A CM: Laços que Unem a Vida, o Trabalho e a Eternidade

Uma leitura para Congregados Marianos



Alexandre Martins, cm.

I. Uma herança viva



Há algo de profundamente humano na necessidade de pertencer — de fazer parte de uma comunidade que partilha ideais, que ora junta, que caminha na mesma direção. A Congregação Mariana existe precisamente para responder a essa necessidade, mas elevando-a a uma dimensão que vai além do simplesmente humano.

Desde que Jean Leunis, escolástico jesuíta belga, reuniu pela primeira vez seus alunos no Colégio Romano, em 1563, a Congregação Mariana nasceu como resposta a uma percepção pedagógica e espiritual ao mesmo tempo: não basta transmitir conteúdo intelectual. É preciso formar a imaginação, o coração e a vontade. É preciso ajudar o estudante, o jovem, o profissional a situar a própria vida dentro de um horizonte mais amplo — o horizonte de Deus.

Esse impulso original não envelheceu. Ao contrário, em um tempo em que os laços comunitários se fragilizam e a fé tende a ser relegada ao âmbito do meramente privado, a proposta da Congregação Mariana ressurge com urgência renovada.



II. O Congregado no mundo profissional: mais do que um bom funcionário



Uma das contribuições mais ricas do texto de Collins, SJ1 é a descrição do "homem do Boston College" — ideal de formação que a Congregação Mariana procurava encarnar. Não se tratava apenas de um estudante aplicado ou de um futuro profissional competente. Era alguém marcado por "elevados ideais, firme defensor da Igreja e servo fiel da Mãe de Deus" — alguém disposto ao sacrifício pessoal e ao serviço.

Essa visão tem implicações diretas para o Congregado inserido no mundo profissional. Em qualquer ambiente de trabalho — seja o escritório, a escola, o hospital, a empresa, o tribunal ou a sala de aula —, o Congregado é chamado a ser mais do que eficiente. Ele é chamado a ser um agente de transformação, portador de uma cultura autenticamente humana e cristã.

Isso significa, concretamente:

Integridade no trabalho. O exame de consciência proposto pela tradição congregacional não se limitava à vida sacramental. Abrangia todas as dimensões da existência, incluindo as relações profissionais, o uso do tempo, a honestidade nas decisões, o trato com subordinados e superiores. A pergunta que o Congregado aprende a fazer é sempre a mesma: Estou vivendo coerentemente com o fim para o qual fui criado?

Solidariedade com os colegas. Um dos eixos centrais da Congregação é o que Collins chama de solidariedade horizontal — o cuidado mútuo entre os membros da comunidade terrena. No ambiente profissional, isso se traduz em atenção genuína ao colega sobrecarregado, na recusa à competição destrutiva, na disposição de ser sinal de esperança em ambientes muitas vezes marcados pelo individualismo.

Serviço ao bem comum. O Pe. Dan Lord, que escreveu mais de 220 folhetos de formação distribuídos a dezenas de milhares de congregados nos Estados Unidos, dedicou especial atenção aos "problemas sociais da época". A Congregação nunca foi uma associação piedosa fechada sobre si mesma. Ela sempre projetou seus membros para fora — para a transformação da sociedade à luz do Evangelho.



III. A solidariedade vertical: o segredo da força do Congregado



Há uma dimensão da vida congregacional que a distingue radicalmente de qualquer outra associação profissional ou comunitária: a consciência de pertencer a uma comunidade que ultrapassa os limites do tempo e do espaço.

Collins descreve isso com a expressão "solidariedade vertical" — os vínculos que unem os membros da comunidade terrena com os da comunidade celeste. Essa dimensão não é ornamental. É estrutural. É o coração da proposta congregacional.

O Congregado não está sozinho em seu trabalho diário. Ele age em companhia de Maria, Mãe e Rainha, a quem se consagrou. Age sob o olhar e com o auxílio do seu Anjo da guarda, dos santos de devoção particular, de todos os que já alcançaram a plenitude para a qual ele caminha. Essa consciência — cultivada diariamente por meio das orações, jaculatórias e atos de consagração próprios da vida congregacional — transforma a percepção que o Congregado tem de seu trabalho cotidiano.

O pequeno ato de honestidade no escritório, a decisão difícil tomada com retidão, a paciência diante da injustiça, o serviço silencioso ao colega em dificuldade — tudo isso ganha uma densidade nova quando vivido em união com o Coração de Cristo e sob o manto de Maria. O Oferecimento da Manhã, prática central da devoção congregacional, é precisamente esse gesto de unir o dia inteiro — com suas alegrias, trabalhos e sofrimentos — ao Coração do Senhor.

O manual de 1885 citado por Collins orienta o Congregado a rezar diante de uma imagem do Sagrado Coração: "Meu amabilíssimo Jesus! Vos entrego o meu coração... e proponho nunca mais pecar." Essa não é uma fórmula devocional vazia. É um ato de reorientação diária de toda a existência — inclusive da existência profissional — em direção a Cristo.

 

Congregados em Escola, EUA



IV. A Congregação para estudantes: onde tudo começa



Se a vida profissional é o campo onde o Congregado semeia o que aprendeu, a escola e a universidade são o terreno onde essa semente é lançada. A importância da Congregação Mariana para estudantes de qualquer nível de ensino não pode ser subestimada.

A experiência da Congregação dos Calouros do Boston College, fundada em 1916, é exemplar. Cinquenta a cem jovens reuniam-se quase semanalmente, das nove às nove e meia da manhã, para algo que ia muito além de uma reunião piedosa. Recebiam, sistematicamente, "não apenas um conjunto de ideais éticos pelos quais lutar, mas também uma estrutura imaginativa por meio da qual compreender a si mesmos e ao mundo, tanto individual quanto coletivamente."

Isso é fundamental. O estudante que ingressa na Congregação Mariana não recebe apenas regras de comportamento. Recebe uma cosmovisão — uma maneira de ver Deus, o mundo, os outros e a si mesmo que ilumina tudo o mais. Aprende a se enxergar como herdeiro de uma tradição de séculos, membro de uma família espiritual que atravessa continentes e gerações.

O moderador jesuíta do Boston College narrava aos estudantes a história de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier — não como curiosidade histórica, mas como espelho e convite. Xavier, que aspirava à fama e às honras eclesiásticas, foi transformado pela amizade com Inácio e pela interpelação do Evangelho: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?" Essa mesma questão ressoa para cada estudante congregado, independentemente do curso, da série ou da instituição.

Para o estudante do ensino médio, a Congregação oferece uma âncora identitária em um período de vida marcado pela busca e pela instabilidade. Para o universitário, propõe um horizonte de sentido que vai além do diploma e da carreira. Para o pós-graduando ou o jovem profissional em formação, oferece a comunidade de amigos na fé sem a qual os ideais mais nobres rapidamente sucumbem à pressão do ambiente.

A observação do Pe. O'Brien na segunda reunião daquele grupo de calouros sintetiza bem esse projeto formativo: a participação na Congregação fortalecia simultaneamente os vínculos da amizade celeste e da amizade terrena. Ao fazer o "pequeno sacrifício de devoção a Maria", o estudante se tornava parte de algo maior — uma corrente de fidelidade que o acompanharia até a hora da morte e além dela.



V. A imaginação religiosa como forma de resistência



Em um tempo de crescente secularização das instituições e de enfraquecimento dos laços comunitários, a Congregação Mariana se apresenta como uma forma de resistência cultural — não no sentido de rejeição do mundo, mas no de recusa a deixar que o mundo defina sozinho os termos da existência.

Collins cita Robert Putnam para apontar o declínio generalizado das instituições intermediárias nas últimas décadas — clubes, associações, grupos de ação social —, com "efeitos devastadores sobre o tecido social". A Congregação Mariana é precisamente uma dessas instituições intermediárias. Ela cria laços. Ela forma pessoas. Ela produz o tipo de cidadão e de profissional que não apenas executa tarefas, mas carrega consigo uma visão de mundo que humaniza os ambientes onde atua.

A devoção popular — os objetos religiosos nos lares, as orações cotidianas, as novenas, as medalhas e os escapulários — não é sinal de ingenuidade ou primitivismo. É, como mostra a estudiosa Colleen McDannell, poderoso instrumento de formação da identidade e de mediação das relações entre o visível e o invisível. O Congregado que carrega sua medalha de Nossa Senhora no ambiente profissional não faz um gesto superstioso: faz um gesto de memória e de pertença. Lembra a si mesmo, a cada instante, quem é e a quem pertence.



VI. Um convite para hoje



A magnitude do movimento congregacional2 no século XX — mais de oito mil congregações paroquiais nos Estados Unidos nos anos 1930, dezenas de milhares de membros ativos por todo o país — não é mera estatística histórica. É prova de que essa proposta tem potência real para mover pessoas, transformar comunidades e construir culturas.

O Pe. Dan Lord3, com seus mais de 220 folhetos, suas peças de teatro, suas escolas de verão de ação católica, sabia que a formação da imaginação é trabalho de longo prazo e requer instrumentos variados. O teatro, a música, a dança, a literatura devocional — tudo a serviço de uma única finalidade: ajudar o Congregado a ver com os olhos da fé e agir com a coragem dos santos.

Hoje, o desafio é o mesmo, embora os instrumentos possam ser outros. O Congregado do século XXI, estudante ou profissional, é chamado à mesma aventura espiritual que moveu Xavier e seus companheiros em Paris, que reuniu aqueles calouros em Cambridge numa manhã gelada de fevereiro de 1916, que levou milhares de jovens americanos a oferecer suas vidas ao serviço de Deus e da sociedade.

Maria, Mãe e Rainha, está à frente dessa procissão. E convida cada Congregado — de qualquer escola, de qualquer profissão, de qualquer geração — a ocupar seu lugar nela.



"Ao fazermos agora este pequeno sacrifício de devoção a Maria, quando estivermos deitados em nosso leito de morte, será nosso pensamento mais consolador saber que fomos fiéis Congregados de Nossa Senhora." — Pe. Richard O'Brien, SJ, Boston College, 1916





IA

 

 

1Texto elaborado a partir do artigo "Sodalities of the Blessed Virgin Mary: Forging Ties That Bind Here and Hereafter", de Christopher Collins, SJ, Weston Jesuit School of Theology, Cambridge, MA.

2Em 1934, existiam 1.143 Congregações ligadas a escolas e outras 8.210 vinculadas a paróquias nos Estados Unidos. Em 1957, 205 dessas Congregações pertenciam à categoria mais prestigiosa, diretamente agregada à Prima Primaria de Roma..

3a editora Queen’s Work, de St. Louis, produziu milhares de manuais de oração, guias de exame de consciência, folhetos sobre os problemas sociais da época, materiais para meditação dos tempos litúrgicos, vidas de santos e inúmeras outras publicações. O Pe. Dan Lord, diretor da Queen’s Work, escreveu pessoalmente mais de 220 desses folhetos, alcançando cerca de vinte milhões de exemplares. Escreveu 26 peças morais, 12 representações litúrgicas e 3 musicais completos, utilizando teatro, música e dança como instrumentos para a formação da imaginação religiosa.

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