Os Congregados Mártires de Aubenas, discípulos fiéis



Alexandre Martins, cm.



A história da Igreja é tecida pelo sangue de mártires que, em tempos de perseguição, escolheram permanecer fiéis a Cristo e à sua Igreja. Entre esses testemunhos luminosos encontram-se os chamados Mártires de Aubenas, mortos em 1593 durante as violências anticatólicas na França do final do século XVI: o Beato Tiago Sales, sacerdote jesuíta, e o Beato Guilherme Saultemouche, irmão coadjutor da Companhia de Jesus. Ambos tinham em comum não apenas a pertença à Companhia, mas também um vínculo espiritual profundo: eram Congregados Marianos, formados na escola de Maria e do apostolado inaciano.



A Fé perseguida e a fidelidade provada

Os Mártires de Aubenas viveram durante as Guerras de Religião na França (séculos XVI–XVII), marcadas por conflitos violentos entre católicos e huguenotes (calvinistas). Nesse período, o simples exercício do ministério sacerdotal, a celebração da Missa ou a catequese pública podiam custar a vida¹.

A Companhia de Jesus estava particularmente visada, por sua fidelidade ao Papa, sua atuação educativa e sua defesa clara da doutrina católica. As Congregações Marianas, ligadas aos colégios jesuítas, formavam leigos e religiosos numa espiritualidade robusta, disciplinada e publicamente comprometida — o que tornava seus membros ainda mais expostos à perseguição.



Beato Tiago Sales (†1593) - Sacerdote jesuíta e Congregado mariano

O Beato Tiago Sales era sacerdote da Companhia de Jesus e Congregado Mariano no Colégio Jesuíta de Billom (Bilhão), importante centro de formação católica na França. A Congregação Mariana não era para ele um simples grupo devocional, mas uma verdadeira escola de vida espiritual e apostólica.

Formado na vida sacramental frequente, devoção mariana sólida, disciplina interior e prontidão para o serviço da Igreja, Tiago Sales exercia seu ministério com zelo pastoral, especialmente na confissão, na pregação e no acompanhamento espiritual, mesmo em contextos de grave risco.

Capturado por milícias anticatólicas, foi submetido a interrogatórios e torturas. Diante da possibilidade de salvar a vida mediante a negação da fé, permaneceu firme. Sua fidelidade ao sacerdócio e à Igreja levou-o ao martírio em Aubenas, em 1593.



Beato Guilherme Saultemouche (†1593) - Irmão coadjutor jesuíta, Congregado mariano

O Beato Guilherme Saultemouche, irmão coadjutor jesuíta, era Congregado Mariano no Colégio Jesuíta de Clermont, em Paris. Sua vocação não se expressava no ministério sacerdotal, mas no serviço humilde, silencioso e obediente, vivido como verdadeiro apostolado.

Como Congregado Mariano, Guilherme havia sido formado na entrega total a Deus por meio de Maria, no espírito de obediência e disponibilidade, na coragem cristã diante das adversidades.

Preso juntamente com o Pe. Tiago Sales, foi-lhe oferecida a liberdade caso abandonasse sua fé católica. Recusou firmemente. Sua condição de irmão leigo não diminuiu a grandeza de seu testemunho: morreu como verdadeiro mártir da fidelidade, unido a Cristo até o fim.



Congregados marianos até o martírio

O dado de que ambos eram Congregados Marianos não é secundário. Pelo contrário, ajuda a compreender:

  • a serenidade diante da morte;

  • a clareza de consciência;

  • a coragem sem fanatismo;

  • a fidelidade eclesial até o extremo.


As Congregações Marianas, desde o século XVI, educavam seus membros para:

servir a Cristo sob o estandarte de Maria, mesmo quando isso exige o sacrifício da própria vida”².

Tiago Sales e Guilherme Saultemouche são expressão clara do ideal mariano clássico: discípulos formados para a fidelidade, não para o conforto.



Atualidade do testemunho hoje

Embora o contexto histórico seja diferente, as perseguições religiosas não desapareceram. Em muitas partes do mundo, cristãos continuam sendo: mortos por sua fé, presos por professarem Cristo, marginalizados por viverem valores cristãos.

Além disso, existe hoje uma perseguição mais sutil: o ridículo público da fé; a exclusão cultural do cristianismo; a pressão para silenciar a identidade católica...

Os Mártires de Aubenas recordam à Igreja de hoje — e de modo especial às Congregações Marianas — que a fé não é negociável; a devoção mariana conduz à coragem evangélica; a formação espiritual sólida prepara para as provações; e o martírio começa, muitas vezes, na fidelidade cotidiana.



Um apelo às Congregações Marianas de hoje

O testemunho dos Beatos Tiago Sales e Guilherme Saultemouche interpela diretamente os Congregados Marianos contemporâneos:

  • Somos formados para resistir às pressões do mundo?

  • Nossa devoção mariana nos conduz a decisões concretas?

  • Estamos dispostos a pagar o preço da fidelidade?

Eles nos lembram que a Virgem Maria não forma cristãos acomodados, mas discípulos capazes de permanecer firmes quando tudo vacila.



Os Mártires de Aubenas não foram heróis isolados mas frutos de uma espiritualidade mariana bem assimilada, vivida no seio das Congregações Marianas e da Companhia de Jesus.

Que seu testemunho fortaleça hoje a Igreja perseguida e desperte, nas Congregações Marianas, uma renovada coragem apostólica, fiel a Cristo, à Igreja e à Virgem Santíssima — custe o que custar.

Beatos Tiago Sales e Guilherme Saultemouche, rogai por nós.



IA







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Referências

  1. RAVENEAU, J. Les Guerres de Religion en France. Paris: PUF, 1998.

  2. DE GUERTL, J. Historia Congregationum Marianarum. Roma: Typis Vaticanis, 1952.

  3. Acta Sanctorum, setembro, vol. VII – Martyres Gallici.

  4. SOCIETAS IESU. Catalogus Martyrum Societatis Iesu. Roma, 1940.

  5. PIO XII. Bis Saeculari Die (1948), sobre as Congregações Marianas.

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