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Amores




 Quem nos purifica, senão Deus?
Mas se não quiseres, Ele não te purifica. 

 É pois unindo a tua vontade a de Deus que tu te tornas puro.
S. Agostinho de Hipona [1]



O desejo de ser amado é inerente à natureza humana.  E quanto mais hoje, mundo da tecnologia, cada vez mais  afastado do contato material com o próximo -afinal, pede-se  pizza pelo telefone,  informações por gravações, pesquisas  pela Internet -, pois este mesmo Mundo precisa de um contato cada vez maior com alguém que seja o nosso amor. 

A falta de um contato amoroso se reflete até mesmo  em nossas relações com os demais. É verdade que muitos nem sabem como se portar no supermercado ou mesmo para pedir uma informação a um guarda...

Em grupos existentes na Igreja, é bem conhecido o processo de maior interesse de jovens por estes grupos: as moças e os rapazes vão para conseguir um namorado. É uma afirmação genérica, é verdade, mas muito significativa, uma vez que a maioria dos jovens abraça a “militância religiosa” justamente na fase de descoberta do namoro e da afetividade à flor da pele. Os rapazes procuram moças “decentes”, que não tiveram aventuras amorosas anteriores e as moças procuram rapazes “sérios”, que não vão se preocupar em levá-las a um motel depois de uma noitada. Em resumo, o que ambos querem são pessoas normais e que possam lhes dar um amor sincero e puro.

Se isto lhe pode parecer escandaloso, reflita: Por que a maioria dos jovens entra num Grupo Jovem na adolescência ou na juventude e sai quando se casa ou fica noivo? Por que tantos dirigentes de  movimentos deixam até a Igreja quando passam para a Faculdade ou arranjam um emprego mais  “exigente”? Por que a mais freqüente atividade de Grupos Jovens são as confraternizações e festas? Por que a maioria dos participantes dos grupos namora os outros participantes? Por que, se algum jovem tem namorado, não o leva às atividades do seu Grupo?

Às moças tão ávidas em eleger seus “ídolos”, estes atos são mais nocivos. É conhecido que muitas se “apaixonam” pelos líderes de grupos ou por aqueles que tem “dons” que os diferenciam dos demais. Quando declaram seu “amor” a eles, se são recusadas, passam a odiá-los, sentem-se envergonhadas perante o grupo e fogem da Igreja.

Aos rapazes famosos, por acharem que “tudo o que reluz é ouro”, deixam as “simpáticas” moças piedosas por outras, modelos de beleza. Esquecem de que muitas vezes são sepulcros caiados: sua beleza é exterior, enquanto no interior são horríveis e mundanas. Resultado: as “belas”, geralmente mundanas, os afastam da vida da Fé e os perdem no Mundo.

Quanto a nós, congregados marianos - defensores e propagadores da pureza, virtude esta que tanto nos aproxima da imitação da Mãe de Deus -, que podemos fazer de concreto para evitar que em nossa Congregação aconteça este triste quadro?

Em primeiro lugar, respeitar o próximo. Evitemos conversas exageradas e imprudentes com aqueles que possam se escandalizar. Mantenhamos uma postura à altura de imitadores da Virgem Puríssima.

Depois, retificar nossa intenção de participar da Congregação e de evangelizar. Perguntemo-nos: para que vim aqui, senão para me unir a outros que me ajudarão a entender melhor a minha Fé e a me amparar neste caminho para a santidade? Para que devo levar a Palavra de Deus ao meu próximo, e este à recepção dos Sacramentos senão para, amorosamente, cumprir aquele mandato batismal: “Ide e evangelizai” ? [2] Tudo o que foge ao dito aqui, é passível de ponderação e até de refutação...

Numa palavra: falta a muitos uma maturidade emocional. Esta se consegue com o passar dos anos e a força de experiências, às vezes, dolorosas. Na Congregação, podemos ter bons amigos a quem possamos “desabafar” e até pedir ajuda. O sacerdote é o amigo íntimo a quem podemos dizer tudo e quem não divulgará nada, nem ficará com inveja de nós. Recorramos a ele mesmo nestas “infantilidades”...

Peçamos à Virgem Pura que nos mantenha na inocência ou nos dê a pureza necessária para bem viver e louvar a Trindade Santa:

“Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem Maria, preparastes a Vosso Filho digna habitação, nós Vos rogamos que, como a preservastes de todas a mancha pela previsão da morte de Seu mesmo Filho, nos concedais por sua intercessão que também puros cheguemos até Vós” [3].


Alexandre Martins, cm.
(Publicado originalmente no Boletim “Salve, Rainha” da
Congregação Mariana da UFRJ em setembro de 1997)



___________________________________________________
1 -s. Agostinho de Hipona, “Confissões”, ed. Quadrante, SP, 1997, pág,. 98
2 - Mc 15,16
3 - Oração da Novena da Imaculada Conceição.

Apreço pela Liturgia


O congregado deve manter um indistinto apreço pela Sagrada Liturgia por ver nela um desdobramento do "sentir com a Igreja" - juramento jesuíta tão característico dos filhos de Santo Inácio de Loyola, onde também são incluídos os congregados marianos.
“Apreço a liturgia” no sentido de uma correta execução os gestos e posições assinaladas nos diversos oficios, nas respostas firmes, bem como no sentido real de tudo o que aquilo significa e simboliza.
Rubricista é o nome dado àquele que segue com afinco quase fanático ao que diz as rubricas do Missal Romano. O congregado não é um “rubricista”, no sentido extremo da palavra, mas procura estudar e aprender o que recomenda a Sagrada Instrução sobre algum ofício: é mais zelo pelas coisas de Deus do que outra coisa.
Por vezes temos a sensação de estarmos em uma Igreja seccionada em várias “pequenas igrejas”, numa deturpação do que o Sagrado Concílio chama de “Igreja Particular”. Quem de nós não teve a desagradável surpresa de participar de uma Santa Missa em uma Paroquia onde o celebrante comete deslizes litúrgicos vexaminosos e – pior - ordena que todos os participantes façam o mesmo?
Com um correto aprendizado por parte do congregado - e para isto muito auxilia uma formação litúrgica "romana", isto é, “imparcial”, nas Congregações Marianas - fará deste mariano um exemplo perante os demais cristãos que também participam da celebração. E não precisara de muito para se fazer sentir um saudável influencia no ambiente, evitando "choques" desnecessários.
Uma boa instrução na Congregação Mariana leva sobretudo aos moços a uma atitude firme perante a Sociedade para que se possa não somente impor-se como cristão, mas mesmo defender a Igreja do ataque dos infiéis.
Isto é demonstrado nas respostas firmes e claras do Pequeno Oficio, nas Vésperas, no próprio Hino... O mesmo acontece nas respostas litúrgicas. Deus conversa conosco e nós com Ele. Portanto, o Fiel e Justo nos dirige sua Palavra e temos por conseguinte responder com a firmeza dos mártires e a suavidade das virgens. Nossa resposta as orações litúrgicas deve ter um tom audível e distinto, ao mesmo tempo que não seja arrogante ou "gritante". Afinal, não é dito no meio católico que não "assistimos" a Missa, mas "participamos" dela?
Infelizmente o aprendizado dos significados das diversas formas litúrgicas, dos seus símbolos é visto atualmente como algo quase esotérico. Somente alguns poucos "iniciados" poderiam participar deste conhecimento. Nada mais errado. Afinal, não foi o mesmo Mestre que disse "tudo às claras"? Existe algum documento da Igreja reservado a leitura restrita somente de tal ou tal religioso? Mesmo as cartas dirigidas somente aos Bispos e Cardeais estão na Internet para que todos possam também ler caso queiram, católicos e mesmo a não católicos...
Quanto mais se conhece sobre a Liturgia mais se ama a Igreja de Jesus Cristo. Quanto mais sabemos de tudo o que simboliza e significa nos atos da Liturgia mais se desvela perante nos o amor com que Deus nos ama.
Cada Congregação Mariana pode de algum modo suprir esta lacuna em reuniões para o Aspirantado sobre gestos e símbolos litúrgicos. As Reuniões Gerais da Congregação Mariana podem vez ou outra convidar palestrantes das equipes diocesanas de Liturgia. Isto sem dizer de fazerem-se até mesmo "Academias de Liturgia" para congregados e outros dentro das Congregações Marianas. Quão benéfico isto seria !
O que deve se evitar a todo o custo é a formação de uma espécie de "rito especial" dentro da Igreja.
A isto não serve uma catequese litúrgica, como se fosse criada uma legião de "donos da verdade". Muitos organizam seus grupos ou pastorais com atitudes como se a Liturgia fosse modificável para este ou aquele ambiente, distorcendo o caráter adaptativo que foi ensinado pelo Concílio. Isto nunca deve ocorrer com as verdadeiras Congregações Marianas, fazendo suas "Missas particulares" ou " Ritos próprios", como se fossemos uma maçonaria católica.
Devemos sim, influir no meio para que o ambiente onde vivamos seja cada vez mais coerente com o que a Igreja espera de todos nós.
Os verdadeiros “donos da Verdade” são os que são fiéis ao Magistério da Igreja.


Alexandre Martins, cm.
17/05/2005

Flores na água


As plantas são seres dotados de uma vida própria. Não possuem alma como a nossa, mas um “elemento vital” que tem suas características.

Analisemos, resumidamente, uma folha. Mesmo que venha uma lagarta ou outro animal para destruí-la, se estiver unida ao ramo e este ao tronco - em uma palavra, se nela houver seiva - a mesma folha se reestruturará. Quando colhemos flores ou folhagens e as colocamos na água, elas mantêm o seu frescor e mesmo o seu vigor por certo tempo. Veja: certo tempo, maior ou menor, mas não para sempre. 


Somos muitas vezes estas folhas, estas flores. O próprio Mestre nos compara a plantas muitas vezes nos Evangelhos[1]. E realmente o somos se atentarmos para os fatos acima.

As lagartas e pragas são as tentações e perseguições que nos acometem. Sim, muitas, para não dizer todas, são dadas por Deus[2], pois Ele é quem tudo permite e que prova o justo com provações como o ouro se purifica no fogo. Mas nada mudará para a folha unida ao ramo, que se reestrutura devido à seiva constante que provém do tronco para as extremidades. Assim nós, unidos à Igreja, não nos acovardamos ou perecemos por causa da Divina Seiva da Graça de Deus transmitida pelos Santos Sacramentos. 


Às vezes, queremos perpetuar o frescor e vitalidade de uma planta dando um ambiente não-natural para ela, como é o caso de colocarmos flores em jarros d’água. Evidentemente não teremos grande sucesso. Assim a alma, colocada em ambientes que não podem dar o contato permanente com a Graça, logo definhar-se-á. 

Neste mês de maio comemoramos o mês dedicado à Virgem Maria.


Como, nós, membros da Congregação Mariana, podemos ser somente marianos de um mês? Somente neste mês meditaremos sobre as glórias da Virgem? Somente neste mês rezaremos mais amiúde o terço? Somente neste mês faremos sacrifícios especiais para a Mãe de Deus? Somente nestes dias procuraremos divulgar mais sua devoção? Deixemos isso para os demais católicos. Nós não fazemos isso.


Não somos mesquinhos em nossa devoção à Mãe de Deus. A ela nos consagramos perpetuamente e propomos “fazer o quanto puder para que sejais dos mais fielmente servida e amada”. [3]


O congregado mariano planta a rosa de sua devoção em terreno fértil, o seu coração puro é regado constantemente com a água-viva que provém de uma fonte perene, a Congregação. As nossas práticas são de todo o dia, toda a hora, pois nossa Mãe não é de um dia, nem de alguns momentos. Ela é Mãe sempre, como sempre atenta a nossas dificuldades.


Esta é uma das vantagens da Congregação Mariana frente a outros grupos ou movimentos da Igreja. A começar de nosso caráter de associação pública de fiéis [4], ela é perenemente ereta como uma organização que não “fecha suas portas”. A formação constante a que os congregados, mesmo os associados, recebem os orienta em todos os matizes de suas vidas. É realmente um farol em mar revolto... A Consagração à Virgem é feita de modo perpétuo. E como tão boa Mãe deixaria seus filhos prediletos abandonados? Nenhuma mãe desta terra, mesmo muito pecadora, faria isso com seu filho. Nossa Mãe é a Puríssima Virgem. Como podemos imaginar sequer que isso possa acontecer conosco? Triste ver alguns que abandonam a Congregação por não estarem mais “atraídos” por ela. É claro que há as empatias, mas alguns perdem a Fé e, por isso mesmo, podem ser chamados de infelizes. Podem ser comparados ao filho-pródigo dos Evangelhos que trocou a mesa do pai pelos porcos, por Esaú que trocou a Primogenitura por um prato de lentilhas...[5]
 

Como servos (vassalos) desta augusta Rainha, temos suas insígnias, suas cores, somos marcados com seu sinal, somos sua propriedade[6]. Nenhum soberano deixa seus súditos à mercê dos inimigos. De igual modo, esta Senhora não deixa seus servos desamparados. “Jamais se ouviu dizer que algum daqueles que tem recorrido a vossa proteção (...) fosse por vós desamparado”[7], diz a secular oração à Virgem.
 

Portanto, não somos “marianos de mês”, mas de uma vida inteira. Inclusive no Céu, onde poderemos cantar perfeitamente os louvores da Mãe de Deus. 



Alexandre Martins, cm.
(Publicado originalmente no Boletim “Salve, Rainha” da Congregação Mariana da UFRJ em maio de 1997)


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1 - Mt 21,19; Jo 15,05
2 - Jó 1,12
3 - antigo Ato de Consagração dos congregados, atribuído a s.  Francisco de Sales.
4 - Código de Direito Canônico, c.312 §lªnª2 e c.314; Regra de Vida das CC.MM.nª01
5 - Ez 4, 34
6 - “Tratado da Verdadeira Devoção à Ssma. Virgem”, s. Luiz M. Grignion de Montfort, 6º ed. Ed.Vozes, RJ, 1961, pág. 196.
7 - “Sub tuum praesidium”, s. Bernardo de Claraval.

O zelo me devora...



A atitude de Cristo ao expulsar os vendilhões do Templo de Jerusalém é tida como uma justificativa de violência do Messias. Segundo alguns contemporâneos, Cristo teria dado o exemplo de que “o fim justifica os meios” e que devemos algumas vezes ser violentos para conseguir sucesso em nossas empreitadas. Puro engano.

O que Cristo ensina é a justa revolta perante a atitude de alguns, diante das coisas santas, as coisas de Deus. A profanação do Templo era algo muito sério na Lei de Moisés. E inclusive hoje perante as coisas de Deus.

O Filho do Homem refuta veementemente isso. E dá a cada um, conforme o tamanho de sua ofensa: a uns joga seus tesouros para o ar, a outros ameaça com um chicote, a outros apenas admoesta... O zelo que o Messias possui pela Casa de Deus é enorme, avassalador, devora como um fogo, como dizem o salmista e o evangelista.

Mas, além de profanação do Templo de Deus - que pode ser atingida seja com atitudes incoerentes ou até roupas inadequadas - devemos ter todo o cuidado de não profanar as
coisas de Deus ou as que levam Seu nome.

Neste ponto chegamos ao assunto que a leitura desta passagem evangélica pode levar: o zelo pelas coisas de Deus e, em decorrência, por nossa Congregação. Congregação esta
que é de Deus, por que é de Maria, a Serva de Deus. Como tratamos das incumbências que temos nela?

Como propomos este caminho de santidade aos demais cristãos e a outros? No mais, nosso zelo pela Congregação chega a que ponto?

O presidente é alguém que responde pela CM e cuida para que todas as iniciativas da associação dêem certo. Mas todos os membros não são responsáveis pela CM? Não é o trabalho de todos que faz o resultado conjunto?

Temos de ter um grande zelo. Zelo pela Congregação Mariana. Zelo por uma santa agremiação, reflexo da santidade da Igreja, colocada e mantida por Deus no Mundo para o progresso das almas no caminho da bem-aventurança. Sejamos respeitosos para com esta associação, amemo-la. Este amor, irradiado por nós, vocacionados, atrairá outros admirados por nosso amor, ensinará a outros mais, a amar os grupos que participam, ilustrará a outros mais como ser Igreja...

“O amor se manifesta nas pequenas coisas”. Em tudo devemos ter zelo. Nada é menos importante. Se alguma coisa na Congregação não fosse de alguma forma útil, não estaria sendo usado ou feito.

Aproveitemos a Quaresma e o início deste novo período da UFRJ para nos colocarmos em questão. No período quaresmal nos propomos à revisão de nossa vida, tendo em vista a ressurreição com o Cristo para a Páscoa - passagem para uma nova vida de retidão. O novo período nos dá a sensação de que tudo é novo e que tudo está para ser feito novamente. Façamos agora o que não fizemos antes ou o que não fizemos corretamente.

“O zelo pela tua casa me devora”. O zelo pelas coisas do  Pai nos deve devorar como reflexo do amor por Deus que arde em nosso peito. O zelo pela Congregação deve ser igualmente devorador, pois ela é algo de Deus, propriedade da Santíssima Virgem, e, como a amamos ardorosamente, ardorosamente defendemos Sua causa.

“Nos, cum prole pia, benedicat Virgo Maria”.





Alexandre Martins, cm.
(Publicado originalmente no Boletim “Salve, Rainha”  da Congregação Mariana da UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro -  em março de 1997)

 

O Samurai de Deus

detalhe de ilustração da época do exílio, mostrando Takayama


Alexandre Martins, cm.


Conhecido como o "samurai de Cristo”, Justo Ukon Takayama foi um bravo guerreiro, um grande evangelizador e um político honesto. Foi um senhor feudal que preferiu abandonar seu país do que abandonar seu Senhor Jesus Cristo.
Honra, Justiça, Perfeição, Lealdade: estas são algumas das palavras associadas aos Samurais - a classe guerreira do Japão feudal - e até hoje sua influência é sentida no modo de viver e de pensar do povo japonês.
Modelo de fidelidade em um mundo de mudanças políticas, militar que evitava o derramamento de sangue, Takayama poderia ser o primeiro japonês nos altares sem passar pelo martírio.

 

A Evangelização do Japão

Entre 1542 e 1543 os portugueses pisaram no Japão. As atividades missionárias iniciaram-se em 1549, realizadas por jesuítas ao abrigo do Padroado. De início tiveram um enorme sucesso, estabelecendo várias congregações. Mais tarde chegaram ao Japão as ordens dos franciscanos e dominicanos. Francisco Xavier, Cosme de Torres e o Padre João Fernandes foram os primeiros a chegar a Kagoshima para o cristianismo, e chegou a existir 300 mil cristãos no Japão.
Em princípio, isso não afetava a política e o xogum que governou o Japão de 1567 a 1582, Oda Nobunaga, chegou a incentivar o trabalho dos jesuítas para enfraquecer a influência dos monges budistas, com quem disputava poder político.
Os jesuítas converteram vários Daimiô1 que em breve foram seguidos por muitos de seus súditos com os quais os dominicanos e agostinianos foram capazes de começar a pregar.
Mas o ideal de igualdade cristã contrastava com os hierarquia do Xogum.2
A intromissão estrangeira em um país em guerras de unificação incomodou as autoridades locais, e o catolicismo foi reprimido em várias partes do país até ser proibido após a Rebelião de Shimabara (1637) passando a ser celebrado em segredo na clandestinidade pelos chamados kakure kirishitan.3
Em 1859, quando chegaram ao Japão, missionários franceses descobriram que cerca de 60 mil japoneses praticavam o cristianismo na clandestinidade. As comunidades kakure kirishitan existem até hoje.

 

Os Samurais

Os samurais surgiram como classe guerreira, na época feudal do Japão e dominaram o país por quase oito séculos (século VIII ao XIX). Ser um samurai era um prestígio social, uma vez que a classe guerreira ocupava os mais altos cargos dentro do Xogunato4, a ditadura militar nipônica. Inicialmente, a função do samurai era apenas coletar impostos e servir ao Império. A partir do século X, a figura do samurai toma forma e ganha uma série de funções militares, alcançando seu ápice no século XVII. Por volta do século X, foi oficializado o termo "samurai", e este ganhou uma série de novas funções, como a militar. Nessa época, qualquer cidadão podia tornar-se um samurai, bastando para isso adestrar-se no Kobudo (artes marciais samurais), manter uma reputação e ser habilidoso o suficiente para ser contratado por um senhor feudal. Assim foi até o xogunato dos Tokugawa, iniciado em 1603, quando a classe dos samurais passou a ser uma casta. Assim, o título de "samurai" começou a ser passado de pai para filho.
O samurai era de moral rígida. Se seu nome fosse desonrado ele executaria o seppuku (o suicídio honrado) pois em seu código de ética (o Bushido) era preferível morrer com honra a viver sem ela.
Pelo fim da era Tokugawa, os samurais eram apenas burocratas aristocráticos ao serviço dos Daimiô, com as suas espadas servindo para fins cerimoniais. Com as reformas da Era Meiji, em 1868, a classe dos samurais foi abolida. O Bushido, ainda sobrevive, no entanto, na atual sociedade japonesa, tal como muitos outros aspectos do seu modo de vida. Seu legado continua até nossos dias, influenciando não apenas a sociedade japonesa, mas também o Ocidente.

 

Infância

Takayama nasceu em 1552, três anos após a chegada do Cristianismo no introdutor do Japão, o missionário jesuíta São Francisco Xavier (1506-1552).
Takayama tinha 12 anos quando foi trazido ao castelo de Sawa um sacerdote católico, a pedido de seu pai, o senhor Tomoteru, um homem com inquietudes religiosas, que queria debater as virtudes do budismo com um sábio cristão. Era 1564, e haviam passado já 15 anos desde que um barco português atracou pela primeira vez no Japão.
Tomoteru analisou com profundidade e com determinação a proposta cristã e gostou, porque se batizou ele e sua casa. Seu filho Takayama (cujo nome real era Hikogoro Shigetomo) recebeu no batismo o nome de “Justo”.
Eram tempos turbulentos. Os Takayama foram fiéis aos que foram os vencedores dessa época: O clã Nobunaga primeiro; e quando este foi assassinado, Toyotomi Hideyoshi, o grande unificador do Japão.

 

Um Samurai diferente

Justo Takayama dirigiu exércitos, porém tentou limitar a perda de vidas; tratou com os mais poderosos, mas se manteve sempre independente das pressões e fiel a sua consciência.
Takayama colocou sua riqueza e posição social ao serviço dos missionários e, portanto, agiu como protetor dos cristãos e padres jesuítas. Ele era um servo fiel dos xoguns.
Ao ganhar novas terras e vassalos, assombravam a estes por conceder elaborados funerais com ataúdes, bandeiras e procissões para pessoas que não eram nobres.
Em 1576, com o sacerdote italiano Gnecchi Soldo, Ukon Takayama construiu a primeira igreja de Kyoto, que durante 11 anos seria um centro missionário do Japão. Dela hoje só sobrou o sino.
Em 1578, com 26 anos, sendo senhor do castelo Takasuki, o jovem samurai cristão deu exemplo de seu caráter ao encontrar-se em uma complicada encruzilhada. Sua irmã era refém do senhor Murashige, que havia desgostado o poderoso Nobunaga. Murashige era convidado de Ukon Takayama, mas um exército de Nobunaga foi ao castelo pedindo que lhe entregassem a Murashige. Fizesse o que fizesse, muita gente podia morrer.
O jovem samurai raspou a cabeça, se vestiu de monge budista – rituais para expressar humildade e pacifismo - e se entregou como refém a Nobunaga, evitando assim o derramamento de sangue. Nobunaga se impressionou com a atitude do jovem e o premiou com sua confiança e com vários títulos.
Três anos depois Nobunaga foi assassinado e os Takayama apoiaram seu general e herdeiro, Hideyoshi, de grande coragem em combate. Hideyoshi premiou a Ukon com o feudo de Akashi, onde em pouco tempo 2.000 pessoas se converteram ao cristianismo, a fé de seu novo Daimiô.

 

Um Congregado mariano de katana5

Haviam comunidades leigas nas igrejas que os jesuítas fundaram nas cidades japonesas, como Quioto, Sakai e Osaka. E, como não poderia deixar de ser, haviam Congregações Marianas (sodalitium) ou quase-Congregações (quasi-sodalitium). Como se sabe, os jesuítas usavam as Congregações Marianas para formação de líderes leigos.
Justo Ukon Takayama foi um desses líderes leigos, mais precisamente na localidade de Kaga, nos arredores de Quioto. Na História das Congregações Marianas do pe. Villaret há a menção das Congregações Marianas de Samurais, pois é tradicional a criação de grupos homogêneos de acordo com a classe social e, no Japão feudal, necessário. Certamente Takayama era o Presidente de uma Congregação para Samurais, devido à sua posição de honra e vida exemplar, conforme o relatório do jesuíta Fróes em 1592.

 

A perseguição religiosa

Mas em 1587, quando o samurai tinha 35 anos, a tolerância para com o cristianismo chegou ao fim. O Xogun Hideyoshi, vitorioso dos conflitos internos, emergiu como o Ministro dos negócios estrangeiros do Japão.
Hideyoshi não só queria um Japão unido, mas absolutamente dominado sob seu poder. Então, quando uma nobre jovem cristã se negou a ser uma de suas concubinas, devido a sua Fé, isso o enraiveceu muito, aumentando seu ódio pelo Cristianismo.
Por essas mesmas datas, um comerciante português cujo barco havia sido preso pelos japoneses falou com palavras arrogantes a Hideyoshi, assegurando que a frota de guerra portuguesa algum dia chegaria ao Japão, o que acabou de enfurecê-lo.
Portanto começou uma perseguição contra os cristãos, expulsando os missionários e forçando os católicos japoneses a abandonar a fé. Em 1597, o Chanceler ordenou a execução de 26 estrangeiros e japoneses católica que foram crucificados em 5 de fevereiro. Por um tempo, nobres como Takayama, podiam atrasar ou evitar pressões e proteger seus vassalos cristãos.
O novo senhor das ilhas não queria resistência alguma, ordenou a expulsão dos missionários e de todos os estrangeiros e pressionou os senhores japoneses para que renunciassem à fé cristã. Alguns nobres, como Ukon Takayama, podiam se manobrar, mais ou menos, para demorar ou esquivar das pressões e proteger seus vassalos cristãos.
Porém menos de 30 anos depois, em 1614, o novo Xogun Ieyasu Tokugawa lançou a proibição total do cristianismo. Aos cristãos se pedia para pisotear ou cuspir num crucifixo como sinal de seu abandono da fé. Muitos Daimiô para não perderem suas terras renunciaram ao catolicismo, por outro lado Takayama e seu pai decidiram abandonar as suas terras e honras. Como Takayama não quis lutar contra outros cristãos, optaram para uma vida pobre, pois o samurai que não obedecia a seu Senhor perdia tudo: propriedades, honra e emprego.
Ukon, já com mais de 60 anos, tinha desafiado o Xogun: "não vou lutar com armas ou espadas, eu vou ter paciência e fé, em conformidade com os ensinamentos de meu senhor e Salvador, Jesus Cristo".
Muitos tentaram convencê-lo a renunciar a Fé, mas ele se recusou a deixar a Igreja e persistiu em sua decisão de viver como um cristão até a morte.

 

O exílio

Em 1614, aos 62 anos, Takayama foi para o exílio liderando um grupo de 300 católicos japoneses que partiu para as Filipinas, território então espanhol e estabeleceu-se na capital Manila.
Nesse ano 3 barcos deixaram o Japão com cristãos japoneses. Dois foram para a portuguesa Macau. “Deus disse que quem pega a espada se arruína com ela. Formai famílias nas Filipinas e regressai ao Japão como enviados para a paz”, disse o Daimiô no porto de Nagasaki ao seu povo que se exilava com ele.
Sua esperança era que aqueles cristãos voltassem ao Japão, mais numerosos, como uma ponte entre culturas. Já não pensava em exércitos, mas em algo mais poderoso, que vive de geração em geração: pensava nas famílias. Aqueles exilados japoneses se fundiram com a população católica filipina rapidamente.
Outro navio, em que viajavam Ukon Takayama, sua esposa, filha e netos, e uns 100 leigos japoneses, foram para Manila. Em Manila foi recebido por uma multidão de curiosos e os espanhóis o trataram com todo respeito. Inclusive se falou de preparar uma expedição militar espanhola ao Japão sob seu comando ou conselho, porém ele se negou.
Morreu em 1615 aos 4 de fevereiro, de uma enfermidade, 10 meses depois. Ele recebeu um funeral espanhol com honras militares.
Em um quadrado de Manila fica uma escultura que se assemelha a Ukon Takayama, "samurai de Deus", com a Cruz nas mãos dele. Em uma praça de Manila se levantou uma escultura que recorda a Ukon Takayama, o “samurai de Deus”, com a cruz em suas mãos.
No Japão os católicos celebram peregrinações aos lugares em que viveu, lutou e rezou são locais de peregrinação para os católicos. Como sucedeu com Cristo e costuma suceder com os santos cristãos, suas maiores vitórias as colherás depois de morto.

 

Beatificação

Os bispos japoneses enviaram à Roma o relatório de 400 páginas que apresenta a figura do samurai e Daimiô Takayama Ukon, batizado aos 12 anos, fiel servidor dos Xogun Obunaga e Hideyoshi, que unificaram o Japão, e exilado aos 62 anos com outros 300 cristãos nas Filipinas, durante a perseguição de Tokugawa.
A Igreja japonesa quer vê-lo beatificado em 2015, quando se completa 400 anos de sua morte nas Filipinas.
Seria um caso muito especial: há muitos santos japoneses (42 santos e 393 beatos, incluindo missionários europeus), mas são todos mártires que morreram em grupos em diferentes perseguições. Takayama Ukon é diferente porque é um leigo, um político, um militar, que chegaria aos altares pela via de suas virtudes heroicas, não do martírio.
Segundo o arcebispo de Osaka, Leo Jun Ikenaga, em 2012 escreveu a Bento XVI apresentando esta causa de canonização e assegura que no Vaticano lhe prometeram uma “consideração especial”.
Para o postulador da causa, o padre Kawamura, este Daimiô pode ser um modelo para os políticos atuais, porque viveu em um ambiente hostil, de mudanças políticas constantes, mas “nunca se deixou extraviar pelos que o rodeavam e viveu uma vida segundo sua consciência, de forma persistente, uma vida adequada para um santo, que segue dando exemplo para muitos hoje”.

 

Um exemplo ainda atual

O Congregado mariano de katana serve de exemplo para os políticos atuais, assim como outros Congregados tais como presidente García Moreno, do Equador, e Fernando II, arqui-duque da Áustria.
Como disse6 o papa Francisco, “é próprio da liderança escolher a mais justa entre as opções, após tê-las considerado, partindo da própria responsabilidade e do interesse pelo bem comum; por esta estrada, chega-se ao centro dos males da sociedade, para vencê-los com a ousadia de ações corajosas e livres.” Takayama foi esse líder que foi responsável em escolher o melhor caminho para o povo japonês e teve a coragem de fazê-lo.


estátua de Takayama em Manila, Filipinas



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1- Daimiô (大名, ) é um termo genérico que se refere a um poderoso senhor de terras no Japão feudal, que governava a maior parte do país a partir de suas imensas propriedades de terra hereditárias. Foram os mais poderosos senhores de terras do período que foi do século X a meados do século XIX na história do Japão, depois dos xogum. O termo "daimiô" por vezes é usado para se referir às principais figuras dos clãs japoneses, também chamados de "Senhores". Era a partir destes senhores de guerra que um Xogum ou um Shikken (regente) era escolhido.
2- O termo shōgun (将軍? lit. "Comandante do exército"), em português xogum, era título e distinção militar usado no Japão feudal, concedido diretamente pelo Imperador. É abreviação de Seii Taishōgun (征夷大将軍? lit. "Grande General Apaziguador dos Bárbaros"), nomeação utilizada para se referir ao general que comandava o exército enviado a combater os emishi, que habitavam no norte do país.
3- (隠れキリシタン, "cristão escondido").
4- O Xogunato era um regime feudal existente no Japão até à idade moderna. Semelhante ao feudalismo, porém com características orientais. Além de proprietário rural, o xogum também era um chefe militar. Devia obediência ao imperador, porém os seus comandados deviam obediência somente ao xogum.
5- espada japonesa, privilégio dos Samurais.
6- papa Francisco em Discurso aos Dirigentes do Brasil por ocasião da Visita Apostólica do Santo Padre na 28ª Jornada Mundial da Juventude. Teatro Municipal, Rio de Janeiro, 27 de Julho de 2013.