudo ad majorem Dei gloriam [à maior glória de Deus] exclusivamente. Exame (de consciência) antes de comer e dormir. Confissão semanal ao menos.”
Professamos a nossa Fé em “amar a Deus sobre todas as coisas”. Mas, que coisas são essas? Sem dúvida amamos mais a Deus do que tudo, mas será isto verdade no nosso dia a dia?
Quantos não se furtam de ir a praia ao invés da Santa Missa dominical pois alegam que “trabalham tanto e somente tem este dia para estar com os filhos”. Alegam que não estão preferindo a família do que a Deus, pois o Senhor ensinou que devemos amar nossos filhos e conjugues.
Há os que preferem a ascensão profissional, deixando em segundo ou terceiro plano as orações diárias ou uma leitura espiritual. Alegam que não querem ser carolas, mas ao invés, católicos conscientes de suas responsabilidades profissionais. Outros alegam que “tem contas a pagar” e que não podem viver como se fossem aposentados e ficar rezando o dia todo.
Diz um bispo africano no século V: “o que preferes? A santidade ou o dinheiro? Dirás: 'mas não tenho como que viver, não tenho o suficiente para comer, para beber'. E se não puderes conseguir isso a não ser pela iniquidade? Tu vês o lucro do ouro que ganhas, mas não vês a Fé que perdes”5
Destes e de vários outros exemplos podemos concluir que existem muitos cristãos que pecam contra o Primeiro Mandamento. E, pior, não se acusam numa Confissão...
Por que agem assim? Acreditamos que não seja por falta de amor a Deus, mas sim de possuírem um amor infantil, algo primário, reticente. São pessoas que creem em Deus, mas com alguma reserva, uma religião de fim de semana. A própria roupa diz isto claramente em alguns casos, quando aqueles que se vestem adequadamente para o trabalho, roupas especialmente escolhidas até, usam de camisas esportivas e calças cansadas para ir numa reunião pastoral ou mesmo a Santa Missa, como se estivessem indo fazer compras na quitanda da esquina...
Se parassem para pensar nos atos de sua vida, muitos veriam que não amam a Deus sobre todas as coisas. Amam a si mesmos. São como um moinho que gira interminavelmente para prover a fazenda de energia. Enquanto tiver água no rio, a roda do moinho girará. Como as poderosas turbinas da usina de Itaipu: as águas do rio não acabarão nos próximos milênios e elas estão lá, girando ferozmente, parando somente quando o seu metal se romper e acabar sua vida útil. Daí uma nova turbina será colocada e começará sua sina interminável, girando sem fim.
Pode-se dizer que a roda do moinho é útil para alguém. Sem duvida. Mas não o é para ela mesma. Deus nos criou para sermos mais do que apenas geradores de atividades, de “motos contínuos” sem descanso. Deus nos criou para participarmos da sua criação como co-criadores e aproveitarmos do Mundo. E não só co-criadores, mas correndentores: “Suportando o que há de penoso no trabalho em união com Cristo crucificado por nós, o Homem colabora, de algum modo, com o Filho de Deus na Redenção da Humanidade.”6
Há uma doença psicológica do ativismo que foi diagnosticada em meados do século XX. Os que possuem este desequilíbrio chamam-se de workaholics. Workaholic é um termo originado da palavra inglesa alcoholic, que significa “alcoólatra”. Significa, então, uma pessoa que é “viciada em trabalho”.
O workaholic já começa a ser visto pelos especialistas em Recursos Humanos como um profissional pouco produtivo, já que não sabe se organizar nas oito horas diárias e costuma levar trabalho para casa. Por conta disso, cresce o número de empresas que criam programas para encorajar os empregados a buscar o equilíbrio na sua vida privada e na profissional . A justificativa é que quem trabalha muito tem longevidade menor, em função dos males provocados pelo estresse.7 Os funcionários mais ambiciosos e competitivos, que a psicologia dos anos 1950 definiu como pessoas com uma personalidade do tipo A, são mais vulneráveis às doenças do coração. Num artigo do diário britânico The Telegraph, enumera-se que os trabalhadores compulsivos estão mais sujeitos a desenvolver bruxismo, o hábito de ranger os dentes durante a noite. Os problemas de fertilidade nas mulheres também tendem a aumentar, acreditam os especialistas. “Têm níveis muito elevados de cortisol, o que os faz sentir mais ansiosos e empanturrarem-se com café, fast-food* e chocolate – todas estas coisas mantém-te com energia mas também te fazem ir abaixo e ansiar por mais”, resume a formadora de executivos Lisa Wynn. Uma solução: saber parar, mesmo numa carreira absorvente.8
Centros de terapia foram criados para curar os afetados e no fim de tudo as pessoas curadas chegam a uma conclusão bem simples: a vida é para ser vivida em plenitude.“o trabalho é 'para o Homem' e não o Homem para o trabalho”9


Segundo d. Peter, “a ilusão e as preocupações da vida podem tornar-se verdadeiros obstáculos à nossa fé em Deus e podem maliciosamente comprometer a nossa relação com Deus, a nossa vida religiosa e a nossa vida de fé”. Quem imaginou isso? Achar que somente nós podemos agir a nossa vida e a Mão de Deus nada pode nos proporcionar? Nunca, dirão alguns, pois nós pedimos sempre a Deus com muita fé. Há automóveis que tem adesivos com a frase “foi Deus que me deu”. Deus, segundo eles, somente dará coisas boas, como aquele modelo com ar condicionado e direção hidráulica... e somente aquilo que for pedido.
Deus se torna, assim, um acionista da nossa vida, um colaborador da “grande” tarefa de sermos pessoas bem sucedidas. Não entendemos a mão de Deus nas coisas pequenas, mas somente nas grandes obras. Não entendemos a vontade de Deus em uma enfermidade, mas apenas na promoção do salário.
Não foi assim que os santos pensaram. E não é assim que devemos pensar.
As ocupações “podem maliciosamente comprometer a nossa relação com Deus”. Veja uma palavra perigosa que o Cardeal Turkson usa: malícia. A malícia é um pensamento lascivo, sub-reptício. Usa-se de malícia quando preferimos estudar a rezar, alegando que queremos agradar a Deus, mas na verdade queremos as glórias de uma boa empreitada.
D. Peter alertou que esta é uma situação que afeta não só os responsáveis eclesiais e as comunidades cristãs, mas também “governos nacionais e organizações mundiais”. Um exemplo é o clássico caso do aumento populacional da Terra. Várias personalidades, mesmo o famoso Jacques Custeau10, defendem o controle de natalidade “para que o planeta viva mais” e com melhor qualidade de vida. Filmes foram feitos prevendo catástrofes climáticas por causa de um alardeado super aquecimento global. Tudo levando maliciosamente – de novo a palavra – a pensarmos que somente nós iremos salvar o Mundo. Somente o conjunto de esforços da nações – que no cinema fica nas mãos apenas dos Estados Unidos – irá salvar a Humanidade de uma nova Idade da Pedra.
Na realidade, vários meteoros do tamanho da cidade de São Paulo passaram bem perto (em termos astronômicos) de nosso planeta sem nos atingir. E isto mesmo nesta década. Sorte ou “mão de Deus”? Não é mais palpável crer que há um Criador que protege a sua Criatura do que construirmos um gigantesco canhão de raios para pulverizar um possível asteroide?
Citando estes fatos científicos chegamos a conclusão que a Ciência deve se preocupar em melhorar a vida das pessoas aqui na Terra e não ficar monitorando o Cosmo em busca de possíveis “meteoros do Fim do Mundo”, não é? Mas é isso mesmo que ocorre com aqueles que acham que somente com seu esforço irão progredir na vida. O chamado “self-made man” é apenas uma criação do cinema de Frank Kapra. Ninguém faz nada de bom sozinho...“o trabalho tem como sua característica, antes de mais nada, unir os homens entre si; e nisto consiste a sua força social: a força para construir uma comunidade.”11 Será que é isso que nos ensina subliminarmente os filmes de cinema e televisão?
O cardeal Turkson deixou para os católicos um desafio. O desafio, a missão, de confiar num Deus que “pode ser oculto”, mas que “nunca abandona a obra das suas mãos”. 
Aprendamos com os monges, famosos pelo dia de trabalho e oração, como Thomas Merton: 
“O verdadeiro contemplativo é aquele que descobriu a arte de encontrar o lazer em plena atividade, pois trabalha com o espírito tão desapegado e recolhido que o próprio trabalho é para ele oração. A oração torna fácil o trabalho, este ajuda a voltar a oração com o espírito refrescado.”12



Alexandre Martins, cm.

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1- s. Catarina de Sena, in “O Diálogo”, 2ª edição, Ed. Paulinas, SP, 1984, pág. 10
2- Robert Schuman (29/06/1886 - 4/09/1963),  político democrata cristão e estadista luxemburguês radicado na França. Advogado de alto nível e Ministro dos Negócios Estrangeiros francês entre 1948 e 1952, é considerado um dos promotores da unificação europeia, sendo chamado de “O Pai da Europa”. Foi iniciado o seu processo de canonização.
3 - Testemunho de René Lejeune , Documento fornecido pelo Postulante da Causa, Padre Joseph Jost.. Disponível em www.robert-schuman.com/fr/pg-temoignages/spi-mar.htm
4- presidente da República equatoriana por dois mandatos, 1861-1865 e 1869-1875. Adotou a Doutrina Social da Igreja em seu plano de governo. Fez a consagração do Equador ao Sagrado Coração de Jesus, sendo a primeira nação do mundo a fazê-lo.
5- s. Agostinho de Hipona, in “Comentário à Epístola de João”
6 - papa João Paulo II, in “Carta Encíclica Laborem exercens” (sobre o Trabalho Humano no 90° aniversário da Rerum Novarum), 14/09/1981, 4ªedição, Ed. Paulinas, SP, 1981, pág 94
7- Jornal Administrador Profissional - nº 234 - Dezembro 2005
*- do inglês “comida rápida”, refere-se a comida em lanchonetes: sanduíches, salgadinhos, etc.
8- Disponível em http://www.ionline.pt/conteudo/52370-workaholics-sorte-ao-trabalho-azar-na-saude
9 - papa João Paulo II, in “Carta Encíclica Laborem exercens” (sobre o Trabalho Humano no 90° aniversário da Rerum Novarum), 14/09/1981, pág 24
10- Militar, oceanógrafo e explorador francês (11/6/1910-25/6/1997).
11- papa João Paulo II, in “Carta Encíclica Laborem exercens” (sobre o Trabalho Humano no 90° aniversário da Rerum Novarum), 14/09/1981, pág 73
12- Thomas Merton, in “Direção Espiritual e Meditação”, pág. 102-103