Tempo Ocioso




Como Deus “descansou no sétimo dia, depois de toda a obra que fizera”(Gn 2,2), a vida humana é rimada pelo trabalho e pelo repouso. A instituição do dia do Senhor contribui para que todos desfrutem do tempo de repouso e de lazer suficiente que lhes permita cultivar sua vida familiar, cultural, social e religiosa.
“Gaudium et Spes” 67, 3


Férias. Descanso para alguns, pachorra para outros..., confusão para a maioria, que pensa: “descansando não nos poderemos assemelhar aos inativos?”.

O descanso do trabalho realizado foi idealizado e praticado pelo próprio Deus, quando Ele “descansou” no sétimo dia da Criação[1]. É realmente útil o descanso, para não dizer necessário, que propicia uma retomada das energias gastas no trabalho - um “recarregamento das baterias”.

Muitos “workaholics”[2] desprezam o descanso, por acharem que, descansando, se assemelham àquelas pessoas acomodadas, ao “Brasil Jeca-Tatu” [3]. Em primeiro lugar, são soberbos, pois se o próprio Deus descansou, não somos melhores do que Ele para dispensar o repouso. Em segundo lugar, são tolos, pois todo o mecânico sabe que nenhuma máquina pode trabalhar ininterruptamente sem ter paradas para manutenção. E, se uma máquina, criada para trabalhar melhor do que o ser humano, por conseguinte, mais forte e veloz, necessita parar, quanto mais nosso corpo frágil.

Em decorrência deste tipo de pensamento, muitos acham que o descanso dominical, sagrado para os cristãos, é uma forma de perda de tempo. “É preciso acentuar e pôr em relevo o primado do Homem no processo de produção, o primado do Homem em relação às coisas” [4]. Triste ainda ver que muitos cristãos por força de contratos de trabalho ou ignorância, trabalham nos Domingos e Dias  Santificados, incorrendo em pecado grave [5].
 
O cristão trabalha para Deus. O trabalho é uma forma de participação na  Criação do Mundo [7]. Seria como se pudéssemos ser os “pedreiros de Deus”. O Criador é o engenheiro, o que concebe e faz a obra. Nós, seres humanos, com o nosso trabalho, ajudamos nesta Criação. Nenhum “peão-de-obra” vai para o canteiro quando o mestre-de-obras diz que aquele pode ter folga... Seria entendido como se a obra fosse do operário, o que na realidade não o é.

O trabalho é santificante e santificador [8]. E o descanso é um genuíno exercício de obediência e humildade.[9]

Mas e os que estudam? O que é dito para o trabalho remunerado também é válido para os que “somente estudam"?


Se entendermos que o estudo é a preparação para aquele trabalho a que o Homem é chamado deste cedo, então o estudo pode e deve ser entendido como uma espécie de “atividade profissional”. Além do mais, é o nosso atual “dever de estado”. E, congregados marianos responsáveis, temos o “dever de estado” como uma atitude de filial serviço à nossa Rainha, a Virgem Maria. 

Então, e as férias? Devemos tê-las e parar de estudar? Não parar de estudar, pois os estudos requerem uma constância que o trabalho comum nem sempre precisa. Mas podemos, o que é muito útil, eliminar a tensão do estudo. Afinal, estamos de férias, e se estudarmos duas horas em vez de três não fará diferença... Mas estudemos sempre, pois o tempo das férias, sem aulas, faz com que nós “acertemos os ponteiros”, nos coloquemos em dia com a matéria. Em uma palavra, as férias são para o cristão uma oportunidade de “trabalhar sem horário”.

Isto bem aprendido, nos fará outras pessoas para o futuro. Saberemos que o trabalho é ao que somos chamados esta terra, a nossa utilidade. Então, enquanto estamos vivos, teremos de trabalhar. Se muito ou pouco dependerá de vários fatores.

Um congregado nunca será em sua velhice como aquele aposentado que joga cartas nas pracinhas da cidade. Nem será em sua juventude como o neurótico para quem o dia deve ter 48 horas. Os congregados, que não ostentavam símbolos no início das Congregações, se distinguiam dos demais pela “retidão no trabalho e nos negócios”.[10]

Diz um Padre da Igreja: “Que resta então, que seja capaz de perturbar o santo? Nada. Na Terra, até a alegria  costuma acabar em tristeza; mas, para quem vive de acordo com Cristo, as próprias penas se transformam em alegria” [11].

Seremos serenos. Seremos cônscios de nossa responsabilidade no Mundo, usando de nosso trabalho para glorificar a Deus e servindo ao próximo com ele [12]. Colocaremos o “selo marial”, o símbolo da Bem-aventurada Virgem em tudo o que fazemos, para imitarmos a Rainha dos Santos em sua formidável humanidade.

“O Homem deve submeter a Terra, deve dominá-la, porque, como “imagem de Deus”, é uma pessoa; isto é,um ser dotado de subjetividade, capaz de agir de maneira programada e racional, capaz de decidir por si mesmo etendente a realizar-se a si mesmo.”  [13]



Alexandre Martins, cm.
(Publicado originalmente no Boletim “Salve, Rainha” da Congregação Mariana da UFRJ em julho de 1997)










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1 - Gn 2,2
2 -expressão inglesa, criada nos EUA, para designar os que trabalham frenéticamente, fazendo “do trabalho uma religião”
3 - expressão oriunda do personagem de Monteiro Lobato, simbolizando o brasileiro atrasado, caipira e acomodado.
4 -papa João Paulo II, Enc. Laborem exercens , “O Trabalho Humano”.
5 - Catecismo da Igreja Católica, artigos 2216, 2057 e 2168
6 -S. Agostinho de Hipona, “Confissões”, ed. Quadrante, SP, 1997, págs. 67- 68.
7-papa João Paulo II, , Enc. Laborem exercens “O Trabalho Humano”.
8 - s. Josemaría Escrivá, “É Cristo que Passa - Homilias”, ed. Quadrante, SP, 1982, pág. 45.
9 - ibidem nota nº 4.
10 - pe. Émile Villaret, SJ, “Les Congrégations Mariales”, Paris, 1940
11 - s. João Crisóstomo, “Homilias sobre as estátuas”, 18
12 - bem-av. Josemaría Escrivá, “É Cristo que Passa - Homilias”, ed. Quadrante, SP, 1982, pág. 45.
13-papa João Paulo II, Enc. Laborem exercens, “O Trabalho Humano”.

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