Congregações Marianas e Opus Dei na Espanha (1928–1945):

 

concorrência, transferência e renovação no apostolado laical católico

 

Alexandre Martins, cm.



RESUMO: Este artigo examina a relação histórica entre as Congregações Marianas (CCMM) da Espanha e o nascente Opus Dei na primeira metade do século XX. Analisa três dimensões dessa relação: (1) a convergência de objetivos apostólicos entre as duas instituições; (2) as tensões e conflitos que eclodiram especialmente entre 1939 e 1942, na Espanha do pós-guerra; (3) o paradoxo histórico pelo qual as próprias Congregações funcionaram como escola de formação para os primeiros membros da Obra de Escrivá. O estudo baseia-se em fontes primárias e em bibliografia especializada recente, incluindo documentos dos arquivos jesuíticos espanhóis (AESI-A) e do Arquivo Geral da Prelatura do Opus Dei (AGP).



PALAVRAS-CHAVE: Congregações Marianas; Opus Dei; Josemaría Escrivá; apostolado laical; Companhia de Jesus; catolicismo espanhol; pós-guerra espanhola.



1. Introdução: o campo do apostolado laical na Espanha do século XX



Na primeira metade do século XX, a Igreja na Espanha vivia uma tensão estrutural entre formas tradicionais de associação laical e a urgência de novas respostas pastorais à crescente secularização. As Congregações Marianas (CCMM), herdeiras de uma tradição quatrocentenária inaugurada pelo jesuíta Jean Leunis no Colégio Romano em 1563 e confirmada pela bula Omnipotentis Dei de Gregório XIII (1584), ocupavam um lugar de absoluta centralidade nesse panorama. Na Espanha de 1941, estimava-se a existência de 97.000 congregados, distribuídos por centenas de Congregações, particularmente nas grandes cidades universitárias.¹

É nesse contexto de pujança e de fragilidade simultaneamente — as CCMM enfrentavam a concorrência da Ação Católica por um lado e a modernidade laicizante por outro — que emerge, em 2 de outubro de 1928, a figura de Josemaría Escrivá de Balaguer e do movimento que fundaria: o Opus Dei. Compreender a relação entre as duas instituições é iluminar um capítulo fundamental da história do catolicismo espanhol e, mais amplamente, da renovação eclesiológica que conduziria ao Concílio Vaticano II.



2. As Congregações Marianas no seu apogeu espanhol (1900–1939)



As CCMM espanholas atingiram sua maturidade organizacional no primeiro terço do século XX. Em 1919, surgiu a Confederação Nacional Española de Congregaciones Marianas, que daria coesão nacional ao movimento. A revista Estrella del Mar, fundada no mesmo ano, tornou-se o órgão oficial da Confederação, sobrevivendo à Guerra Civil e retomando sua publicação em 1941 na sua Terceira Época.²

A espiritualidade das CCMM assentava em cinco práticas fundamentais: a oração diária, o exame de consciência, a frequência aos sacramentos, a direção espiritual e os exercícios espirituais segundo o método inaciano. Eram, portanto, estruturalmente orientadas para a formação de leigos comprometidos — o que as tornava as principais fornecedoras de quadros para outros movimentos apostólicos. O próprio primeiro presidente da Juventude Católica Espanhola, seu secretário-geral e a maioria dos membros do Conselho provincial saíram das fileiras das CCMM.³

Mas havia também uma dimensão de seleção social e intelectual que importa sublinhar. As Congregações universitárias — como a famosa Congregação dos Luíses de Madrid, sobre a qual Carlos López Pego realizou estudo monográfico em 1999 — não eram abertas a qualquer estudante, mas apenas aos mais selecionados, àqueles que aspiravam, nas palavras da primeira Regra das Congregações, a ser "cristãos de verdade" que buscassem sinceramente a própria santificação.⁴ Esse nicho de formação de elites católicas seria precisamente o ponto de convergência — e de competição — com o Opus Dei.



3. O nascimento do Opus Dei e seu primeiro contexto apostólico (1928–1939)



A fundação do Opus Dei em 1928 insere-se no mesmo horizonte pastoral das CCMM: a urgência de formar leigos comprometidos em meio ao avanço da secularização. Mas a proposta de Escrivá era teologicamente mais radical: a santificação não como adição à vida ordinária (o que pressupunha ainda uma distinção entre o âmbito sagrado e o profano), mas como santificação da vida ordinária em si mesma — do trabalho profissional, das relações familiares, das tarefas cotidianas. Esta distinção, que pareceria sutil, tinha implicações enormes para a eclesiologia e para a prática pastoral.

Nos anos 1930, a atividade apostólica do Opus Dei limitou-se essencialmente a Madrid, através da Academia e Residência DYA na calle Ferraz. A Guerra Civil (1936–1939) interrompeu esse desenvolvimento. Quando Escrivá regressou a Madrid em março de 1939, após a rendição republicana, encontrou o edifício da calle Ferraz reduzido a escombros. Reinstalou-se na calle Jenner, onde abriu nova residência universitária. Era o início de uma expansão que em pouco tempo alcançaria Valencia, Valladolid, Barcelona e outras cidades com vida universitária.



4. O conflito aberto: as CCMM e o Opus Dei em Madrid e Barcelona (1939–1942)



O conflito entre as CCMM e o Opus Dei constitui um dos episódios mais documentados — e mais interpretados com distorção por ambos os lados — da história do catolicismo espanhol do século XX. A historiografia recente, beneficiada pelo acesso a documentação primária inédita tanto do Arquivo da Província de España da Companhia de Jesus (AESI-A) quanto do Arquivo Geral da Prelatura (AGP), permite hoje uma reconstituição mais equilibrada dos fatos.

Em Madrid, a escalada teve início na primavera de 1940. Circulavam entre os estudantes universitários rumores de que o oratório da residência da calle Jenner estava decorado com "signos maçônicos e cabalísticos", que as hóstias usadas eram perfumadas, que havia cruzes sem crucificado e que reinava um ambiente estranho. Escrivá, que inicialmente subestimou as críticas, descobriu que sua origem estava na Congregação Mariana de Madrid, cujo diretor, o padre jesuíta Ángel Carrillo de Albornoz, então à frente da Confederação Española de Congregaciones Marianas, propagava entre os jovens congregados que o Opus Dei era "uma sociedade secreta, herética e de cunho maçônico".⁵

Escrivá reagiu com a discrição que lhe era característica. Procurou Carrillo pessoalmente e propôs um pacto de mútua informação sobre quaisquer críticas que chegassem ao conhecimento de um sobre o outro. Carrillo acedeu verbalmente, mas não cumpriu o compromisso. As calúnias prosseguiram. Em abril de 1940, Escrivá escreveu ao bispo de Madrid, Leopoldo Eijo y Garay, reconhecendo ter detectado as "habladurías" já havia meses.⁶ Em maio de 1941, numa extensa carta ao mesmo bispo, Escrivá concluiu que tudo se reduzia ao temor de que religiosos perdessem vocações.⁷

Em Barcelona, o padrão repetiu-se com diferenças locais. O padre jesuíta Manuel María Vergés, diretor das influentes Congregações Marianas da cidade, introduziu citações de Camino — o principal escrito espiritual de Escrivá, publicado em 1939 — na pregação da Novena à Imaculada de 1940, extraindo dessas citações a conclusão de que as doutrinas que continham eram heréticas. Em meados de janeiro de 1941, Vergés pregou uma homilia em que criticava explicitamente essa "nova espiritualidade" que "permite mentir a seus membros" e que pretendia levar à convicção de que almas entregues a Deus podiam perseverar "sem nenhum distintivo, com terno e gravata, livres para ir onde lhes aprouver".⁸

A observação de Vergés é particularmente iluminadora: ele identificava corretamente a novidade do Opus Dei — a ausência de distintivos externos — mas interpretava-a como perigo, quando era justamente a sua proposta teológica central. O horizonte de Vergés era ainda o de uma cristandade em que o comprometimento cristão implicava pertença associativa visível; o de Escrivá era o de uma Igreja que penetra o mundo pela santidade invisível de seus membros no seio das estruturas seculares.

As consequências institucionais foram graves. Em 1941, uma denúncia foi apresentada ao Tribunal de Repressão da Maçonaria, acusando Escrivá e o Opus Dei de serem maçônicos. Em 1942, membros da Falange Española acusaram-no de ser antifalangista. O fundador do Opus Dei acumulava assim, no início dos anos quarenta, as acusações de herege, maçom e traidor da pátria — numa Espanha franquista em que essas acusações tinham peso real.



5. O paradoxo histórico: as CCMM como berço involuntário do Opus Dei



A análise histórica revela, porém, uma dimensão que a narrativa do conflito tende a obscurecer: as Congregações Marianas funcionaram, na prática, como ambiente de formação para muitos dos primeiros membros do Opus Dei. O historiador Onésimo Díaz Hernández, nos volumes Posguerra (2018) e Expansión (2020) — estudos prosopográficos sobre os membros do Opus Dei entre 1939 e 1945 —, documenta que vários dos primeiros membros da Obra tinham antes pertencido a CCMM.⁹

O caso mais ilustrativo envolve Salvatore Canals. O futuro membro numerário do Opus Dei foi abordado por José María Ponz precisamente na Congregação dos Luíses de Madrid, onde Canals se encontrava. Num passeio que terminou na residência da calle Jenner, Ponz explicou-lhe em que consistia a vocação ao Opus Dei. Canals conheceu Escrivá e decidiu "transplantar" sua vocação da Companhia de Jesus para a Obra.¹⁰

Este caso não era isolado. Em Barcelona, conforme documenta a investigação de Francisco J. Carmona Fernández, os primeiros membros do Opus Dei saíram precisamente dos estudantes mais selecionados dos jesuítas, organizados nas Congregações Marianas do Colégio de São Inácio.¹¹ O futuro ministro e comissário do Plano de Desenvolvimento Económico espanhol, López Rodó, relata nas suas Memórias como entrou em contato com o Opus Dei a partir desse ambiente.¹²

Ora, essa transferência de membros é compreensível à luz da análise estrutural. Tanto as CCMM quanto o Opus Dei buscavam jovens com espírito de apostolado, disposição para a vida interior intensa e ambições de santidade. As Congregações os formavam; o Opus Dei os convidava para uma proposta mais radical na sua integração com o mundo secular. A fricção era, em parte, a fricção natural entre um modelo consolidado e um modelo emergente que reivindicava o mesmo público.



6. O debate eclesiológico subjacente



Por baixo das tensões institucionais e dos conflitos de jurisdição, havia um debate teológico autêntico que a historiografia não deve obscurecer. Na Espanha dos anos quarenta, debatia-se intensamente a relação entre a Ação Católica, as CCMM, as associações laicais e a hierarquia eclesiástica. A ameaça que a Ação Católica representava para as CCMM — ao pretender coordenar e subordinar a si todas as associações laicais — era um pano de fundo permanente nas discussões internas dos jesuítas.¹³

O Congresso de Diretores das Congregações Marianas, realizado em Chamartín de la Rosa em julho de 1940 — poucos meses após os primeiros conflitos com o Opus Dei —, foi em grande medida uma resposta ao duplo desafio da Ação Católica e dos novos movimentos. O próprio General da Companhia de Jesus, Wladimir Ledóchowski, a quem o Provincial de Toledo escreveu em 1939 comunicando os primeiros conflitos com o Opus Dei, estava atento à situação.¹⁴

O Opus Dei representava, a olhos jesuíticos, um duplo perigo: por um lado, captava jovens que poderiam ter sido congregados; por outro, propunha uma eclesiologia da santidade laical que punha em causa o modelo de apostolado mediado pelas ordens religiosas. A expressão usada por Vergés — que os membros do Opus Dei se santificavam "sem distintivo, com americana e gravata" — sintetiza bem a estranheza: para os jesuítas formados na tradição das CCMM, a santidade sem pertença associativa visível era quase uma contradição nos termos.

A superação gradual dessa tensão ocorreu por via do amadurecimento eclesiológico, que o Concílio Vaticano II viria a sancionar. O decreto Apostolicam Actuositatem (1965), sobre o apostolado dos leigos, reconheceria explicitamente a pluralidade de formas de apostolado laical, sem hierarquias ou subordinações obrigatórias entre elas. O que em 1940 parecia ameaça, vinte anos depois, seria doutrina conciliar.



7. Epílogo: reconciliação e herança comum



A história não terminou no conflito. No próprio caso de Vergés, o historiador Jorge García Ocón documenta que, meses após os tensos acontecimentos de Barcelona, Vergés perguntou com afeto a Santiago Balcells por seu irmão Alfonso — sinal de que a crise era considerada superada. Anos mais tarde, Vergés compareceu à primeira Missa de um sacerdote catalão do Opus Dei, Jaume Planell, celebrada no colégio La Salle de Barcelona. O gesto foi interpretado por todos como uma manifestação de reconciliação efetiva.¹⁵

O caso Carrillo-Albornoz teve um desfecho mais complexo: saiu do Opus Dei algum tempo depois de abandonar a Companhia de Jesus, tornando-se colaborador do Conselho Mundial das Igrejas e figura do diálogo ecuménico. A sua trajetória ulterior revela que as tensões dos anos quarenta eram também o sinal de uma época em que o catolicismo espanhol buscava, às cegas e não sem fragilidade, formas novas de se relacionar com a modernidade.

O que fica, para o historiador e para o crente, é a consciência de que os carismas na Igreja não se excluem, ainda que possam — e frequentemente devam — gerar fricção ao nascer. As Congregações Marianas deram à Igreja espanhola e universal uma geração de leigos comprometidos. O Opus Dei propôs uma via de santificação que a Igreja viria a reconhecer como profeticamente antecipadora do Concílio. E muitos dos membros desta beberão, antes, das fontes daquela. A história da graça, raramente linear, é sempre mais rica do que qualquer uma das suas instituições.



IA

 

 

 



NOTAS

¹ Jorge García Ocón, "El Secretariado Nacional de las Congregaciones Marianas españolas y su Boletín", Anuario de Historia de la Iglesia, 33 (2024), pp. 371-396; Emilio Villaret, Cuatro siglos de apostolado seglar. Historia de las Congregaciones Marianas (Bilbao: El Mensajero del Corazón de Jesús, 1963).

² Jorge García Ocón, "Estrella del Mar. Revista de las Congregaciones Marianas españolas (1941-1946)", Almenara. Revista Extremeña de Sociología, 15 (2024), pp. 147-159.

³ Jorge García Ocón, "La relación entre las Congregaciones Marianas y Acción Católica en los años 40 desde la perspectiva de la Compañía de Jesús", Estudios Eclesiásticos, 99/389 (2024), pp. 553-592.

Carlos López Pego, La Congregación de «Los Luises» de Madrid. Apuntes para la historia de una Congregación Mariana Universitaria de Madrid (Bilbao: Desclée de Brouwer, 1999); citação das Regras das CCMM em Jorge García Ocón, op. cit., 2021.

Josemaría Escrivá de Balaguer, Apuntes íntimos n.º 1626, 15 de novembro de 1940, cit. em Andrés Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei, vol. II (Madrid: Rialp, 2002); Mercedes Montero, "La formación de un gran relato sobre el Opus Dei", Studia et Documenta: Rivista dell'Istituto Storico San Josemaría Escrivá, 6 (2012), pp. 235-294.

Carta de Josemaría Escrivá a Leopoldo Eijo y Garay, 23 de abril de 1940, AGP, série A-3.4, 256-4.

Carta de Josemaría Escrivá a Leopoldo Eijo y Garay, 31 de maio de 1941, AGP; cit. em Montero, op. cit., p. 262.

Homilia de Manuel María Vergés S.J., meados de janeiro de 1941; resumo em Montero, op. cit., p. 263; cf. também Jorge García Ocón, "La Compañía de Jesús y el Opus Dei en el Madrid de la posguerra (1939-1940)", Hispania Sacra, 77/155 (2025). DOI: 10.3989/hs.2025.1116.

Onésimo Díaz Hernández, Posguerra: La primera expansión del Opus Dei (1939-1940) (Madrid: Rialp, 2018); Id., Expansión: El desarrollo del Opus Dei entre los años 1940 y 1945 (Madrid: Rialp, 2020).

¹⁰ Jorge García Ocón, "La Compañía de Jesús y el Opus Dei en el Madrid de la posguerra (1939-1940)", Hispania Sacra, 77/155 (2025), pp. 11-12.

¹¹ Francisco J. Carmona Fernández, La Compañía de Jesús y el liderazgo católico en la Barcelona de los cuarenta (Granada: Universidad de Granada, 1995).

¹² Apud [Santos y Pillos], "La implantación del Opus Dei en España", em opus-info.org; cf. también Montero, op. cit., p. 248.

¹³ Jorge García Ocón, "El Congreso de Directores de Congregaciones Marianas (Chamartín de la Rosa, julio de 1940)", Aportes. Revista de Historia Contemporánea, 117, XL/1 (2025), pp. 103-132.

¹⁴ «Carta del Provincial de Toledo, P. Goméz-Martinho al MRPG, Wladimiro Ledochowski. Madrid», 1939, AESI-A; cit. em García Ocón, Hispania Sacra, 2025.

¹⁵ Montero, op. cit., p. 281; García Ocón, Hispania Sacra, 2025.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NOTA SOBRE FONTES PERIÓDICAS

A revista italiana 30Giorni nella Chiesa e nel Mondo (publicada entre 1983 e 2012, com arquivo disponível em www.30giorni.it) publicou ao longo dos anos vários dossiês sobre o Opus Dei no contexto do catolicismo espanhol do século XX. Embora o arquivo específico sobre as Congregações Marianas requeira pesquisa direta no sítio da publicação, a revista é fonte de referência para o debate eclesiológico sobre a santificação laical, o papel dos movimentos apostólicos e a recepção do Vaticano II em Espanha e Itália. Para o pesquisador, recomenda-se a consulta direta ao arquivo digital, disponível por autores, temas e anos de publicação.

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