O Jardim e a Vinha do Senhor

Congregação Mariana de Borja, Espanha, anos 1930

  

Reflexões sobre as Congregações Marianas e os novos caminhos do apostolado laical na Espanha do século XX 

 
Alexandre Martins, cm.


Há algo de profundamente belo — e de misteriosamente providencial — no modo como o Espírito conduz a Igreja através da história. Não a golpes de novidade absoluta, mas por aquela lenta fecundidade que é própria da vida: como a seiva que, subindo invisível pelas raízes de uma antiga árvore, vem um dia irromper em flores onde antes havia apenas casca e silêncio. As Congregações Marianas conheceram bem esse ritmo.

Nascidas do coração de João Leunis, no Colégio Romano dos jesuítas, em 1563, cresceram durante séculos como escola de vida interior e apostolado laical. Na Espanha do início do século XX, eram dezenas de milhares os jovens1 que, sob o manto de Nossa Senhora, aprendiam a aliar a oração metódica ao compromisso concreto com o mundo — esse mundo que a modernidade ia tornando, a cada dia, mais hostil ao Evangelho.

Olhemos hoje para esse passado com a consciência de que somos herdeiros de uma tradição venerável. As Congregações, com sua espiritualidade inaciana, com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, com a direção espiritual frequente e o exame de consciência diário, forjaram uma geração de leigos que souberam ser presença cristã no seio das universidades, das profissões, das cidades em crise. Não foi pouco. Foi, de muitos modos, um prodígio silencioso.

são Josemaria Escrivá, 1966
 

É precisamente nesse solo fértil que a Providência semeou, em outubro de 1928, um grão singular. Josemaría Escrivá de Balaguer2, jovem sacerdote aragonês de vinte e seis anos, recebia naquele dia — enquanto meditava em Madrid — aquilo que descreveria como uma iluminação interior: a certeza de ser chamado a anunciar a todos os homens e mulheres, no coração de suas vidas ordinárias, a chamada universal à santidade. Não a santidade dos claustros, não a perfeição reservada a estados especiais. A santidade do trabalho, do cansaço, da família, da rua. O Opus Dei nasceu assim — como semente lançada no mesmo campo em que as Congregações já cultivavam seus sulcos.

A história que se seguiu — e aqui o honesto relato histórico nos interpela a todos — não foi isenta de tensões.

Na Espanha da pós-guerra, quando o Opus Dei retomava seu apostolado em Madrid e Barcelona, alguns responsáveis das Congregações Marianas viram no novo movimento um rival indesejado que penetrava em seu território: os estudantes universitários mais selecionados, aqueles jovens de alma inquieta que procuravam uma espiritualidade mais exigente.

Os mesmos jovens que as Congregações haviam formado eram agora atraídos para uma proposta diferente. Era compreensível que surgisse algum incômodo — pois as instituições, mesmo as mais santas, carregam em si a tentação de se confundir com o fim que servem.

E, no entanto — eis o paradoxo que a fé nos ensina a contemplar com gratidão —, as Congregações foram, sem o saber e sem o querer, um dos celeiros de onde saíram os primeiros membros da Obra. Muitos dos que deram os primeiros passos ao lado de Escrivá tinham sido formados nas Congregações. Traziam delas o hábito da oração, a experiência da direção espiritual, o amor à Virgem, o gosto pelo apostolado entre os pares.

As Congregações, podemos dizer sem forçar a imagem, foram escola de onde saíram alunos para uma escola nova — e esse fluxo, longe de ser traição, era sinal da continuidade viva do Espírito.

O que diferenciava as duas propostas não era a santidade — ambas a buscavam com ardor —, mas o modo de entendê-la.

As Congregações, com seu método inaciano e sua estrutura associativa, pressupunham uma pertença visível, um distintivo, uma sociabilidade católica reconhecível.

O Opus Dei propunha algo mais radical na sua aparente invisibilidade: que o cristão se santificasse sem nenhum sinal externo que o distinguisse dos demais — sem algum “hábito” de qualquer tipo —, que a graça operasse no interior da vida profissional comum, que a santidade fosse precisamente o oposto do extraordinário. Era uma novidade teológica profunda, e é compreensível que, à época, exigisse tempo para ser assimilada.

Nós, congregados, que hoje continuamos essa tradição nobre e secular, este episódio da história da Igreja oferece um espelho útil. Ele nos lembra que a multiplicidade de carismas não é sinal de alguma confusão divina, mas simde uma riqueza que excede qualquer forma institucional particular. O Jardim do Senhor é vasto; nele podem crescer, lado a lado, a rosa e a oliveira, o trigal e a vinha. O segredo está em que cada planta beba da mesma seiva: o amor a Cristo e à Sua Igreja.

As tensões do passado — devidamente compreendidas e superadas — tornam-se assim lição de catolicidade: a Igreja não é monolítica, e o Espírito que a habita é mais criativo do que qualquer uma das suas instituições.

Que Nossa Senhora, que presidiu ao nascimento das Congregações e que Escrivá invocou como Estrela do apostolado, nos guarde nessa consciência: sois parte de um rio caudaloso que atravessa séculos. O que nos foi dado — a formação na oração, o amor ao apostolado, a fidelidade ao magistério, a devoção à Mãe de Deus — é um tesouro que pertence a toda a Igreja.

Guardai-o com fidelidade. Transmiti-o com generosidade. E, olhando para o passado com gratidão serena, avançai para o futuro com a alegria de quem sabe que, no Jardim do Senhor, não há flor que floresça em vão.



IA

Ad Mariam. 



1 - Cerca de 94.000 Congregados marianos na Espanha

2 - Canonizado por s. João Paulo II

 

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