
A obediência de Maria e José à Lei de Deus e a vocação apostólica do Congregado
Alexandre Martins, cm.
A solenidade da Apresentação do Senhor é riquíssima para leitura e formação do Congregado mariano. O presente artigo, com fundamentação bíblica, faz diálogo explícito com Apostolicam Actuositatem1, Christifideles Laici2 e com a Regra de Vida3 das Congregações Marianas, articulando a obediência de Maria e José à Lei de Deus como paradigma do apostolado leigo.
A festa da obediência silenciosa
A Solenidade da Apresentação do Senhor (cf. Lc 2,22-40) ocupa um lugar singular no calendário litúrgico. Celebrada quarenta dias após o Natal, ela une mistério cristológico, mariológico e eclesial. Nela, Cristo é apresentado ao Pai; Maria e José submetem-se humildemente à Lei; e a Igreja contempla, desde o início, o caminho pascal da luz que passa pela obediência.
Para as Congregações Marianas, esta festa possui um valor pedagógico particular. Ela revela que a verdadeira consagração a Deus não nasce do extraordinário, mas da fidelidade amorosa à vontade divina, expressa concretamente na Lei, na vida da Igreja e no cotidiano.
Maria, a Imaculada; José, o justo; e Jesus, o Filho eterno do Pai, não estavam obrigados à Lei mosaica. Ainda assim, escolhem obedecer. Aqui se encontra uma lição decisiva para todo congregado mariano e para todo leigo chamado ao apostolado no mundo.
A Lei cumprida no amor
O evangelista Lucas é explícito:
“Quando se completaram os dias para a purificação deles, segundo a Lei de Moisés, levaram o menino a Jerusalém, para o apresentar ao Senhor” (Lc 2,22).
O texto insiste quatro vezes na expressão “segundo a Lei do Senhor” (Lc 2,22.23.24.39). Essa repetição não é casual: ela sublinha que a obediência é o eixo espiritual do episódio.
Maria se submete ao rito de purificação (cf. Lv 12), embora não tenha conhecido o pecado; José oferece o sacrifício dos pobres — “um par de rolas ou dois pombinhos” — revelando uma espiritualidade concreta, sem ostentação; e Jesus é apresentado como primogênito, antecipando sua oferta total na cruz.
Simeão interpreta profeticamente o gesto:
“Este menino está destinado a ser sinal de contradição” (Lc 2,34).
A obediência inicial à Lei antecipa o destino pascal de Cristo: obedecer até o fim (cf. Fl 2,8).
Maria e José: obediência como ato livre e consciente
A Apresentação do Senhor não é mero cumprimento ritual. Trata-se de um ato teologal.
Maria já havia pronunciado seu “faça-se” na Anunciação (cf. Lc 1,38). Agora, esse fiat se traduz em gestos visíveis. Ela ensina que a fé verdadeira não se limita ao interior, mas se encarna em práticas concretas, mesmo quando parecem desnecessárias aos olhos humanos.
São José, por sua vez, encarna a figura do leigo justo, silencioso, profundamente obediente à vontade de Deus revelada pela Lei e confirmada pelos sonhos (cf. Mt 1–2). Ele não relativiza a norma nem a absolutiza; vive-a como expressão da vontade amorosa do Pai.
Aqui está uma chave essencial para a espiritualidade dos Congregados: obedecer não por medo, mas por amor.
A Apresentação e o Apostolado dos leigos
O Concílio Vaticano II ensina que o apostolado dos leigos nasce da união vital com Cristo e se expressa na fidelidade concreta à missão recebida:
“O apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja”4
Maria e José exercem, neste episódio, um verdadeiro apostolado familiar e leigo: oferecem o Filho ao Pai dentro das estruturas ordinárias da vida religiosa de Israel. Não criam um culto alternativo, não rompem com a tradição legítima; antes, santificam-na por dentro.
O Sagrado Concílio afirma ainda:
“O exemplo da vida cristã e o testemunho das obras têm particular eficácia apostólica”5
Na Apresentação do Senhor, o primeiro testemunho apostólico de Jesus é mediado pela obediência silenciosa de Maria e José. Assim também o congregado mariano é chamado a ser apóstolo pela coerência, antes mesmo da palavra.
A vocação do leigo à luz da Christifideles Laici
São João Paulo II aprofunda essa visão ao afirmar:
“Os fiéis leigos são chamados por Deus a contribuir, a partir de dentro, para a santificação do mundo”6
A Apresentação do Senhor mostra precisamente isso: a santificação do mundo acontece dentro da Lei, da família, do templo, da história. Maria não foge do mundo; ela o oferece a Deus.
Mais adiante, o documento recorda:
“A espiritualidade dos fiéis leigos deve caracterizar-se pelo cumprimento fiel dos deveres próprios do seu estado de vida”7
Essa afirmação encontra na Apresentação seu ícone perfeito. Maria e José santificam-se fazendo o que devia ser feito, no tempo certo, do modo simples previsto pela Lei.
Para o leigo congregado, isso significa viver a consagração mariana sem dualismos: fé e vida, devoção e dever, espiritualidade e responsabilidade caminham juntas.
A Regra de Vida das Congregações Marianas: obediência como caminho de liberdade
A Regra de Vida das Congregações Marianas ensina que o congregado é chamado a:
“Buscar e encontrar Deus em todas as coisas, conformando a própria vida à vontade do Pai, à imitação de Maria”.8
A Apresentação do Senhor é precisamente um exercício dessa conformação. Maria não busca exceções; busca a vontade de Deus tal como ela se apresenta.
A Regra insiste ainda na obediência eclesial e na fidelidade às orientações da Igreja como expressão de maturidade espiritual. Não se trata de submissão passiva, mas de adesão consciente ao desígnio de Deus mediado pela comunidade e pela norma.
O congregado aprende com Maria que não existe verdadeira consagração sem obediência, e que não há obediência autêntica sem amor.
Uma pedagogia para o nosso tempo
Num contexto cultural marcado pela suspeita diante da autoridade e pela relativização da norma, a Apresentação do Senhor proclama uma verdade contracultural: a obediência liberta.
Maria e José ensinam que obedecer à Lei de Deus não diminui a dignidade humana; ao contrário, insere a vida no fluxo da salvação. O leigo cristão — e de modo particular o congregado mariano — é chamado a dar esse testemunho no mundo contemporâneo.
Assim como Simeão reconheceu no Menino a “luz para iluminar as nações” (Lc 2,32), o mundo pode reconhecer em comunidades obedientes, marianas e apostólicas, sinais vivos da presença de Cristo.
Conclusão — Apresentar-se para apresentar
A Solenidade da Apresentação do Senhor não fala apenas de um rito passado. Ela interpela a Igreja hoje.
Maria apresenta Jesus porque primeiro se apresentou a Deus. José sustenta o gesto porque vive na escuta obediente. Jesus é oferecido porque o amor verdadeiro sempre se doa.
Para as Congregações Marianas, esta festa recorda que a missão começa no altar da obediência cotidiana. Antes de transformar o mundo, o congregado aprende a entregar-se. Antes de falar, aprende a cumprir. Antes de ensinar, aprende a viver.
Assim, à escola de Maria, a Congregação se torna — ontem como hoje — um lugar onde a Lei de Deus não pesa, mas ilumina; não oprime, mas conduz; não aprisiona, mas gera santos para a Igreja e para o mundo.
IA
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1 decreto do Concílio Vaticano II sobre o Apostolado dos Leigos. Foi aprovado pelo voto dos bispos reunidos no Concílio e promulgado pelo Papa Paulo VI em 18 de novembro de 1965.
2 exortação apostólica pós-sinodal do papa João Paulo II, assinada em Roma em 30 de dezembro de 1988. É um resumo do ensino que surgiu do sínodo dos bispos de 1987 sobre a vocação e missão dos leigos na igreja e no mundo.
3 A Regra atual das CCMM do Brasil, oficializada em 1994
4 Apostolicam Actuositatem, 2.
5 Apostolicam Actuositatem, 6.
6 Christifideles Laici, 15.
7 Christifideles Laici, 17.
8 RV, Princípios Gerais.
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