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Edmundo Campeão - o santo Congregado de Oxford



Alexandre Martins, cm.

Numa época onde tudo pode ser ou não ser, dependendo do ponto de vista de cada um, aonde os dogmas são caracterizados de amarras do desenvolvimento, pode parecer estranho para o leitor contemporâneo que existiu um tempo igual ao nosso, com os mesmos vis pensamentos e deturpadas vontades. um tempo onde ser bom era ser de acordo com o sistema estabelecido.

Pode até mesmo chocar o leitor que houve um homem que colocou-se firme perante tudo e todos, assim como firme fica uma coluna de mármore  colocada no meio das ondas do mar aberto.

Esse homem chamava-se Edmundo Champion (Campeão): catedrático, jesuíta, Congregado mariano, um autêntico patriota inglês, súdito de sua Rainha.

Infância e Juventude


Edmundo Campeão nasceu em Londres aos 25 de janeiro de 1540. Seu pai, também Edmundo, trabalhava como livreiro em Londres e, por causa disso, desde pequeno aprende o gosto pela leitura. Com a morte do seu pai, o grêmio dos comerciantes de Londres decide encarregar-se de sua educação e enviou o promissor menino a uma escola de Gramática e ao Hospital da Igreja de Cristo. No que não se arrependeram, pois foi um excelente aluno.

“Bloody Mary”


Em 1533, com apenas 13 anos, Edmundo foi o estudante eleito da sua escola para compor e ler em latim um discurso de felicitação à rainha Maria I Tudor, chamada Bloody Mary (=Maria Sangrenta) quando de sua entrada solene em Londres.

Quando Sir Thomas determina fundar um Colegio católico, em Oxford - a mudança religiosa, com o novo reinado, o motivou a isso - recordou do jovem Edmundo Campeão, pelo belo discurso à rainha, e lhe oferece uma beca no novo Colegio e toma sob sua proteção a fim de educá-lo e formá-lo.

Edmundo não desapontou seu benfeitor. Coroou seus estudos com brilho, correspondendo às esperanças do mestre. Por sua privilegiada inteligência e grande eloquência, era sempre o orador escolhido para discursar nas ocasiões importantes. Como professor, destacou-se de tal forma que alunos de outros cursos vinham assistir às suas aulas como simples ouvintes. Foi nomeado proctor (chefe dos inspetores de disciplina da Universidade).

Em Oxford


Oxford (em inglês “vau de bois”, e em português arcaico, Oxônia) é hoje uma cidade e distrito de governo local do condado de Oxfordshire com uma população atual de 134.248 habitantes. A universidade de Oxford é a mais antiga das universidades de língua inglesa e uma das 10 melhores universidades do mundo.

A data da fundação da universidade é de 998. Quando Henrique II da Inglaterra proibiu alunos ingleses de estudarem na Universidade de Paris, em 1167, Oxford começou a crescer rapidamente.

Entre seus famosos “alumni” destacam-se então futuros reis, presidentes e outros famosos estadistas além de estudiosos, cientistas, escritores, ganhadores do Prêmio Nobel e demais. Dentre esses Bill Clinton, Tony Blair, C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien (autor de “O Senhor dos Anéis”), Edmund Halley (que deu o nome ao cometa), Robert Hooke, Lewis Carroll (autor de “Alice no País das Maravilhas”), Benazir Bhutto, Manfred von Richthofen (o aviador chamado de “Barão Vermelho”) e o poeta Oscar Wilde. Por mais de 800 anos foi lar da realeza e de estudiosos. Um de seus colégios, o Christchurch College, foi escolhido para servir de cenário para filmagens do filme “Harry Potter”.

Elizabeth I


Com a morte da rainha Maria I em 1558, os ânimos mudam em toda a Inglaterra. A sucessora é Isabel (Elizabeth). Por ser favorito de Isabel, Robert Dudley, primeiro conde de Leicester, é nomeado chanceler da Universidade de Oxford.

Edmundo está com 18 anos e já era professor em Sant John. Um grande número de alunos são seus seguidores: eles frequentavam suas conferências, imitam sua oratória e até seu vestir. Alguns orgulhosamente se autodenominam “campeões” (championists). A sua fama e imitação somente seria comparável a do Cardeal Henry Newman no século XIX. E mais a nenhum outro na história de Oxford. A fama de orador de Edmundo chegou aos ouvidos de Dudley. Ao falecer sua esposa, o chanceler Dudley manda que Edmundo escreva e discurse nas Exéquias, o que o jovem professor faz com maestria que satisfaz plenamente ao vaidoso Chanceler.

Em 1566, a rainha Isabel visita Oxford com uma grande comitiva para passar alguns dias entre os estudantes da célebre Universidade. Tinha por objetivo  arregimentar para a sua causa jovens universitários ou  professores de grande talento. Dentre os festejos de acolhida deve acontecer um ato de filosofia. Edmundo, então com 27 anos, é encarregado de organizar e demonstrar, perante a rainha, a erudição, profundidade científica e a elegância da oratória. Isabel o recomenda a Dudley.

Vice-chanceler de Oxford


 Robert Dudley nomeia Edmundo Campeão como “Orador da Universidade”. Tempos depois também o elege Protetor de Oxford - equivalente a Vice-chanceler. Tudo isso ocorre antes que Edmundo receba seu doutorado, o que é um fato extraordinário. Uma promessa de grande carreira...

Quando Isabel declarou-se Governadora Suprema da Igreja da Inglaterra, instituiu um Juramento de Supremacia, que exigia que qualquer pessoa jurasse fidelidade ao monarca como Chefe da Igreja e do Estado, em gabinete público.

Os sucessos, responsabilidades acadêmicas, seu caráter doce, e sobretudo sua amizade com o Bispo Cheyney de Gloucester, lhe cegaram na conduta como verdadeiro católico. Mas isto não tira sua tranquilidade: com regularidade frequenta os ofícios anglicanos na capela do Saint John. Edmundo Campeão é católico e não pensa em abandonar sua Fé. Em 1567 aceita a ordenação diaconal pelas mãos de seu amigo Richard Cheney, bispo de Gloucester, um anglicano. Seus amigos se dividem: uns o felicitam, outros se horrorizam. Com isto Edmundo se vê num mar de dúvidas e se recrimina pela sua própria atitude.

Teologia


A divisão em Oxford era de um partido católico majoritário e de um anglicano em ascensão. Edmundo oscila entre os dois, sem decidir por algum lado. Ele se preocupava mais em estudar em paz e poder desempenhar seu magistério e oratória. Segundo os estatutos do Colégio, sua obrigação era dedicar-se ao estudo de Teologia e aceitar a ordenação sacerdotal se quisesse continuar a carreira em Oxford. Em 1567 lhe foi necessário iniciar o estudo dos Padres da Igreja. E quanto mais os estuda, mas se distancia da igreja Anglicana. Refugia-se na oração.

Consultando um amigo, Tobie Mattew (um dos que não se envergonhavam de ter saído da Igreja Católica), recebe uma resposta inusitada: “Não leio os Padres, para que não eu acredite neles”. Mattew foi bispo de Durham e depois Arcebispo de York. Fácil demais para Edmundo, que amava sua pátria. Mas na Inglaterra não há liberdade... e isso o inquieta. Com a aprovação do chanceler Dudley, Edmundo Campeão vai para Dublin, na Irlanda, para trabalhar no projeto de reabertura da Universidade de Dublín, uma antiga fundação papal suprimida temporariamente. Sir Henry Sydney, um auxiliar do Lorde, estava interessado no futuro de Campeão, admirado tanto por sua intelectualidade quanto por sua fé. Com seu jovem filho, Felipe Sydney, Campeão teve uma entusiasmada conversa em 1577.

Na Irlanda se adapta facilmente ao novo ambiente e retoma a paz de consciência. Embora os irlandeses estivessem sobre o governo da Coroa inglesa, suas leis anglicanas não eram seguidas pelos tradicionais católicos irlandeses. De fato, os irlandeses nunca seguiriam o Anglicanismo, mesmo se para isso tivessem de atacar a própria Coroa, o que de fato aconteceu no início do século XX, onde movimentos políticos e guerrilheiros criaram a divisão da Irlanda em duas, a Irlanda (católica) e a Irlanda do Norte (anglicana).

De Homine Academico é uma dissertação de Edmundo que elenca as virtudes e qualidades do professor universitário. Na verdade era seu próprio programa pessoal que se sente realizando.

A Bula de São Pio V


Em 25 de fevereiro de 1570, o papa São Pio V publica a Bula Regnans in Excelsis, excomungando a rainha Isabel e liberando seus súditos da obrigação de obedecê-la.

Devido à pressão de um grupo de protestantes, o Parlamento elaborou e aprovou uma segunda lei, o Ato de Uniformidade, reintroduzindo o Livro de Orações, de 1552, que declarava que não se pretendia qualquer adoração eucarística pelo fato de os fiéis se ajoelharem na Comunhão. Este Ato veio a ser seguido de uma série de sentenças judiciais que focavam aspectos particulares, nomeadamente a Questão dos Paramentos e o problema do casamento dos membros do clero, chegando mesmo a impor que não houvesse celebração do casamento antes que o bispo e dois Juízes de Paz entrevistassem e aprovassem a noiva.

Com eleição de Pio V, em 1556, a política do novo Papa iria ser muito mais vigorosa do que a do seu antecessor, não só por uma questão de temperamento mas, sobretudo, porque o Concilio de Trento, realizado entre 1545 e 1563, impunha que a Igreja Católica demonstrasse todo o seu vigor face às ameaças protestantes de Lutero e de Calvino. Resolveu então reunir um tribunal em Roma, em Fevereiro de 1570, para “julgar” Isabel I, utilizando como testemunhas inúmeros católicos exilados, oriundos da Inglaterra. O veredicto tomou forma numa bula - Regnans in Excelsis, considerando-se que a rainha inglesa era verdadeiramente culpada de heresia, sendo por tal excomungada e não reconhecida como rainha legítima de Inglaterra. Pela Bula, os católicos ingleses eram libertados do seu dever de fidelidade e obediência à rainha, sendo abrangidos pela excomunhão caso não seguissem os princípios estabelecidos por Aquele que reina nas alturas, que detém o poder supremo e a quem foi dado todo o poder no Céu e na Terra (linhas 1-3) e que é sustentado pela autoridade daquele que nos quis colocar neste supremo trono de justiça. (parágrafo 3).

Edmundo, tocado pelo conteúdo da Bula e com remorso de consciência decide deixar a Irlanda ao mesmo tempo que as autoridades procuram a todo o católico para ser interrogado. Após a Bula, os ânimos se acirraram e a situação de Edmundo tornou-se delicada. Na capital assiste atônito, no meio da multidão, o julgamento do futuro bem-aventurado John Storey, em Westminster Hall, um dos primeiros mártires de Oxford, executado em 1571.

Fuga e retorno


Consegue financiamento com seus amigos e é recebido no Colégio de Douai, no nordeste da França. Edmundo não cabe em si de alegria. Em Douai Edmundo volta para a Comunhão Católica. São lhe concedidos os Sacramentos dos quais estava privado havia já dez anos. Edmundo dedica dois anos a terminar os estudos de Teologia. A cópia da Suma Teológica usada por Campeão em seus estudos existe até hoje, mostrando as anotações por ele feitas à margem do argumento de São Tomás de Aquino sobre o “batismo de sangue”, isto é, o martírio.

“O que fazer? Senhor, que queres que eu faça ?”


Por meio da oração, como Jesus no Horto e se colocando à escuta como o profeta Samuel, o professor inglês entende que deve dirigir-se a Roma e que ali o Senhor lhe mostrará o caminho. Esta viagem Edmundo fará a pé, em penitência como os peregrinos da época e à imitação do próprio Inácio de Loyola. Pede esmolas nos caminhos e reza sem cessar. Chega ao final de fevereiro de 1573 a Roma. O Vice-chanceler de Oxford hospeda-se no Hotel dos Ingleses como apenas mais um peregrino.

Entende claramente a Vontade de Deus: deve ingressar na Companhia de Jesus. Nela poderá doar-se ao próximo e, segundo a vontade de Deus, poderá voltar a praticar a Fé na Inglaterra.

Seu ingresso na Companhia


É admitido pelo Pe. Everardo Mercuriano, recém eleito Geral da Companhia, em abril de 1573. Foi o primeiro noviço a ser admitido pelo quarto Padre Geral.

Terminada a Congregação Geral, em meados de junho de 1573, com o Padre Provincial alemão viaja a Praga para iniciar seu noviciado de dois anos. Tudo fica-lhe fácil ali, incluindo a experiência dos Exercícios Inacianos de um mês inteiro. Os trabalhos humildes e o apostolado lhe dão grande consolação. Sua facilidade para os estudos lhe ajuda muito na aprendizagem do novo idioma.

Em setembro de 1574 os seus Superiores lhe destinam para o Colégio de Praga para continuar o noviciado Em 1575 faz os Votos Perpétuos de Pobreza, Obediência e Castidade.

Fundador de Congregação Mariana


No Colégio de Praga funda uma Congregação Mariana para seus alunos. A esta época ainda estava vivo o pe. Jean Leunis, que havia fundado a primeira Congregação em Roma em 1563.

A prática de santidade e apostolado no meio do Mundo criada pelo jesuíta belga Leunis havia sido um sucesso entre os colégios da Companhia não somente na Itália mas em toda a Europa. Vários Provinciais haviam promovido as Congregações Marianas com grande entusiasmo. Eram agrupamentos de estudantes escolhidos entre os colegiais que mais demonstrassem piedade e seriedade nos deveres intelectuais. Inicialmente para estudantes do Colégio Romano, em Roma, em pouco tempo foram fundadas em vários Colégios jesuítas e mesmo fora deles outras classes de pessoas desejaram ingressar, formando Congregações Marianas de advogados, operários e até sacerdotes.
 
Edmundo, piedoso e intelectual como era, não deixaria passar esta nova criação da Companhia para o benefício de seus alunos. Como natural, ele também se Consagra à Virgem Maria na Congregação Mariana, como a totalidade dos jesuítas da sua época. Torna-se então, Diretor Espiritual da Congregação Mariana do Colégio, mesmo como ainda Irmão Jesuíta.

Em diversas ocasiões faz prédicas perante a Côrte. Com sua oratória atraente ganha a simpatia do imperador Rodolfo II de Áustria. Era constantemente chamado para pregar e atender Confissões nas cidades próximas, e não deixava de dar assistência aos fiéis nos hospitais e nas prisões. Com tudo isso ainda encontra tempo para escrever dois dramas sacros...

Ordenação Sacerdotal


Em 8 de setembro de 1578 o arcebispo de Praga o ordena sacerdote. Até março de 1580 exerce na capital do Império Austríaco seu sacerdócio e magistério. O idioma alemão se torna sua segunda língua.

Nos jardins de Brunn, Edmundo teria tido uma visão na qual a Virgem Maria havia lhe predito o seu martírio.

A Missão Inglesa


O Padre Geral Mercuriano promete ao Cardeal Allen que a Companhia enviaria missionários para a Inglaterra. Allen, por sua vez, pede expressamente o Padre Campeão para a primeira expedição. Edmundo Campeão, obediente como jesuíta e alegre como um patriota inglês, vai a Roma.

As instruções do Geral da Companhia são bem precisas: deverão deixar de usar o hábito e viajar disfarçados; deverão viver entre os leigos e com nomes falsos, etc. Para os zelosos jesuítas, não usar sua batina era um contra senso, obedientes como eram à disciplina eclesiástica. Viver entre os leigos era comum para eles, pois nunca antes uma Congregação religiosa deu tanta importância à vida laical. Mas tudo aceitam por obediência. Como os antigos cristãos nas perseguições romanas, os jesuítas se misturam no povo e se escondem dos seus perseguidores para levar o Evangelho ao Mundo.

O papa Gregório XIII é muito querido pelos Congregados marianos por ter assinado com Selo de Ouro a Bula Gloriosae Dominae, que autorizava a primeira Congregação Mariana e suas Regras e as promovia para toda a Igreja. Ele mesmo, Gregório, era um Congregado da primeira Congregação em Roma, agora chamada de “Prima Primária”. São Filipe Néri, outro Congregado mariano, também abençoa Campeão e sua equipe. Em Milão, outro Congregado mariano, São Carlos Borromeu, como que realizando uma espécie “ato de fraternidade mariana”, os obriga a ficar em seu próprio Palácio Episcopal.

Em solo britânico


Atravessam o Tâmisa em um bote, chegando à capital inglesa. Começaram assim os anos ingleses do ministério do padre Eduardo Campeão.

Edmundo pregava com frequência sobre o primado de Pedro. Celebrava a Santa Missa, atendia Confissões, dava conselhos, alentava os fracos, “tudo como nas catacumbas”, diz um de seus biógrafos, o padre Briceno, SJ. Mais ainda, trazia de volta ao Rebanho de Cristo inúmeras ovelhas desgarradas. “Cem mil conversões em um ano!”, exclama o mesmo autor. Zelo pelas almas, trabalho infatigável, fidelidade a Fé. O quanto de bem faz o que se aprende nos Exercícios Inacianos.

A Prisão


Em resposta a essa audaciosa iniciativa dos missionários, a rainha ofereceu grande soma pela captura deles, sobretudo do padre Champion.

Aos 16 de julho de 1581, disfarçado entre os fiéis, estava um espião, George Eliot, denunciou os missionários. Parecia Judas Iscariotes indo para o Sinédrio logo após a Ceia com Nosso Senhor. Não tardaram a chegar os agentes do governo que vasculharam a casa e prenderam os jesuítas.

Mas Edmundo não guarda rancor do traidor. Procurado pelo seu “Judas”, lhe diz sorrindo: “Deus te perdoe, Jorge, e eu te perdoo. Se te arrependeres e te confessares, eu lhe absolverei, mas terás de fazer penitência.”

Condenação


Seus acusadores não sabiam o que fazer com um “traidor espiritual”, pois sua traição não era contra a Rainha, mas apenas uma disputa teológica, o que não bastava para uma condenação sumária.

Em 1º de dezembro de 1581, tiram-no da Torre. Uma grande multidão se aglomerava nas portas. Edmundo os saúda, sorrindo:
- “Que Deus os salve, cavalheiros, e os faça bons católicos”!

O atam a uma grade arrastada por um cavalo.

Ao passar pelo Arco de Newgate vê Edmundo uma imagem da Virgem, que havia sido poupada das depredações anglicanas e o Congregado mariano a saúda carinhosamente.

Em Tyburn, Edmundo sobe na carroça colocada abaixo da forca. Subiu com toda a firmeza que lhe permitiam seus membros deslocados pelas torturas. Ele mesmo põe a corda no pescoço. Pede o direito legal de usar da palavra:
- “Sou inocente das traições de que sou acusado. Sou católico e sacerdote da Companhia de Jesus. Nesta fé tenho vivido e com ela quero morrer”.

Um cortesão exige que diga por qual rainha reza:
- “Por Isabel, vossa Rainha e a minha, a qual desejo um reinado longo, tranquilo e feliz”.

Retiram a carroça. Edmundo cai suspenso. Inconsciente, talvez morto, lhe cortam a corta e o carrasco o esquarteja.
 

Glória


Edmundo Campeão foi beatificado pelo papa Leão XIII em 9 de dezembro de 1886. O papa Paulo VI o canonizou em 25 de outubro de 1970. Suas relíquias se conservam distribuídas nas cidades de Roma, Praga, Londres, Oxford, Stonyhurst e Roehampton.

Permanece entre nós o seu exemplo de uma vida espiritualmente alegre, afável, como se deve esperar dos seguidores de Jesus Cristo. Sua disponibilidade para o trabalho com as almas serve de exemplo para os sacerdotes que muitas vezes se encontram enredados nas ocupações que não são particulares de seu ofício, que é o de salvar almas para Cristo. A confiança de Edmundo na Providência nos faz pensar o quanto devemos nos colocar nas mãos bondosas de nosso Pai que está nos Céus.

Num mundo em que o niilismo e o tecnicismo ameaçam o pensamento acadêmico, vemos com Edmundo Campeão que a intelectualidade não afasta a Fé, mas a verdadeira busca da Verdade pela Ciência pode levar à contemplação transcendente da Obra da Criação e chegar de certos modos à contemplação do Criador, o “Motor não movido”.

O exemplo do inglês Edmundo continua atual, lembrado pelo papa Bento XVI na visita “Ad Limina Apostolorum” dos bispos britânicos a Roma em 2009, onde lembrou-lhes a necessidade de se proclamar “a mensagem vivificante do Evangelho” para “os pressupostos generalizados da cultura de hoje” e “um altamente secularizado ambiente “.

A fileira dos Santos Congregados marianos aumenta.

Padres quarentões e Congregações quatrocentonas



Alexandre Martins, cm.


Um grupo de Congregados marianos brasileiros colocou na Internet um anúncio que dizia: “Estamos à disposição dos senhores sacerdotes para a fundação de novas Congregações Marianas em paróquias, capelas, asilos, orfanatos, etc.” O simpático anúncio dava informações de contato do grupo de valentes “fundadores missionários” e outras informações.
Os que leram alguma coisa sobre a História das Congregações Marianas, quando chegam ao capítulo sobre a “Onda Azul” se maravilham com a profusão de Congregações Marianas pelo Brasil nas décadas de 1920 e 1930 e então se perguntam: “por que nunca mais tal fenômeno aconteceu”?
A época conturbada
Com o passar dos anos após o Concílio Vaticano II, muitas comunidades católicas foram criadas - parte em obediência ao proposto1 e sugerido pela Constituição sobre o Apostolado dos Leigos, parte por uma insatisfação que surgiu no Ocidente após as manifestações na França em 1968.
O mundo sempre foi injusto e os pobres e as minorias sempre foram perseguidos. Mas , a partir da década de 1960 mais e mais surgiu um sentimento de insatisfação como que se via acontecer. As manifestações estudantis na Sorbonne, as passeatas pelos direitos dos negros nos EUA, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade no Brasil e tantas outras foram o retrato de uma época de esperança em dias melhores e com mais justiça social. E todas iam de encontro ao Sistema vigente.
A promulgação da Apostolicam Actuositatem foi o motivo a mais para que dentro da Igreja essa insatisfação tivessem “amparo legal”. Não se precisava mais de aprovação eclesiástica para qualquer folheto de oração (o Concílio de Trento foi muito rigoroso em relação a isso) mas cada leigo era um “missionário em potencial” e, como se sabe, em terras de Missão, o missionário tudo pode pois vê o bem da Igreja e das almas dos pagãos a serem salvas.
Pronto! Insatisfação com a Estrutura social injusta e autorização da Hierarquia para fazer “o que deveria ser feito”.
Claro que anos depois o papa Bento XVI afirmaria2 que o Concílio havia sido mal interpretado. Mas, naquela época, quem haveria de ser contra? Padres jogavam fora as batinas, freiras usavam minissaia, leigos colocavam guitarra elétrica nas novas “Missas para Jovens” e as associações tradicionais foram perdendo pessoas para os novos grupos católicos que surgiam.
Então, nada mais de Congregados de paletó e gravata nem Filhas de Maria de blusa comprida e meia-calça, mas grupos de calças jeans sentadas na grama dos conventos tocando um animado violão como Chico Buarque. Era a época dos Festivais Internacionais da Canção, transmitidos aos centros urbanos brasileiros pela TV Record de São Paulo. Que bonita a alegria desses jovens que poderia ser uma alegria a ser levada para as paróquias...
Em 1978, dez anos após a Sorbonne e antes do Pontificado de João Paulo II, surgia no interior de São Paulo, bem pequeno, um movimento chamado “Canção Nova”. Era mais um dos vários movimentos de leigos surgidos dessa insatisfação/rebeldia pós-Vaticano II, assim como Kiko Arguello havia feito no Peru, tocando violão de casa em casa. A Canção Nova, criada por um padre salesiano começou organizando retiros para leigos no sistema da RCC (era um dos motes conciliais: “leigo ensina leigo”) e anos depois se desenvolveria em uma poderosa organização católica, com famílias vivendo dos lucros de venda dos produtos manufaturados e de doações, com reconhecimento canônico que alçou aquele grupo de jovens a uma Comunidade Eclesial, com o padre fundador nomeado monsenhor.
Querendo ser igual ao homem de sucesso
Um caso de sucesso? Sim, claro, isso é incontestável.
Mas, como tantos outros que também tiveram fama e mídia, serviu para exemplificar aos demais sacerdotes que havia uma possibilidade real de serem fundadores de algo novo, assim como são Francisco de Assis no século XIII, santo Inácio de Loyola no século XVI e de são João Bosco no século XIX. Monsenhor Jonas Abib havia feito algo igualmente grandioso e inédito no século XX, e ainda por cima no Brasil, tão pobre de atitudes assim.
Uma boa parcela dos sacerdotes, quando tem seus 40 anos, ou mesmo antes disso, quer deixar a sua “Marca de passagem” na história da Igreja. Alguns fazem templos grandiosos, outros promovem devoções esquecidas, etc. Mas há alguns que querem ser fundadores de algo como foi monsenhor Jonas.
Daí que retornamos ao que se pergunta o leitor da História das Congregações Marianas: “por que não há mais Onda Azul?”
A resposta é simples: porque as Congregações Marianas não são novas. Nada há que, à primeira vista, possa colocar o sacerdote em uma posição de relevância para a História.
Para piorar as coisas, na reforma das Regras em 1967 o sacerdote que antes era o Diretor da Congregação Mariana, todos os poderes, agora é um “assistente”. Um Assistente Eclesiástico, mas apenas um assistente, pois toda a direção cabe aos leigos. E, na “reforma da reforma”, em 1994, no texto da Regra de Vida em uso no Brasil, todo o governo cabe aos leigos e o sacerdote3 dirige a Congregação Mariana como dirige “qualquer outra associação na sua paróquia”.
Vemos aqui, se um sacerdote quiser, “por seu nome na História” não será através da fundação ou direção de uma Congregação Mariana.
Sabendo fazer
Então nunca mais uma Onda Azul?
Depende do espírito pastoral do sacerdote. Pois, se tomarmos como exemplo o jesuíta Alberto Hurtado, vemos que a Congregação Mariana de Munique (Alemanha) tem sua história dividida em “antes” e “depois” de seu padre-diretor. Seu trabalho foi admirável e exemplar, usando da Congregação Mariana para o bem de tantas almas – Congregados ou não – em uma época difícil para a Igreja: a Segunda Guerra Mundial. E ainda com esse trabalho conseguiu a honra dos altares, sendo canonizado por outro Congregado, o papa João Paulo II.
Que a Rainha dos Sacerdotes coloque nos corações dos pastores o santo desejo de promover as suas Congregações Marianas para o bem de toda a Igreja.



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1- “os leigos têm o direito de fundar associações, governá-las, e, uma vez fundadas, dar-lhes um nome” - AA, 19.
2- “Os problemas da recepção [do Vaticano II] nasceram do fato que duas hermenêuticas contrárias se acharam em confronto e discutiram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente, mas sempre mais visivelmente, trouxe e traz frutos”.(papa Bento XVI, Discurso à Cúria, 22/12/2005)

3 - Regra de Vida 75

Sede da Sabedoria



Alexandre Martins, cm.

Antes da Anunciação, Maria já se havia consagrado inteiramente a Deus1. Ela é a oferta viva. Porém, ainda ignora com que plenitude deverá se realizar nela a palavra do Cântico dos Cânticos: "Eu pertenço ao meu bem-amado, seu desejo o traz a mim (Ct 7, 11)."
Maria conhecia as Escrituras de cor e havia compreendido sua orientação de cada palavra antevendo o Cristo, o Enviado, em que o sopro ardente do Espírito apaga as misérias humanas. Nas Escrituras, Maria busca uma Presença, e encontra uma Pessoa. Nessa Pessoa, toda esperança humana está contida. 

Apenas ao ler o Profeta seu coração já pulsa: "Eis que a jovem concebeu e dará à luz um filho" (Is 7, 14). Ela jamais havia pensado que esta jovem poderia ser ela. Quando da aparição do Anjo ecoa a primeira Ave Maria, ela se perturba: o que significa esta mensagem? O que é esta mensagem?

Se o Anjo fala a verdade e se ele vem de Deus, é preciso que as suas palavras não atrapalhem o voto já feito ao mesmo Senhor. "Como é que vai ser isso se eu não conheço homem algum?" O Anjo lhe respondeu: "O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra" (Lc 1, 34-35). Certa de que é Deus que a chama, ela consente: "Fiat. [Faça-se] Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!" (Lc 1, 38) Tornou-se com esse assentimento, a Mãe de Deus. Conhecia suficientemente os profetas para saber o que a esperava. Os primeiros sons do Stabat Mater2 ressoavam nela. Despojada de si própria, daria-se para sempre àquela Criança que havia concebido do Espírito - não como a imagem glorificada dela mesma - mas como o esplendor da glória do Pai.

Maria é a “Sede da Sabedoria”, porque durante nove meses, abrigou em seu ventre a própria Sabedoria Divina: Jesus, o Verbo. No Antigo Testamento, no 2º Livro das Crônicas (cap. IX) há a magnífica descrição do trono de Salomão, o grande rei de Israel que construiu o Templo de Jerusalém. Ele ficou famoso por ser o mais rico e poderoso de todos os reis de Israel. Mas quando Deus lhe permitiu fazer seus pedidos, Salomão não pediu nem ouro, nem poder. Apenas pediu sabedoria para governar seu povo. Um homem verdadeiramente sábio acaba conquistando também a riqueza. O rico e majestoso trono de Salomão passou a ser conhecido como a “Sede da Sabedoria”, o trono do sábio. Era o lugar onde sentava o “grande e sábio rei do povo de Deus”. A Tradição cristã reconheceu naquela “cadeira humana” uma figura de Maria, a verdadeira “Sede da Sabedoria”. No seu colo o Rei dos Reis foi acolhido, protegido e aprendeu as primeiras palavras. Quando olhamos para uma imagem de Maria com o menino nos braços vemos com clareza que ela é o trono e ele é o Rei; ela é a sede, a cadeira d’Aquele que reina sobre todos os povos da terra.

Assim como o trono de Salomão prefigurou a maternidade de Maria, o colo da Mãe de Deus prefigura o trono do Altíssimo de onde Jesus virá para julgar os vivos e os mortos. Haverá um Juízo Final. No Evangelho segundo Mateus (capítulo XXV) vemos que os bons entrarão no Reino dos Céus e os maus para o castigo eterno. Assim como o Rei Salomão era sábio para julgar pequenos conflitos, Jesus é a própria sabedoria encarnada que julgará o mundo com justiça.

Também somos chamados a abrigarmos em nossa vida e em nossos corações a verdadeira Sabedoria. Precisamos ser como a Mãe de Deus, “Sede da Sabedoria”.

Iconografia

Na tradição antiga3 nunca a Virgem é representada sem seu Filho-Deus, pois se assim o fosse, estaria esvaziada de seu sentido mais profundo e mistagógico. Maria não é apenas mais “uma santa” mas é a Toda Santa Mãe de Deus. Nos ícones, as personagens representadas possuem sempre pele morena. Isso simboliza que aqueles que aí estão pintados, se exporam a luz de Deus a tal ponto que se deixaram bronzear pelo Sol da Graça. Também possuem uma expressão de gravidade que pode ser interpretada como tristeza, mas é antes um olhar de misericórdia lançado sobre aquele que o contempla. A testa ampla é sinal de sabedoria, os olhos grandes, são próprios daquele que contempla já deslumbrado a Deus face-a-face. As orelhas sempre visíveis nos lembram que foram homens e/ou mulheres que souberam ouvir a Palavra e a vontade de Deus e a boca pequena é daqueles que diante do Mistério de Deus se calaram e meditaram em seu coração.

O fundo de um ícone é de cor amarelo ocre, representando o ouro que nos remete e nos quer indicar a “Luz Inacessível” que é o próprio Deus assim como o Céu glorioso onde a Virgem Maria já está e nos precede como primícias em corpo e alma juntamente com seu Filho Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Sabemos que na iconografia clássica, os personagens mais importantes são sempre representados sentados (símbolo de poder, senhorio, majestade, grande importância) e por isso, somente Jesus e a Virgem Santíssima são assim representados. Mas na imagem da Sede da Sabedoria Jesus está duplamente sentado: sentado sobre o colo de sua Mãe que está também sentada. Assim, indica que Jesus é sumamente importante e que Maria é o Trono do Cordeiro, a Sede da Sabedoria onde se assentou pela encarnação o próprio Deus morando em seu seio virginal.

Maria usa as vestes de imperatriz. Com isso a iconografia nos lembra que ela é a Rainha do Céu e da Terra, a verdadeira e única imperatriz. Usa as sapatilhas de rainha, uma vez que os escravos andavam descalços. No seu vestir, usa túnica azul e um manto vermelho. Na iconografia, o azul representa a humanidade e o vermelho é a cor da divindade. Por isso, Maria tem a túnica de baixo azul, porque é humana, nascida da descendência de Eva, mas é recoberta com o manto vermelho da divindade através da Encarnação de seu Filho Nosso Senhor. Ao redor da cabeça da Toda Santa, notamos a presença de uma auréola de ouro: Mais uma vez o símbolo da Glória representada pelo dourado e agora, também, o círculo que representa o infinito, o eterno. Maria é aquela que está na glória eterna. 

Jesus está sentado sobre o colo de sua Mãe, portanto, duplamente sentado sobre aquela que é a Sede da Sabedoria. A túnica branca nos lembra que ele é Luz e também o Príncipe da Paz. Seu manto dourado nos indica a sua glória, seu esplendor e sua divina majestade.

Lembremos sempre que um ícone é sempre um “lugar de encontro” com o Mistério. Todo ícone é uma celebração na qual somos convidados a entrar e participar, é uma janela que se abre para o Céu, é um “levantar da ponta do véu” que esconde o Mistério. Assim, que nos disponhamos a “gastar tempo” de oração e contemplação numa obra de arte para que nos imbuamos do Mistério Revelado por meio dela.

Verdadeira sabedoria não está nos livros, mas em Cristo

“A verdadeira sabedoria não é um conhecimento, mas uma pessoa, Jesus” - como disse o papa Bento XVI aos universitários de Roma.
O Papa afirma que a primeira forma de caridade intelectual consiste em ajudar os outros a descobrir o verdadeiro rosto de Deus. O paradoxo cristão consiste na identificação da Sabedoria divina, que é o «Logos» eterno, com o homem Jesus de Nazaré e com a sua história. Não se encontra solução para este paradoxo a não ser na palavra ‘Amor’, que neste caso se escreve naturalmente com ‘A’ maiúsculo, tratando-se de um Amor que supera infinitamente as dimensões humanas e históricas.
Um professor ou um jovem cristão transporta “dentro de si o amor apaixonado por esta Sabedoria”, discernindo todos os acontecimentos à sua luz. Neste sentido, o reconhecimento da plena sabedoria de Jesus não é incompatível com a investigação acadêmica: "Quantas vezes tivemos medo de nos aproximar da Gruta de Belém, preocupados que ela pudesse ser um obstáculo à nossa capacidade crítica e à nossa 'modernidade'", referiu o Papa. Pelo contrário, "naquela Gruta cada um de nós pode descobrir a verdade sobre Deus e sobre o homem".

Elevações à Sede da Sabedoria – pe. Francisco Faus4

Sede da sabedoria,
Mãe santa!
Fazei-nos amar o dom de Sabedoria,
o mais alto dos dons do Espírito Santo,
que nos faz maravilhar-nos
e saborear com gosto extasiado
numa sintonia feliz e uma união inefável –
as grandezas de Deus,
as belezas de Deus,
as bondades de Deus,
os abismos de luz dos mistérios de Deus,
as maravilhas da Graça divina
e as exigências santas do Amor.

***

Mãe, consegui do Espírito Santo para nós, sem falta
atrevemo-nos a pedir-vos assim,com ousadia –,
que cada vez nos enamore mais o Rosto de Cristo
e a Palavra de Cristo,
a Vida de Cristo
e a Morte de Cristo..
Que O procuremos com ânsia,
com uma sede que a cada dia cresça,
e estejamos decididos a imitá-Lo
e a segui-Lo,
e a abraçá-Lo
como nosso único bem,
como o nosso único
Caminho, Verdade e Vida.
Ajudai-nos, Mãe, a dizer,
com São Josemaria Escrivá:
Jesus: ver-Te, falar contigo!
Permanecer assim, contemplando-Te,
abismado na imensidade
da tua formosura,
e não cessar nunca, nunca,
nessa contemplação!
Oh, Cristo, quem Te pudesse ver!
Quem Te pudesse ver,
para ficar ferido de amor por Ti!”
De maneira muito especial, Mãe,
rogai ao Espírito divino
que acenda em nós
como um carvão em brasa –
um amor cativado, louco,
cheio de indizíveis doçuras,
pelo mistério da Sagrada Eucaristia,
que contém todo o bem espiritual da Igreja:
pois nela se contém o próprio Cristo”.
A Eucaristia!
É neste mistério que está presente
o Amor que chegou até ao fim,
até à entrega plena da vida na Cruz,
por nós, os pecadores,
e pela nossa salvação.
Dai-nos fome desse Pão Vivo,
que nEle nos transforma,
quando nos alimenta;
e que ao mesmo tempo é nosso grande Amigo,
que nunca atraiçoa”,
sempre à nossa espera
em cada um dos Sacrários da terra.

***

Alcançai-nos, Mãe, ainda,
que, com o dom de Sabedoria,
saibamos captar com júbilo
e agradecer sem cansaço
a beleza da entrega a Deus,
a paz profunda e o gozo sereno
da fidelidade à Vontade do Senhor,
tanto nas horas fáceis como nas difíceis.
Que nos ensine a entoar
o cântico do coração generoso
que não quer entregar-se pela metade,
mas dar-se inteiro
a Deus e a todos os irmãos.
Coração generoso que estremece,
com ânsias em amores inflamado”,
na gloriosa esperança de chegar um dia
conduzindo uma multidão de irmãos –
à gloriosa morada do Céu,
à fogueira indescritível de Amor
que é a Santíssima Trindade.

***

Mãe, nós vos pedimos
que o vosso Coração Imaculado
nos ajude de tal modo, que possamos proclamar
agora e na hora da nossa morte:
Nós conhecemos o Amor de Deus
e acreditamos nele.
Bem sabemos que, infelizmente,
quando esse dom é expulso da alma
por nossa culpa,
as coisas de Deus se nos tornam insípidas e tediosas,
assim como os mais deliciosos manjares
se tornam repugnantes ao paladar estragado.
Não permitais, Mãe do belo amor,
que as coisas de Deus
cheguem a nos causar jamais
nem cansaço, nem repugnância, nem tédio,
por nos termos afundado
no abismo da tibieza!
Sede da Sabedoria, rogai por nós!

Oração do Estudante

Virgem Santíssima, Vós que sois a Sede da Sabedoria, ajudai-me nos meus estudos. Abri a minha inteligência para que eu possa compreender e guardar na memória os ensinamentos dos professores. Conservai a minha calma na hora do exame; fazei-me recordar a resposta certa e guiai minhas mãos para que eu escreva o que devo escrever. Fazei que eu seja aprovado, no fim do ano, para que eu possa dar alegria aos meus pais e a todos os que me ajudam nos estudos. Nossa Senhora, não permitais que eu aprenda ou pratique coisas erradas ou repreensíveis, seja em aula ou fora dela, com meus companheiros, maus livros ou más revistas. Virgem Santíssima, Sede da Sabedoria, rogai por nós.
Amém.



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1- Maurice Zundel (1897-1975)

2- Stabat Mater, na Liturgia católica, é a prosa cantada na Igreja na Sexta-feira Santa, que lembra os sofrimentos da Virgem durante a crucifixão de Jesus

3- http://esoanthropos.blogspot.com/2010/10/o-icone-da-santissima-mae-de-deus-sede.html


4- Adaptado do livro do pe. Francisco Faus, “A tibieza e os dons do Espírito Santo”, ed. Quadrante, São Paulo, SP, 2007