São Francisco de Sales, Congregado Mariano e mestre da mansidão

 




Alexandre Martins, cm.



São Francisco de Sales (†1622) é uma daquelas figuras em que a espiritualidade não pode ser separada da prática, nem a doutrina do modo como é comunicada. Doutor da Igreja e arcebispo de Genebra em um dos períodos mais turbulentos da história religiosa europeia, ele construiu um estilo pastoral inteiramente novo para seu tempo. Esse estilo não surgiu do acaso: foi amadurecido nos anos de formação no Colégio Jesuíta de Clermont-Ferrand, onde viveu intensamente a experiência das Congregações Marianas.

A vida congregada lhe ensinou, antes de tudo, uma espiritualidade encarnada, profundamente interior e, ao mesmo tempo, voltada para o mundo. Na Congregação, Francisco aprendeu que a vida espiritual não se sustenta apenas por impulsos devocionais, mas por método, constância e exame de consciência. Essa pedagogia inaciana aparece claramente em seus escritos, sobretudo na Introdução à Vida Devota, onde ele conduz o leitor passo a passo, com clareza e realismo, sem exigir práticas extraordinárias, mas propondo fidelidade nas pequenas coisas — exatamente o ethos das Congregações Marianas.

Outro traço decisivo herdado da vida congregada foi o sentido de acompanhamento pessoal. Nas Congregações, o jovem Francisco foi formado a olhar cada pessoa como um caminho singular de Deus. Isso se refletiria mais tarde em seu vasto apostolado epistolar. Suas cartas — milhares delas — não são tratados genéricos, mas respostas ajustadas à situação concreta de cada destinatário. Ele escreve a nobres, camponeses, religiosas, leigos casados, jovens em discernimento, sempre com uma atenção delicada às circunstâncias da vida real. Essa pedagogia da proximidade, tão característica das Congregações, marcou profundamente seu modo de evangelizar.

A devoção mariana, central na vida congregada, também moldou sua espiritualidade de forma decisiva. Para Francisco de Sales, Maria não era apenas objeto de piedade, mas modelo espiritual. Sua insistência na doçura, na humildade e na disponibilidade interior encontra eco direto na contemplação da Virgem. Em seus escritos, a mansidão não é uma virtude acessória, mas um caminho seguro de conformação a Cristo — uma visão tipicamente mariana, aprendida e aprofundada na vida congregada.

Essa herança explica também sua opção pastoral em territórios hostis à fé católica. Quando enviado à região do Chablais, dominada pelo calvinismo, Francisco recusou qualquer método agressivo. Em vez disso, escreveu pequenos textos explicativos da fé, simples e claros, distribuídos discretamente entre a população. Esse método — paciente, perseverante e respeitoso — reflete o apostolado silencioso e eficaz promovido nas Congregações Marianas, onde o testemunho pessoal valia mais do que o confronto direto.

Nos seus tratados espirituais, percebe-se ainda outro elemento típico da formação congregada: a confiança radical na ação da graça. Francisco de Sales combateu com firmeza o rigorismo espiritual de seu tempo, lembrando que Deus não conduz todas as almas pelos mesmos caminhos. Essa convicção, amadurecida na convivência com leigos de diferentes condições dentro da Congregação, levou-o a afirmar que a santidade é possível em qualquer estado de vida. Não por acaso, ele se tornou o grande doutor da santidade cotidiana.

Como bispo, essa visão se traduziu em ação concreta. Francisco promoveu ativamente as Congregações Marianas em sua diocese, vendo nelas um instrumento privilegiado para formar leigos sólidos, capazes de sustentar a fé em ambientes adversos. Incentivava encontros regulares, direção espiritual, estudo doutrinal e devoção mariana bem enraizada — exatamente os meios que haviam moldado sua própria vida.

Mesmo a fundação da Ordem da Visitação, ao lado de Santa Joana Francisca de Chantal, carrega marcas dessa espiritualidade congregada. A ênfase na vida interior, na caridade mútua e na ausência de excessos ascéticos reflete a mesma intuição: Deus quer almas fiéis, livres e confiantes, não espíritos oprimidos por práticas desproporcionais.

Assim, São Francisco de Sales não apenas participou das Congregações Marianas: ele encarnou seu espírito e o expandiu para toda a Igreja. Sua obra mostra como a formação congregada pode gerar pastores equilibrados, escritores luminosos e santos profundamente humanos. Em tempos de radicalismos e durezas, sua herança continua a lembrar que a verdade cristã floresce melhor quando é transmitida com clareza, paciência e amor — como se aprende, desde cedo, na escola de Maria.





IAH


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