Lourdes e as Congregações Marianas



Alexandre Martins, cm.



A relação entre as Congregações Marianas e a devoção a Nossa Senhora de Lourdes é profunda, orgânica e historicamente coerente, pois ambas nascem do mesmo impulso espiritual: a centralidade de Maria na vida cristã e a confiança filial na sua intercessão. Quando, em 1858, a Virgem apareceu a Santa Bernadette Soubirous na gruta de Massabielle, em Lourdes, a espiritualidade mariana já estava amplamente difundida nas Congregações Marianas, fundadas no século XVI sob a inspiração inaciana. Assim, a mensagem de Lourdes encontrou terreno fértil entre os congregados, que rapidamente acolheram e propagaram a nova devoção.

As Congregações Marianas, surgidas oficialmente em 1563 no Colégio Romano sob a direção do jesuíta Pe. Jean Leunis, tinham como traço distintivo a consagração a Nossa Senhora e o compromisso de vida sacramental intensa, apostolado e defesa da fé. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, tornaram-se uma das mais importantes associações leigas da Igreja. No século XIX, após a restauração da Companhia de Jesus em 1814, experimentaram renovado vigor — contexto histórico que precede e acompanha as aparições de Lourdes.

 

Bernadete, a Congregada



As aparições ocorreram entre 11 de fevereiro e 16 de julho de 1858. Quatro anos antes, em 1854, Pio IX proclamara o dogma da Imaculada Conceição. Quando, em 25 de março de 1858, a Senhora revelou a Bernadette: “Eu sou a Imaculada Conceição”, muitos viram nessa declaração uma confirmação sobrenatural da definição dogmática recente. As Congregações Marianas, cuja identidade espiritual sempre esteve profundamente ligada à Imaculada Conceição, reconheceram em Lourdes uma confirmação providencial de seu carisma.

Nesse contexto, destaca-se a própria figura de Santa Bernadette Soubirous, falecida aos 35 anos de idade em 1879.

Virgem, vidente de Nossa Senhora de Lourdes, ela própria esteve vinculada à espiritualidade congregacional. Em 1866, pouco antes de ingressar nas Irmãs da Caridade de Nevers, Bernadette tornou-se membro da Congregação Mariana (Sodality of the Blessed Virgin) em Lourdes, participando da associação local sob orientação eclesiástica.

Esse dado é particularmente significativo: a vidente de Lourdes não apenas recebeu as aparições, mas também viveu concretamente a espiritualidade de consagração mariana própria das Congregações. Sua humildade, vida sacramental intensa, amor à oração do terço e fidelidade à Igreja refletem traços característicos da formação adquirida nas Congregações Marianas.

 

Lourdes



No final do século XIX, o santuário de Lourdes tornou-se um dos maiores centros de peregrinação do mundo católico. Congregações Marianas organizaram peregrinações coletivas, sobretudo de estudantes e operários, incentivando a participação ativa dos leigos. Em diversos países europeus — especialmente França, Espanha, Itália e Bélgica — e também na América Latina, congregados marianos estiveram entre os promotores das primeiras peregrinações nacionais a Lourdes. A espiritualidade de penitência, reparação e confiança na graça, tão presente nas mensagens transmitidas a Bernadette, harmonizava-se plenamente com o ideal congreganista de santificação pessoal e apostolado.

No Brasil, onde as Congregações Marianas se expandiram fortemente a partir do século XIX sob impulso jesuítico, a devoção a Nossa Senhora de Lourdes foi amplamente difundida em colégios e paróquias dirigidos por padres ligados às Congregações. Muitas capelas dedicadas a Lourdes surgiram em ambientes educacionais frequentados por congregados. 

 

O cuidado dos Congregados com os enfermos



O dia 11 de fevereiro, cuja celebração litúrgica foi estendida à Igreja por Leão XIII em 1891, passou a ser solenemente comemorado nas Congregações, frequentemente associado à promoção da pureza cristã, do zelo apostólico e da caridade para com os enfermos.

Outro elemento relevante dessa relação está na dimensão caritativa. Lourdes tornou-se símbolo da pastoral da saúde e do cuidado aos doentes. Muitos congregados marianos participaram da organização de hospitais, associações de auxílio e obras sociais inspiradas na confiança na intercessão de Nossa Senhora de Lourdes. A espiritualidade das Congregações — disciplinada, sacramental e apostólica — encontrava na mensagem de Lourdes um apelo concreto à compaixão e à esperança diante do sofrimento humano.

Durante o século XX, especialmente após a constituição apostólica Bis Saeculari (1948), de Pio XII, que reafirmou a importância das Congregações Marianas na vida da Igreja, a devoção a Lourdes continuou integrada à sua prática espiritual. Congressos marianos, concentrações nacionais e encontros internacionais frequentemente evocavam Lourdes como confirmação histórica da presença ativa de Maria na vida da Igreja moderna.

Assim, a ligação entre as Congregações Marianas e Nossa Senhora de Lourdes não é apenas devocional, mas também histórica e espiritual. A própria Santa Bernadette, Congregada Mariana em Lourdes, personifica essa convergência: a Imaculada confirma o carisma congregado, e a congregada torna-se vidente da Imaculada.

Ao longo dos séculos XIX e XX, os congregados não apenas acolheram a mensagem de Lourdes, mas contribuíram decisivamente para sua difusão, integrando-a à identidade espiritual de uma das mais influentes associações leigas da história da Igreja.





IAR


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