Pio IX, o Congregado do Dogma da Imaculada

 


"Ó Maria concebida sem pecado,
rogai por nós que recorremos a Vós"

Jaculatória revelada a Santa Catarina Labouré,
promovida universalmente por Pio IX


Alexandre Martins, cm



Um Congregado Mariano no Trono de Pedro



Na longa história da Igreja Católica, poucos Papas tiveram pontificado tão extenso e marcante quanto Pio IX. Seus 31 anos e 8 meses no trono de Pedro (1846-1878) constituem o mais longo pontificado da história, superado apenas pela tradição que atribui 37 anos a São Pedro. Porém, além dos acontecimentos históricos extraordinários de seu tempo — a perda dos Estados Pontifícios, a unificação italiana, o Concílio Vaticano I — há uma dimensão frequentemente esquecida que ilumina profundamente sua vida e pontificado: Pio IX foi membro da Prima-Primária, a primeira Congregação Mariana do Mundo, estabelecida no Colégio Romano em Roma.

Esta participação na Congregação Mariana não foi detalhe biográfico menor, mas elemento formativo central que moldou sua espiritualidade e orientou decisões fundamentais de seu pontificado, especialmente a definição dogmática da Imaculada Conceição em 1854. Este artigo convida os Congregados marianos contemporâneos a redescobrirem este Papa congregado, reconhecendo nele modelo de como a consagração mariana pode frutificar em santidade heroica e serviço extraordinário à Igreja.



Juventude e Vocação Sacerdotal



Giovanni Maria Mastai-Ferretti nasceu em 13 de maio de 1792, em Senigallia, nos Estados Pontifícios, nono filho do Conde Girolamo Mastai-Ferretti e da Condessa Caterina Solazzi. Família nobre e profundamente católica, os Mastai-Ferretti proporcionaram ao jovem Giovanni ambiente de sólida formação cristã. Desde cedo, o menino demonstrou piedade marcante e especial devoção à Virgem Maria.

Na adolescência, Giovanni sofreu de epilepsia, doença que quase impediu sua ordenação sacerdotal. Os superiores eclesiásticos hesitavam em ordenar alguém com esta condição, mas Giovanni recorreu fervorosamente a Nossa Senhora de Loreto, santuário próximo à sua cidade natal. Após peregrinação à Santa Casa de Loreto e orações intensas à Virgem Maria, foi curado milagrosamente. Este evento marcou profundamente sua espiritualidade mariana e consolidou sua convicção de que Maria o chamava ao sacerdócio sob sua especial proteção.



A Prima-Primária: Berço da Espiritualidade Mariana



Durante seus estudos em Roma, Giovanni ingressou na Prima-Primária, a Congregação Mariana do Colégio Romano (hoje Universidade Gregoriana), fundada em 1563 pelo jesuíta belga João Leunis.

A Prima-Primária ocupava lugar único na rede mundial de Congregações Marianas: era a "mãe" de todas as demais congregações, fonte de onde emanava a espiritualidade mariana que se espalharia por todo o mundo católico através dos colégios jesuítas.

Na Prima-Primária, Giovanni aprofundou extraordinariamente sua consagração a Maria. As reuniões regulares, práticas devocionais, conferências espirituais e exercícios de piedade da Congregação formaram em Giovanni autêntica alma mariana que jamais o abandonaria.

A espiritualidade da Prima-Primária enfatizava alguns pontos essenciais: consagração pessoal e total a Maria; imitação das virtudes de Nossa Senhora; promoção da devoção mariana; compromisso apostólico sob a proteção de Maria Assunta; e união fraterna entre os congregados. Todos estes elementos marcariam profundamente o futuro Papa Pio IX.



Ordenação e Primeiros Ministérios


Giovanni foi ordenado sacerdote em 10 de abril de 1819, aos 26 anos. Seus primeiros anos de ministério foram marcados por dedicação aos pobres, doentes e marginalizados. Trabalhou em hospitais, orfanatos e instituições de caridade, sempre demonstrando ternura especial pelos mais necessitados — característica que manteria durante todo o pontificado.

Em 1823, integrou missão diplomática papal ao Chile, onde permaneceu por dois anos. Esta experiência missionária ampliou seus horizontes e confirmou sua vocação de servir à Igreja universal.

De volta à Itália, foi nomeado Arcebispo de Spoleto em 1827 e posteriormente Arcebispo de Imola em 1832. Em ambas as dioceses, destacou-se pela proximidade ao povo, reformas pastorais e profunda piedade mariana. Promovia intensamente as Congregações Marianas em suas dioceses, reconhecendo nelas instrumento privilegiado de formação cristã e santificação dos leigos.

 

O Conclave de 1846


Após a morte do Papa Gregório XVI em junho de 1846, reuniu-se o conclave que elegeria como seu sucessor o então Cardeal de Imola. Era considerado candidato moderado e reformista, numa época em que os Estados Pontifícios enfrentavam pressões políticas intensas por modernização e liberalização.

Em 16 de junho de 1846, aos 54 anos, Giovanni Maria Mastai-Ferretti foi eleito Papa no quarto escrutínio, escolhendo o nome Pio IX em honra a Pio VII, que o ordenara sacerdote. Era o Papa mais jovem eleito em mais de dois séculos e iniciaria o mais longo pontificado da história documentada da Igreja.

 

A Definição da Imaculada Conceição: Ápice Mariano do Pontificado

 

 Restaurado em Roma em 1850 por intervenção francesa, Pio IX dedicou-se a preparar cuidadosamente a definição dogmática da Imaculada Conceição de Maria. Esta verdade — de que Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção — era crida pela maioria dos católicos e defendida teologicamente há séculos, mas nunca fora solenemente definida como dogma de fé.

Entre 1849 e 1854, Pio IX consultou extensivamente bispos de todo o mundo, teólogos e estudiosos sobre a oportunidade e fundamentos da definição. A resposta foi esmagadoramente favorável: de cerca de 600 bispos consultados, aproximadamente 546 manifestaram apoio entusiástico, 56 expressaram reservas menores e apenas 4 opuseram-se. Esta unanimidade moral do episcopado confirmou Pio IX na convicção de que o Espírito Santo guiava a Igreja a proclamar solenemente esta verdade mariana.


O Dia Memorável: 8 de Dezembro de 1854

 

Em 8 de dezembro de 1854, na Basílica de São Pedro em Roma, diante de mais de 200 bispos e 54 cardeais, Pio IX promulgou solenemente a Bula Ineffabilis Deus, definindo como dogma de fé a Imaculada Conceição de Maria. A proclamação foi momento de extraordinária solenidade e emoção. Relatos da época descrevem que Pio IX, ao pronunciar as palavras definidoras, estava visivelmente comovido, com lágrimas nos olhos, consciente da magnitude do momento histórico.

As palavras centrais da definição proclamavam:

"A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha do pecado original, é revelada por Deus e, portanto, deve ser firme e constantemente crida por todos os fiéis".


Esta definição não foi ato arbitrário de poder papal, mas reconhecimento solene de verdade sempre crida pela Igreja, agora clarificada definitivamente pelo Magistério infalível. Para Pio IX, congregado mariano formado na Prima-Primária, foi coroação de toda uma vida de amor filial a Maria. Oferecia à sua Mãe celeste o tributo mais precioso que podia dar: o reconhecimento solene, pela Igreja universal, de sua singular santidade e privilégio único.


Confirmação Sobrenatural em Lourdes

 

Apenas quatro anos após a definição, em 1858, Nossa Senhora apareceu a Bernadette Soubirous em Lourdes, França, identificando-se com as palavras: "Eu sou a Imaculada Conceição". Esta confirmação sobrenatural da definição dogmática comoveu profundamente Pio IX, que interpretou as aparições como sinal celeste de aprovação divina ao dogma proclamado.

Pio IX acompanhou com interesse os acontecimentos de Lourdes, autorizou investigações eclesiásticas e, embora a aprovação formal das aparições tenha ocorrido em nível diocesano, deu claro apoio papal à devoção à Imaculada Conceição de Lourdes. As curas milagrosas reportadas e as conversões extraordinárias resultantes das aparições fortaleceram a fé do Papa congregado na proteção maternal de Maria sobre a Igreja e sobre seu pontificado.


Os Últimos Momentos

Pio IX faleceu em 7 de fevereiro de 1878, aos 85 anos, após 31 anos e 8 meses de pontificado. Seus últimos dias foram marcados por sofrimento físico crescente, mas também por paz espiritual profunda. Recebeu todos os sacramentos com grande devoção, abençoou pela última vez os fiéis reunidos na Praça São Pedro, e entregou sua alma a Deus invocando os nomes de Jesus e Maria.

Testemunhas relatam que suas últimas palavras audíveis foram "Maria, Mater Gratiae" (Maria, Mãe da Graça). O Papa congregado morria como vivera: confiando totalmente em Maria, sua Mãe celestial. Seu corpo foi inicialmente sepultado na Basílica de São Pedro, mas posteriormente trasladado para a Basílica de São Lourenço Fora dos Muros, conforme seu desejo de ser sepultado entre o povo de Roma que tanto amara.



Processo de Beatificação

Durante décadas após sua morte, a memória de Pio IX permaneceu controversa devido às questões políticas de seu pontificado. Porém, gradualmente, reconheceu-se que sua santidade pessoal transcendia as controvérsias históricas. O processo de beatificação foi aberto em 1907, interrompido várias vezes, e retomado em diferentes momentos ao longo do século XX.

Finalmente, em 3 de setembro de 2000, na celebração do Grande Jubileu do Ano 2000, o Papa João Paulo II beatificou Pio IX juntamente com João XXIII. A beatificação de dois Papas tão diferentes em estilos e épocas simbolizava a riqueza e variedade da santidade na Igreja. Pio IX foi reconhecido não apesar de suas posições políticas, mas pela heroicidade de suas virtudes cristãas, especialmente sua profunda fé, esperança, caridade e devoção mariana.


Mensagem para os Congregados Marianos de Hoje

 

Beato Pio IX exemplifica a verdade de que a Congregação Mariana não é associação devocional superficial, mas autêntica escola de santidade capaz de formar santos — até Papas santos. Sua participação na Prima-Primária não foi acidente biográfico, mas fundamento formativo que moldou toda sua vida e pontificado.

Para os congregados contemporâneos, isto significa valorizar profundamente a participação na Congregação. Não se sabe quais alturas Deus reserva para cada membro — talvez não o papado, mas certamente formas extraordinárias de serviço à Igreja e santidade heroica. A formação recebida na Congregação pode preparar para missões inimagináveis, se vivida com seriedade e generosidade.



Consagração Mariana em Tempos de Tribulação


Pio IX enfrentou tribulações extraordinárias: exílio, perda dos Estados Pontifícios, oposição violenta, incompreensões, sofrimentos físicos e espirituais. Em tudo, encontrou em Maria refúgio seguro e consolação. Sua consagração mariana, cultivada desde jovem na Congregação, sustentou-o nas horas mais sombrias.

Os congregados marianos de hoje enfrentam tribulações diferentes mas igualmente reais: crises de fé, tentações morais, dificuldades familiares, pressões sociais contra valores cristãos, perseguições veladas ou abertas. A consagração a Maria, vivida autenticamente, oferece âncora segura em todas as tempestades.

Como Maria sustentou Pio IX em seu calvário, sustentará cada filho que confia nela.

 



IAC

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