
Alexandre Martins, cm.
Paulo Miki nasceu por volta de 1564 em Tounucumada, província de Chikuzen (atual região de Fukuoka), numa família de samurais de considerável posição social. Seu pai havia se convertido ao cristianismo através da pregação de São Francisco Xavier e dos primeiros missionários jesuítas que chegaram ao Japão em 1549. Toda a família abraçou a fé católica, ambiente que proporcionou a Paulo formação cristã sólida desde a infância.
Formação no Colégio Jesuíta e a Congregação Mariana
Ainda jovem, Paulo ingressou no seminário jesuíta em Azuchi (Anziquiama), centro educacional e espiritual estabelecido pelos jesuítas no Japão. Ali recebeu formação humanística e teológica de alto nível, estudando latim, filosofia, teologia e retórica. Mas mais importante que a formação intelectual foi a formação espiritual que recebeu como membro da Congregação Mariana do colégio.
A Congregação Mariana, fundada em Roma em 1563 pelo jesuíta belga João Leunis, espalhara-se rapidamente por todos os colégios jesuítas do mundo, incluindo aqueles nas terras de missão. No Japão, as Congregações Marianas adaptaram-se à cultura local mantendo a essência da espiritualidade mariana: consagração total a Maria, vida de intensa piedade, compromisso apostólico e formação de lideranças católicas.
Paulo Miki destacou-se na Congregação por sua profunda devoção a Nossa Senhora e pelo fervor apostólico. Nas reuniões da Congregação, aprendia a viver como autêntico filho de Maria, consagrando-lhe todas as dimensões de sua vida e permitindo que Ela o moldasse segundo o Coração de Jesus. Esta espiritualidade mariana seria decisiva nos momentos finais de sua vida, quando precisou enfrentar o martírio com coragem sobrenatural.
Vocação Jesuíta e Ministério
Em 1580, com dezesseis anos, Paulo ingressou no noviciado da Companhia de Jesus. Sua formação como jesuíta aprofundou ainda mais a espiritualidade mariana adquirida na Congregação. Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, tinha profunda devoção a Nossa Senhora, e a espiritualidade inaciana sempre enfatizou o papel de Maria na vida espiritual e apostólica.
Durante seus anos de formação e ministério, Paulo Miki tornou-se pregador eloquente e catequista dedicado. Conhecia profundamente tanto a cultura japonesa quanto a fé católica, lhe permitindo comunicar o Evangelho de modo eficaz aos japoneses.
Suas pregações, marcadas pela clareza doutrinária e pelo ardor apostólico, conquistavam numerosas conversões. Muitos testemunhos da época atestam que Paulo era um dos missionários mais eficazes no Japão, capaz de dialogar tanto com os samurais quanto com pessoas simples.
O Contexto da Perseguição e Virada Política sob Hideyoshi
Durante décadas, o cristianismo floresceu no Japão sob a proteção de vários dáimios cristãos e com a tolerância inicial do poder central. Porém, em 1587, o regente Toyotomi Hideyoshi,1 que unificava o Japão, promulgou Edito expulsando os missionários cristãos. Inicialmente, o decreto não foi rigorosamente aplicado, mas sinalizava mudança de atitude em relação ao cristianismo.
As Prisões de Dezembro de 1596
Em dezembro de 1596, Hideyoshi ordenou a prisão de franciscanos que pregavam publicamente em Osaka e Kyoto, desafiando o Edito de expulsão.
Inicialmente, seis franciscanos (três espanhóis e três japoneses) foram presos, junto com vários cristãos leigos que os assistiam. Posteriormente, três jesuítas japoneses — Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai — foram também aprisionados, embora não estivessem diretamente envolvidos na pregação pública que provocara a ira do regente.
A Via Sacra de Kyoto a Nagasaki
Em 3 de janeiro de 1597, os vinte e seis condenados iniciaram marcha forçada de Kyoto a Nagasaki, percorrendo aproximadamente 800 quilômetros a pé, em pleno inverno japonês. Este trajeto durou quase um mês e constituiu verdadeira Via Sacra oriental. Ao longo do caminho, os mártires foram expostos ao escárnio público em várias cidades, tendo parte de suas orelhas cortadas como marca de criminosos.
Porém, contrariamente à intenção de humilhá-los e amedrontar outros cristãos, a marcha dos mártires tornou-se triunfal testemunho de fé. Os condenados cantavam hinos, rezavam o rosário em voz alta, pregavam Cristo abertamente e demonstravam alegria sobrenatural que surpreendeu e edificou multidões ao longo do percurso. Paulo Miki, em particular, aproveitava cada parada para pregar, convertendo pessoas mesmo enquanto caminhava para a morte.
Relatos da época descrevem que cristãos de várias localidades vinham ao encontro dos mártires para venerá-los, pedir bênçãos e recolher qualquer objeto ou gota de sangue como relíquias. Os guardas, comovidos pela serenidade e caridade dos prisioneiros, relaxaram a vigilância e permitiram que cristãos se aproximassem. Alguns guardas teriam inclusive se convertido ao cristianismo testemunhando a coragem dos mártires.
A Preparação Espiritual
Durante a longa marcha, os mártires prepararam-se espiritualmente para o momento final. Os três jesuítas — Paulo Miki, João de Goto e Tiago Kisai — confortavam os franciscanos e os leigos, rezavam juntos, confessavam-se mutuamente e celebravam espiritualmente a união com Cristo crucificado. Paulo Miki, formado na espiritualidade mariana da Congregação, invocava constantemente Nossa Senhora, pedindo-lhe fortaleza e confiando-lhe sua alma.
Testemunhos registram que Paulo meditava frequentemente na Paixão de Cristo e na compaixão de Maria ao pé da cruz. A espiritualidade mariana aprendida na Congregação ensinara-lhe que Maria acompanha seus filhos em todas as cruzes, especialmente na hora do martírio. Esta certeza da presença maternal de Nossa Senhora sustentou Paulo durante todo o calvário até Nagasaki.
O Martírio em Nagasaki: 5 de Fevereiro de 1597
Na manhã de 5 de fevereiro de 1597, os vinte e seis mártires chegaram à colina de Nishizaka, em Nagasaki, onde vinte e seis cruzes já estavam preparadas. Diferentemente da crucifixão romana, onde os condenados eram pregados nas mãos e pés, a crucifixão japonesa amarrava as vítimas às cruzes com cordas e utilizava um anel de ferro no pescoço. Adicionalmente, duas lanças cruzadas eram posicionadas para transpassar o tórax quando a cruz fosse erguida.
Os mártires foram levados cada um à sua cruz. Paulo Miki foi colocado entre as duas cruzes dos meninos João de Goto e Tiago Kisai, formando um grupo jesuíta no centro do monte. Testemunhas relatam que os mártires cantavam o Salmo 130 (" Em latim, o De profundis") e o Te Deum2 enquanto eram amarrados às cruzes. Não demonstravam medo, mas alegria sobrenatural de dar a vida por Cristo.
O Sermão do Alto da Cruz
Antes das cruzes serem erguidas, Paulo Miki pediu permissão para falar uma última vez. Do alto de sua cruz, pregou com eloquência e coragem que comoveram até os executores e espectadores. Suas palavras foram registradas por testemunhas e constituem um dos mais belos testemunhos martiriais da história da Igreja.
Paulo declarou:
"A única razão pela qual sou morto é ter ensinado a lei de Deus. Dou graças a Deus por este privilégio precioso e não considero a lança que em breve me trespassará como punição, mas como grande favor de Deus. Não me tornei cristão movido por razões humanas ou benefícios terrenos. Minha fé funda-se na lei eterna de Deus revelada por Cristo. Por isso declaro diante de vós todos que não há outro caminho de salvação senão o caminho cristão".
"Como o Senhor morreu na cruz em Jerusalém pelos pecados do mundo, assim também eu, pela obediência à Companhia de Jesus, morro na cruz em Nagasaki pelos pecados dos homens. Depois de minha morte, rogo que todos vós creiais em Cristo e O sigais como único Salvador da humanidade".
Finalmente, demonstrando a misericórdia cristã aprendida de Maria, Paulo perdoou publicamente o regente Hideyoshi e todos os responsáveis por sua morte, orando por sua conversão. Declarou que não guardava rancor algum e morria feliz por poder oferecer a vida por Cristo e por seus irmãos japoneses.
A Consumação do Martírio
Após os sermões de Paulo Miki e outros mártires, as cruzes foram erguidas simultaneamente. No momento em que as cruzes foram fincadas no solo, quatro executores com lanças transpassaram cada um dos mártires — dois pelo lado esquerdo e dois pelo lado direito, formando um X sobre o tórax. A morte foi quase instantânea para a maioria.
Testemunhas relatam que os mártires enfrentaram a morte com serenidade sobrenatural. Alguns cantavam, outros rezavam em voz alta, vários proclamavam "Jesus!" e "Maria!" no momento final. Paulo Miki manteve os olhos fixos no céu, invocando os Santíssimos Nomes de Jesus e Maria. Seu rosto irradiava paz e alegria, como quem contempla já a glória celestial.
Os corpos foram deixados nas cruzes por vários dias como advertência, mas cristãos conseguiram recolher sangue e pedaços de roupas como relíquias. Posteriormente, os corpos foram secretamente sepultados por católicos devotos. Relatos de milagres através da intercessão dos mártires começaram imediatamente, fortalecendo a fé dos cristãos japoneses que enfrentariam décadas de brutal perseguição.
Beatificação e Canonização
O martírio dos vinte e seis cristãos em Nagasaki causou profunda impressão em todo o mundo católico. Em 1627, apenas trinta anos após sua morte, foram beatificados pelo Papa Urbano VIII — um processo extraordinariamente rápido para época o que demonstra o reconhecimento imediato de seu heroísmo. A canonização ocorreu em 1862, sob o Papa Pio IX, consolidando definitivamente seu lugar no calendário dos santos da Igreja universal.
São Paulo Miki e seus vinte e cinco companheiros são celebrados liturgicamente em 6 de fevereiro (dia seguinte ao martírio). São os protomártires do Japão e da Ásia Oriental, inaugurando uma gloriosa tradição de testemunho cristão que produziria centenas de milhares de mártires durante a perseguição que durou até meados do século XIX.
A Congregação Mariana como Escola de Mártires
São Paulo Miki exemplifica a verdade de que a Congregação Mariana não é mera associação devocional, mas autêntica escola de santidade e heroísmo cristão. Foi na Congregação do Colégio Jesuíta em Azuchi que Paulo aprendeu a consagrar-se totalmente a Maria, a viver em íntima união com Cristo, a cultivar vida sacramental intensa e a abraçar o apostolado com ardor.
Esta formação mariana não foi apenas preparação intelectual ou devocional superficial, mas moldagem profunda do caráter e da alma. Quando chegou a hora do martírio, Paulo não vacilou. A consagração a Maria vivida na Congregação preparara-o para o testemunho supremo. Maria, que estivera ao pé da cruz de Jesus, estava também ao pé da cruz de Paulo, sustentando-o com sua presença maternal.
Para os Congregados marianos de hoje, isto significa que a participação na Congregação deve ser levada com absoluta seriedade. Não se trata de clube social ou grupo de orações superficiais, mas de escola de santidade radical. A consagração a Maria implica disponibilidade total para a vontade de Deus, inclusive para o martírio se necessário. Embora poucos sejam chamados ao martírio cruento, todos enfrentam formas de martírio cotidiano que exigem a mesma coragem e fidelidade.
Conclusão: Nagasaki Continua Falando
Para os Congregados marianos, São Paulo Miki é patrono especial e modelo luminoso. Sua vida demonstra que a consagração a Maria vivida na Congregação não é adorno devocional superficial, mas preparação para o testemunho heroico que o mundo e a Igreja sempre necessitarão. A espiritualidade mariana — amor filial a Nossa Senhora, união íntima com Cristo, vida sacramental intensa, zelo apostólico ardente — é escola que forma santos e mártires.
Hoje, quando a fé cristã enfrenta novos desafios — secularismo agressivo, relativismo moral, perseguições veladas ou abertas em várias partes do mundo — os Congregados marianos são chamados a viver com a mesma radicalidade de Paulo Miki. Talvez não sejamos chamados à cruz física, mas certamente seremos chamados à cruz cotidiana do testemunho cristão coerente numa cultura hostil.
Que São Paulo Miki e seus companheiros mártires intercedam por todos os Congregados marianos. Que Maria, presente ao pé das cruzes de Nagasaki como esteve ao pé da cruz do Calvário, sustente seus filhos em todas as provações. Que o sangue dos mártires continue sendo semente de novos cristãos, e que a Congregação Mariana continue sendo escola de santidade que forma apóstolos corajosos e, quando necessário, mártires alegres dispostos a dar tudo por Cristo e Sua Igreja.
IAR
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1Toyotomi Hideyoshi (1537–1598), foi um daimyo do Período Sengoku que unificou o Japão, sucedendo Oda Nobunaga. Hideyoshi é considerado como o segundo "grande unificador" do Japão, após Oda Nobunaga e antes de Ieyasu Tokugawa. Também um dos maiores tiranos da história.
2Te Deum (Te Deum Laudamus, Latim para "a Vós, ó Deus, louvamos") é um hino com autoria rastreada ao Papa Santo Aniceto, em 160 d.C. O hino é usado principalmente na liturgia católica, como parte do Ofício de Leituras da Liturgia das Horas e outros eventos solenes de ações de graças.
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