
Alexandre Martins, cm
"Quando a figueira secar, Felipe será santo"
— Profecia popular sobre São Felipe de Jesus
O Jovem Congregado Mariano que se Tornou Protomártir do México
Em 5 de fevereiro de 1597, nas colinas de Nagasaki, Japão, um jovem de apenas 27 anos entregou sua vida em testemunho da fé cristã. São Felipe de Jesus, religioso franciscano nascido no México, tornou-se não apenas o protomártir mexicano, mas também um símbolo eloquente do que significa viver a consagração mariana até as últimas consequências. Sua história, enraizada na espiritualidade da Congregação Mariana do Colégio dos Jesuítas na Cidade do México, oferece aos congregados marianos de hoje uma mensagem urgente e transformadora sobre juventude, conversão, radicalismo evangélico e fidelidade mariana.
1. Das Ruas da Cidade do México à Congregação Mariana
A Juventude Turbulenta
Felipe de las Casas nasceu na Cidade do México em 1º de maio de 1572, filho de prósperos comerciantes espanhóis. Sua infância e adolescência, no entanto, não foram marcadas por piedade exemplar, mas por comportamento mundano e leviano. Segundo relatos da época, Felipe era conhecido por sua natureza rebelde, gênio explosivo e pouco interesse pelas questões espirituais. Sua mãe, preocupada com os rumos do filho, costumava dizer que só um milagre o converteria — referindo-se provavelmente à figueira seca no jardim de sua casa, que segundo a tradição popular, floresceu no dia de sua morte pelo martírio.
Apesar de seu temperamento difícil, Felipe estudou no Colégio dos Jesuítas, instituição de excelência na Cidade do México onde funcionava uma florescente Congregação Mariana. Ali, jovens estudantes eram formados não apenas academicamente, mas espiritualmente, aprendendo a consagrar-se totalmente a Jesus Cristo por meio de Maria Santíssima.
O Encontro com Maria na Congregação
Durante seus anos de Colégio, Felipe ingressou na Congregação Mariana. Este fato, muitas vezes esquecido nas biografias populares do santo é, entretanto, fundamental para compreender sua transformação espiritual. A Congregação Mariana não era somente associação devocional, mas uma autêntica escola de santidade onde os jovens aprendiam a viver sob o olhar maternal de Maria, consagrando-lhe suas vidas e comprometendo-se com um estilo de vida radicalmente cristão.
Foi na Congregação que Felipe começou a experimentar a conversão do coração. As reuniões regulares, as práticas de piedade mariana, os retiros espirituais e o exemplo de outros congregados tocaram profundamente sua alma. Maria, a Mãe que nunca desiste de seus filhos, atraía Felipe para uma vida nova. Neste ambiente de fervor mariano, o jovem rebelde começou a descobrir a beleza da vida consagrada e o chamado à santidade.
2. A Conversão: De Comerciante a Missionário
O Caminho para as Filipinas
Aos dezoito anos, Felipe decidiu seguir a carreira comercial paterna e embarcou para as Filipinas em 1590. Mas a graça divina que o tocara na Congregação Mariana não o abandonou. Durante os anos em Manila, Felipe experimentou crescente insatisfação com a vida do comércio. As riquezas materiais não preenchiam o vazio interior que só Deus poderia saciar. A voz de Maria, ouvida nos tempos de congregado no México, ressoava em seu coração, chamando-o a uma doação mais radical.
Em 1593, Felipe tomou a decisão que mudaria definitivamente sua vida: ingressou no noviciado franciscano em Manila. A escolha pela Ordem Franciscana não foi casual. Os filhos de São Francisco, com sua pobreza radical e zelo missionário, atraíram o coração do jovem que buscava viver o Evangelho sem meias medidas. Felipe abraçou a vida religiosa com fervor, trazendo consigo a espiritualidade mariana aprendida na Congregação. Para ele, tornar-se franciscano não significava abandonar Maria, mas viver ainda mais profundamente sua consagração a Ela, agora no contexto da pobreza e simplicidade franciscana.
O Missionário em Formação
Durante seu noviciado, Felipe destacou-se pela piedade e pelo desejo ardente de evangelizar. Havia nele um senso de urgência apostólica, característico dos autênticos congregados marianos que compreendem que a consagração a Maria implica compromisso missionário. Felipe sonhava em levar Cristo aos que ainda não O conheciam, especialmente ao Japão, onde uma jovem e vibrante comunidade cristã começava a enfrentar severa perseguição.
Em 1596, ainda noviço, Felipe embarcou em um navio que o levaria de volta ao México para completar seus estudos para a ordenação. No entanto, a Providência Divina tinha outros planos. Uma tempestade desviou o navio para as costas do Japão, justo quando o governo japonês iniciava violenta perseguição aos cristãos.
3. O Martírio: Amor Até o Fim
A Prisão e a Condenação
Ao desembarcar no Japão, Felipe e seus companheiros foram imediatamente presos. O shogun Toyotomi Hideyoshi1 temendo a influência ocidental e a expansão do cristianismo, havia decretado a expulsão dos missionários e proibido a prática da fé cristã. Felipe, junto com outros vinte e cinco cristãos (entre jesuítas, franciscanos e leigos japoneses), foi condenado à morte.
Durante os dias de prisão, Felipe revelou extraordinária serenidade. Os relatos indicam que consolava seus companheiros, rezava intensamente e preparava-se espiritualmente para o martírio.
Naqueles momentos decisivos, a formação recebida na Congregação Mariana mostrou sua profundidade. Felipe sabia que Maria estava ao pé de sua cruz, assim como estivera ao pé da cruz de Jesus. A consagração mariana não era teoria abstrata, mas realidade concreta que o sustentava na hora da provação suprema.
O Calvário de Nagasaki
Em 5 de fevereiro de 1597, os vinte e seis mártires foram obrigados a percorrer a pé, por quase um mês, o caminho de Kyoto a Nagasaki — uma verdadeira Via Sacra oriental. Durante essa marcha, os mártires cantavam hinos, pregavam Cristo abertamente e demonstravam alegria sobrenatural, surpreendendo a população e seus próprios algozes. Felipe, o mais jovem dos religiosos no grupo, irradiava paz e confiança em Deus.
Ao chegarem a Nagasaki, os mártires foram crucificados no monte Tateyama. Felipe recebeu a cruz com gratidão, sabendo que estava sendo conformado plenamente a Cristo Crucificado. Testemunhas relatam que, antes de morrer, Felipe perdoou seus executores, rezou em voz alta e proclamou sua fé em Jesus Cristo. Seu último gesto foi voltar o olhar para o céu, entregando seu espírito a Deus pelas mãos de Maria.
São Felipe de Jesus e seus companheiros foram beatificados em 1627 pelo Papa Urbano VIII e canonizados em 1862 pelo Beato Pio IX. Felipe tornou-se o protomártir do México e patrono da Cidade do México, sendo celebrado liturgicamente em 5 de fevereiro.
4. Mensagem para os Congregados Marianos de Hoje
A Conversão é Sempre Possível
A primeira grande mensagem de São Felipe de Jesus para os congregados marianos contemporâneos é que nenhuma vida está perdida para a graça de Deus. Felipe começou como jovem rebelde, de comportamento mundano e pouco interesse espiritual. Porém, o encontro com Maria na Congregação iniciou processo de transformação que culminou no martírio heroico. Isto nos recorda que Maria nunca desiste de seus filhos. Mesmo quando nos desviamos, Ela permanece como Mãe paciente, aguardando o momento propício para nos reconduzir a Jesus.
Para os congregados de hoje, especialmente os jovens que lutam com tentações, fragilidades e incertezas vocacionais, São Felipe é exemplo vivo de que a consagração a Maria possui força transformadora real. Não se trata de mero ato devocional externo, mas de entrega existencial que permite à Mãe de Deus agir profundamente em nossas almas, moldando-nos segundo o coração de Cristo.
Radicalidade Evangélica na Vida Ordinária
São Felipe nos ensina que a autêntica consagração mariana exige radicalidade. Ele não se contentou com vida cristã morna ou medíocre. Quando Deus o chamou, respondeu generosamente, abandonando promissora carreira comercial para abraçar a pobreza franciscana e a missão evangelizadora. Este radicalismo não significa necessariamente deixar tudo para entrar na vida religiosa (embora possa significar isso para alguns), mas viver com totalidade e coerência a fé cristã em qualquer estado de vida.
Os congregados marianos de hoje são chamados a este mesmo radicalismo evangélico: na fidelidade ao matrimônio, na honestidade profissional, na caridade para com os necessitados, na defesa da vida e da dignidade humana, no testemunho público da fé. A consagração a Maria não nos isola do mundo, mas nos lança ao mundo como sal da terra e luz do mundo, dispostos a viver o Evangelho sem concessões à mediocridade espiritual.
Maria, Força no Martírio Cotidiano
Embora poucos sejam chamados ao martírio cruento como São Felipe, todos os cristãos enfrentam formas de martírio cotidiano: perseguições veladas, discriminação no ambiente de trabalho, pressões sociais para renunciar aos valores cristãos, tentações constantes numa cultura hedonista e relativista. São Felipe nos mostra que Maria é nossa força nestas batalhas diárias.
Assim como esteve ao pé da cruz de seu Filho e ao pé da cruz de Felipe em Nagasaki, Maria permanece junto a cada congregado que enfrenta sua cruz diária. A consagração mariana significa ter certeza de que não enfrentamos sozinhos as dificuldades da vida cristã. Maria intercede por nós, fortalece-nos com sua presença maternal e conduz-nos pela mão até Jesus. Esta certeza dá aos congregados coragem para perseverar na fé, mesmo quando o custo é alto.
Juventude Mariana e Missão
São Felipe de Jesus tinha apenas 27 anos quando foi martirizado. Sua juventude não foi obstáculo, mas dom precioso colocado a serviço do Reino. Este fato desafia os jovens congregados marianos de hoje a não desperdiçarem os anos de juventude em frivolidades e mundanismos, mas a colocarem suas energias, talentos e sonhos a serviço de Cristo e da Igreja.
A Congregação Mariana sempre foi uma associação católica primordialmente juvenil. Nos colégios jesuítas onde nasceu, formava jovens estudantes para serem líderes católicos transformadores da sociedade. Hoje, quando a juventude é frequentemente vista como fase de irresponsabilidade e experimentação, São Felipe nos lembra que os jovens são capazes de heroísmo, generosidade e santidade radical. Maria confia nos jovens e deseja fazer deles instrumentos poderosos de evangelização.
Internacionalidade da Missão Mariana
A trajetória de São Felipe — nascido no México, ali formado como congregado mariano, missionário nas Filipinas, mártir no Japão — revela a dimensão universal da missão cristã. Maria é Mãe de toda a humanidade, e seus filhos congregados são enviados a levar Cristo a todos os povos e culturas.
Hoje, quando vivemos num mundo globalizado mas fragmentado, os congregados marianos são chamados a ser pontes de diálogo intercultural, promotores de justiça e paz internacional, defensores dos migrantes e refugiados. A consagração a Maria, Rainha da Paz, implica compromisso concreto com a fraternidade universal e a construção de um mundo mais justo e solidário.
5. São Felipe de Jesus na Igreja de Hoje
Modelo de Nova Evangelização
O Papa João Paulo II, ao convocar a Igreja para a Nova Evangelização, enfatizou a necessidade de um cristianismo vivido com "novo ardor, novos métodos e nova expressão". São Felipe de Jesus encarna perfeitamente este chamado. Seu ardor missionário, sua criatividade pastoral (adaptando-se a culturas diferentes) e sua expressão radical da fé (o martírio) fazem dele patrono natural dos novos evangelizadores.
A Congregação Mariana é chamada a retomar este espírito missionário ardente. Não basta reunir-se para rezar e refletir; é preciso sair, como Felipe, para as periferias existenciais, levando Cristo aos que vivem sem esperança, sem fé, sem amor.
Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso
São Felipe morreu junto com católicos de diferentes tradições (franciscanos e jesuítas) e leigos japoneses. Este grupo mártir prefigurava a unidade dos cristãos e o diálogo respeitoso com outras culturas e religiões. Embora firme na fé católica, Felipe não desprezava a cultura japonesa, mas buscava o diálogo e a inculturação.
Para os congregados marianos contemporâneos, isto significa promover o ecumenismo autêntico, dialogar respeitosamente com pessoas de outras religiões, e trabalhar juntos por objetivos comuns como a paz, a justiça e a defesa da vida. Maria, venerada também por ortodoxos, anglicanos e até por muçulmanos, é ponto de convergência que pode facilitar o diálogo inter-religioso.
Opção Preferencial pelos Pobres
São Felipe, ao abraçar a vida franciscana, escolheu a pobreza evangélica e a proximidade com os mais necessitados. Este aspecto de sua espiritualidade ressoa fortemente com o magistério contemporâneo da Igreja, especialmente com os ensinamentos do Papa Francisco sobre uma "Igreja pobre para os pobres".
Os congregados marianos são chamados a viver a opção preferencial pelos pobres não como slogan político, mas como expressão concreta do amor de Maria pelos pequenos e humildes. Nossa Senhora, no Magnificat, proclamou que Deus "derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes". Seus filhos congregados devem trabalhar por esta justiça evangélica, defendendo os direitos dos pobres, lutando contra estruturas de pecado que geram exclusão, e compartilhando generosamente seus bens com os necessitados.
Conclusão: "Quando a Figueira Florescer..."
A antiga profecia sobre São Felipe — de que seria santo quando a figueira seca florescesse — cumpriu-se literalmente no dia de seu martírio.
Mas há uma profecia ainda maior que se cumpre constantemente: sempre que um jovem rebelde encontra Maria na Congregação, sempre que um coração mundano se converte pela intercessão da Mãe de Deus, sempre que um congregado mariano vive radicalidade evangélica no mundo contemporâneo, a figueira floresce novamente.
São Felipe de Jesus nos convida a crer na força transformadora da consagração mariana. Ele nos desafia a viver nossa fé com radicalidade jovem, a não temer o martírio cotidiano que o mundo nos impõe, e a confiar sempre em Maria como Mãe, Mestra e Rainha. Que seu exemplo inspire todos os congregados marianos a serem santos no século XXI, fazendo florescer em suas vidas a primavera da graça que só Deus pode dar.
Como congregados marianos, renovemos hoje nossa consagração à Virgem Maria, pedindo-lhe que faça de nós, a exemplo de São Felipe de Jesus, testemunhas corajosas do Evangelho, missionários ardorosos e mártires cotidianos do amor de Cristo. Que a figueira de nossas vidas floresça sempre para a glória de Deus e salvação das almas.
Oração a São Felipe de Jesus
Glorioso São Felipe de Jesus, protomártir do México e modelo luminoso de conversão e fidelidade, vós que na Congregação Mariana aprendestes a consagrar vossa vida a Maria Santíssima, e por Ela fostes conduzido ao martírio em Nagasaki, intercedei por todos os congregados marianos do mundo. Alcançai-nos a graça de viver nossa consagração com o mesmo ardor missionário que vos animou, de abraçar a radicalidade evangélica sem temor, e de perseverar na fé mesmo quando o custo for alto. Que, a vosso exemplo, saibamos transformar nossas vidas em oferenda de amor a Cristo, confiando sempre na proteção maternal de Maria, vossa e nossa Mãe. Amém.
São Felipe de Jesus, rogai por nós!
IAC
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1Toyotomi Hideyoshi viveu de 17 de março de 1537 a 18 de setembro de 1598. Daimyo do Período Sengoku. Unificou o Japão, sucedendo seu antigo senhor feudal, Oda Nobunaga. Seu governo marcou o fim do Período Sengoku. Implementou a restrição do porte de armas exclusivamente à classe dos samurais. É considerado o segundo “grande unificador” do Japão, entre Oda Nobunaga e Tokugawa Ieyasu. Retratado como um dos maiores tiranos da história. Responsável pela morte de mais de 60 mil cristãos no Japão . Episódio mais conhecido: os 26 Mártires do Japão.
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