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Maria e os Guaranis


Alexandre Martins, cm (org)


O Paraguai é a terra dos Guaranis onde os Jesuítas fundaram a “República dos Santos” no século XVII.
Durante 150 anos que estiveram os Jesuítas presentes, os índios viveram na dignidade cristã, trabalhando 30 horas semanais, segundo uma organização comunitária e igualitária impensável para a época. Suas inúmeras comemorações festivas davam lugar ao culto sagrado, à música e ao esporte.
Esse cristianismo nascera sob a insígnia de Maria, pois a primeira fundação se referia a “Loretto”, isto é, à santa casa de Nazaré da Galiléia, aonde a tradição afirma que viveu a Sagrada Família.
O dia em uma Missão guarani se iniciava com a oração do Ângelus e findava com a do Rosário. As Congregações Marianas (à época, chamadas Congregação do Rosário e Congregação do Escapulário) se reuniam aos Domingos, após o meio-dia. Nos dias de festa, organizavam-se procissões pelas ruas embelezadas com flores e plumas multicores de pássaros, e seguiam até a igreja, guarnecida de ouro e perfumada com incenso.
Em 1767, os jesuítas foram expulsos de toda a América Latina por conta das maquinações políticas da época. Alguns reis europeus não gostavam da independência que os indígenas tinham nas Américas e visavam o domínio e a ganância dessas terras. Pressionado por calúnias, pela bula Dominus ac Redemptor (21 de julho de 1773), o Papa Clemente XIV suprimiu a Companhia de Jesus.
Todos os sacerdotes deixaram as Missões. Uma parte dos Guaranis foi escravizada e parte dispersou-se pela floresta, mas levava consigo as imagens de Jesus e de Maria, companheiros do exílio e da agonia.
Os Guaranis somam 65% da população atual do Paraguai, que soube guardar a espiritualidade mariana.

Oração à Virgem das Missões

Ave Maria! Teu servidor te saúda em nome dos anjos e patriarcas, dos profetas, dos mártires, dos confessores, das virgens e dos castos; e eu te saúdo por todos os Santos gloriosos!
Ave Maria! Trago-te as saudações de todos cristãos, justos e pecadores. Os justos te saúdam porque és digna de ser saudada e porque és, para eles, a esperança de vida eterna; os pecadores, porque pedem o teu perdão e vivem na esperança de que teus olhos misericordiosos se voltarão para teu Filho, para pedir-Lhe que tenha piedade e misericórdia, ao lembrar-se da dolorosa Paixão que sofreu para a salvação dos homens e o perdão de seus pecados e culpas.
Ave Maria! Trago-te as saudações dos Sarracenos, Judeus, Gregos, Mongóis, Tártaros, Búlgaros, dos húngaros da Humgria menor, dos Nestorianos, Russos, Georgianos. Eles te saúdam por mim, pois deles sou o procurador. Na saudação que estou a dirigir-te, cedo-lhes um lugar para que teu Filho se disponha a lembrar-se deles, e para que tu possas obter d´Ele o envio de mensageiros que os encaminhem ao conhecimento e ao amor dedicado a ti e a teu Filho. De tal forma que eles possam obter a salvação e que, neste mundo, saibam e queiram vos servir, saibam vos honrar, com todo ânimo, vontade e poder, a ti e a teu Filho.1



O fascinante rosto de Nossa Senhora de Itati, na Argentina



Em 1615, dois missionários espanhóis, Irmão Alonso de Buenaventura e Irmão Luis de Bolanos, chegaram em Itati, pequena aldeia às margens do rio Paraná, onde fundaram uma Missão. 
 
Levavam consigo uma estátua da Virgem Santa e para ela construíram pequeno oratório, montado com seixos do rio.
Porém, alguns dias depois, o oratório foi saqueado pelos índios e a efígie de Maria desapareceu. Dias mais tarde, duas crianças Guaranis, quando, numa piroga, desciam o rio Paraná, perceberam a estátua, entre as águas, sobre uma pedra do rio. Ela se apresentava bem mais bela do que antes, cingida por radiante luz. Avisaram aos sacerdotes da Missão; toda a aldeia veio, em procissão, acolher a Virgem, milagrosamente reencontrada.
Um santuário verdadeiro foi erigido para Nossa Senhora de Itati e, pouco tempo depois, aconteceu um prodígio, que se repetiu inúmeras vezes, envolvendo a efígie de Nossa Senhora: eram transformações em seu rosto. A primeira ocorreu no Sábado Santo, em 1624.
Padre Gamarra, que oficiava naquele dia, dera o seu testemunho: o rosto da Virgem recebera um esplendor jamais visto até aquele dia, enquanto o Sacerdote entoava a antífona do "Regina Coeli". O Padre chamou os indígenas da aldeia e todos sentiram o mesmo encantamento: esta manifestação se estendeu até a primeira quinta-feira após a Páscoa, ocasião em que a face da imagem retomou o seu estado habitual. As transformações fascinantes do rosto da Virgem de Itati foram presenciadas por, pelo menos, sessenta pessoas, sendo confirmadas por testemunhos e consignadas nos Anais do Santuário.
A Virgem de Itati foi coroada no dia 16 de julho de 1900, por graça obtida do Papa Leão XIII. Em 1910, Nossa Senhora de Itati foi aclamada como a Santa Padroeira da nova diocese criada, a Diocese de Corrientes. Atualmente, um magnífico santuário se ergue em Itati, nesta pobre região, para onde afluem numerosos peregrinos, muitos chegando de longe, a pé, alguns muito pobres, igualmente, mas ligados de forma filial e singela à Mãezinha do Céu. A festa de Nossa Senhora de Itati é celebrada no dia 9 de julho.

Os guaranis são um povo que soube manter a Fé católica pois estavam sempre firmados na sua fé na Mãe do Redentor.

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1- Raymond Lulle, Le Livre d´Ave Maria (O livro da Ave-Maria) Extraído em Marie, julho-agosto de 1953

Regras fundamentais das honras conferidas a Maria



Alexandre Martins, cm.


Jacques Benigne Bossuet nasceu em uma família de magistrados em 1627, em Dijon, França.
Recebeu educação num colégio jesuíta, aonde ingressou nas Congregações Marianas.
Destinado à vida religiosa, recebeu tonsura aos 10 anos, conforme costume da época. Aos quinze foi para Paris estudar teologia no College de Navarre, onde presenciou os motins da Fronde (um levante de amotinados contra o absolutismo real). Em 1652 foi ordenado presbítero e recebeu seu doutorado em Teologia. Seu pai obteve-lhe a indicação para cônego na Mogúncia (Metz) onde ficou popular como orador em controvérsia com os protestantes. Dividiu o tempo entre Metz e Paris até 1659 e a partir de 1660 raramente deixava a capital. Lá, pregou os sermões da Quaresma em dois famosos conventos, dos franciscanos mínimos e dos carmelitas, e em 1662 foi chamado a pregar para o rei Luís XIV.
Ficaram famosas suas orações fúnebres, principalmente nos funerais de Henrietta Maria de France, rainha da Inglaterra e de sua filha Henrietta Anne da Inglaterra, cunhada de Louis XIV; da princesa Anne de Gonzague, do chanceler Michel Le Tellier, e o do grande Condé .
Foi designado bispo de Condom (1669), no sudoeste da França, mas, escolhido para tutor do Delfim - o filho mais velho do rei - renunciou ao bispado e ingressou à Corte, onde teve a oportunidade de aperfeiçoar seus conhecimentos e integrar-se na política. Eleito para a Academia Francesa, foi também nomeado Conselheiro do Rei. Foi designado bispo de Meaux em 1681, deixando a Corte. Manteve amizade com o Delfim e o Rei. Foi um bispo dedicado, pregando e ocupando-se de organizações de caridade, poucas vezes deixando sua diocese. Promoveu uma assembleia geral do Clero francês em 1681, cujo documento final redigiu e na qual ficou definido que o papa era autoridade em matéria religiosa somente.
Se envolveu também em outras questões como o Jansenismo1 e o Quietismo2, esta pregada pelo arcebispo de Cambrai, Francois Fenelon, condenada por Roma em 1699. Contra Fenelon escreveu Instruction sur les etats d'oraison (1697) e Relation sur le quietisme (1698). Também atacou violentamente o teatro francês como “imoral” no seu Maximes et reflexions sur la comedie (1694).
Seu livro “Política tirada das Santas Escrituras” (1708) valeu-lhe a reputação de “teórico do Absolutismo”3 . Nessa obra ele desenvolve a doutrina do Direito Divino segundo a qual qualquer governo formado legalmente expressa a vontade de Deus é sagrado, e qualquer rebelião contra ele é criminosa. Em contrapartida, o Soberano deve governar seus súditos como um pai, à imagem de Deus, sem se deixar afetar pelo poder. Escreveu também “Exposição da Fé Católica”, “História das Variações das Igrejas Protestantes” e “Discurso sobre a História universal”.
Bossuet faleceu em Paris em 12 de abril de 1704. É famosa sua frase:
A Igreja (é uma) cidade edificada para os pobres; é a cidade dos pobres. Os ricos (são) somente tolerados...”

Os extratos a seguir são parte de sua obra La dévotion à la Sainte Vierge (A devoção à Virgem Santíssima):
A regra fundamental das honras que conferimos à Virgem Santíssima e aos espíritos bem-aventurados, é que devemos atribuí-las, inteiramente a Deus e à nossa salvação eterna. Pois, se ela não fosse atribuída a Deus, seria, então, um ato puramente humano, e não um ato religioso; e nós sabemos que os santos, vivendo plenos de Deus e de Sua eterna glória, não recebem cumprimentos puramente humanos.
Assim, toda a nossa devoção à Santíssima Virgem é inútil e supersticiosa, se ela não nos conduzir a Deus, para que possamos possuí-Lo para sempre e usufruir a Herança celeste.
Nós adoramos um só Deus, todo-poderoso, criador e dispensador de todas as coisas, em nome do qual fomos consagrados pelo santo Batismo...
Nós veneramos os santos e a bem-aventurada Virgem Maria, não por meio de um culto de servidão e de sujeição; pois somos submissos somente a Deus, nas regras da religião. "Nós honramos os santos - diz Santo Ambrósio - com veneração de caridade e de sociedade fraternas."
E reverenciamos, neles, os milagres saídos das mãos do Altíssimo, a comunicação de sua graça, a efusão de sua glória, e a santa e gloriosa dependência pela qual os santos permanecem eternamente sujeitos a este primeiro Ser, a quem levaremos todo o nosso culto, como único princípio de todo o nosso bem, e fim único de todos os nossos desejos.
Não sejamos como aqueles que pretendem diminuir a glória de Deus e de Jesus Cristo, quando dedicam altos sentimentos à Virgem Santíssima e aos santos.
Mas eis uma outra regra do Cristianismo, que peço, graveis em vossa memória. O cristão deve imitar todo o seu objeto de veneração: tudo o que é objeto de nosso culto, deve ser modelo para a nossa vida.
Quando celebramos os santos, será que é para aumentar a sua glória? Eles já estão plenos, realizados e felizes; o fato de os celebrarmos nos incita a seguir o seu exemplo. Assim, em proporção ao respeito que temos por eles, e isto, por amor a Deus, nós nos engajamos a imitá-los.
Este é o desígnio da Igreja, nas festas celebradas em honra aos santos, intenção declarada, por meio desta bela oração: "Ó Senhora, dai-nos a graça de imitar aqueles que veneramos..." Eis, então, a tradição e a doutrina constante da Igreja católica, que considera que a parte mais essencial do mérito dos santos é a de saber aproveitar seus bons exemplos.
Se não tentarmos nos adaptar à paciência dos mártires, nós os celebraremos em vão. É necessário que sejamos penitentes e mortificados como os santos confessores, quando celebramos a solenidade dos santos confessores; é necessário que sejamos humildes, pudicos e modestos como as virgens, quando veneramos as virgens, mas principalmente quando veneramos a Virgem das virgens.
Ó filhos de Deus, vós que desejais, em toda felicidade, ser adotados pela Mãe do nosso Salvador, sede fiéis imitadores dela, se quereis estar entre os seus devotos.
Recitai, diariamente, o admirável cântico da Virgem Santíssima, que se inicia com estes termos: "Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador." Ao recitarmos este cântico, estaremos copiando a sua piedade - diz, de forma primorosa, Santo Ambrósio: "Que a alma de Maria esteja em todos nós para glorificarmos o Senhor; que o espírito de Maria esteja em todos nós, para nossa alegria e regozijo em Deus."
Nós admiramos, a cada dia, a sua pureza virginal que a tornou tão maravilhosamente fecunda, que ela concebeu o Verbo de Deus em suas entranhas. "Sabei, diz o mesmo Pai, que toda alma casta e pudica que conserva sua pureza e inocência, concebe a Sabedoria eterna em si, e que está plena de Deus e de sua Graça, assim como Maria." 

 

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1 - heresia que surgiu na França e Bélgica, no século XVII e se desenvolveu no século XVIII. Tem esse nome porque seguia as ideias do Bispo Jansênio. Para o Jansenismo, os homens já nasciam predestinados ao céu ou ao inferno, nada podendo mudar esse destino. Deus então era cruel e injusto, pois que já criava alguns para irem ao inferno. Para o jansenismo, no fundo, o homem não teria livre arbítrio, não teria liberdade: estava destinado a fazer o que lhe acontecia na vida.
2 - heresia do século XVII, criada pelo padre espanhol Miguel de Molinos. Segundo ela, se alcança Deus através da oração contemplativa e da passividade da alma. Assim ficaria reduzida toda responsabilidade moral. Foi condenada pelo Papa Inocêncio XI.
3 - teoria política em que uma pessoa ( um monarca) deve obter um poder absoluto, independente de outro órgão - judicial, legislativo, religioso ou eleitoral. 
 

A Virgem Maria segundo o Islamismo

Alexandre Martins, cm.





O Alcorão1 não é muito explícito sobre a Virgem Mãe de Deus. Entretanto, a tradição muçulmana proclama, com unanimidade, o extraordinário privilégio de Maria e de seu Filho: o fato de ambos terem sido preservados de qualquer contato com Satanás no momento do nascimento.
A versão mais divulgada deste célebre hadîth2:
Todos os filhos recém-nascidos de Adão são tocados por Satã, menos o Filho de Maria e sua Mãe; quando acontece tal contato, a criança dá o seu primeiro grito”.

Maria, mãe de Jesus, é assim referenciada no Corão (Sura 3:42):
Recorda-te de quando os anjos disseram "Ó Maria, é certo que Allah te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade!
Allah manifesta Sua suprema vontade através de infinitas e magníficas formas. Através do milagre da vida, da sofisticação da consciência, da imensidão do espaço, da incomensurabilidade do tempo,...
Dentre as majestosas expressões de Seus atos, Allah criou Adão (as) por Sua vontade, sem pai nem mãe, criou Eva a partir de Adão (as), porém sem mãe e criou Jesus (as) a partir de Maria (as), porém sem pai. Quando Allah deseja criar, Ele manifesta o comando "Seja" e aquilo que é comandado aparece de imediato.

Todos os comentários reproduzem este primeiro hadîth, que está entre as mais sólidas tradições do Islã, visto que está incluído nas duas antologias que usufruem de autoridade máxima: a de Boukhari e a de Mouslime.
Sempre que esse privilégio de Jesus e de Maria recebeu ataques de pensadores muçulmanos sobre a sua existência ou sobre o seu significado, os representantes da ortodoxia islâmica o defenderam vigorosamente.
Referindo-se a Maria, o sentido que os pensadores muçulmanos dão ao privilégio recebido por ela, apenas se referem que “Maria foi preservada de qualquer mácula”:3 diz o Corão:
E (Deus propõe o exemplo para aqueles que creem) de Maria, a filha de Heli, que guardou sua castidade; então sopramos nela Nosso Espírito (ou seja, Gabriel), e ela acreditou nas palavras de seu Senhor e Seus Livros e foi devotadamente obediente.” (66:12)

Al-Alousi resume o ensinamento habitual. Ou seja:
  • Deus purificou Maria de todas as máculas comuns às mulheres (períodos como a menstruação, a sequência do parto etc.); “Maria, filha de Imran, que preservou sua castidade, e nela infundimos nosso Espírito e ela confirmou a verdade das palavras de seu Senhor e de Suas Revelações e se contou entre os servos virtuosos.”4
  • purificou-a, da incredulidade, dando-lhe fé inabalável,
  • preservou-a da indocilidade, concedendo-lhe a virtude inalterável da obediência;
  • livrou-a dos defeitos inerentes à alma e ao caráter dos seres humanos.

E mais - conclui Al-Alousi - o mais correto é tomar a palavra “purificação” no sentido mais vasto e admitir que Deus concedeu a Maria o privilégio de ser pura e isenta de todas as máculas, no sentido próprio e no sentido figurado, as manchas do coração, dos sentimentos e as da carne; deste modo, ela esteve pronta para receber a completa “profusão do Espírito” .
O minimalismo do sobrenatural sobre Maria é compensado pelo esplendor do que é maravilhoso e arrebatador, sob uma forma concreta e, igualmente, extraordinária e cândida. Assim, para Maria, por vontade expressa de Alah (Deus na concepção islâmica), uma espécie de cortina houve entre ela e Satanás no momento do seu nascimento:
Hannah chamou a sua filha de Maria (Mariam, em árabe) e invocou a Deus que a protegesse e à sua criança de Satanás: “E eu a chamei de Maria (Mariam), e a entrego e à sua descendência à Tua proteção, contra o maldito Satanás.” (Sura 3:36) 

 


O Corão apresenta apenas três traços, ligeiramente delineados, sobre esses períodos da vida de Maria: infância e juventude.
Como resposta ao voto e à oração da esposa de Imrâne, Maria foi agraciada por Deus e a escolhida de Deus: “E seu Senhor a acolheu, dando-lhe agradável abrigo e a fez florescer e crescer de forma afável...” (Corão 3/34). O Corão declara que foi Zacarias quem se ocupou dela. (3/37). Enfim, “cada vez que Zacarias entrava no santuário onde Maria se encontrava, descobria nela um manancial de recursos”; e lhe diz: ‘de onde lhe vem isso?’ - E ela responde: ‘Isso me vem de Deus, que provê com fartura o que é necessário ao seu escolhido” (3/36). Unindo-se ao zelo de Zacarias por Maria, existe um outra mensagem do Corão: “E tu não estavas no meio deles quando tiravam a sorte para saber quem cuidaria de Maria?” (3/39) Os relatos reunidos pelos comentaristas sobre esses textos do Corão dividem-se em vários sentidos.
Maria teria sido levada ao Templo logo após o nascimento. Zacarias, seu tio, passou a cuidar dela. Ele foi designado por sorteio; visto que, os outros o contestaram, inicialmente pelo direito que Zacarias requeria, em nome do parentesco com a criança... Zacarias manteve a pequena menina encerrada no santuário - ou em sua casa, ou ainda num oratório pessoal munido de sete portas. Maria não precisou contar com uma ama de leite como as outras crianças, pois ela viveu de alimentos celestes. que deixava Zacarias deveras maravilhado. Conforme o exposto, Maria teve, por privilégio, o uso da razão e da palavra desde a mais tenra idade.
Verificando outros conceitos, encontra-se um relato que supõe que a mãe de Maria tivesse morrido logo após o nascimento da filha. O tio da criança, Zacarias, passou a cuidar dela sem qualquer contestação e sem recorrer a recursos ou sorteio. A criancinha cresceu com o tio. Quando mocinha, foi admitida para “servir” no Templo. Nesta época, viu-se beneficiada pelos prodígios que provocaram a admiração de Zacarias.
O recurso à sorte só aconteceu bem mais tarde, após um tempo de penúria, durante o qual Zacarias, já muito idoso, não tinha mais forças para vencer as dificuldades materiais e assegurar o necessário para a subsistência de Maria. Era imprescindível encontrar alguém que a amparasse. O acaso designou um carpinteiro chamado Jourayj. Um texto antigo declara que Jourayj era um monge (râhib) e igualmente carpinteiro - velha indicação que insinua a pureza dos costumes do novo tutor de Maria e que ninguém foi capaz de notar.
Jourayj exercia sua profissão e provia as necessidades de Maria, abastecendo a casa do pouco que ele conseguia encontrar naqueles tempos difíceis; porém, o pouco que trazia, era milagrosamente aumentado e melhorado, para grande espanto de Zacarias. O prodígio dos alimentos celestes ─ os tais “proventos” que o Corão registra claramente e que, consequentemente, toda a tradição muçulmana proclama com fervor ─ consistia, seja em frutos do Paraíso; seja no fato de que, na casa onde habitava Maria, o tio encontrava os frutos do verão durante o inverno e vice-versa; seja, na multiplicação e na melhoria ou aprimoramento da magra e parca alimentação que o tutor de Maria lhe trazia nos tempos de penúria e escassez.
Não se sabe, de forma precisa, se esse prodígio aconteceu quando Maria era criança ou quando já era moça. Para a maior parte dos exegetas, entretanto, a segunda hipótese parece a mais provável, visto que a resposta de Maria à pergunta de Zacarias “isso vem do Senhor; o Senhor supre com fartura a necessidade do seu escolhido”(3/36), avivara a fé de Zacarias e reanimara nele a esperança de, um dia, receber a graça milagrosa de vir a ter um filho; admite-se que João Batista fosse três meses mais velho que Jesus Cristo.
O Corão5 a anunciação a Maria é assim relatada:
E quando os anjos disseram: Ó Maria, verdadeiramente Allah te anuncia o Seu Verbo, seu nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, honrado neste mundo e no outro, e estará entre os próximos a Allah..Falará aos homens no berço e na maturidade, e estará entre os virtuosos. Ela perguntou: Ó meu Senhor, como poderei ter um filho se nenhum homem jamais me tocou? Ele disse: Assim será, Allah cria o que deseja. Quando decreta algo, Ele apenas diz: "Seja!" e é. Disse-lhe: Como poderei ter um filho, se nenhum homem me tocou e eu não perdi a castidade? Ele disse: Assim será, pois teu Senhor disse: Isto é fácil para Mim, e desejamos fazê-lo um sinal para os homens e uma Misericórdia: Este é um assunto assim decretado.

Alguns estudiosos islâmicos entendem tal nobreza na Virgem Maria que consideram sua alma de natureza profética, uma vez que, em diversas passagens do Corão, há indicações de que o Anjo Gabriel lhe dirigiu a palavra. Isto seria prova suficiente de seu caráter profético, uma vez que o Anjo Gabriel só desce para manifestar-se a profetas.
Dentre as religiões reveladas, os muçulmanos consideram o cristianismo a mais próxima, uma vez que, tal como os cristãos, honram e amamos Jesus e sua abençoada mãe, a Virgem Maria:
E lembra-lhes, Muhammad, de quando os anjos disseram, ‘Ó Maria! Por certo Deus te escolheu e te purificou, e te escolheu sobre todas as outras mulheres dos mundos. Ó Maria! Sê devota a teu Senhor e prostra-te e curva-te com os que se curvam (em oração).” (Sura 3:42-43)



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1- Alcorão ou Corão (em árabe قُرْآن, transl. al-qur’ān, "a recitação") é o livro sagrado do Islã. Os muçulmanos creem que o Alcorão é a palavra literal de Deus (Alá) revelada ao profeta Maomé (Muhammad). A palavra Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar; Alcorão é portanto uma "recitação" ou algo que deve ser recitado. Há duas variantes para o nome do livro usadas comumente: "Corão" e "Alcorão".
2- (árabe) transmissão oral da notícia de um ditado, de um ato, de um fato.
3- J-M. Abd-El-Jadil,in “Maria e o Islã, p. 17, Ed. Beauchesne, 1950
4- Sura 66:12
5- Sura 3:45-48 e Sura 3:45-48


Pedro Jorge Frassati - O Santo Congregado alpinista


Alexandre Martins, cm.




 

Dos vários santos e beatos que as Congregações Marianas deram à Igreja, um que mais se aproxima do jovem atual talvez seja o jovem Pedro Frassati.
Esse jovem italiano típico da primeira metade do século XX ainda é atual para o jovem do século XXI: era descontraído, atlético, piedoso e sincero.
Pedro Jorge Frassati nasceu em Turim na Itália em 6 de Abril de 1901. Fé e caridade, as verdadeiras forças motivadoras de sua existência, o tornaram ativo e diligente nas redondezas onde ele viveu, em sua família e escola, na universidade e na sociedade; elas o transformaram em um jovem alegre e apóstolo entusiasta de Cristo, um seguidor apaixonado de sua mensagem e caridade.
Era filho do bem-sucedido empresário Alfredo Frassati, fundador do jornal “La Stampa”, ainda existente em Turim. Alfredo trabalhou de seu modo até atingir o sucesso, numa época de guerras e dificuldades. Alfredo também era embaixador da Alemanha e tinha grande influência política. Não era um homem muito religioso, e o resultado do seu sucesso conquistou uma boa posição na sociedade.
Em 1902 nasceu Luciana, a única irmã de “Dodo” (apelido familiar de Pedro) e desde a infância eram muito bons amigos. Quando começou a escola, veio parecer que ele, ao contrário da irmã, tinha algumas dificuldades em redação. O curioso é que muitas das suas mensagens vieram a nós em cartas escritas por aqueles que viviam com ele. Quando reprovou um ano, foi mandado para uma escola particular dirigida por padres jesuítas, onde ele pôde completar dois anos escolares em um.
Lá, ingressou na Congregação Mariana do colégio, em um momento de grande alegria para ele. “Era o mais bem-vestido e mais alegre de todos” disse um sacerdote na ocasião “afirmava que estar bem-vestido era uma homenagem à Virgem Maria em momento tão digno”. O aprendizado na Congregação o sustentou para todas suas atividades, tanto sociais quanto espirituais.
Mesmo os estudos não sendo fáceis para ele, decidiu ir para a universidade para estudar Engenharia de Minas, para poder ajudar os mineiros que precisavam de cuidados com suas saúdes, que tinham longas e duras jornadas de trabalho, geralmente mal remunerada, sendo mais uma oportunidade de ajudar os que precisavam de mais ajuda que outros. Isto, é claro, foi uma fonte de desgosto para seu pai, que via e esperava de seu único filho ser seu sucessor na direção do jornal. Com lágrima nos olhos, mas determinado, Pedro Frassati decidiu sacrificar seus planos pessoais para satisfazer seu pai.
O segredo de seu zelo apostólico e sua devoção deve ser buscado na jornada espiritual e ascética em que ele viajava; em oração, em adoração perseverante, mesmo à noite, diante do Santíssimo Sacramento, em sua sede pela Palavra de Deus, buscada em textos bíblicos; na aceitação pacífica das dificuldades da vida e da vida familiar; na castidade vivida como uma disciplina alegre e inflexível; em seu amor diário ao silêncio e no quotidiano da vida.
Certamente, olhando de forma superficial, o estilo de vida de Frassati, estilo de um jovem moderno e cheio de vida, não nos apresenta nada fora do ordinário. Esta, entretanto, é a originalidade de sua virtude que nos convida a refletir a respeito e nos motiva a imitá-lo.
Nele, a fé e os acontecimentos diários são harmoniosamente fundidos, fazendo com que a aderência ao Evangelho seja traduzida em amor e cuidados com os pobres e necessitados num crescer contínuo, até nos últimos dias da doença que o levou à morte, tal como um seu predecessor, o jovem Luiz de Gonzaga, um Congregado como ele, também jovem (faleceu aos 21 anos) e que infectou-se de tifo durante sua caridade com os doentes. 
 

Seu amor pela beleza e as artes, sua paixão por esportes e montanhas, sua atenção aos problemas da sociedade não inibiram seu relacionamento constante com o Absoluto. Não por menos o beato João Paulo II se apressou a beatificá-lo, pois o Papa também Congregado mariano era um desportista e montanhista como Pedro Frassati. Na região dos alpes italianos, Jorge Frassati veio a se apaixonar pela grandeza das montanhas que o rodeava, e encontrou grande prazer em fazer longas caminhadas e em escalar os altos picos, e nesta atividade, ele encontrou o domínio de si mesmo que é necessário para a verdadeira caridade. Sendo amigo por natureza, ele freqüentemente trazia em suas longas excursões muitos amigos, tanto homens quando mulheres, e fundou um grupo que era chamado satiricamente de “Os Sinistros” (“I Tipi Loschi”).
Ele cumpriu sua vocação como leigo cristão em muito envolvimento político e associativo numa sociedade em crescimento, uma sociedade que era indiferente e às vezes até mesmo hostil à Igreja. Enquanto crescia com o tempo e a desordem política que ascendeu na Europa se transformou na Primeira Guerra Mundial, o interesse de Pedro Frassati pelas questões políticas de sua nação cresceu fortemente. Ele registrou-se no PPP (Partido Popolare Italiano – Partido do Povo Italiano) em oposição à visão política de seu pai. Entretanto, seguindo a campanha de Alfredo Frassati, opôs-se ao envolvimento da Itália no conflito armado. Ele não admitia ser um simples observador: muitas fotos o mostram envolvido em reuniões e marchas políticas. Ele defenderia suas opiniões mas principalmente os direitos de todas as pessoas. Quando alguns fascistas dos “Camisas Pretas”1 tentaram apedrejar a casa de seus pais, ele a defendeu com seus próprios punhos e expulsou os intrusos. Quando o presidente estadunidense Wilson propôs a idéia da Liga das Nações, ele foi até a praça com uma bandeira, gritando “Viva, Wilson!”.
Neste espírito, Pedro Jorge obteve sucesso dando novos impulsos a vários movimentos Católicos, aos quais ele se uniu entusiasticamente, mas especialmente à Ação Católica, bem como à Federação de Estudantes Universitários Católicos Italianos, no qual ele encontrou o verdadeiro ginásio de seu treinamento Cristão e os campos corretos de seu apostolado.
A Ação Católica, criada pelo Papa Pio XI, foi a gênese de todas as Pastorais existentes na Igreja atual. Ainda existe na Europa e, no Brasil, o Clero a transformou em um sem-número de iniciativas particulares com nomes variados. Seu mote sempre foi a transformação cristã da Sociedade. O mesmo que as Congregações Marianas, mas sem o compromisso particular destas.
Na Ação Católica ele alegre e orgulhosamente viveu sua vocação Cristã e se esforçou para amar Jesus e vê-Lo em seus irmãos e irmãs que ele encontrava em seu caminho, ou naqueles que ele buscava em seus lares de sofrimento, marginalização e isolamento, para ajudá-los a sentir o calor de sua solidariedade humana e o conforto sobrenatural da fé em Cristo. Sua aptidão natural para liderança, seu entusiasmo e sua sincera preocupação com seus companheiros foram um exemplo e um caminho que eles deveriam seguir e alguns de seus amigos também o ajudaram nos trabalhos de caridade que ele conduziu, sem fanfarra e sempre espontâneo, por ter visto no sofrimento a imagem de Jesus Cristo. É sabido que numa ocasião, no frio do inverno, ele deu seu único casaco a um homem que não tinha um. Ele economizava todo o dinheiro que tinha e, mesmo que tivesse que andar muito, ia à alguma favela de sua cidade, e dava o que ele tinha para aqueles que estavam em maiores necessidades. Tudo isto era feito com seu bom humor natural, porque Pedro nunca entendeu caridade como uma obrigação, mas sempre como uma escolha pura e espontânea feita pelo amor a Deus.
Pedro não pode continuar para dirigir o jornal de seu pai, pois repentinamente ficou muito doente e morreu de poliomielite em aos 4 de julho de 1925, em dor profunda, mas sem se queixar. Uma vida que foi extraordinariamente completa com frutos espirituais, partindo para sua “pátria verdadeira e cantando louvores à Deus”.
Foi apenas após sua morte que seus pais compreenderam a coragem e a generosidade de seu filho, pois o nome de Pedro Jorge Frassati atravessou rapidamente através das comunidades pobres e milhares de pessoas se reuniram no seu funeral para dar seu último adeus para este simples homem que sempre deu uma mão a elas quando mais precisaram e, acima de tudo, as deu também, esperança.
Em 1990, milhares de jovens de todas as partes do mundo se reuniram na Praça de São Pedro para ver a cerimônia de beatificação deste homem exemplar, o qual foi chamado de Homem das Bem-Aventuranças pelo papa João Paulo II:
Ele deixou este mundo muito jovem, mas fez uma marca em todo o nosso século, e não apenas em nosso século. Ele deixou este mundo, mas no poder da Páscoa de seu Batismo, ele pode dizer a todos, especialmente às gerações jovens de hoje e amanhã: ‘Você me verá, porque eu vivo e você viverá’ (Jo14,19).Estas palavras foram ditas por Jesus Cristo quando ele deixou seus Apóstolos antes de passar por sua Paixão. Gosto de pensar nelas como se estivessem se formando nos lábios de nosso próprio novo Abençoado como um convite persuasivo para viver de Cristo e em Cristo. Este convite ainda é válido, é válido hoje também, especialmente para os jovens de hoje, válido para todos. É um convite válido que Pedro Jorge Frassati nos deixou.2



Oração ao Beato Pedro Jorge Frassati – I


Ó Pai, Tu deste ao jovem Pedro Jorge Frassati a jóia de encontrar Cristo e de viver a sua Fé com coerência ao serviço dos pobres e doentes. Pela sua intercessão, concede-nos também a nós sermos como ele puros, santos e de beatitude evangélica e imitar a sua generosidade para difundir na sociedade o Espírito do Evangelho. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.


Oração ao Beato Pedro Jorge Frassati - II

Ó Deus misericordioso, que entre as insídias do mundo, com a vossa graça, vos dignastes conservar o Beato Pedro Jorge Frassati, puro de coração e ardente em caridade, ouvi, nós vos suplicamos, as nossas preces e, se estiver nos vossos desígnios, que ele seja glorificado pela igreja, mostrai a vossa vontade concedendo-nos a graça que vos pedimos ( ... ) por sua intercessão, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, Amém !



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1- A Milícia Voluntária para a Segurança Nacional foi um grupo paramilitar da Itália fascista que posteriormente foi uma organização militar. Devido a cor de seu uniforme, seus membros ficaram conhecidos como camisas negras (em italiano: Camicie nere). Sua atividade está enquadrada a partir do período entre-guerras até o fim da Segunda Guerra Mundial. Os camisas negras foram organizados por Benito Mussolini como uma violenta ferramenta militar do seu movimento político. Os fundadores foram intelectuais nacionalistas, ex-oficiais militares, membros especiais dos Arditi e jovens latifundiários que se opunham aos sindicatos de trabalhadores e camponeses do meio rural. Seus métodos tornaram-se cada vez mais violentos a medida que o poder de Mussolini aumentava e usaram da violência, intimidação e assassinatos contra opositores políticos e sociais. Entre seus componentes, muito heterogêneo, incluíam os criminosos e oportunistas em busca da fortuna fácil.

2- homilia do Papa João Paulo II na ocasião da Beatificação de Pedro Jorge Frassati.


Medalhas e símbolos



O Homem de hoje procura testemunhas
e mesmo escolhe mestres que são testemunhas.
bem-av. João Paulo II1


Com uma arrancada espetacular a atleta de Sérvia-Montenegro deixa para trás a que tinha tido a supremacia da corrida por todo o percurso. Na linha de chegada, sagrada campeã da Corrida de São Silvestre, traça sobre si, com gestos largos, os três sinais da cruz ao estilo oriental. 

Ainda na mesma prova atlética, o jovem paraibano, com simplicidade e sem demonstrar nenhum cansaço, cruza a prova com o mesmo símbolo que o tinha acompanhado toda a corrida: o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo, visível sobre a camisa.

Simples gestos, simples provas de uma religiosidade simples. Fé esta vivida nos momentos marcantes e mesmo os mais simples da vida. 

Somos simples no trato com nossos símbolos? Somos abnegados em demonstrar aquilo que somos interiormente? Ou usamos uma “máscara” para cada ambiente em que visitamos?

Máscaras para o ambiente de trabalho, máscaras para nossos amigos, para nossos colegas, para nossa escola, para a rua aonde moramos, etc. Uma mascara para cada dia, para cada momento, para cada pessoa. No final, qual é nossa verdadeira face? Sabemos qual no meio de tantas outras caras?

Nosso querido Brasil é tristemente conhecido como o local aonde os que tem o grau de doutorado em alguma área de conhecimento – os doutores propriamente ditos – não gostam de serem chamados de “dr. Fulano” ou “dr. Sicrano”. “Chame-me de professor ou de Mário, deixemos de formalidades!", diz alegremente o intelectual. Mas também é o país que os que não são doutores, mas uma “liturgia” do cargo o alcunha, adoram ser chamados assim: os delegados de polícia, advogados, engenheiros de estatais, diretores-administrativos do serviço público, etc. Outros que não tem “anel de doutor” compram uma cópia e o usam até na praia. Certos dentistas colocam nas paredes de seu consultório diplomas e certificados de todos os cursos e palestras que participaram – uma forma de compensar a falta de outros diplomas. 

Essas atitudes vaidosas provocam nos corações sinceros uma certa repulsa a exibirem os justos sinais de suas conquistas pessoais, mesmo se tais conquistas forem apenas fruto da constância em determinada atividade, como o marinheiro que em sua farda usa uma comenda de serviços prestados por tantos anos à Pátria e se sente desconfortável ao demonstrar isso no peito. 

Nós, membros da congregação Mariana, não devemos ser como estes “falsos humildes”. Digo “falso” porque muitos querem que a revelação de tal surpresa – seja a graduação acadêmica, a distinção de algum cargo ou outras – seja realmente impactante e atraia comentários do tipo: “puxa, nem parece que o João é juiz de direito, veja como ele serve o churrasco!”. Falsa humildade que em quantos já percebemos isso, não ?

Abandonemos as máscaras que tantos usam e sejamos simples no demonstrar o que somos. Sou congregado: por que não usar minha medalha naquela liturgia? Quão edificante será para outros. Sou congregada: por que não ter aquele distintivo “de sobra” na bolsa? Aquele momento pede. 

Alguns bons sacerdotes se privam de elogiar publicamente as Congregações Marianas em publico, com o receio de “ofender” católicos que não o são. Mas não estarão se envergonhando dessas cidades de Maria? Pobres homens de Deus... Não sabem que deixam de alentar uma vocação ou mesmo de servir de exemplo a novos movimentos eclesiais? Bem referia a elas, sem nenhum respeito humano (e sem máscaras) o bispo, e também Congregado mariano, são Carlos Borromeu:
quando alguém me pergunta o meio para ser mais católico e santo, digo: ingresse numa Congregação Mariana.”

 

O cônego Manoel Eugênio Moreira, pároco da cidade de São Gonçalo(RJ), sempre atribuía a sua vocação sacerdotal – tanto sua descoberta quanto a manutenção – a ser membro da Congregação Mariana. Isto, dito em muitas de suas homilias, acalentava o coração de muitos jovens congregados e de outros não tão jovens assim. Vocações sacerdotais e religiosas viram naquele exemplo o quanto de bem pode fazer uma associação da Igreja no coração de jovens almas levando-as a cumprir o chamado do Senhor... Um Cônego que usava seu anel e sua batina especial2 sempre que a ocasião pedia. Não usava nenhuma máscara: era autêntico como deve ser um bom Congregado.

Hoje em dia, o Mundo vive imerso na matéria; portanto é preciso que nós lhe façamos conhecer o bem que vamos realizando. Se um homem com as suas orações multiplicar milagres, mas dentro do próprio quarto, ninguém dará por isso. E, no entanto, o Mundo, para sua salvação, precisa ver e tocar essas maravilhas.”3

Portanto, usemos nossos símbolos. Se todas as Congregações Marianas colocassem ao menos uma frase “obra da CM”, em suas atividades, assim como nos produtos vemos um “made in Brazil”, veríamos o quanto de bem que estas quadrisseculares associações fazem à Igreja e ao mundo atual. 

Que a Virgem Senhora, mestra de humildade, nos ensine a realizar a verdadeira humildade, aquela que, como diz o radical da palavra “terra”, em grego, nos coloca no lugar aonde devemos estar: aquele lugar que Deus quer que fiquemos e, a partir dele, possamos fazer no mundo a obra de Maria, que nada mais é que a obra de seu Filho, Jesus.

Alexandre Martins, cm.


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1- citado por D. Estêvão Bettencourt, OSB, homilia em 4/7/1998
2- o anel de um Cônego é semelhante ao episcopal, com pedra vermelha; a batina negra tem frisos vermelhos como a dos bispos e ainda veste roquete branca.
3- s. João Bosco, Vida, págs. 390-391