Os Mártires Congregados na Índia



Alexandre Martins, cm.


A história da Congregação Mariana é marcada por homens e mulheres que, movidos por profunda devoção à Santíssima Virgem Maria, levaram a mensagem do Evangelho aos confins da terra. Entre os testemunhos mais eloquentes desta dedicação encontram-se os mártires que derramaram seu sangue em terras da Índia, convertendo suas vidas em oferenda suprema de amor a Cristo e à Sua Mãe Santíssima.

Apresenta-se aqui três figuras luminosas da Congregação Mariana que selaram com o martírio seu compromisso de evangelização na Índia: os Beatos Rodolfo Acquaviva e Pedro Berno, que tombaram juntos em 1583, e São João de Brito, martirizado em 1693. Suas histórias entrelaçam-se com os primórdios da Congregação Mariana e revelam a força espiritual que emanava da devoção mariana vivida intensamente por estes santos missionários.

 

1. Beato Rodolfo Acquaviva: Diretor da Congregação Mariana e Pioneiro Missionário

1.1. Origem e Formação Mariana


Nascido em Atri, Itália, em 1550, Rodolfo Acquaviva pertencia a uma das mais nobres famílias italianas. Aos dezessete anos, ingressou na Companhia de Jesus, atraído pela vida religiosa e pelo ideal missionário que animava a Ordem naqueles tempos de expansão evangelizadora. Durante seus estudos em Roma, no Colégio Germânico, Rodolfo não apenas se destacou pela excelência acadêmica, mas também pela profunda vida espiritual centrada na devoção à Virgem Maria.

Foi precisamente no Colégio Germânico que Rodolfo Acquaviva assumiu o papel de Diretor da Congregação Mariana, uma responsabilidade que moldaria definitivamente sua espiritualidade. Sob sua direção, a Congregação floresceu como escola de santidade, onde jovens estudantes aprendiam a consagrar-se totalmente a Cristo por meio das mãos de Maria. Acquaviva promovia encontros regulares, práticas devocionais marianas e incentivava seus congregados a viverem como autênticos filhos de Maria, prontos para os maiores sacrifícios pelo Reino de Deus.

 

1.2. A Missão na Índia



Em 1578, aos 28 anos, o Pe. Rodolfo partiu para a missão na Índia, levando consigo o ardor mariano cultivado na Congregação. Chegando a Goa, logo se destacou pela capacidade de aprender línguas locais e pelo zelo apostólico. Em 1579, foi convidado pelo imperador mogol Akbar para ir à corte em Fatehpur Sikri, onde poderia expor a fé católica. Durante mais de três anos, Acquaviva e seus companheiros jesuítas trabalharam junto à corte, dialogando sobre a fé cristã e testemunhando a vida evangélica, sempre sob a proteção maternal de Maria.

Apesar das esperanças iniciais, a missão junto ao imperador não produziu as conversões esperadas. Em 1583, Rodolfo retornou a Goa e, pouco depois, foi enviado para Salsete, uma região próxima marcada por tensões religiosas. Ali, estabeleceu uma missão dedicada à conversão dos habitantes locais, cuidando dos cristãos perseguidos e aproximando-se dos não-cristãos com caridade evangélica.

 

1.3. O Martírio: 15 de Julho de 1583



No dia 15 de julho de 1583, a missão foi atacada por um grupo hostil à presença cristã. Rodolfo Acquaviva e quatro companheiros jesuítas foram martirizados brutalmente. Segundo relatos da época, no momento do ataque, Pe. Rodolfo ajoelhou-se, ergueu os olhos ao céu em oração e ofereceu sua vida como sacrifício. Testemunhas relatam que invocou o nome de Jesus e de Maria antes de receber o golpe mortal.

O martírio dos cinco jesuítas, conhecido como os "Mártires de Salsete", tornou-se símbolo da perseverança missionária e da confiança em Maria. A beatificação de Rodolfo Acquaviva e seus companheiros, realizada em 1893 pelo Papa Leão XIII, reconheceu oficialmente a heroicidade de suas virtudes e o testemunho supremo de fé oferecido em terras indianas.

 

2. Beato Pedro Berno: O Congregado do Colégio Romano

2.1. Vida e Vocação



Pedro Berno, sacerdote jesuíta, foi outro membro ilustre da Congregação Mariana, desta vez do Colégio Romano em Roma. Pouco se sabe sobre seus primeiros anos, mas sua formação no Colégio Romano, centro de excelência intelectual e espiritual da Companhia de Jesus, marcou profundamente sua vida sacerdotal. Ali, como congregado mariano, Pedro cultivou a devoção à Virgem Maria, participando ativamente das reuniões da Congregação e crescendo em santidade pessoal.

Sua adesão à espiritualidade mariana transparecia em seu ardor missionário. Como muitos jesuítas de seu tempo, Pedro ansiava por levar o Evangelho às terras longínquas, especialmente àquelas onde Cristo ainda não era conhecido. Esse desejo o levou a pedir insistentemente aos superiores que o enviassem às missões do Oriente.

 

2.2. Missão e Martírio em Salsete



Enviado à Índia, Pe. Pedro Berno juntou-se a outros jesuítas na missão de Salsete. Trabalhando ao lado de Rodolfo Acquaviva, Pedro dedicou-se à evangelização e ao cuidado pastoral dos cristãos locais. Sua presença silenciosa, mas constante, testemunhava a caridade cristã e o amor de Deus pelos mais pobres.

No fatídico 15 de julho de 1583, Pedro Berno estava entre os cinco mártires que ofereceram suas vidas. Junto a Acquaviva e aos demais companheiros, aceitou o martírio como supremo ato de amor a Deus. Segundo registros, os mártires enfrentaram a morte com serenidade sobrenatural, orando até o último momento e perdoando seus algozes.

A beatificação de Pedro Berno juntamente com Rodolfo Acquaviva e os demais companheiros consolidou a memória destes homens santos que, como congregados marianos, viveram e morreram sob o manto de Maria.

 

 

3. São João de Brito: O Mártir Português da Congregação

3.1. Juventude e Formação Mariana em Lisboa



João de Brito nasceu em 1647, em Lisboa, numa família nobre portuguesa. Desde jovem, mostrou inclinação para a vida espiritual e profunda devoção à Virgem Maria. Durante seus estudos no Colégio dos Jesuítas em Lisboa, João tornou-se membro ativo da Congregação Mariana, onde se distinguia pela piedade, zelo e compromisso com os ideais marianos.

A Congregação Mariana de Lisboa era reconhecida como berço de vocações missionárias. Sob a orientação de diretores espirituais dedicados, João de Brito cresceu na convicção de que sua vida deveria ser inteiramente consagrada a Cristo através de Maria. Aos dezoito anos, ingressou na Companhia de Jesus, desejando seguir os passos de São Francisco Xavier e outros grandes missionários jesuítas que haviam levado o Evangelho ao Oriente.

 

3.2. A Missão no Sul da Índia



Em 1673, após completar sua formação, João de Brito partiu para a Índia. Chegando a Goa, logo seguiu para a Missão de Madurai, no sul da Índia, uma das mais desafiadoras da época devido à forte estrutura social de castas e à complexidade cultural. João adotou o método de inculturação iniciado por Roberto de Nobili, assumindo o estilo de vida de um "sannyasi" (asceta hindu), usando roupas simples, vivendo pobremente e adaptando-se aos costumes locais sem comprometer a essência da fé cristã.

Sua pregação, marcada pela mansidão e clareza doutrinária, conquistou numerosas conversões. João enfrentava longas caminhadas sob o sol escaldante, privações materiais e constantes ameaças de perseguição. Apesar das dificuldades, mantinha intensa vida de oração, consagrando diariamente sua missão a Nossa Senhora. Correspondências do período revelam sua confiança na intercessão materna de Maria.

 

3.3. O Martírio: 4 de Fevereiro de 1693



Em 1686, João foi preso e torturado por pregar a fé cristã, sendo posteriormente libertado por intervenção diplomática. Contudo, sua liberdade seria temporária. Em 1693, enquanto pregava na região de Ramnad, foi novamente preso por ordem de um rajá local que via na conversão de membros de sua família uma ameaça ao poder político e religioso.

No dia 4 de fevereiro de 1693, João de Brito foi executado. Antes de morrer, perdoou seus algozes e rezou pela conversão de seus perseguidores, demonstrando a mansidão evangélica que sempre o caracterizara. Testemunhas relatam que enfrentou a morte com impressionante serenidade, invocando os nomes de Jesus e Maria.

João de Brito foi beatificado em 1853 pelo Papa Pio IX e canonizado em 1947 pelo Papa Pio XII. Sua memória litúrgica, celebrada em 4 de fevereiro, mantém viva a lembrança deste grande missionário e congregado mariano que ofereceu a vida por amor a Cristo e às almas.

 

4. A Espiritualidade Mariana como Fonte de Fortaleza Missionária



Os três mártires aqui apresentados compartilhavam uma profunda espiritualidade mariana cultivada na Congregação Mariana. Esta devoção não era meramente sentimental, mas constituía o eixo de suas vidas espirituais e missionárias. Consagrados a Maria, encontravam nela a força para enfrentar as adversidades da missão, o modelo de fidelidade a Cristo e a intercessora poderosa junto a Deus.

A Congregação Mariana, fundada oficialmente em 1563 pelo jesuíta belga João Leunis no Colégio Romano, espalhara-se rapidamente por toda a Europa e logo alcançou as terras de missão. Nas Congregações essa espiritualidade de consagração preparava os congregados para os maiores sacrifícios, incluindo o martírio.

Rodolfo Acquaviva, Pedro Berno e João de Brito viveram intensamente este ideal. Em suas cartas e testemunhos, deixaram claro que a devoção a Maria não era obstáculo, mas impulso decisivo para a missão. Maria era vista como Rainha dos Apóstolos, que acompanhava os missionários, fortalecia-os nas tribulações e apresentava suas preces e sacrifícios a seu Divino Filho.

 

5. Legado para os Congregados Marianos de Hoje



O testemunho destes mártires continua atual e eloquente para os Congregados marianos contemporâneos. Vivemos em tempos diferentes, mas o chamado à santidade e à evangelização permanece o mesmo. Os mártires da Índia recordam-nos que a fidelidade a Cristo pode exigir sacrifícios radicais e que a consagração a Maria não é mero ornamento devocional, mas compromisso existencial de entrega total ao Reino de Deus.

Hoje, as Congregações Marianas continuam formando leigos comprometidos com a transformação do mundo segundo os valores do Evangelho. O exemplo de Acquaviva, Berno e João de Brito inspira os congregados a viverem com radicalidade sua fé, a consagrarem-se totalmente a Maria e a colocarem-se, como ela, à disposição de Deus para a missão evangelizadora.

O martírio, embora raro em muitas partes do mundo contemporâneo, permanece realidade para cristãos em diversos países. Os Congregados marianos são chamados a solidarizar-se com os cristãos perseguidos, a interceder por eles e a viver com autenticidade sua fé, testemunhando Cristo em meio a uma cultura frequentemente avessa aos valores evangélicos.

 

Testemunhas de Fé e Dedicação Mariana em Terras do Oriente



Os Beatos Rodolfo Acquaviva e Pedro Berno, juntamente com São João de Brito, brilham como estrelas no firmamento da Congregação Mariana. Suas vidas, marcadas pela devoção filial a Maria e pelo zelo apostólico, culminaram no supremo testemunho do martírio. Derramaram seu sangue em terras indianas, fertilizando com sua entrega generosa o solo da evangelização.

Que seu exemplo inspire todos os Congregados marianos a renovarem diariamente sua consagração a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja. Que, a exemplo destes santos mártires, cada congregado possa dizer com São Paulo: "Já não sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim" (Gal 2,20). E que Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, conduza todos os filhos da Congregação pelos caminhos da santidade e do serviço generoso ao Reino de seu Filho.



Oração aos Mártires da Índia


Ó Deus, que concedeste aos Beatos Rodolfo Acquaviva e Pedro Berno, e a São João de Brito, a graça de testemunharem vossa glória até o derramamento do sangue, concedei-nos, por sua intercessão e pelo auxílio de Maria Santíssima, a coragem de sermos fiéis testemunhas de Cristo em nossa vida cotidiana. Que seu exemplo nos inspire a vivermos nossa consagração mariana com generosidade e alegria, colocando-nos sempre ao serviço da evangelização e da construção do vosso Reino. Por Cristo nosso Senhor. Amém.


IAR

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