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As Congregações Marianas para indígenas nas Reduções Jesuítas


Alexandre Martins, cm.


As Reduções – povoados indígenas, em especial entre a nação Guarani - fundados na Província do Paraguai a partir de 1609, fizeram parte de uma estratégia de ocupação do território latino-americano pela Coroa espanhola. Foram um instrumento de controle de certos territórios de fronteira, especialmente em regiões onde os poderes coloniais não tinham “mediações para exercer a hegemonia sobre a população indígena”.1 As Ordens Religiosas de então, especialmente a Companhia de Jesus, foram literalmente usadas pela Coroa para seu trabalho de colonização e inserção daqueles povos ao Império Espanhol. 

Embora algumas Reduções tivessem sido assentadas em locais próximos aos meios urbanos hispânicos, em geral floresceram em regiões afastadas, atendendo a considerações práticas do trabalho de Catequese. Ou seja, embora a separação dos índios das colonias espanholas não tenha sido total, optou-se por favorecer o seu relativo isolamento daquilo que se considerava como riscos do mau exemplo dos colonos espanhóis.

Entendia-se, na época, ser necessário conduzir os índios às pautas de uma vida política e humana como requisito inicial para o sucesso da evangelização. Isto significava resgatá-los da barbárie para a civilização, e da infidelidade para o cristianismo. Tratava-se de “um projeto global, que pretende cristianizar, humanizando”. E ainda, “a missão por redução é um método e uma história, um modo de proceder e uma atuação do mundo colonial”. 2 Foi o que se pretendeu no século XX com a aquisição de ideias marxistas no trabalho social da Igreja, com resultados desastrosos, mas, no século XVI o pensamento era legitimamente de formar uma Sociedade Cristã entre os novos povos para, talvez, ser um bom exemplo para uma Europa viciada e hipócrita.

Os missionários jesuítas do Paraguai dos séculos XVII e XVIII procuraram conduzir o processo histórico missioneiro à luz da história à da história da salvação. No processo de ocupação, os fatos foram adquirindo um sentido teológico, em eventos de profunda espiritualização do jesuíta e do índio. O sentido teológico da missão encaixou-se perfeitamente no propósito de vida guarani que era da busca da Yvy Marroy (=terra sem males), fazendo com que o índio aceitasse mais naturalmente a ideia da catequese e, por conseguinte, da sedentarização.

Houve uma experiência concreta deste “ideal de Mundo Cristão” no México desde a década de 1530, a partir das iniciativas de Jeronimo de Mendieta. Foi assim que experimenta-se também um modelo de Redução no povoado de Santiago (Chile), mais conhecido pelo epíteto de El Cercado, que foi confiado aos cuidados dos padres da Companhia de Jesus.

Cisplatinos
Na região do Rio da Prata3 as primeiras Reduções junto a nação Guarani foram assentadas pela Ordem dos Frades Menores (os franciscanos) que criaram, em Altos (1580), Itá (1585) e Yaguarón (1586/87) povoados que buscavam reduzir os conflitos estabelecidos entre os índios e os colonos espanhóis. 

É nesta situação de confronto entre índios e colonos espanhóis, que a Companhia de Jesus dá início ao seu trabalho de “missão por redução”. De 1591 a 1606 a documentação fala de, pelo menos, cinco grandes revoltas no médio rio Paraná aonde seriam enviados dois missionários jesuítas em 1609. A partir da fundação da Redução de San Ignacio Guaçu (atual Paraguai, 1609) as demais fundações estenderam-se num ritmo um tanto irregular nas regiões do Paraná, Paraguai, Uruguai e Tape (região oeste do atual Rio Grande do Sul) constituindo os chamados “Trinta Povos das Missões” que reuniram milhares de índios. Em 1743 a população dos Trinta Povos alcançava 141.182 indivíduos.

San Inácio Guaçu, fundada pelo Padre Marcial Lourenzana (na mesma época em que foi instalada a de Nossa Senhora de Loreto, no Guairá), foi edificada e organizada pelo Padre Roque Gonzáles de Santa Cruz, a partir de 1611. Devido aos frequentes ataques dos índios Guaicurus, a Redução teve que ser mudada para um lugar mais elevado e protegido, o que comprometeu o seu desenvolvimento. 

Padre Roque Gonzalez4 era um Congregado mariano que fundou Congregações Marianas em seus povoados. O mártir paraguaio fundou numerosas Missões e Reduções, entre elas as aldeias de São Nicolau, Assunção e Todos os Santos do Caaró. 

Os tempos iniciais foram de dificuldades provenientes da desconfiança e resistência dos índios, da hostilidade dos colonos espanhóis – os jesuítas conseguiram a dispensa do serviço pessoal dos índios junto ao governo e os colonos foram privados da mão-de-obra servil indígena - da necessidade de organização dos povoados – inclusive no âmbito de sua sobrevivência material - e de fazer frente às "bandeiras", expedições organizadas pelos colonos da Vila de São Paulo5 para o aprisionamento de índios a serem escravizados. Em 1635, uma Bandeira de São Paulo, chefiada por Raposo Tavares, iniciou a destruição, pilhagem e rastro de sangue sobre os trinta mil indígenas catequizados e reduzidos. A devastação da região do Guairá pelos bandeirantes, tornando escravos cerca de 20.000 índios reduzidos, obrigou os jesuítas a transmigrarem para o sul e para o Itatim, 500 Km ao norte de Assunção.

Vida numa Redução


A ação dos jesuítas junto aos índios foi missionária e civilizadora: os indígenas seriam, não apenas convertidos, como enquadrados dentro dos marcos jurídicos e culturais da sociedade espanhola. Se alguns dos novos valores foram transmitidos aos índios e aceitos – como a tecnologia do ferro - outros não foram aceitos facilmente. Os jesuítas desenvolveram uma enérgica ação coibidora da poligamia, das festas de chicha6, da atuação dos xamãs, da antropofagia, etc.

Os procedimentos a serem tomados quando fosse necessário punir a algum índio estavam claramente determinados. Em 1609, nas primeiras instruções aos missionários, o Provincial Diego de Torres Bollo já indicava que as disputas entre os índios e os seus “vícios públicos”, deveriam ser corrigidos e castigados, ainda que com “amor e caridade”. Sua recomendação recomenda que, para isto, houvesse fiscais que controlassem o comportamento dos índios. Indica o Provincial que, embora devam agir com firmeza contra os pecados, esta ação deveria se valer de meios “suaves de admoestação e repreensão”.

Houve um cuidadoso trabalho e atenção dos jesuítas às crianças indígenas. Crianças e adolescentes tornar-se-iam cristãos devotos e eficazes agentes de evangelização do cotidiano dos adultos. A ação dos membros das congregações religiosas cujo estabelecimento nos povoados foi promovido pelos padres foi bem maior. Seus membros “... fazem as preces diariamente do Rosário, flagelam-se e usam o cilício toda a semana, falam às mulheres de olhos baixos como os jesuítas e se confessam com frequência. São também os espiões mais diligentes para o pecado dos outros: repreendem o culpado e fazem um relatório aos missionários”.7

As Congregações nas Reduções do Paraguai

Em Congregações exclusivamente indígenas, como a de Quito (Equador), os índios Congregados tinham papel de oficiais de justiça, com jurisdição fundamental sobre bebedeiras, amancebamento e feitiçaria. Daí o cuidado e a escolha criteriosa dos indivíduos que poderiam participar das associações. Desta forma, mais do que indivíduos cuja conduta deveria ser exemplar e inspiradora dos demais membros da comunidade, os membros das Congregações eram os interlocutores privilegiados dos padres em cada Redução, canais de comunicação destes com o conjunto dos índios dos povoados e fiscais dos comportamentos destes últimos.

As Congregações Marianas (da parte Jesuíta) bem como as demais Confrarias e Irmandades (da parte de outras Ordens, como a do Rosário, do dominicano Tomás de San Juan; e a de Ánimas e a de Nossa Senhora, dos agostinianos) foram uma manifestação comum no âmbito das práticas religiosas na América Colonial Hispânica. 

Elas foram fato essencial não apenas no estímulo das devoções mas, ainda, como elemento organizador das populações. Caio Boshi afirmava em 1986 que, além de promover a comunhão entre os membros e intensificar as práticas de culto religioso, as irmandades agiram no sentido de suprir as deficiências materiais de seus associados, numa época que o Estado não incluía programas sociais entre seus atos.

Nas Congregações Marianas, além de estimularem-se ações de sociabilidade, defenderem-se direitos profissionais e usufruir-se da solidariedade dos demais membros, podia-se exercer devoções particulares que assumiram, em território latino-americano, uma importância crescente pela congruência de interesses em torno das mesmas. Os clérigos estimulavam-nas para evangelizar;os funcionários do Estado para fundar aglomerações estáveis que pudessem controlar; a Aristocracia via-as como uma continuação das elites sociais; e os índios buscavam nelas uma nova organização de sua cosmovisão, buscando restaurar a solidariedade entre suas comunidades, a visão do “Yvy Marroy”. 

Se eram, as Congregações e as confrarias, as responsáveis pelo brilho e solenidade das procissões, a demanda principal a qual estavam ligadas centrava-se no esforço de elevar o fervor espiritual e fomentar as devoções – à Santa Eucaristia, à Nossa Senhora, ou outras –, e afirmar e fortalecer a confiança no seu patrocínio.

Na época praticamente cada cristão pertencia a uma ou várias dessas associações piedosas. Estavam caracterizadas por formas comuns de devoção e ajuda sobre a base da reciprocidade. A beneficência pública esteve em geral nas mãos das confrarias, sendo também sua a iniciativa, muitas vezes, da construção de templos e capelas. Algumas existem até hoje, como a Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo. Muito difundidas foram as Confrarias do Santíssimo Sacramento, fomentadoras da devoção eucarística e incumbidas de levar a Eucaristia aos enfermos, acudir diante dos gastos do sepultamento e das Missas em intenção dos mortos. O compromisso com este conjunto de atividades é mostrado na descrição que faz o Provincial do Peru em ânua de 1602:
"Seus exercícios ordinários são o ocupar-se em obras de caridade com o próximos vivos e defuntos. Aos defuntos mandarão à véspera de Comemoração deles, mais de seiscentas Missas (...). Aos vivos socorrem em suas necessidades: aos presos com o ter com que os condenados tenham com que se defender nos processos e com as esmolas que lhe trazem; e aos enfermos dos hospitais com visitas frequentes, levando-lhes presentes e servido-lhes com notável edificação (...). Tem seus dias nos quais se informam dos alimentos que serão necessários para todos os enfermos e encarregando-se de mandar fazer ..."8

Seleção e privilégios

Pertencer a certas irmandades acabou por converter-se em símbolo de prestígio: algumas, como a de Nossa Senhora do Ó (Lima, Peru) tinham participação aristocrática, enquanto outras sustentavam diferenciações étnicas, como aquelas exclusivas de índios ou negros. 

Em Quito, em 1587, existiu uma Congregação Mariana exclusivamente para os índios do Equador.
Nas procissões solenes cada grupo desfilava em separado, mostrando o perfil da sociedade das colônias. As Congregações e Irmandades convertiam-se em um reflexo da realidade social e racial luso portuguesa, às áreas e à situação da América Espanhola na mesma época.

O estímulo à participação diferenciada dos grupos sociais e étnicos em suas próprias confrarias pretendeu correspondia a uma necessidade dos diferentes grupos de cultivar suas tradições culturais próprias. Devido as características intrínsecas da sua constituição e funcionamento, essas instituições tornaram-se autênticas forças sociais que detinham e controlavam uma parte importante das redes de sociabilidade estabelecidas no tecido social das comunidades. Comuns, portanto, no mundo da colônia, também as Reduções do Paraguai conheceram suas próprias confrarias: as Congregações da Virgem e de São Miguel.
Há em todos os povos [das Missões] duas Congregações: uma da Virgem e outra de São Miguel. Se admitem Congregados adultos de um e outro sexo. Não se admite qualquer um. Se fazem provas preliminares de seus hábitos. Confessam e comungam segundo a Regra mensalmente. No dia de sua patrona se celebra com grande solenidade, com Vésperas solenes e danças, Missa Solene e Sermão; pela tarde se faz uma Prédica, o Padre lhes lê suas Regras e as explica: assinam seus documentos de ingresso aos que ingressam novamente; porque fazem juramento de viver de tal e tal forma, e de cumprir as Regras. Este papel trazem ao colo em uma curiosa bolsa para serem conhecidos como Escravos da Virgem, e outros como especiais devotos de São Miguel.”9

Na de São Miguel eram admitidos meninos e meninas a partir dos doze e até os 30 anos. Na Congregação Mariana faziam parte índios, considerados virtuosos, de mais de trinta anos. Em alguns povoados maiores, o número de Congregados era grande, podendo chegar a oitocentos. Avalia-se que um décimo do total de habitantes de cada povoado estaria adscrito a uma ou outra Congregação.
Escolhidos por suas virtudes, os membros das Congregações eram agraciados com o privilégio de ocupar as primeiras filas nas igrejas e posição de destaque nas procissões (na procissão de Corpus Christi, os índios das Congregações precedem o Santíssimo Sacramento, secundado pelos membros do Cabildo Diocesano*); recebiam um funeral mais elaborado e um lugar em separado para seu sepultamento: “o cemitério [das Reduções] é dividido em seis partes, duas delas destinadas às crianças inocentes e aos congregados; as outras, cuja superfície é idêntica, aos meninos, meninas, homens e mulheres; a separação de sexos é respeitada até na morte”. São ainda agraciados com indulgências e com imagens devotas, agnus-dei e outras relíquias que lhes são distribuídas regularmente. 

Especialmente considerada pelos índios Congregados era a distinção de usarem, presa a um colar, uma cópia da carta em que o Padre Geral lhes participa as graças especiais e uma certidão em que são declarados Escravos da Virgem. Já havia a tradição, desde a primeira Congregação Mariana na Itália, de os Congregados usarem uma medalha pendente de um cordão ou fita azuis ao pescoço. A medalha era lhes conferida quando de sua Consagração à Virgem na Congregação. O uso do cordão com a certidão parece ser característico das Congregações Marianas do Rio da Prata.

Apostolado e Pureza

A criação e a atuação destes corpos de fiéis leigos nas Reduções, orientou-se – como fora delas - pela necessidade de incentivar a benemerência, e um dos principais deveres dos membros das Congregações nos povoados é o de distribuir esmolas aos pobres. Os Congregados da Santíssima Virgem, afirma o Provincial do Paraguai Francisco Lupercio de Zurbano na ânua de 1637–1639, “dia a dia crescem em amor a sua Padroeira, e exercem por amor a ela várias obras de Misericórdia com os enfermos e pobres, trazendo-lhes lenha das matas, água da fonte, e comida, se lhes sobra alguma. Aos mortos procuram suas exéquias e rezam por eles. Atendem também aos doentes e a cada Domingo se nomeiam seis dos Congregados por turno, os quais cada dia tem de visitar aos enfermos, socorrendo-os com tudo que for necessário”.10

Os membros das Congregações Marianas deviam também fomentar devoções e estimular comportamentos piedosos e exemplares, não apenas no que se relaciona ao cumprimento das obrigações cotidianas, mas em suas virtudes morais:
Melhor ainda se mostra a Congregação Mariana. E tem os Congregados uma severa vigilância entre si, não permitindo em suas fileiras nenhum escândalo”11

Desta forma, os Congregados do sexo masculino não apenas devem evitar a frequência a lugares em que possam encontrar-se com mulheres (a fim de não incorrer em pensamentos impuros), como podem propor-se a manter a castidade mesmo após o casamento. Se o uso das tradicionais longas cabeleiras indígenas era um sinal de infidelidade, ensina-se aos membros da Congregação Mariana a oferecerem as suas à Virgem, para sensibilizar aos demais a seguirem-lhe o exemplo.

Em atenção de seu zelo religioso e virtude, os Congregados assistem a Missa e rezam o Rosário todos os dias. Aos sábados, além disso, entoam hinos sacros em honra de Nossa Senhora e fazem-lhe oferendas de flores; flagelam-se com frequência, sendo estes penitentes os que demonstram mais ardor nesta prática, confessam-se e comungam ao menos uma vez por mês. 

Um zelo religioso mais exacerbado por parte destes cristãos do que o dos demais é qualidade que transparece dos relatos jesuíticos em várias passagens, o que estaria de acordo com a ideia de que cabia a estes membros da comunidade o estímulo das virtudes e crenças dos demais:
É grande o santo pudor das mulheres, as quais preferem sofrer qualquer martírio, antes que manchar-se com algum pecado; pelo mesmo motivo, para guardar a castidade, elas, por iniciatíva própria, procuram dominar sua paixão com esforços corporais. Houve quem dois dias antes de comungar teve um rigor tal que não bebeu nenhuma gota d'água nem provou nenhum alimento (…) outros se penitenciaram sem compaixão durante a Véspera, levando aos ombros pesadíssimas cruzes; estavam quase todo o dia no templo, e confessavam minuciosamente suas menores faltas”.12

opulência das Devoções marianas

A opção pela Virgem como padroeira das Congregações presentes nas Reduções, está em sintonia com o estímulo à devoção mariana que os jesuítas fomentaram como prática evangelizadora. Isto entre os índios, nas Reduções, como também nos Colégios das vilas entre a população branca.
Segundo o Provincial Diego de Altamirano, a intenção de abrilhantar os festejos poderia envolver gastos consideráveis para a região:
Dando como assunto de melhores adornos a grandeza com que outras sagradas Ordens desempenharam (…) seu afeto tocará as demonstrações operadas por nós a cuja Igreja toda a cidade, clérigos e religiosos (…) com majestoso triunfo levarão em solene procissão a Mãe do Verbo Encarnado, onde, colocada em elevado trono, recebe gozosamente os parabéns (…) Aqui por vários dias se repetiram solenes as Missas, sermões doutos, saraus alegres, peles caras e ricos adornos, com os quais correram enfeitados os cavalos (…) escaramuças, torneios, e o mais que alegraram todos aqueles dias a cidade, sem que a escuridão das noites interrompesse de todo a festa, pois a luz das luminárias, o ruído dos fogos, com fantasias e máscaras, afastavam a natural tristeza da noite. Racional o ornamento da igreja, justo o gasto com a cera, caro o valor dos prêmios, adequadas as pompas segundo o capital de cada um.”13

a Devoção Mariana herdada se torna própria

A devoção à Virgem Maria chegou às Américas junto com os primeiros espanhóis, que logo denominaram em seu louvor inúmeros lugares e, depois, igrejas: Encarnación, Rosario, Asunción, Concepción, Mercedes, etc. Cada ordem religiosa estimulava um aspecto da devoção a Maria: os dominicanos, o Rosário; os franciscanos, a Imaculada Conceição (o dogma da Imaculada Conceição só foi proclamado em 1708, pela Bula Ineffabilis Deus de Pio IX); os mercedários, a Virgem das Mercês; os jesuítas, a Virgem de Loreto. 

À Virgem, os jesuítas dedicaram templos, conventos e povoações e celebraram com especial fervor todas suas as festividades; sob a sua influência fundaram-se Congregações Marianas em múltiplas localidades do Novo Mundo.

Os índios manifestam uma “devoção terna a Maria Santíssima que fomenta sua nova Congregação [Mariana] na qual seus escravos juntos todos os dias escutam Missa antes de ir para seus afazeres; e depois do trabalho profícuo de cada dia rezam devotamente o Rosário(…)fazendo o contrário dos vícios, de modo que cada dia prometa em sua boa disposição frutos cada vez mais abundantes de seu fervor”. A devoção à Virgem era garantia de proteção contra pestes como também a responsável pela conduta exemplar de antigos pecadores.

São frequentes os relatos dirigidos no sentido de relacionar o sucesso da evangelização com a participação dos índios nas Congregações Marianas:
O fruto que se faz desta nova espiritualidade com a devoção da Virgem Santíssima é muito grande e dá claras amostras dos Congregados sobre a escravidão a Nossa Senhora. Frequentam cuidadosamente as confissões e as visitas ao Santíssimo Sacramento, ouvindo Missa todos os dias (…) e rezando o Rosário todos os dias. Assim se vê neles os frutos desta santa devoção e vivem edificantemente.”14


No governo da elite dos melhores

Os membros das Congregações compunham nos povoados parte de um grupo de intermediários entre a autoridade dos padres e os demais indígenas15

Os antigos caciques passam a ter sua condição hereditária e seus filhos recebem uma educação mais esmerada. São reconhecidos pela Coroa espanhola com o título de “don” (=senhor) e conservando parte da antiga autoridade diante dos seus vassalos. Nas Reduções são criados os “cabildos” indígenas - uma instituição de governo municipal, de tradição espanhola. 

Os magistrados e funcionários que compunham este Conselho gozavam de uma situação especial: estavam isentos do pagamento de tributos, recebiam rações suplementares de carne e outros alimentos e vestimentas especiais. Ocupavam os primeiros lugares no interior das igrejas e seus filhos tinham o privilégio de frequentar a escola do povoado.

Eleito a cada ano no final de dezembro pelo Conselho que está terminando seu mandato, o “cabildo” era composto pelo “corregedor”, “tenente de corregedor”, dois “alcaides comuns” (encarregados da administração, justiça e polícia), um ou dois “alcaides de la hermandad” (mais especificamente encarregados da polícia dos campos), o “alférez real” (que carrega o estandarte real no dia da festa do padroeiro) e quatro “regidores” (conselheiros municipais). Também fazem parte do cabildo um ou dois “alguaciles” (comissários encarregados de fazer executar as ordens), um “mayordomo” (preposto na guarda dos armazéns e nos negócios econômicos) e um secretário.

A escolha dos novos membros a partir dos anteriores não se fazia, contudo, sem a aprovação do Cura (o Padre) da aldeia. Este recebia a lista dos indicados e, em caso de desaprovação, podia modificá-la. 

Isso ocasionava fatos como, quando paulistas indignados com a reação militar a uma Bandeira, organizaram, em 1640, outra Bandeira, liderada por Jerônimo Pedroso de Barros, com objetivo de libertar doze paulistas presos, encontrou, junto às margens do arroio Mbororé, uma resistência missioneira de 4000 guaranis, 3000 armados, chefiados pelo índio general Inácio Abiaru, sob o aconselhamento do velho cacique guarani Nicolau Neenguiru e pelo jesuíta técnico-militar Domingos Torres.

Os indicados para o “Cabildo” costumavam estar dentro da esfera dos caciques e seus filhos, mas os indivíduos também podiam ascender a ele por mérito e talento pessoal. O mérito maior era, sem dúvida, uma conduta cristã exemplar e os membros da Congregação Mariana (a que estavam adscritos os adultos) compunham boa parte do grupo dos escolhidos.

O comportamento dos índios cristãos era alvo de constante avaliação e aqueles que manifestavam estar mais dentre “os mais dignos nas coisas da fé” eram preferencialmente os escolhidos e recomendados. 

Esta era também a condição para permanecer-se como membro das Congregações Marianas. Em decorrência, aos Congregados eram confiadas responsabilidades maiores, como a assistência aos enfermos ou o velório dos mortos. Nestas situações eles poderiam, além de ser instrumento conforto espiritual e material, zelar pela não ocorrência de "feitiçarias" ou outras práticas pagãs.

Manutenção da Fé

Os povoados jesuítico guaranis chegaram a estar ocupados por alguns milhares de nativos que viviam sob a responsabilidade de tão somente dois padres (às vezes, por apenas um). 

Conviviam neles nativos dos mais variados graus de conversão. Mesmo os já batizados por vezes recaíam em práticas condenáveis e as atas registram vários exemplos destas, especialmente quanto aos comportamentos sexuais. Uma peste, más colheitas e a fome daí decorrente, por exemplo, chegavam a por em perigo a fé dos neófitos que podiam incorrer no pecado de antigas feitiçarias. 

Ao lado do importante papel como fomentadores de benemerência, devoção e de modelos de vida virtuosos, os membros das Congregações Mariana estavam a serviço do controle e vigilância do comportamento dos demais índios dos povoados. Seu olhar poderia chegar até onde o dos padres, em número restrito, não chegaria. É um papel decisivo para o entendimento da importância que alcançaram.


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1 - DUSSEL, Enrique. Citado por "Da Virgem" e "de São Miguel": Congregações leigas nas Reduções Jesuítico Guaranis do Paraguai. Citado por Maria Cristina BOHN MARTINS, in Anais Eletrônicos do V Encontro da ANPHLAC, Belo Horizonte, 2000 (ISBN 85-903587-1-2)
2- MELIÁ, Bartomeu. As Reduções guaraníticas: uma missão no Paraguai Colonial. Citado por Bohn Martins.
3- O rio da Prata é o estuário criado pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, com a bacia hidrográfica combinada com seus afluentes (rios Lujan, Matanza, Samborombón e Salado do Sul).O nome refere-se à lendária Sierra de Plata. Em 1525 Sebastián Cabot encontrou alguns índios que carregavam prata que obtiveram em sua expedição, e inferiu que naquela zona havia muita prata.
4- Roque González (1576-1628) nasceu em Assunção (Paraguai), onde estudou e foi ordenado sacerdote. Atuou nas missões indígenas com dedicação e, em 1609, entrou para a Companhia. Sabedor exímio da língua guarani, após um ano de noviciado ajudava na pacificação dos Guaicurus. Chegou ao Rio Grande do Sul em 1619. Cativando a simpatia dos índios, não sem correr grandes riscos, fundou diversas aldeias. Trabalhou na evangelização e instrução deles e lutou contra sua escravidão. Morreu pela conjuração de alguns chefes incitados por um feiticeiro, que deram-lhe na cabeça com um machado de pedra depois de uma missa. Dois dias depois mataram o Pe. João de Castilho com terríveis torturas. Foram canonizados pelo papa João Paulo II em 1988 por ocasião de sua visita apostólica ao Paraguai.
5- território português pelo Tratado de Tordesilhas. Atual cidade de São Paulo, SP.
6- bebida fermentada produzida pelos indígenas andinos, datando do Império inca. O seu preparo consiste em que garotas masquem milho e o cuspam em um caldeirão de água fervida. Depois de fermentada, a mistura se transforma em chicha.
7- HAUBERT, Maxime. Índios e jesuítas no tempo das missões. Citado por Bohn Martins.
8- MONUMENTA PERUANA. Ed. de Enrique Fernandez SJ. Romae: Monumenta Historica Societatis Iesu . Citado por Bohn Martins.
9- CARDIEL, José. Breve Relación de las misiones del Paraguay. Citado por Bohn Martins.
*- Instituição eclesiástica que remonta a certos bispos do século V, que reuniram em torno de si sacerdotes que viviam comunitariamente. Desde o século XII, distinguem-se os cônegos regulares dos seculares. Os seculares – ajudantes ou “conselheiros” dos Bispos - são os que servem numa igreja catedral ou numa igreja colegial. Seus membros são chamados Cônegos.
10- MAEDER, Ernesto (ed.) CARTAS ANUAS de la Provincia Jesuitica del Paraguay (1632- 1634). Citado por Bohn Martins.
11- ibid. Nota 7
12- MAEDER, Ernesto (ed.) CARTAS ANUAS de la Provincia Jesuitica del Paraguay (1632- 1634). DEL TECHO, Nicolás. História de la Provincia del Paraguay de la Compañía de Jesús. Citado por Bohn Martins.
13- MANUSCRITOS DA COLEÇÃO DE ANGELIS II. Jesuítas e Bandeirantes no Itatim. (1596–1760). Citado por Bohn Martins.
14- MANUSCRITOS DA COLEÇÃO DE ANGELIS III. Jesuítas e Bandeirantes no Tape. (1615-1641). Citado por Bohn Martins.
15- HAUBERT, Maxime. Índios e jesuítas no tempo das missões. KERN, Arno. Missões: uma utopia política. Citados por Bohn Martins.

Vinícius: o Poetinha ex-Congregado mariano


Alexandre Martins, cm.

No dia do Centenário de Vinícius de Morais, rapidamente escrevo sobre o antigo aluno dos Jesuítas do Rio de Janeiro (RJ).
Vinicius de Moraes nasceu em 1913 no bairro da Gávea, cidade do Rio de Janeiro, filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, funcionário da Prefeitura, poeta e violinista amador; e de Lídia Cruz, pianista também amadora. Segundo de quatro filhos, mudou-se com a família para o bairro de Botafogo em 1916, onde iniciou os seus estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto, onde já se interessava em escrever poesias. Em 1922, a sua mãe adoeceu e a família de Vinicius mudou-se para a Ilha do Governador, ele e sua irmã Lygia permanecendo com o avô, em Botafogo, para terminar o curso primário.
Vinicius ingressou no Colégio Santo Inácio em 1924, onde passou de, além de participar da Congregação Mariana colegial, a cantar no coral e montar pequenas peças de teatro. Três anos mais tarde, tornou-se amigo dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós, com quem começou a fazer suas primeiras composições e a se apresentar em festas de amigos. Em 1929, concluiu o ginásio e no ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito do Catete - atual Faculdade de Direito da UFRJ. Na chamada "Faculdade do Catete", conheceu e tornou-se amigo do romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Vinicius de Moraes graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.Três anos depois era censor cinematográfico junto ao Ministério da Educação e Saúde.
Na década de 1930 Vinicius de Moraes estabeleceu amizade com os poetas Manuel Bandeira, Mário de Andrade (também Congregado mariano) e Oswald de Andrade. Em sua fase considerada “mística”, recebeu o Prêmio Felipe D'Oliveira pelo livro “Forma e Exegese” (1935). No ano seguinte, lançou o livro “Ariana, a Mulher”.
Em 1936 Vinicius ganhou bolsa do Conselho Britânico para estudar Língua e Literatura inglesas na Universidade de Oxford. Em 1941, retornou ao Brasil empregando-se como crítico de cinema no jornal "A Manhã". Tornou-se também colaborador da revista "Clima" e empregou-se no Instituto dos Bancários.
No ano seguinte, foi reprovado em seu primeiro concurso para o Ministério das Relações Exteriores. Em 1943, concorreu novamente e desta vez foi aprovado. Em 1946, assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Com a morte do pai, em 1950, Vinicius de Moraes retornou ao Brasil. Nos anos 1950, Vinicius atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar animados encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda.
Em 1954, Vinícius publica sua coletânea de poemas, Antologia Poética, e também sua peça teatral Orfeu da Conceição, premiada no concurso do IV Centenário de São Paulo.
Do encontro entre Vinícius e Tom Jobim (à época com 29 anos) nasceria uma das mais fecundas parcerias da Música Brasileira, marcando-a definitivamente.
Em 1957 teve sua carreira diplomática transferida para Montevidéu, onde permaneceu por três anos.
No final de 1968 foi afastado da carreira diplomática tendo sido aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Número Cinco (AI-5). O poeta estava em Portugal, a dar uma série de espetáculos, alguns com Chico Buarque e Nara Leão, quando o regime militar emitiu o AI-5. O motivo era seu comportamento boêmio que atrapalharia sua carreira. Estudantes salazaristas estavam aglomerados na porta do teatro para protestar contra o poeta. Avisado disto e aconselhado a se retirar pelos fundos, preferiu enfrentar os protestos e, parando diante dos manifestantes, começou a declamar "Poética I" ("De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo"). Então, um dos jovens tirou a capa do seu traje acadêmico e a colocou no chão para que Vinicius pudesse passar sobre ela. Ato imitado pelos outros estudantes e que, em Portugal, é uma forma tradicional de homenagem acadêmica.
Vinicius começou a se tornar prestigiado com sua peça de teatro "Orfeu da Conceição", em 25 de setembro de 1956. Além da diplomacia, do teatro e dos livros, sua carreira musical começou a deslanchar em meados da década de 1950 - época em que conheceu Tom Jobim (um de seus grandes parceiros) -, quando diversas de suas composições foram gravadas por inúmeros artistas. Na década seguinte, Vinicius de Moraes viveu um período áureo na MPB, no qual foram gravadas cerca de 60 composições de sua autoria. Foram firmadas parcerias com compositores como Baden Powell, Carlos Lyra e Francis Hime. Na década de 1970, já consagrado e com um novo parceiro, o violonista Toquinho, Vinicius seguiu lançando álbuns e livros de grande sucesso.
Na noite de 9 de julho de 1980, acertando detalhes com o violonista Toquinho, seu parceiro musical desde 1970, sobre as canções do álbum "Arca de Noé", Vinicius alegou cansaço e que precisava tomar um banho. Na madrugada do dia seguinte Vinicius foi acordado pela empregada, que o encontrara na banheira de casa, com dificuldades para respirar. Toquinho, que estava dormindo, acordou e tentou socorrê-lo, seguido por Gilda Mattoso (última esposa do poeta), mas não houve tempo e Vinicius de Moraes morreu pela manhã.
Vinícius foi anistiado post-mortem em 1998. A Câmara dos Deputados aprovou em Fevereiro de 2010 sua promoção póstuma a "ministro de primeira classe" do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o equivalente a embaixador, cargo mais alto da carreira diplomática.
Um exemplo de “desistência mariana”, o Poetinha trocaria a Congregação Mariana da juventude pelo animismo panteísta dos terreiros de Candomblé.

O Tesourinho Espiritual


Alexandre Martins, cm.


Muito se tem repetido das raízes inacianas das Congregações Marianas e de sua espiritualidade.
Em tempos como os nossos aonde pipocam comunidades católicas em todo o canto, muitos católicos ficam buscando espiritualidades e carismas especiais para que possam ter uma visão mais pessoal da vida cristã.
Uma palavra em moda é “carisma”. Sempre que um grupo, movimento ou comunidade surge no ambiente eclesial logo vem a pergunta: “qual o seu carisma?”
Se as Congregações Marianas surgiram da Companhia de Jesus, como o foram realmente, então é claro que o modo de ver a vida cristã será através do proposto por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais.
Em uma de suas meditações, santo Inácio indica uma espécie de tabela1 para anotarmos as vezes que caímos em certos pecados. Essa tabela é feita diariamente e, segundo o santo, é uma forma de podermos ver o quanto estamos ou não progredindo na virtude.
É dessa atitude ensinada nos Exercícios Espirituais que surge a prática do Tesourinho Espiritual.
Não se sabe ao certo quando ele foi introduzido nas Congregações Marianas mas pode se concluir que, por ser prática comum nos antigos jesuítas de então, seu uso foi imediatamente seguido pelos primeiros Congregados.
Um registro do uso comum dessa prática se lê na História das Congregações da China, aonde, na festa da Padroeira, os Congregados colocavam várias cadernetas amarradas em forma de pacotes aos pés do altar. Eram aonde tiveram anotado seus atos de piedade e de sacrifício em honra da Virgem Maria.
No Brasil , essas tabelas ou anotações receberam o nome de “Tesourinho Espiritual”. Esse nome é característica do Brasil, embora ouros países também o adotassem como forma de obedecer o proposto por Santo Inácio de Loyola. A partir dos anos 1930, a Federação de São Paulo foi a primeira em confeccionar fichas aonde numa tabela com os dias do mês e a lista de práticas de piedade seriam anotadas pelo Congregado diariamente.
O sucesso foi enorme. Tornou-se como uma característica do verdadeiro Congregado mariano usar o Tesourinho Espiritual. Em outras Federações, como a do Rio de Janeiro, havia um momento especial nas reuniões diocesanas para que cada Congregação informasse a soma de todos os seus atos de piedade daquele mês. A relação era publicada nas revistas das Congregações e boletins2 da Federação, indicando qual a Congregação Mariana que tinha tido mais frequência à Santa Missa, ao Rosário, etc.
Dom Rafael Llano Cifuentes3 contava como era ele mesmo rígido com seus amigos Congregados quando recebia deles os tesourinhos: ele era o secretário de sua Congregação Mariana na Espanha e era uma de suas funções receber as fichas dos membros para que pudesse fazer um resumo e apresentar em público. Ele dizia que era comum suas repreensões aos demais Congregados pela pouca oração ou pouca piedade que mostravam em seus tesourinhos. O bispo sempre ria quando contava suas memórias de jovem Congregado mariano.
Com as novas espiritualidades que surgiram no ambiente pastoral após o Concílio Vaticano II, muitas atitudes piedosas caíram em desuso. A prática do Tesourinho Espiritual foi uma delas.
As Congregações Marianas do Brasil tiveram grande redução de Congregados nos anos 1970 e a alguns diretores ocorreu um certo receio de exigir muita coisa aos Congregados que haviam permanecido. Era medo que, com uma exigência que não estava mais em uso na Igreja, mesmo estes também poderiam deixar as Congregações Marianas para ingressar em outra associação mais “fácil”. Era uma época de relaxamento nas obrigações religiosas. Com esse gesto, os Congregados marianos que ingressaram nos anos 1980 em diante não foram educados nessa prática inaciana. Com o tempo, o Tesourinho Espiritual virou coisa de um passado distante. No início dos anos 1990 ainda era possível ver pilhas de folhetos de Tesourinho na sede da Confederação Nacional em caixas, todas sem uso e amareladas.
O Tesourinho Espiritual é de grande utilidade para a vida espiritual do Congregado mariano e não uma relíquia dos “bons tempos”. Quem discorda é porque nunca o usou adequadamente. A indicação de Santo Inácio, aperfeiçoada pelos padres jesuítas, sempre foi uma característica do progresso espiritual individual do Congregado mariano.
A prática é simples: ao fim do dia, nas orações da noite, o Congregado mariano anota as suas atividades do dia. É um complemento ao Exame de Consciência diário – outra característica inaciana4 da vida espiritual do Congregado mariano5.
A Santa Missa é o primeiro item a ser anotado. Um Congregado mariano ideal6 tem sua Comunhão eucarística diária. A Igreja7 sempre recomendou isso. Se alguém deseja a perfeição, o primeiro passo é frequentar a Mesa Eucarística frequentemente.
Em seguida, a Confissão, o Sacramento da Penitência. O Congregado mariano ideal se confessa8 regularmente toda a semana. Não é abusar do sacramento, como alguns podem acreditar, mas estar atento à pureza do próprio coração. Com exemplo, lembremos que são Luiz Gonzaga confessava-se todos os dias antes da Missa.
Mesmo se não houver Comunhão Eucarística, não deve o Congregado deixar sua Missa diária. Vários homens, como o famoso escritor J.R.R. Tolkien9 eram adeptos da Missa diária.
A meditação que é citada no Tesourinho são os quinze minutos diários que o Congregados separa para pensar e se aprofundar no Mistério da Fé.
Algum ciclo de Mistérios do Santo Rosário e o Pequeno Ofício da Imaculada Conceição podem ser rezados diariamente em substituição10 um do outro. Ambos agradam à Virgem Maria, pois diz a tradição que, se na recitação do Terço oferecemos rosas à Virgem, na prática do Pequeno Ofício a Mãe de Deus fica de joelhos.
Visitas ao Santíssimo Sacramento se durarem mais de trinta minutos11 possuem indulgências. Mas alguns minutos em oração ou ou apenas adoração perante o Tabernáculo já valem para anotação no Tesourinho.
As esmolas e outras obras de caridade ou misericórdia corporal também são anotadas pois demonstram nosso despendimento material e amor ao próximo.
As novenas, trezenas, tríduos e outras espécies de preparações espirituais prévias para as festas e solenidades litúrgicas mostram nossa preocupação com a Liturgia e o culto aos santos, por isso são também assinaladas.
As Orações da Manhã e as da Noite são importantíssimas: acordamos e dormimos com o pensamento em Deus. Na Oração da Manhã temos mais um dia a ser dedicado a Deus e à noite agradecemos os benefícios divinos e pedimos perdão por nossas faltas, dormindo na pas. São também anotadas.
As jaculatórias, por serem várias ao dia podem ser marcados com um sinal ou até em numeral, Há os que contam quantos atos de amor seus lábios ou seu coração dispensaram a Deus ou aos santos durante o dia...
A Leitura Espiritual, tão querida dos Congregados marianos, é assinalada e demonstra o quão estamos dedicados a aprender a Doutrina da Salvação e a escutar o que Deus nos quer dizer.
O apostolado é marcado para que possamos saber se durante os dias de trabalho da semana nos preocupamos em levar Deus ao próximo ou as obras de apostolado ficariam restritas aos fins de semana ou somente aos dias de reunião da Congregação Mariana.
Os sacrifícios também são contabilizados. Por que saber a quantidade se dizem que não devemos nos envaidecer de nossas boas obras? Justamente porque necessitamos saber se aquela situação de angústia foi entendida por nós como uma oportunidade de mortificação, de aceitação da Vontade de Deus ou foi encarada com revolta ou mágoa. Assinalar os sacrifícios do dia quer dizer que podemos aprender com a Cruz de cada dia, unindo nossos sofrimentos diários a Jesus no Calvário.
As Reuniões e atos da Congregação Mariana devem ser marcados porque assim poderemos ver se as demais obras de piedade e caridade são somente restritas aos dias de reunião ou fazem parte de um dia a dia que deseja mais do que somente a busca do “pão nosso”.
Em outras lacunas pode o Congregado mariano, com a ajuda e orientação de seu diretor espiritual, inserir outras marcações que serão mais específicas para sua vida e a sua busca pessoal da santidade.
O Tesourinho Espiritual é uma das provas de que as Congregações Marianas são escolas de santidade, são casas com um piso mas sem um teto, isto é, tem o básico a oferecer e exigir mas não possuem limites para o crescimento de cada um. Cada um de nós pode crescer em santidade e amar ao próximo o quanto desejar e puder. É uma prática que não existe em nenhuma outra associação católica. É uma característica especialmente das Congregações Marianas.
Em conclusão: façamos diariamente as anotações no Tesourinho Espiritual. Ele será para nós realmente o nosso tesouro, e assim poderemos dar um presente valioso à Virgem Maria, como os antigos Congregados marianos da China.
Virgem prudentíssima, rogai por nós!





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1- Santo Inácio de Loyola, “Exercícios Espirituais”, artigo 24, tradução do autógrafo espanhol por Joaquim Abranches, SJ, Ed. Loyola, São Paulo, SP, 1985 pág. 31.
2- Boletim da Federação das CCMM do Rio de Janeiro, março-abril, 1938.*
3- bispo-emérito de Friburgo (RJ), escritor e orador.
4- ibid. 1
5- Manual dos Congregados, edição oficial da CNCMB.
6- Regra de Vida 12, Constituição Bis Saecularii §4
7- “A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja.” - Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia do Papa João Paulo II
8- Regra de Vida 21
9- White, M. in “Tolkien: uma Biografia”, Rio de Janeiro, RJ, Imago Ed. 2002
10- VI Assembléia Nacional das CCMM, 1956.
11- “Indulgência plenária em cada dia do ano” - const. apost. InduJgentiarum Doctrina nº 5