| típica reunião da CM no século XVI |
Alexandre Martins, cm.
No início do século XVII, quando a Igreja buscava responder com inteligência e profundidade aos desafios espirituais e culturais do seu tempo, surgia na Itália uma proposta singular de formação cristã.
Em Nápoles, Itália, no ano de 1629, eram publicadas as Instruções da Congregação Mariana da Assunção dos Clérigos, redigidas pelo padre Francisco Pavone (1569–1627), sacerdote profundamente atento à pedagogia espiritual e ao protagonismo dos leigos.
Mais do que um simples regulamento, o texto revela um método vivo, flexível e surpreendentemente atual, no qual estudo, oração, ação concreta e ascese se entrelaçam para formar cristãos maduros, capazes de irradiar o Evangelho na vida cotidiana.
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As Instruções do Padre Francisco Pavone para a Congregação da Assunção dos Clérigos (1629)
Um método acessível e profundamente humano
Desde o início, pe. Pavone deixa claro que o método das reuniões não é reservado a uma elite intelectual. Pelo contrário: pode ser empregado tanto por pessoas eruditas quanto por gente simples. O segredo está menos no nível acadêmico e mais na forma como os conteúdos são assimilados, discutidos e colocados em prática.
As reuniões regulares da Congregação Mariana eram organizadas em ciclos semanais alternados, cada qual com um foco específico, mas sempre integrados numa mesma dinâmica espiritual.
As reuniões de formação doutrinal
Nas semanas dedicadas ao estudo e ao intercâmbio de ideias, a reunião se estruturava em três momentos bem definidos.
O primeiro consistia em meia hora de troca de ideias. Um tema previamente anunciado era apresentado pelo presidente ou por outro congregado, seguido de discussão livre. Esse tempo tinha como objetivo introduzir nos espíritos, com clareza e facilidade, os conhecimentos teóricos e práticos da vida cristã. pe. Pavone recomenda explicitamente que se evitem exortações excessivas ou sermões longos: o foco é a assimilação viva da doutrina, não a retórica vazia.
O segundo momento buscava despertar a inteligência e estimular a invenção, desenvolvendo o juízo e a capacidade de discernir as melhores ideias. Trata-se de um verdadeiro exercício de formação do pensamento cristão, preparando os membros para enfrentar situações concretas da vida.
O terceiro momento era dedicado à oração mental em comum, seguida por um tempo reservado às mortificações públicas, entendidas como expressão concreta de ascese compartilhada, nunca como espetáculo, mas como compromisso espiritual assumido diante da comunidade.
As reuniões de verificação e compromisso
Em outras semanas, o tom da reunião mudava. Em vez do estudo teórico, entrava em cena a prática da vida cristã.
Essas reuniões começavam com uma breve retomada do tema anterior e, em seguida, cada congregado prestava contas do esforço feito para colocar em prática as resoluções assumidas, bem como das dificuldades encontradas. Quando alguém não se preparava para essa partilha, recebia uma penitência, que não era aplicada imediatamente, mas permanecia como sinal pedagógico de responsabilidade pessoal.
Aqui aparece com força uma convicção central de Pavone: tudo o que se discute deve ser imediatamente posto em execução. Mais ainda, o congregado deve ter o cuidado de ensinar e incentivar a prática dessas resoluções também fora da Congregação, explicando aos outros como fazê-lo. É assim, afirma o autor, que se implantam nos povos bons costumes cristãos e um verdadeiro conhecimento das coisas divinas.
Essas reuniões se estruturavam, portanto, em três experiências fundamentais: trabalho (intercâmbio de ideias), oração e penitência.
As academias: um espaço avançado de apostolado
Além das reuniões ordinárias, pe. Pavone descreve um terceiro tipo de encontro: as Academias. Elas tinham um caráter mais específico e apostólico, voltado à formação profunda, e não à preparação imediata para ações pontuais.
As academias podiam reunir pessoas provenientes de diferentes Congregações Marianas, escolhidas segundo interesses comuns e aptidões pessoais. Seu governo era confiado a um conselho de seis acadêmicos, presidido pelo chamado “príncipe”, auxiliado por um vice-presidente e um secretário, além de conselheiros que completavam o conselho executivo.
Chama atenção um detalhe revelador: não se menciona a figura do padre diretor no governo da academia. O sacerdote deixa deliberadamente a condução sob a responsabilidade dos próprios acadêmicos, evidenciando a confiança no laicato formado e consciente.
O método dessas reuniões era distinto: quatro acadêmicos preparavam exposições escritas sobre um mesmo tema, cada um a partir de um ponto de vista diferente. Durante o encontro, os textos eram lidos e, em seguida, discutidos pela assembleia, promovendo um verdadeiro exercício de discernimento comunitário.
Flexibilidade e protagonismo leigo
Apesar da descrição minuciosa dos métodos, pe. Pavone é explícito ao afirmar que nada disso deve ser entendido como obrigatório para todas as Congregações. Ele se declara favorável a uma flexibilidade inteligente, aberta a novas iniciativas e adaptações conforme os contextos.
Ainda assim, o conjunto do texto permite uma conclusão clara: os leigos tinham uma participação ativa e decisiva em todas as obras da Congregação, tanto internas quanto externas. Não eram meros executores, mas protagonistas da missão.
Uma comunidade de vida cristã
A conclusão do texto sintetiza com força a identidade das Congregações Marianas segundo o espírito de Pavone. Elas não são simples círculos de estudo, nem apenas grupos de atividades. São comunidades de vida cristã, orientadas pelo estudo e pelo intercâmbio de ideias, sustentadas pela oração e pela ascese, e dedicadas ao serviço da Igreja para a salvação do próximo.
Trata-se de comunidades onde se trabalha, reza-se e pratica-se a penitência em comum, visando à formação cristã integral de seus membros.
Uma visão que atravessa os séculos e continua a interpelar, com surpreendente atualidade, a missão formativa das Congregações Marianas no mundo contemporâneo.
IA
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