
Alexandre Martins, cm.
Entre os grandes pastores que a Igreja ofereceu à virada dos séculos XVIII e XIX, destaca-se a figura luminosa de São Vicente Maria Strambi, bispo, religioso passionista, pregador popular e homem de profunda vida interior. Sua santidade não surgiu de improviso nem de fervores momentâneos: foi lentamente forjada numa sólida formação espiritual, na qual a Congregação Mariana do Collegio Calasanzio, em Roma, ocupou papel decisivo.
Strambi pertence àquela geração de santos em que a devoção mariana, longe de sentimentalismos, era escola de caráter, fidelidade e serviço eclesial.
Juventude e formação: a escola mariana do Collegio Calasanzio
Vicente Strambi nasceu em Civitavecchia, em 1º de janeiro de 1745. Ainda jovem, foi enviado a Roma para estudar no Collegio Calasanzio, dirigido pelos Padres Escolápios, centro de formação intelectual e espiritual de alto nível.
Foi ali que ingressou na Congregação
Mariana do colégio, uma associação que, segundo o modelo
clássico, formava seus membros pela tríade fundamental:
vida
sacramental regular, devoção sólida a Nossa Senhora e compromisso
concreto de virtude e apostolado.
Na Congregação Mariana, Strambi aprendeu desde cedo:
o exame rigoroso de consciência;
a disciplina interior;
o amor à Igreja e à hierarquia;
a centralidade da vontade de Deus acima das próprias inclinações.
Essa formação não era acessória, mas estruturante. Ela moldou seu modo de pensar, rezar e decidir — e deixaria marcas profundas por toda a sua vida.
Vocação passionista e fidelidade ao espírito mariano
Ordenado sacerdote, Vicente Strambi ingressou na Congregação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Passionistas), fundada por São Paulo da Cruz. Ali desenvolveu intensa vida contemplativa e tornou-se pregador popular de grande impacto, conhecido por sua clareza doutrinal, ardor apostólico e profunda compaixão pastoral.
A espiritualidade passionista, centrada na Cruz, encontrou em sua formação mariana um terreno já preparado:
a obediência aprendida na Congregação Mariana tornou-se obediência religiosa madura;
o amor silencioso a Maria transformou-se em união profunda com Cristo crucificado;
a disciplina interior sustentou a exigência da vida missionária.
Mesmo como religioso e pregador, Strambi jamais abandonou o espírito congregacional: método, ordem, fidelidade diária e vida interior estável.
Bispo segundo o coração de Maria
Em 1801, foi nomeado bispo de Macerata-Tolentino, cargo que exerceu em tempos difíceis, marcados por instabilidade política, perseguições napoleônicas e tensões internas na Igreja.
Como bispo, São Vicente Maria Strambi revelou traços claros de sua formação mariana:
governava com firmeza e mansidão;
era rigoroso consigo mesmo e misericordioso com os outros;
dedicava longas horas à oração antes de tomar decisões;
mantinha fidelidade absoluta ao Papa e à doutrina da Igreja.
Seu episcopado foi marcado por intensa solicitude pastoral, atenção ao clero, zelo pela liturgia e proximidade real com o povo. Não buscava protagonismo: servia.
O dom final: caridade levada até o extremo
O episódio mais conhecido de sua vida manifesta de modo eloquente a maturidade de sua formação espiritual. Nos últimos anos, vivendo em Roma, ofereceu sua própria vida a Deus pela saúde do Papa Leão XII, gravemente enfermo.
Pouco depois, o Papa recuperou-se — e Strambi adoeceu mortalmente, vindo a falecer em 1º de janeiro de 1824. A Igreja sempre viu nesse gesto um sinal extremo de caridade sacerdotal e abandono confiante à vontade divina.
A Congregação Mariana como semente de santidade
A história de São Vicente Maria Strambi confirma um dado fundamental da tradição eclesial: a formação congregacional mariana, quando bem vivida, não é etapa juvenil descartável, mas semente de santidade duradoura.
Aquilo que ele aprendeu como jovem congregado — disciplina espiritual, amor à Igreja, fidelidade cotidiana, devoção sóbria a Nossa Senhora — tornou-se o alicerce:
do pregador ardoroso,
do religioso fiel,
do bispo santo,
do confessor prudente.
Maria não foi apenas objeto de devoção em sua vida, mas mestre interior, educando-o para a escuta, a obediência e a entrega total.
Atualidade de seu testemunho
Para os membros das Congregações Marianas de hoje, São Vicente Maria Strambi permanece como sinal claro de que:
a espiritualidade mariana clássica forma homens de Igreja;
a fidelidade diária vale mais que entusiasmos passageiros;
a verdadeira devoção a Maria conduz sempre ao serviço sacrificial.
Sua vida proclama, com serenidade e força, que quem se deixa formar por Maria não se perde na Igreja, mas nela frutifica abundantemente.
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