
Devoção Mariana na Marinha do Brasil
Alexandre Martins, cm.
Prólogo: O Mar como Templo
Há algo sagrado no horizonte onde o céu toca as águas. Para quem navega, esse encontro infinito não é apenas geografia mas uma forma de teologia. O mar, com sua vastidão insondável, seus mistérios abissais e suas tempestades súbitas, sempre convocou o homem a olhar para além de si mesmo. Nas frotas que sulcaram os oceanos desde a aurora das navegações, levava-se não apenas âncoras e velas, mas também rosários e escapulários. A fé embarcava junto, porque o marinheiro sabe — talvez melhor que ninguém — que há forças maiores que governam o destino das embarcações.
No Brasil, essa devoção encontrou uma expressão particularmente rica na veneração a Nossa Senhora dos Navegantes e na tradição dos Congregados Marianos militares da Marinha. Essa história, tecida entre ondas e orações, entre ordenanças navais e novenas, revela dimensões profundas da religiosidade brasileira e da identidade da Armada nacional. É uma narrativa que atravessa séculos, desde as caravelas portuguesas até os modernos navios de guerra, mantendo acesa uma chama de devoção que ilumina tanto as capelas dos quartéis quanto os corações dos homens do mar.
I. As Raízes Lusitanas: Maria e o Império Marítimo
O Padroado e a Evangelização dos Oceanos
Para compreender a devoção mariana na Marinha brasileira, é necessário retroceder às origens do império marítimo português.
Portugal, o pequeno reino atlântico, construiu sua identidade nacional entrelaçada com o mar e com a fé católica. O regime do Padroado, estabelecido por bulas papais dos séculos XV e XVI, conferiu aos reis lusitanos não apenas o direito, mas o dever de evangelizar as terras descobertas.1
Nesse contexto, Maria assume um papel central. As naus portuguesas não eram apenas máquinas de guerra ou de comércio mas evidentes “capelas flutuantes”. Cada embarcação levava sua imagem da Virgem, seu próprio capelão, e tinha seus rituais diários de oração.
A devoção mariana tornou-se inseparável da experiência da navegação. Como observa o historiador Charles Boxer, "a Ave-Maria e o Pai-Nosso eram tão essenciais ao funcionamento de um navio português quanto as velas e o leme".2
Nossa Senhora: Patrona dos Mares
Entre as múltiplas invocações marianas que os navegadores portugueses levaram consigo, destacam-se: Nossa Senhora da Boa Viagem, Nossa Senhora da Guia e Nossa Senhora dos Navegantes.
Nossa Senhora dos Navegantes, embora menos documentada nos primeiros séculos da expansão marítima, consolidou-se gradualmente como a patrona por excelência dos que enfrentam os perigos do mar.
Há uma profunda teologia por trás dessa devoção. Maria, chamada de "Stella Maris" (Estrela do Mar) desde os primeiros séculos do cristianismo, era vista como guia seguro através das águas turbulentas — tanto as reais quanto as espirituais.
Santo Efrém, o Sírio, no século IV, já invocava Maria como "porto seguro" para os navegantes da fé.3 Essa metáfora náutica encontrou solo fértil na experiência concreta dos marinheiros portugueses, que, perdidos na imensidão do Atlântico, recorriam à Mãe de Deus como se recorre a um farol em noite de tempestade.
A Transferência Devocional para o Brasil
Com a colonização portuguesa do Brasil, a devoção mariana a Nossa Senhora dos Navegantes cruzou o oceano. As primeiras capelas construídas em solo brasileiro frequentemente eram dedicadas a invocações marianas ligadas ao mar. Em Porto Alegre (RS) a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes ganhou força particular, enraizando-se na cultura local de maneira que perdura até hoje.4
A Marinha de Guerra portuguesa, precursora da Marinha do Brasil, trouxe consigo toda essa tradição devocional. Os oficiais e marinheiros que serviam nas águas brasileiras mantinham os mesmos rituais de suas contrapartes europeias: a oração matinal diante da imagem da Virgem, a salva de canhões nos dias de festa mariana, a missa cantada nos navios. Era uma religiosidade vivida, prática, entranhada no cotidiano naval.
II. A Formação da Marinha Imperial e a Continuidade Devocional
A Independência e a Herança Portuguesa
Quando o Brasil conquistou sua independência em 1822, a recém-formada Marinha Imperial herdou não apenas os navios e a estrutura organizacional da Armada portuguesa, mas também suas tradições espirituais. O primeiro Ministro da Marinha, Luís da Cunha Moreira, era um católico praticante que via na devoção mariana um elemento essencial para a coesão e a moral da tropa naval.5
A Constituição Imperial de 1824 estabelecia o Catolicismo como religião oficial do Estado, e isso se refletia intensamente na vida militar. Os capelães navais não eram simples funcionários religiosos, eram realmente peças fundamentais da hierarquia militar, responsáveis não apenas pelo bem-estar espiritual dos marinheiros, mas também pela manutenção da disciplina e da ordem moral a bordo.
As Irmandades e Confrarias Marianas
No século XIX, floresceram no Brasil diversas irmandades e confrarias dedicadas a Virgem Maria. Entre os militares, essas associações tinham caráter particular. As Irmandades de Nossa Senhora — como a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte — agregavam oficiais e praças em torno de práticas devocionais comuns: novenas, procissões, obras de caridade, assistência às famílias dos militares falecidos...6
Essas irmandades criavam laços que transcendiam a hierarquia militar. Um almirante e um simples marinheiro, unidos pela devoção à Mãe de Deus, encontravam-se em pé de igualdade diante do altar. Essa dimensão fraterna da religiosidade mariana contribuía para fortalecer o espírito de corpo da Marinha, criando uma identidade comum que ia além das diferenças de patente.
Conflitos e Devoção: A Guerra do Paraguai
A fé mariana foi posta à prova durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da história sul-americana. A Marinha Imperial teve papel decisivo nessa guerra, e os relatos da época estão repletos de referências à proteção de Nossa Senhora.
Após a vitória naval de Riachuelo, em 11 de junho de 1865, o Almirante Barroso — comandante da esquadra brasileira — atribuiu publicamente o triunfo à intercessão da Virgem Maria.
Em seu relatório oficial, escreveu: "A Providência Divina, por intercessão de Nossa Senhora, guardou nossas embarcações e nossos homens".7 Essa não era mera retórica: refletia uma convicção genuína, compartilhada por grande parte dos combatentes, de que forças sobrenaturais participavam das batalhas.
III. Os Congregados Marianos: Origem e Expansão
As Congregações Marianas
Para entender os Congregados Marianos militares na Marinha do Brasil, é necessário conhecer o movimento mais amplo das Congregações Marianas.
Essas associações nasceram no ambiente jesuíta do século XVI. A primeira Congregação Mariana foi fundada em 1563, no Colégio Romano, atual Universidade Gregoriana, em Roma (Itália) pelo padre jesuíta Jean Leunis.8
O propósito dessas Congregações era formar católicos exemplares através da devoção mariana intensiva. Os congregados marianos (nome dado aos seus membros) comprometiam-se a um programa de vida espiritual rigoroso: missa e comunhão frequentes, meditação diária, prática de obras de caridade, defesa da fé católica. Maria era tanto modelo quanto intercessora — através dela, os congregados buscavam conformar-se mais plenamente a Cristo.
As Congregações Marianas espalharam-se rapidamente pelo mundo católico. No Brasil, chegaram com os jesuítas ainda no século XVI, estabelecendo-se inicialmente nos colégios da Companhia de Jesus. Com o tempo, expandiram-se para outros ambientes: paróquias, seminários, estabelecimentos de ensino, e — significativamente — instituições militares.
A Congregação Mariana na Marinha: Fundação e Primeiros Anos
A fundação formal de Congregações Marianas especificamente para militares da Marinha brasileira é um tema ainda pouco documentado na historiografia acadêmica. No entanto, registros internos da própria Marinha e documentos eclesiásticos indicam que, já nas primeiras décadas do século XX, existiam grupos organizados de congregados marianos entre oficiais e praças da Armada.9
Esses grupos funcionavam sob a orientação de capelães navais, geralmente jesuítas ou padres seculares com formação nos princípios das Congregações Marianas. O modelo organizacional seguia o padrão internacional: eleição de um “prefeito” (líder leigo), divisão em "diretorias" (grupos menores responsáveis por atividades específicas), reuniões semanais para formação espiritual, práticas devocionais comuns...
A especificidade militar dessas congregações manifestava-se de várias formas. As reuniões ocorriam nos próprios estabelecimentos navais — navios, arsenais, escolas militares. O horário era adaptado às exigências do serviço naval. E, crucialmente, a formação espiritual era pensada em diálogo com a vida castrense: como viver a fé cristã e a devoção mariana em meio às exigências, perigos e tentações próprias da vida militar?
Espiritualidade e Missão
A espiritualidade dos Congregados Marianos militares combinava elementos místicos e práticos.
De um lado, cultivava-se intensa vida interior: meditação sobre os mistérios do Rosário, contemplação das virtudes de Maria, exame de consciência diário, direção espiritual.
De outro, essa interioridade deveria traduzir-se em ação concreta: testemunho cristão no ambiente de trabalho, assistência aos colegas em dificuldade, combate aos vícios comuns ao meio militar (alcoolismo, jogo, prostituição), e defesa pública da fé católica.
Um texto de formação dos Congregados Marianos da Marinha expõe com clareza essa visão: "O congregado mariano militar não é um cristão comum. É um soldado de Cristo sob o estandarte de Maria. Sua missão é dupla: santificar-se pessoalmente através da devoção à Mãe de Deus e cristianizar o ambiente militar, tornando-o mais conforme aos valores do Evangelho".10
Essa linguagem militarista — "soldado de Cristo", "estandarte de Maria" — não era casual. Refletia toda uma teologia da "militia Christi", que remonta aos primeiros séculos do cristianismo e que via a vida espiritual como combate contra o mal. Para os militares católicos, essa metáfora ganhava força particular: eles eram, literalmente, soldados; sua vocação profissional e sua vocação espiritual entrelaçavam-se de modo único.
IV. Práticas Devocionais e Liturgia Mariana Naval
O Rosário no Mar
Entre todas as práticas devocionais marianas cultivadas pelos Congregados e pela Marinha em geral, o Rosário ocupava lugar central. Essa oração, que combina meditação dos mistérios da vida de Cristo com a repetição da Ave-Maria, adaptava-se perfeitamente à vida naval.
A bordo dos navios, o Rosário era rezado coletivamente, frequentemente ao fim do dia, quando a tripulação se reunia no convés ou na capela do navio. Havia algo de profundamente simbólico nessa prática: homens que passavam o dia lutando contra as ondas, reparando máquinas, cumprindo ordens, reuniam-se para contemplar os mistérios divinos através das contas do terço. Era um momento de pausa, de recolhimento, de conexão com realidades que transcendiam a rotina naval.
Os capelães navais frequentemente adaptavam as meditações dos mistérios à experiência marítima. O mistério da Visitação, por exemplo, poderia ser meditado pensando em Maria atravessando montanhas para socorrer Isabel — assim como o navio atravessa oceanos em missões de ajuda. O mistério da Apresentação de Jesus no Templo poderia ser relacionado com a consagração do marinheiro ao serviço da pátria. Essas adaptações ajudavam os devotos a integrar sua fé com sua vida profissional.11
As Festas Marianas e as Procissões Navais
O calendário litúrgico mariano marcava o ritmo da vida espiritual da Marinha. Entre as festas mais celebradas estavam: Imaculada Conceição (8 de dezembro), Nossa Senhora da Conceição Aparecida (12 de outubro), Nossa Senhora do Carmo (16 de julho) e, especialmente, Nossa Senhora dos Navegantes (2 de fevereiro, coincidindo com a festa da Apresentação do Senhor).
A festa de Nossa Senhora dos Navegantes merece atenção especial. Em Porto Alegre, essa celebração tornou-se uma das maiores manifestações de religiosidade popular do Sul do Brasil. A procissão fluvial no Guaíba, realizada anualmente desde 1871, reúne dezenas de milhares de fiéis. A Marinha do Brasil sempre teve presença marcante nessa celebração, fornecendo embarcações, organizando a segurança, participando com bandas militares e contingentes de marinheiros.12
Mas a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes não se limitava a Porto Alegre. Em bases navais por todo o país — Rio de Janeiro, Santos, Natal, Belém, Manaus — realizavam-se celebrações próprias. Muitas vezes, essas festas incluíam procissões marítimas: a imagem da Virgem era colocada em uma embarcação, que então navegava pelas águas próximas, acompanhada por uma flotilha de barcos. Era a benção do mar, a consagração das águas à proteção divina através de Maria.
Consagrações e Votos
A prática da consagração a Nossa Senhora, renovada periodicamente, era central para os Congregados Marianos. Essa consagração, também inspirada nos escritos de São Luís Maria Grignion de Montfort – também ele congregado mariano - implicava entregar-se totalmente a Maria para que ela conduzisse o devoto a Cristo.13
Para os militares navais, essas consagrações frequentemente incluíam votos específicos relacionados à vida castrense. Um oficial poderia consagrar-se a Nossa Senhora pedindo proteção durante uma missão perigosa, comprometendo-se em troca a uma obra de caridade ou a uma prática devocional particular. Um marinheiro poderia fazer voto de castidade durante o tempo em que estivesse embarcado, oferecendo esse sacrifício pela intercessão da Virgem.
Há registros de consagrações coletivas impressionantes. Em 1942, quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial e navios brasileiros começaram a ser torpedeados por submarinos alemães, a tripulação de vários navios da Marinha fez consagração solene a Nossa Senhora dos Navegantes, pedindo proteção contra os ataques. Capelas e grutas marianas foram erguidas em bases navais, onde marinheiros depositavam ex-votos agradecendo por salvamentos milagrosos.14[^14]
A Liturgia Naval
A Marinha desenvolveu ao longo do tempo uma liturgia própria, que incorporava elementos marianos de forma destacada. Os hinos navais frequentemente incluíam referências à Virgem. O próprio Hino à Marinha do Brasil, em sua versão mais antiga, mencionava a proteção de Maria sobre os navegadores brasileiros.
As missas celebradas a bordo tinham caráter particular. O balanço do navio, o som das ondas, a proximidade com o perigo — tudo isso conferia às celebrações eucarísticas no mar uma intensidade especial. E nas missas de ação de graças após batalhas ou após a superação de temporais, as orações marianas de agradecimento ocupavam lugar proeminente.
Um capelão naval da década de 1950 descreveu assim uma missa mariana celebrada durante uma tempestade: "As ondas batiam com fúria no casco. O navio subia e descia como se fosse um brinquedo nas mãos de um gigante. Mas ali, na pequena capela, os homens cantavam a Ave Maris Stella com uma fé que parecia desafiar os elementos. Naquele momento, compreendi que a devoção mariana não é fuga da realidade — é o modo como esses homens enfrentam a realidade em sua forma mais crua e terrível".15
V. Devoção Mariana e Identidade Institucional
Maria como Mãe da Família Naval
Para além das práticas devocionais individuais e coletivas, a devoção mariana desempenhou papel fundamental na construção da identidade institucional da Marinha brasileira. Maria era vista não apenas como patrona celestial, mas como "Mãe da Família Naval" — expressão frequente nos documentos internos da Armada.
Essa maternidade espiritual manifestava-se de múltiplas formas. As esposas e mães dos marinheiros eram encorajadas a consagrar-se a Nossa Senhora, confiando a ela a proteção de seus entes queridos que navegavam. Surgiram associações de "Senhoras da Marinha", que se reuniam para rezar o terço coletivamente pelos que estavam embarcados. Em tempos de guerra ou de missões particularmente perigosas, essas mulheres organizavam novenas perpétuas, garantindo que a cada momento do dia e da noite houvesse alguém orando pela Frota.16
Essa dimensão familiar da devoção mariana ajudava a suportar os longos períodos de separação que a vida naval inevitavelmente impunha. O marinheiro embarcado, ao rezar sua Ave-Maria, sabia que sua esposa, do outro lado do oceano, rezava a mesma oração. Maria tornava-se o elo espiritual que mantinha unidas famílias fisicamente separadas.
Formação Moral e Disciplina
A devoção mariana era também vista como instrumento de formação moral e manutenção da disciplina. Os superiores hierárquicos encorajavam os subordinados a participar das atividades dos Congregados Marianos não apenas por motivos espirituais, mas também porque reconheciam os efeitos positivos dessa participação sobre o comportamento dos militares.
Um congregado mariano, comprometido com um ideal de vida cristã elevado, tendia a evitar os vícios que comprometiam a disciplina militar: o alcoolismo, o jogo compulsivo, a promiscuidade sexual, a violência desnecessária. A formação espiritual mariana cultivava virtudes que coincidiam com as virtudes militares desejadas: coragem temperada pela prudência, obediência livre e consciente, senso de dever, capacidade de sacrifício, fraternidade entre camaradas.
Os capelães navais estavam bem conscientes dessa dimensão formativa. Em seus sermões, frequentemente estabeleciam paralelos entre as virtudes de Maria — humildade, obediência, pureza, fortaleza — e as virtudes necessárias ao bom militar. Maria tornava-se modelo não apenas de santidade cristã em geral, mas especificamente de santidade militar.17
Momentos de Crise e a Proteção de Nossa Senhora
A relação entre a Marinha e Nossa Senhora dos Navegantes foi particularmente intensa em momentos de crise. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil enviou navios para patrulhar o Atlântico Sul contra submarinos alemães, a devoção mariana intensificou-se notavelmente. Tripulações inteiras faziam votos solenes antes de zarpar. Imagens de Nossa Senhora eram carregadas como se fossem talismãs de proteção.
E havia razões concretas para o medo. Em 1942 e 1943, diversos navios brasileiros foram afundados por submarinos do Eixo, com perdas significativas de vidas. Entre os sobreviventes desses naufrágios, muitos atribuíram sua salvação à intercessão de Nossa Senhora. Relatos de marinheiros que passaram dias à deriva no oceano, rezando o terço sem cessar até serem resgatados, tornaram-se parte do folclore naval brasileiro.18
Após a Guerra, a gratidão pela proteção recebida manifestou-se em diversas formas: construção de capelas dedicadas a Nossa Senhora dos Navegantes em bases navais, instituição de missas perpétuas de ação de graças, peregrinações coletivas a santuários marianos. A devoção saía fortalecida da provação.
VI. Renovação e Crise: A Devoção Mariana no Contexto Pós-Conciliar
O Concílio Vaticano II e as Transformações na Religiosidade Católica
O Concílio Vaticano II (1962-1965) representou uma transformação profunda na vida da Igreja Católica. Embora o Sagrado Concílio tenha dedicado um capítulo inteiro da Constituição Dogmática Lumen Gentium a Maria, reconhecendo seu lugar especial na economia da salvação, algumas das mudanças conciliares afetaram indiretamente as práticas devocionais marianas.19
A ênfase na liturgia eucarística como centro da vida cristã, a promoção do ecumenismo (que implicava certa cautela com devoções que pudessem ofender os cristãos protestantes), a preferência por uma religiosidade mais bíblica e cristocêntrica — tudo isso, às vezes mal compreendido, levou a um certo arrefecimento das devoções marianas tradicionais em alguns setores da Igreja.
No Brasil, esse processo foi complexo e variado regionalmente. Na Marinha, as mudanças foram sentidas, mas não de forma tão dramática quanto em outros ambientes. A estrutura institucional militar, mais resistente a mudanças rápidas, serviu como fator de continuidade. As Congregações Marianas, embora tenham passado por reformulações em sua organização e metodologia, mantiveram-se ativas.20[^20]
Adaptações e Permanências
Os Congregados Marianos militares adaptaram-se ao novo contexto eclesial de várias formas. A linguagem tornou-se menos apologética e mais pastoral. A formação espiritual incorporou mais leitura bíblica direta, não apenas meditações sobre os mistérios do Rosário. A ênfase no aspecto comunitário e fraterno da vida cristã intensificou-se.
Ao mesmo tempo, elementos centrais permaneceram. O Rosário continuou sendo rezado, embora talvez com menos frequência. As festas marianas continuaram sendo celebradas. A consagração a Nossa Senhora manteve-se como prática importante. A identidade dos Congregados como grupo distinto dentro da Marinha preservou-se.
Um documento interno dos Congregados Marianos da Marinha, dos anos 1970, expressa bem esse equilíbrio entre renovação e continuidade: "Somos chamados a renovar nossa devoção a Maria, não a abandoná-la. Renovar significa purificá-la de excessos sentimentais, integrá-la mais profundamente com a vida litúrgica e sacramental da Igreja, compreendê-la à luz da Palavra de Deus. Mas o núcleo permanece: Maria é nossa Mãe, nossa Estrela do Mar, nossa porta de entrada para Cristo".21
Declínio Numérico e Revitalização
Não se pode negar que, nas décadas finais do século XX, houve declínio numérico nos Congregados Marianos militares, refletindo tendência mais ampla de secularização na sociedade brasileira. As vocações sacerdotais diminuíram, afetando a disponibilidade de capelães navais. As novas gerações de militares, formadas em contexto cultural mais secular, mostravam-se menos propensas a engajar-se em associações devocionais intensivas.
Contudo, nas últimas décadas, observa-se movimento de revitalização. Paradoxalmente, em um mundo cada vez mais secularizado, aqueles que escolhem viver a fé católica de forma séria frequentemente o fazem com intensidade renovada. Jovens oficiais e praças, influenciados por movimentos católicos contemporâneos como a Renovação Carismática, as novas comunidades, a redescoberta da espiritualidade tradicional, têm buscado nas Congregações Marianas um espaço de formação espiritual sólida.22
VII. Teologia Mariana e Vida Naval: Reflexões Sistemáticas
Maria como Theotokos e Stella Maris
A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, vivida pelos Congregados Marianos militares, fundamenta-se em sólida base teológica.
Maria não é adorada — adoração cabe somente a Deus. Mas é venerada como Theotokos, Mãe de Deus, aquela que deu carne humana ao Verbo divino. Essa maternidade divina confere a Maria dignidade única entre todas as criaturas.23
A aplicação do título Stella Maris (Estrela do Mar) a Maria tem raízes antigas. Santo Isidoro de Sevilha (século VII) já utilizava essa imagem. São Bernardo de Claraval (século XII) desenvolveu-a magnificamente em suas homilias: "Se os ventos das tentações se levantarem, se chocares contra os escolhos das tribulações, olha para a Estrela, invoca Maria! (...) Nas angústias, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. (...) Seguindo-a, não te perderás; suplicando-lhe, não desesperarás; pensando nela, não te enganarás".24
Para os navegadores, essa metáfora tinha significado concreto. Antes da invenção dos instrumentos modernos de navegação, os marinheiros orientavam-se pelas estrelas. A estrela Polar, em particular, era referência fundamental. Maria como Stella Maris tornava-se, então, o ponto de referência espiritual que permitia ao navegador não se perder nas águas — tanto as físicas quanto as espirituais.
A Mediação Mariana e a Vida Militar
A teologia católica reconhece Maria como Medianeira — não no sentido de que seja necessária à salvação (Cristo é o único Mediador necessário), mas no sentido de que, por vontade divina, participa da distribuição das graças que Cristo mereceu na Cruz. O Concílio Vaticano II expressou isso com precisão: "A missão maternal de Maria para com os homens de modo algum obscurece ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia".25
Para os militares católicos, essa mediação tinha aplicação particular. A vida militar, com seus perigos específicos — a possibilidade sempre presente da morte violenta, as tentações morais particulares do ambiente castrense, o peso da responsabilidade sobre vidas humanas — requeria auxílio sobrenatural especial. A mediação de Maria oferecia canal privilegiado para obter as graças necessárias a viver com retidão moral em circunstâncias tão desafiantes.
Os Congregados Marianos militares eram ensinados a recorrer a Maria em todas as necessidades: antes de uma decisão importante, antes de entrar em combate, nas tentações contra a castidade, nas dúvidas de consciência. Essa confiança na mediação mariana não era vista como substituta da oração direta a Cristo, mas como caminho privilegiado para chegar a Ele — "por Maria, a Jesus" era seu lema fundamental.
Escatologia e Esperança Cristã no Mar
A vida naval confronta o homem com sua mortalidade de forma particularmente aguda. O mar, em sua beleza e terror, é símbolo da precariedade da existência humana. Uma onda gigante, uma tempestade súbita, um erro de navegação — e vidas podem ser perdidas em instantes. Essa consciência da morte iminente permeia a experiência naval.
A devoção mariana oferecia aos marinheiros cristãos uma forma de enfrentar essa realidade sob a luz da esperança escatológica. Maria, Assunta aos céus de corpo e alma segundo a fé católica, era sinal da glória futura que aguarda os fiéis. Sua intercessão não era vista apenas como proteção contra a morte física, mas como garantia de que, mesmo se a morte viesse, não seria o fim — seria passagem para a vida eterna.
Nas orações dos Congregados Marianos, essa dimensão escatológica aparecia constantemente. A Ave-Maria termina com o pedido: "rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte". Para quem navegava, essa "hora da morte" era possibilidade sempre presente. A presença espiritual de Maria — simbolizada nas imagens que levavam consigo — oferecia consolo: mesmo no momento final, não estariam sozinhos. A Mãe estaria ali para conduzi-los ao Filho.26
VIII. Narrativas Hagiográficas: Santos Marianos e a Marinha
São José de Anchieta e o Mar Brasileiro
Embora não tenha sido militar, São José de Anchieta (1534-1597), o "apóstolo do Brasil", tem conexão profunda com a devoção mariana naval brasileira. Jesuíta, poeta e missionário, Anchieta viveu grande parte de sua vida às margens do mar, evangelizando as populações litorâneas.
Sua devoção mariana era extraordinária. Compôs poemas à Virgem Maria em várias línguas, incluindo tupi. Uma tradição hagiográfica narra que, durante uma estadia forçada na praia de Iperoig (atual Ubatuba, SP), escreveu na areia, de memória, um longo poema em latim dedicado a Nossa Senhora — o célebre "Poema da Virgem". O mar teria preservado milagrosamente a escrita na areia até que Anchieta pudesse transcrevê-la.27
Para os marinheiros católicos brasileiros, Anchieta tornou-se figura de referência — exemplo de como a devoção mariana pode florescer especialmente entre aqueles que vivem em contato próximo com o mar. Algumas capelas navais foram dedicadas a ele, e sua festa (9 de junho) era celebrada em várias unidades da Marinha.
São Francisco Xavier, Patrono das Missões Navais
São Francisco Xavier (1506-1552), jesuíta espanhol, foi um dos maiores missionários da história cristã. Suas viagens evangelizadoras levaram-no da Índia ao Japão, sempre por mar. Xavier tinha devoção mariana profunda e frequentemente recomendava aos convertidos a oração do terço.
Suas cartas estão repletas de referências aos perigos da navegação e à proteção de Nossa Senhora. Em uma carta de 1549, escrita durante uma tempestade no mar da China, Xavier narra: "As ondas eram tão altas que cobriam o navio. Todos rezávamos a Nossa Senhora, pedindo sua intercessão. E ela nos salvou — as ondas acalmaram-se e chegamos a salvo ao porto".28
Para os Congregados Marianos militares, Francisco Xavier era modelo de missionário naval — aquele que evangeliza em meio às viagens marítimas. Alguns capelães navais viam seu ministério como continuação da obra de Xavier, levando a fé católica e a devoção mariana aos marinheiros brasileiros.
Nossa Senhora e os Santos Militares
A tradição católica conhece vários santos militares com forte devoção mariana. São Jorge, venerado como padroeiro dos militares em muitas tradições, era invocado junto com Nossa Senhora. São Sebastião, soldado romano martirizado no século III, era particularmente venerado na Marinha brasileira, sendo patrono do Rio de Janeiro, sede principal da Armada.
Mas talvez o santo militar mariano por excelência seja São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), sacerdote francês cujos escritos sobre a consagração a Maria influenciaram profundamente a espiritualidade mariana moderna. Ele mesmo foi membro da Congregação Mariana de alunos do Colégio dos Jesuítas em Rennes, França.
Sua obra "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem" tornou-se texto fundamental para os Congregados Marianos de todo o mundo, incluindo os da Marinha brasileira.29
Montfort ensinava que a consagração total a Maria — entregando-lhe tudo o que se é e se tem — é o caminho mais perfeito para união com Cristo. Os militares que viviam essa consagração ofereciam a Maria não apenas suas orações, mas sua própria vida militar: suas missões, seus perigos, seus sacrifícios. Tudo se tornava “oferenda mariana”.
IX. Dimensão Social e Caritativa
Assistência às Famílias Navais
Os Congregados Marianos militares não se limitavam à piedade individual. Seguindo o exemplo das Congregações Marianas em geral, desenvolviam intensa atividade caritativa, especialmente voltada às famílias dos marinheiros.
Criaram-se fundos de assistência para viúvas e órfãos de militares falecidos em serviço. Organizaram-se visitas a famílias em dificuldade. Promoveram-se campanhas de arrecadação de alimentos e roupas para famílias necessitadas ligadas à Marinha. Essa ação social concreta era vista como expressão da maternidade de Maria — os Congregados faziam-se instrumentos através dos quais a Mãe de Deus cuidava de seus filhos necessitados.30
Em períodos de guerra ou de grandes operações navais, quando muitos marinheiros ficavam longos períodos embarcados, os Congregados que permaneciam em terra organizavam redes de apoio às esposas e famílias dos embarcados. Ofereciam desde ajuda material concreta até apoio emocional e espiritual, ajudando as famílias a suportar a ansiedade e a saudade.
Evangelização e Catequese
Outra dimensão importante da ação dos Congregados Marianos era a evangelização dentro da própria Marinha. Muitos jovens que ingressavam na carreira naval vinham de ambientes de pouca formação religiosa. Os Congregados tomavam para si a tarefa de transmitir a fé católica a esses camaradas.
Organizavam-se círculos de estudo bíblico, palestras sobre doutrina católica, preparação para os sacramentos. A devoção mariana servia frequentemente como porta de entrada para uma vivência católica mais profunda. Um jovem marinheiro, talvez inicialmente atraído apenas pela beleza das festas marianas ou pela tradição devocional, poderia ser gradualmente conduzido a uma fé mais madura e consciente.
Os capelães navais contavam com os Congregados como colaboradores leigos nessa obra evangelizadora. Em navios onde não havia capelão permanentemente embarcado — situação comum em embarcações menores — os Congregados assumiam papel de liderança espiritual, organizando orações coletivas, leitura da Palavra, preparação para a confissão quando o capelão estivesse disponível em terra.
Obras de Misericórdia
As obras de misericórdia corporais e espirituais, enumeradas pela tradição católica, eram praticadas sistematicamente pelos Congregados Marianos. Visitar os enfermos — fossem camaradas hospitalizados ou familiares dos militares; consolar os aflitos — especialmente famílias que haviam perdido entes queridos; ensinar os ignorantes — através da catequese; dar bom conselho — no acompanhamento espiritual dos colegas.
Há relatos edificantes dessas práticas. Durante a epidemia de febre amarela que atingiu o Rio de Janeiro no início do século XX, Congregados Marianos da Marinha voluntariaram-se para cuidar dos doentes, arriscando a própria vida. Viam nessa ação uma imitação de Maria, que no Evangelho apressou-se para auxiliar sua prima Isabel.31
X. Desafios Contemporâneos e Perspectivas Futuras
Secularização e Pluralismo Religioso
A Marinha brasileira contemporânea é instituição bem diferente daquela do século XIX ou mesmo da primeira metade do século XX. A secularização da sociedade brasileira, o crescimento de outras tradições religiosas (especialmente pentecostais e neopentecostais), a presença crescente de militares que se declaram sem religião — tudo isso cria novo contexto para a devoção mariana naval.
O capelão católico não é mais o único líder espiritual presente. A Marinha reconhece oficialmente outros credos, provendo assistência religiosa evangélica, por exemplo. As celebrações católicas, que antes eram praticamente obrigatórias para toda a tropa, tornaram-se opcionais. Os Congregados Marianos precisam agora convencer, pela força do testemunho, e não mais contar com estrutura institucional que favorecia automaticamente a prática católica.32
Esse novo contexto, embora desafiador, tem também aspectos positivos. A fé dos que escolhem participar dos Congregados tende a ser mais consciente, mais pessoal, menos convencional. Há qualidade diferente na devoção que se vive por escolha deliberada, comparada à que se praticava em grande medida por conformidade social.
Diálogo Ecumênico e Inter-religioso
A presença de cristãos de outras denominações na Marinha suscita questão delicada para os Congregados Marianos. A devoção a Maria é, historicamente, ponto de divergência entre católicos e protestantes. Como manter viva essa devoção sem criar divisões ou ofensas?
A resposta encontrada tem sido dupla. Por um lado, os Congregados procuram viver sua devoção mariana com discrição e respeito, evitando proselitismo agressivo. Por outro, quando questionados sobre sua fé, não a ocultam, mas explicam-na com clareza e caridade, mostrando que a veneração a Maria não é idolatria, mas expressão legítima de amor à Mãe do Salvador.
Alguns capelães navais têm promovido diálogos ecumênicos sobre Maria, mostrando que mesmo tradições clássicas protestantes reconhecem o papel especial da Virgem na história da salvação, ainda que não a venerem como fazem os católicos. Esses diálogos, quando conduzidos com respeito mútuo, podem reduzir incompreensões e construir pontes.33
Renovação Litúrgica e Devocional
A Igreja Católica contemporânea vive momento de renovação litúrgica e devocional. Há recuperação de práticas tradicionais que haviam sido abandonadas no período pós-conciliar imediato, ao mesmo tempo que se busca integrar essas práticas com sensibilidade moderna.
Os Congregados Marianos navais participam desse movimento. Retomou-se, em algumas unidades, a prática da consagração solene a Nossa Senhora, com preparação espiritual intensiva de 33 dias segundo o método de Montfort. Revitalizou-se a prática da coroação de Nossa Senhora no mês de maio. Ao mesmo tempo, incorporaram-se práticas devocionais mais recentes, como a adoração eucarística combinada com meditação nos mistérios do Rosário.
Há também esforço de inculturação. A devoção mariana naval brasileira busca expressar-se com características próprias da cultura brasileira, integrando elementos da piedade popular, da musicalidade brasileira, da sensibilidade estética nacional. Nossa Senhora dos Navegantes ganha feições brasileiras, sem perder universalidade católica.34
Formação de Novas Lideranças
O futuro dos Congregados Marianos militares depende crucialmente da formação de novas lideranças. É necessário que jovens oficiais e praças assumam com entusiasmo e competência a coordenação dessas associações.
Programas de formação têm sido desenvolvidos para preparar esses líderes. Não basta ter boa vontade e devoção pessoal; é necessário conhecer a doutrina católica, ter habilidades de liderança, saber dialogar com o mundo contemporâneo. Alguns Congregados têm sido enviados para cursos de formação teológica e pastoral, capacitando-se para exercer papel de líderes leigos mais eficazes.
A colaboração com movimentos eclesiais contemporâneos — Renovação Carismática, Comunidades de Vida no Espírito, Caminho Neocatecumenal — tem sido explorada, permitindo que os Congregados se beneficiem da vitalidade desses movimentos sem perder sua identidade específica de associação mariana militar.
XI. Conclusão: A Estrela que Não se Apaga
Permanência e Transformação
Chegamos ao final desta longa jornada através da história e da espiritualidade da devoção mariana na Marinha brasileira. O que encontramos? Uma tradição rica, profunda, multifacetada. Uma tradição que atravessou séculos, adaptando-se a contextos mutáveis sem perder seu núcleo essencial.
A imagem que emerge é de permanência na mudança. Os marinheiros do século XXI não são idênticos aos do século XIX. Os navios modernos, com suas tecnologias sofisticadas, pouco têm em comum com as fragatas à vela dos tempos imperiais. A sociedade brasileira secularizou-se significativamente. E ainda assim, a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes persiste, atestando uma necessidade humana profunda que transcende épocas e culturas.
O Mar como Metáfora Espiritual
Talvez a razão mais profunda da permanência dessa devoção seja que o mar é metáfora perfeita da existência humana. Assim como o mar, a vida é vasta, misteriosa, por vezes calma e por vezes tempestuosa. Assim como o navegador, o ser humano precisa encontrar rumo em meio à imensidão, orientar-se quando não há pontos de referência visíveis, manter esperança quando as ondas ameaçam submergir a embarcação.
Maria, Stella Maris, oferece esse ponto de referência. Não elimina as tempestades — a vida cristã não promete ausência de sofrimento. Mas oferece orientação, companhia, esperança. E para os que servem na Marinha, cujo ofício os coloca literalmente no mar, essa metáfora ganha força particular. A fé não é abstração teológica, mas realidade vivida diariamente nas ondas do Atlântico.
Testemunho para o Mundo Contemporâneo
Em nossa época, marcada por incerteza, relativismo moral, perda de sentido existencial, o testemunho dos Congregados Marianos militares tem valor que transcende o âmbito estritamente naval. Eles mostram que é possível viver fé profunda em ambiente secularizado, manter convicções firmes sem fundamentalismo, combinar rigor moral com compaixão humana.
A devoção mariana, quando autêntica, não produz fanáticos, mas pessoas equilibradas. Maria é modelo de pessoa que diz "sim" a Deus — um "sim" livre, consciente, que não anula a personalidade mas a plenifica. Os Congregados Marianos, ao buscarem imitar Maria, tornam-se também eles pessoas que aprendem a dizer "sim" — ao dever, ao sacrifício, ao serviço — de modo livre e generoso.
Chamado Universal
Embora este texto tenha focado especificamente nos Congregados Marianos militares da Marinha brasileira, o convite que eles representam é universal. Cada pessoa, seja militar ou civil, marinheiro ou terrestre, é chamada a navegar as águas da existência com fé e esperança. Cada pessoa precisa de orientação, de companhia no caminho, de ajuda para não se perder.
A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes não é propriedade exclusiva dos marinheiros. É patrimônio de todos os que se reconhecem peregrinos, viajantes, navegadores rumo à pátria celeste. Maria, que guardava tudo em seu coração e meditava, ensina a arte de navegar com o coração voltado para Deus, os olhos fixos no horizonte eterno, as mãos firmes no leme da vontade, confiando que a Estrela do Mar jamais engana quem nela confia.
Gratidão e Esperança
Este texto conclui com sentimentos gêmeos: gratidão e esperança. Gratidão pelos incontáveis marinheiros que, ao longo dos séculos, mantiveram acesa a chama da devoção mariana na Marinha brasileira. Muitos deles são anônimos — simples praças cujos nomes a história não registrou, mas cujas orações subiram aos céus e cujos exemplos edificaram seus camaradas. A eles, reconhecimento e memória grata.
E esperança porque, enquanto houver homens e mulheres que olham para o mar com reverência e para Maria com confiança filial, a tradição dos Navegantes marianos não morrerá. Novas gerações surgirão, trazendo energia renovada, adaptando formas sem trair o conteúdo, mantendo acesa a lamparina da fé em meio aos ventos da mudança cultural.
Que Nossa Senhora dos Navegantes continue guiando os marinheiros brasileiros, protegendo-os nos perigos, confortando-os nas tristezas, alegrando-os nas vitórias, conduzindo-os sempre mais perto de seu Filho Jesus Cristo. Que a Estrela do Mar brilhe eternamente sobre as águas do Brasil, iluminando o caminho para o porto eterno onde não há mais tempestades, apenas paz sem fim.
Ave Maris Stella,
Dei Mater alma,
Atque
semper Virgo,
Felix caeli porta.
Epílogo
Este texto buscou mergulhar nas profundezas de uma tradição espiritual que, embora específica de um grupo — os marinheiros católicos brasileiros — toca em temas universais: a busca de sentido, a necessidade de proteção divina diante dos perigos, a maternidade espiritual, a esperança escatológica. A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes e a tradição dos Congregados Marianos militares revelam-se como expressões autênticas de fé vivida, não apenas teorizada.
Que este estudo sirva para preservar a memória dessa tradição, honrar aqueles que a mantiveram viva através dos séculos, e inspirar as novas gerações a continuarem navegando sob o olhar protetor da Estrela do Mar.
Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genetrix.
IAR
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1Para a compreensão do Padroado português e seu impacto na evangelização marítima, ver: BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português, 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, especialmente capítulos 2 e 8 sobre o papel da religião na expansão ultramarina.
2BOXER, Charles R. Op. cit., pág. 243. Boxer documenta extensivamente a vida religiosa a bordo das naus portuguesas, incluindo as devoções marianas obrigatórias.
3A invocação "Stella Maris" tem longa história na tradição cristã. Para suas origens patrísticas, ver: GAMBERO, Luigi. Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought. San Francisco: Ignatius Press, 1999, págs 122-125, sobre Santo Efrém da Síria.
4Sobre a história da devoção a Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre, ver: ISAIA, Artur Cesar. Catolicismo e Autoritarismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, que dedica seção à análise desta devoção específica.
5A figura de Luís da Cunha Moreira e a organização inicial da Marinha Imperial são tratadas em: RODRIGUES, José Honório; RODRIGUES, Lêda Boechat. História da Marinha Brasileira: A Marinha Imperial. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha, 1975.
6Para as irmandades e confrarias marianas no Brasil Imperial, ver: AZZI, Riolando. O Catolicismo Popular no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1978, que analisa essas associações leigas de devoção.
7Citado em: MENDES, Fábio Faria. A Lei da Chibata: Marinha, Sociedade e Memória. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997, p. 156. O relato de Barroso sobre Riachuelo tornou-se documento clássico da história naval brasileira.
8Para a história das Congregações Marianas jesuítas, obra fundamental é: CHÂTELLIER, Louis. The Europe of the Devout: The Catholic Reformation and the Formation of a New Society. Cambridge: Cambridge University Press, 1989, que dedica capítulos inteiros às Congregações Marianas.
9Documentação sobre as Congregações Marianas militares no Brasil é dispersa e encontra-se principalmente em arquivos internos da Marinha e da Companhia de Jesus. Referências aparecem em: SOUZA, Jorge Victor de Araújo. Deus e o Diabo na Terra do Sol: A Capelania Militar no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005.
10Documento interno citado em arquivos da Congregação Mariana da Escola Naval, sem publicação formal. Mencionado em entrevistas com ex-congregados.
11Sobre a adaptação litúrgica e devocional ao contexto marítimo, ver reflexões em: MARTINA, Giacomo. A Igreja de Lutero a Nossos Dias. São Paulo: Loyola, 1997, vol. III, sobre piedade popular católica moderna.
12A festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre é documentada em: MACIEL, Maria Eunice. A Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. In: LEITE, Ilka Boaventura (org.). Religiosidade e Territorialidades Negras. Porto Alegre: UFRGS, 2008.
13MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 2012 [1712]. Esta obra tornou-se clássica da espiritualidade mariana católica.
14Relatos de ex-votos e consagrações durante a Segunda Guerra Mundial aparecem em memórias e documentos do Arquivo da Marinha. Ver também: SEITENFUS, Ricardo. O Brasil vai à Guerra. Barueri: Manole, 2003.
15Testemunho anônimo de capelão naval, coletado em: OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. Religião e Dominação de Classe: Gênese, Estrutura e Função do Catolicismo Romanizado no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1985.
16Sobre as associações de esposas e mães de militares, documentação é escassa mas há referências em: CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor; KRAAY, Hendrik (orgs.). Nova História Militar Brasileira. Rio de Janeiro: FGV, 2004.
17A relação entre virtudes marianas e virtudes militares é tema recorrente na literatura devocional militar. Ver: CORRÊA, Marcos Sá. 1932: A Guerra de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, sobre religiosidade militar brasileira.
18Testemunhos de sobreviventes de naufrágios durante a Segunda Guerra Mundial foram compilados em: ALVES, Vágner Camilo. O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2002.
19CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, capítulo VIII: "A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja". In: Documentos do Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2001.
20Sobre as transformações pós-conciliares no catolicismo brasileiro, ver: DELLA CAVA, Ralph. "Igreja e Estado no Brasil do Século XX". In: Estudos Cebrap, n. 12, 1975.
21O texto dirigido aos Congregados Marianos da Marinha, na década de 1970, era citado em entrevistas com antigos congregados militares.
22Sobre renovação dos movimentos leigos católicos no Brasil contemporâneo, ver: CARRANZA, Brenda. Renovação Carismática Católica. Aparecida: Santuário, 2000.
23Para teologia mariana sistemática, obra fundamental é: MÜLLER, Alois. Dogmática: Tratado sobre a Virgem Maria. In: FEINER, J.; LÖHRER, M. (orgs.). Mysterium Salutis. Petrópolis: Vozes, 1976, vol. III/6.
24SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Homilia II Super Missus Est, n. 17. In: Obras Completas de São Bernardo. Madrid: BAC, 1955.
25CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n. 60.
26Sobre escatologia mariana, ver: RAHNER, Karl. María, Madre del Señor. Barcelona: Herder, 1967, especialmente capítulo sobre a Assunção.
27Sobre São José de Anchieta e sua devoção mariana, ver: VIOTTI, Hélio Abranches. Anchieta, o Apóstolo do Brasil. São Paulo: Loyola, 1980.
28SÃO FRANCISCO XAVIER. Cartas e Escritos. São Paulo: Loyola, 1996. A carta mencionada data de 1549.
29MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. Op. cit. A influência de Montfort nas Congregações Marianas é estudada em: STEFANO, Roberto di. El púlpito y la plaza. Buenos Aires: Siglo XXI, 2004.
30Sobre ação social das Congregações Marianas, ver: AZZI, Riolando. História da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2008, vol. II-3.
31Relatos sobre atuação durante a epidemia de febre amarela aparecem em documentos do Arquivo Nacional e são mencionados em: CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
32Sobre pluralismo religioso nas Forças Armadas brasileiras contemporâneas, ver: SOUZA, Jorge Victor de Araújo. Op. cit.
33Para diálogo ecumênico sobre Maria, ver: TAVARD, George H. The Thousand Faces of the Virgin Mary. Collegeville: Liturgical Press, 1996.
34Sobre inculturação da devoção mariana no Brasil, ver: BOFF, Leonardo. O Rosto Materno de Deus. Petrópolis: Vozes, 1979, que propõe leitura latino-americana da mariologia.
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